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Iconicidade e classe de palavras

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Resumo: O presente artigo tem como objetivo investigar a classe de palavras e função dos ideofones do changana, uma língua do grupo bantu 1 , falada na África do Sul, em Moçambique, na Suazilândia e no Zimbabwe. Ideofones são palavras que descrevem
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  Signo. SantaCruzdoSul,v.42,n.75,p.48-58,set./dez.2017 . A matéria publicada nesse periódico é licenciada sob forma de umaLicença Creative Commons  – Atribuição 4.0 Internacionalhttp://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/  Http://online.unisc.br/seer/index.php/signoISSN on-line:1982-2014Doi:10.17058/signo.v42i75.11146 Iconicidade eclasses de palavras:os ideofones na língua changana Iconicity and parts of speech:Changana´s ideophones Heronides Moura Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC Ezra Alberto Chambal Nhampoca Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC Resumo: O presente artigo tem como objetivo investigar a classe de palavras efunção dos ideofones do changana, uma língua do grupo bantu  1 , falada na África doSul, em Moçambique, na Suazilândia e no Zimbabwe. Ideofonessão palavras quedescrevem eventos/ações/cenas com algum detalhe marcante. A análise é baseadana teoria da Gramática de Construções Radical (CROFT, 2000; 2001). A hipótesedefendida neste artigo é a de que, na língua changana, os ideofones constituem umaclasse de palavras específica desta língua, e sua principal função é predicadora,embora cumpra essa função de forma diferente dos verbos, que são os predicadoresprototípicos. Os ideofones são predicadores marcados, tanto no sentido de marcaçãofuncional, quanto no sentido de marcação tipológica. Palavras-chave: Ideofones; Classe de Palavras; Gramática de Construções Radical. Abstract: This paper intends to investigate the part of speech and function ofideophones in Changana, a Bantu language,spoken in South Africa, Mozambique,Swaziland and Zimbabwe. Ideophones are words that describe events/actions/sceneswhich present a noticeable aspect. The analysis is based on Radical ConstructionGrammar (CROFT, 2000; 2001). The hypothesis put forward inthis paper is thatideophones constitute a particular part of speech of Changana, whose function ispredicative, even if ideophones in Changana are not the prototypical predicates. Theverbs are the prototypical predicates in Changana. Ideophones are marked predicates,both in the sense of functional markedness, and in the sense of typologicalmarkedness. Keywords: Ideophones; Parts of Speech; Radical Construction Grammar. 1 Mantivemos a grafia mais tradicional bantu, pois é a mais usada na literatura sobre o assunto . Recebido em27deSetembrode 2017Aceitoem07deDezembrode 2017Autor para contato:heronides@uol.com.br  49Moura, H.; Nhampoca, E. A. C. Signo [ISSN 1982-2014]. Santa Cruz do Sul,v. 42, n. 75,p.48-58,set./dez.2017. http://online.unisc.br/seer/index.php/signo 1Introdução O changana é uma língua bantu  , falada emquatro países na África, incluindo Moçambique, paísno qual foram coletados os dados desta pesquisa.Este artigo aborda osideofones, um conjunto depalavras geralmente pouco conhecidas. Os ideofonesforam definidos pela primeira vez por Doke (1935) 2 ,mas a definição dada por este autor era um tantovaga, e um dos objetivos deste trabalho é, justamente, buscar uma definição mais precisa dessaclasse de palavras.O objetivo principal do trabalho é discutir aclasse de palavras constituída pelos ideofones nalíngua changana, ou seja, analisar se os ideofonessão ou não uma categoria gramatical independentenessa língua e, consequentemente, descrever afunção que nela desempenham. A nossa hipótese éque os ideofones do changana constituem umaclasse gramatical específica e que elesdesempenham a função predicadora, assim como osverbos, embora de uma maneira diferente, comoveremos. A fim de examinar a identidade categorial efunção dos ideofones no changana, recorremos àteoria da Gramática de Construção Radical (CROFT,2000; 2001).Tentaremos mostrar, também, que osideofonesformam uma classe de palavras com baseem uma motivação icônica. Os ideofones são umaclasse marcada, em relação aos verbos, e essaiconicidade da marcação é tanto formal, quantofuncional.Este trabalho foi motivado, inicialmente, peladificuldade de se definir se os ideofones do changanaconstituem ou não uma classe gramatical específica.Este artigo é uma tentativa de responder a estapergunta e está estruturado da seguinte forma. Naseção 2, é apresentado um quadro mais amplo sobreo funcionamento edefinição dos ideofones. Na seção3, discute-se a classe de palavras a que pertencemos ideofones. Para isso, é apresentado o conceito de 2 Doke (1935) definiu ideofonecomo sendo a associação entreum determinado som, cor, estado, dor, intensidade, etc. e aconsequente reação na mente doindivíduo. classe gramatical à luz da Linguística Cognitiva, maisconcretamente na teoria de Croft (2000; 2001).Finalmente, sustentamos que os ideofones dochangana constituem uma classe gramaticalespecífica. Defendemos que os ideofones sãopalavras marcadas, envolvendo tanto a marcaçãotipológica, quanto a marcação funcional. 