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L u í s d a C r u z. P o r t v g a l i a e M o n v m e n t a N e o l a t i n a. Versão integral disponível em digitalis.uc.pt

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P o r t v g a l i a e M o n v m e n t a N e o l a t i n a V o l. XII L u í s d a C r u z Teatro Imprensa da Universidade de Coimbra Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de
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P o r t v g a l i a e M o n v m e n t a N e o l a t i n a V o l. XII L u í s d a C r u z Teatro Imprensa da Universidade de Coimbra Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Versão integral disponível em digitalis.uc.pt PREFÁCIO 1 Portvgaliae Monvmenta Neolatina Coordenação Científica A P E N E L Associação Portuguesa de Estudos Neolatinos A P E N E L 2 SEBASTIÃO TAVARES DE PINHO COORDENAÇÃO CIENTÍFICA Associação Portuguesa de Estudos Neolatinos - APENEL CO-EDIÇÃO Imprensa da Universidade de Coimbra URL: Vendas Online: Centro de Estudos Clássicos Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa URL: CONCEPÇÃO GRÁFICA António Barros INFOGRAFIA CAPA Carlos Costa PRÉ-IMPRESSÃO PMP, Lda IMPRESSÃO E ACABAMENTO Sersilito ISBN (IUC) (CEC-FLUL) ISBN DIGITAL DOI DEPÓSITO LEGAL /09 Obr a integr a da no pl a no científico pluria nua l do Centro de Estudos Cl ássicos da Universida de de Lisboa e do Centro de Estudos Cl ássicos e Humanísticos da Universida de de Coimbr a Obr a Publicada com o A poio de: NOVEMBRO 2011, IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA Versão integral disponível em digitalis.uc.pt PREFÁCIO 3 Portvgaliae Monvmenta Neolatina Vol. XII Luís da Cruz Teatro Tomo II Vida Humana Edição crítica e estabelecimento do texto latino Sebastião Tavares de Pinho Manuel José de Sousa Barbosa Introdução, tradução e notas Manuel José de Sousa Barbosa Imprensa da Universidade de Coimbra Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Introdução 1. Vita Humana e comédia neolatina Segundo indicações do próprio texto, a comédia Vita Humana, do jesuíta português Luís da Cruz, 1 foi representada em Coimbra ou em finais de 1571 ou durante o ano de De facto, logo no prólogo, faz-se alusão à representação da tragédia Sedecias em passado recente e, mais à frente, na cena 9 do acto II, menciona-se a batalha de Lepanto, em termos que remetem para um acontecimento bem fresco na memória de todos. Na ordem de composição, esta será, portanto, a terceira peça de Luís da Cruz, depois da tragicomédia Prodigus, representada em Coimbra no ano de 1568, e da tragédia acima referida, representada na mesma cidade nos dias 23 e 24 de Outubro de 1570, com faustoso aparato, na presença do rei D. Sebastião. 2 Ao lado da tragédia Sedecias e da écloga Polychronius, também Vita Humana se afirma como exemplar único no género comédia, face às restantes produções dramáticas de Luís da Cruz, todas do género tragicomédia. 3 Mas que espécie de comédia é a Vita Humana? A pergunta tem toda a pertinência, já que, desde o seu renascimento nos alvores do humanismo, no século XIV, até ao tempo de Luís da Cruz, em finais do século XVI, este género sofreu uma determinada 1 Sobre a vida e obra deste insigne jesuíta, consultar as informações por nós coligidas e insertas no volume V dos Portugaliae Monumenta Neolatina ( Luís da Cruz, TEATRO. Tomo I: Sedecias ), Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009, pp Não é de excluir, contudo, que Luís da Cruz se tenha iniciado na composição teatral ainda antes de 1568, a saber, no colégio de S. Paulo em Braga, para onde foi ensinar humanidades, com pouco mais de vinte anos, levado por Inácio de Azevedo, reitor daquele colégio. A crer no testemunho da correspondência jesuítica, teria composto no ano de 1564 uma écloga, representada na semana da Páscoa perante o Arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, e uma comédia por ocasião da distribuição solene de prémios, no encerramento do ano lectivo, a 22 de Julho de Cf. Manuel Barbosa, Teatro e pedagogia, uma estratégia do humanismo jesuítico: a Vita Humana do P. Luís da Cruz in Humanismo novilatino e pedagogia (gramáticas, criações maiores e teatro). Actas do I Congresso Internacional (Braga, 23 e 24 de Abril de 1998), coord. de António Maria Martins Melo. Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Filosofia Braga, 1999, pp São tragicomédias, além da já referida Prodigus, a Iosephus (1574) e a Manasses (1578). 6 Luís da Cruz Teatro evolução, patente numa diversidade de realizações em contextos espácio-temporais bem delimitados. Estes ambientes próprios explicarão a peculiaridade poética de cada artefacto, permitindo esboçar uma história da recepção do género. Para o leitor compreender e situar melhor esta comédia, sondemos alguns momentos anteriores, em contextos bem marcados, da recepção do género comédia. Temos em primeiro lugar a chamada comédia humanística italiana, donde colheriam depois inspiração outras experiências compositivas similares em vários países europeus. Estamos a falar de cerca de meia centena de textos resultantes, na sua maioria, de exercícios literários isolados, desenvolvidos com entusiasmo por jovens estudantes, sem qualquer repercussão na vida dos seus autores, que, no geral, seguiram carreiras bem diferentes da de comediógrafos. 