2.O que são os ideofones? Nesta seção, vamos focar na caracterização edefinição dos ideofones da língua changana. Ochangana (S53, na classificação de GUTHRIE, 1967)é uma língua bantu. De acordo com (SITOE, 1996), ochangana pertence ao grupo Tswa-Ronga (S.50, naclassificação deGuthrie, 1967). Em Moçambique, ochangana é falado nas províncias de Maputo, Gaza,Inhambane e na zona meridional das províncias deManica e Sofala. (SITOE; NGUNGA, 2000). Para estetrabalho, tomamos como referência a variantexidzonga da língua changana,uma vez que os dadosforam recolhidos num local em que esta varianteprevalece.Uma dificuldade básica na caracterização dosideofones é que este tipo de palavras não existe naslínguas indo-europeias (MITI, 2006; LANGA, 2004).Linguistas têm sido desafiados a apresentar umadefinição precisa dessa classe de palavras,relacionadas à descrição de eventos (FERREIRA,2011). Como já vimos, foi Doke (1935) quemprimeiramente apresentou uma tentativa de definiçãodos ideofones. Ngunga (2004, p. 195) afirma que“emestudos anteriores a 1968, Doke (1931, 1935) incluíaesta categoria de palavras no grupo dasonomatopeias”. Portanto, apesar de Doke (1935) terintroduzido o termo ideofone anteriormente, só apartir de 1968 é que se começa a considerá-los comouma categoria gramatical distinta das outras. Aindasobre esta classe gramatical, Langa (2004, p. 59)defende que Doke “nomeou-os de ideofones por seter apercebido que a terminologia que considera cincocategorias lexicais principais a saber: “N(ome),V(erbo), ADJ(ectivo), ADV(érbio) e PREP(osição) nãocobre a semântica que estas palavras transportam”.  Um caso de iconicidade em classes de palavras58 Signo [ISSN 1982-2014]. Santa Cruz do Sul,v. 42, n.75,p.48-58,set./dez.2017. http://online.unisc.br/seer/index.php/signo Os ideofones são comumente definidos comouma representação viva de uma ideia num som(DOKE, 1935; NGUNGA, 2004). No entanto, estadefinição não é muito precisa enão ajuda muito naespecificação da função desse tipo de palavra. SITOE(1996) defende ainda que os ideofones secaracterizam pelo seu alto grau de especificidade. JáBECK (2005) defende que ideofones são expressõessinestésicas que se distinguem, como classe, pormeio de suas propriedades sintáticas, morfológicas efonológicas; da tendência de ter uma função emotivae de estarem associados à fala e a registosdramáticos da fala.Sitoe (2012) considera que os ideofonesfazemparte de uma das principais classes de palavras nochangana. Ribeiro (2010) também alerta para operigo de confundir estes com as onomatopeias. Oautor afirma que os ideofones podem sersemelhantes às onomatopeias no impulso e naemoção, mas diferemdas onomatopeias pelo papelque desempenham na linguagem e na gramática. Aonomatopeia limita-se a imitar sons, enquanto que oideofone, para além da imitação de sons, pode aindaexpressar ações, modos, qualidades, estados,fenômenos da natureza, quietude, silêncio, etc.(RIBEIRO, 2010). Ribeiro (2010, p.129) acrescentaque “é difícil sintetizar e classificar o sentido destaspalavras, tão largo é o seu campo”. Ribeiro chega aafirmar que toda noção verbal, na língua changana,pode ser também expressa porum ideofone. Por estarazão, Ribeiro (2010) considera que os ideofonesconstituem uma classe de palavras semcorrespondente nas gramáticas europeias; estaspalavras já foram, equivocadamente, classificadas deadvérbios, interjeições, onomatopeias, substantivosonomatopaicos, raízes primitivas, etc. (TORREND,(s.d); JUNOD, (s.d) apudRIBEIRO, 2010, p 129).As definições até aqui apresentadas foram econtinuam sendo relevantes para o estudo dosideofones. Contudo, pensamos que elas são muitogerais e não distinguem claramente os ideofones deoutras classes de palavras, em especial os verbos eadvérbios. Assim como os verbos e advérbios, osideofones predicam sobre eventos. Argumentamosque a característica dos ideofones é que eles, aocontrário dos verbos, não caracterizam o evento combase em seus traços fundamentais, mas focam emelementos periféricos de uma cena verbal. E, aocontrário dos advérbios, os ideofones não estãoancorados em um verbo, realizando eles mesmos afunção predicadora.Além disso, os ideofones constituem umaclasse iconicamente marcada em relação aos verbos.Do ponto de vista da marcação funcional, os verbosfuncionam como a forma não marcada, e osideofones, como a forma marcada. Uma formamarcada, do ponto de vista funcional, éusada emcontextos mais restritos, ao passo que a forma nãomarcada é usada em contextos mais amplos e nãoespecíficos (AIKHENVALD, 2016). Os ideofones, justamente, são usados, na língua changana, emsituações bem específicas, quando se quer ressaltaralgum detalhe não central do evento referido.Para melhor situar o leitor, apresentamos osexemplos abaixo, com os ideofones- cambùcambù  ,- gìdìgìdì e–pshandlà  , comparando-os com os verbosmais ou menos equivalentes na língua changana.Chamamos atenção para ofato de nas glosas, omaterial linguístico que se encontra entre parêntesesdizer respeito a ambos, o ideofone e o verbo,enquanto o que se encontra entre parêntesesangulados é referente apenas ao ideofone e é estematerial que fornece os insights  para distinguir osideofones dos verbos.Por exemplo, a informação deque o deslocamento é feito com movimentos bruscose intensos está contida no significado do ideofone cambùcambù  ,mas não no significado do verbo– cambula  .   50  57Moura, H.; Nhampoca, E. A. Signo [ISSN 1982-2014]. Santa Cruz do Sul,v. 42, n.75,p.48-58,set./dez.2017. http://online.unisc.br/seer/index.php/signo Quadro 1 IdeofoneVerbo-cambùcambù id  . decaminhar ou corrernu/pelado, como veio aomundo (o indivíduo dosexo masculino). [COMMOVIMENTOSBRUSCOS EINTENSOS] -cambula  v.i. caminhar ou correrpelado, como veio aomundo (o indivíduo dosexo masculino). Ideofone (1a) Zavala ate cambùcambù ndleleni! Zavalaa-teCambùcambùndlele-ni!1 3 .ZavalaMS 4 1VDef 5 .ID 6 = decaminhar/correr nu9.rua-LOC 7 ’O Zavala caminhou nu, com movimentosintensos e bruscos, na rua!’ Verbo (1b) Zavala acambule ndleleni! Zavalaa-cambul-endlele-ni!1. ZavalaMS1-5 8 .caminhar/corrernu-Passado9.rua-LOC. ’O Zavala caminhou nu na rua!’Nos exemplos em (1a), temos um agente, aentidade que caminha, (Zavala), temos o verbodefectivo (- te  ), que também marca o tempo passado eque se torna ( ate  ) ao agregar o morfema a-  . O 3 Todos os números representam a classe nominal a que oelemento pertence. No caso, a classe nominal é a 1. 4 MS= Marca de sujeito. 5 VDef=Verbo defectivo. 6 ID= Ideofone. 7 LOC=Locativo. 8 Classe 15 no changana. 9 Classe 9 no changana. morfema a-  funciona como marca do sujeito Zavala(de 3ª pessoa). Portanto, na forma ate  temos aindicação da marca do sujeito e o tempo passado. Overbo defectivo, assim designado na terminologiabantu, é uma espécie de verbo dicendi  que tem amera função de situar no tempo e aspectualmente aação/estado descrito pelo ideofone, agregando todosos morfemas que seriam aglutinados ao verbo se apredicação se dessepor meio de um. Portanto, overbo defectivo agrega todos os morfemas queindicam tempo, aspecto, número, pessoa.No changana, esses morfemas se aglutinamao verbo (esta é mais uma diferença entre verbos eideofones). Uma vez que o ideofone não aglutinaesses morfemas, eles se agregam ao verbo defectivo,como em “Zavala ate  cambùcambù ndleleni!”, em queo morfema que indica pessoa, número, a-  estáagregado ao verbo defectivo –te  e não ao ideofone,contrariamente ao que ocorre em (1b), onde omorfema a-  (marca de sujeito) e o morfema –e  , marcade passado, aglutinam-se ao verbo– cambul  -. Overbodefectivo, na sua estrutura semântica, só temtraços temporais e aspectuais. Não se conseguedescrever nada com estes verbos; a função deles é ade introduzirem os ideofones e/ou os discursos diretoe indireto.O ideofone cambùcambù  descrito acimasignifica caminhar/correr nu, mas não abrangealguém do sexo feminino, aplicando-se apenas aohomem. O verbo cambula  também tem o significadode caminhar/correr nu, porém, oideofone exprimeisso de forma mais intensa e icônica e maisexpressiva, daí que entendemos que a tradução nãopode ser a mesma quando, por um lado se trata doideofone e de outro lado, quando se trata de umverbo.O nosso ponto, portanto, é que, formalmente,ideofones e verbos são classes distintas. Do ponto devista semântico, ambas as classes servem parapredicar sobre eventos, mas o fazem de maneiradistinta: os verbos, correspondendo à formafuncionalmente não marcada, indicam eventos maisgenéricos, ao passo que os ideofones,correspondendo à forma funcionalmente marcada,   51
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