4 A singular excepção a estes casos de experiências isoladas é a de Tito Lívio de Frulovisi, que compôs nada menos de sete comédias, podendo considerar-se, de certo modo, o primeiro comediógrafo profissional dos tempos modernos. 5 A temática dos enredos varia. Além das que se alimentam de episódios da vida quotidiana, ou seja, de factos que foram notícia e de debates entre personificações alegóricas de vícios e virtudes, há que referir o papel desempenhado pela novelística medieval, cujos temas receberam forma teatral em algumas destas comédias. Assim, ao lado de personagens de evidente matriz plautina, outras há inequivocamente medievais ou mesmo modernas, como sacerdotes objecto de sátira impiedosa (caso do Janus Sacerdos, de autor desconhecido), maridos burlados (a Cauteriaria de Barzizza) ou camponeses vítimas da sua ingenuidade face à esperteza dos citadinos (Philogenia et Epiphebus, de Ugolino Pisani). Nesta variedade de enredos, cada comédia humanística combina, com consistência variável segundo os casos, o clássico, o medieval e o contemporâneo. Enquanto exercícios literários desenvolvidos em ambientes bem circunscritos (a universidade, as cortes dos príncipes ou dos papas, as academias humanistas), cada uma destas comédias testemunha uma poética em progressão. À medida que se avança no tempo, cada nova comédia denota uma melhor compreensão das leis da realização do género, tal como o testemunham os dois modelos latinos, Plauto e Terêncio. As descobertas, no decurso do século quinze, quer de novas comédias de Plauto desconhecidas da Idade Média, quer do Comentário a Terêncio de Donato, igualmente desconhecido, contribuíram, sem dúvida, para um maior apuramento poético na composição de comédias segundo os cânones do classicismo. 6 Outro 4 Um exemplo: Pier Paolo Vergerio ( ), futuro jurista, compôs a sua comédia Paulus com apenas vinte anos. Sobre a comédia humanística em geral, cf. Antonio Stäuble, La commedia umanistica: situazione della ricerca e aggiornamento bibliografico in Parlar per lettera. Il pedante nella commedia del cinquecento e altri saggi sul teatro rinascimentale, Roma, Bulzoni Editore, 1991, pp Por ordem cronológica, as suas comédias são as seguintes: Corallaria, Claudi Duo, Emporia (entre 1432 e 1433), Simmachus (1434), Oratoria (1435), Peregrinatio e Eugenius (entre 1436 e 1438). 6 Foram 12 as comédias de Plauto desconhecidas da Idade Média, no códice descoberto em 1429 por Nicolau de Cusa, a saber: Bacchides, Mostellaria, Menaechmi, Miles gloriosus, Introdução 7 facto que orientou o labor dos comediógrafos foi a recuperação da cena clássica enquanto local de representação, através da exegese ao texto do De Architectura de Vitrúvio, descoberto em 1414 na abadia de Montecassino e editado por Sulpício da Veroli em Roma no ano de Não pode terminar esta referência geral à comédia humanística sem uma alusão à peculiar agressividade do seu cómico, patente sobretudo nas chamadas farsas de Pavia, 7 onde a crítica violenta às instituições, com recurso ao obsceno, nos evoca a comédia antiga da Grécia, cujo representante mais conhecido é Aristófanes. 8 A comédia em latim dos séculos seguintes afastar-se-á gradualmente deste cómico atrevido e sem quaisquer contemplações, enveredando pela linha plautino-terenciana, mais ligada à comédia do meio e à comédia nova gregas, onde o cómico cumpria a sua natural função de fazer rir, mas sem recorrer em excesso ao obsceno nem surzir impiedosamente sobre pessoas e instituições. Os vícios passam a ser atacados através de personagens com o estatuto de tipos sociais e através dum discurso que se alimenta sobretudo do subentendido. A comédia humanística, na medida em que representou um momento fecundo de experimentação poética, em tempos de grande fascínio pela Antiguidade clássica, não deixou certamente de reflectir a sua influência na subsequente floração do género em vernáculo, não apenas em Itália, mas igualmente noutros países da Europa. Os avanços poéticos entretanto alcançados, seja ao nível da estruturação dos enredos, do desenho das personagens-tipo, da utilização de determinados tópicos e do recurso a certo efeitos estilísticos, foram certamente aproveitados pelos autores de comédias em vernáculo. 9 Sem subestimar a enorme importância do caminho aberto pelas experimentações da comédia humanística, há que dizer que é muito mais perceptível na Vita Humana de Luís da Cruz a influência da corrente teatral do humanismo que dá pelo nome de Terêncio cristão. 10 Terentius Christianus é o título que Cornelius Schonaeus deu à edição do seu teatro na cidade de Colónia, no ano de 1602, mas a expressão é usada para designar uma particular escola de drama desenvolvida no seio do humanismo Mercator, Pseudolus, Persa, Rudens, Stichus, Trinummus e Truculentus. O comentário de Donato às comédias de Terêncio foi descoberto por Giovanni Aurispa, em Cf. Federico Doglio, Teatro in Europa, 1: Storia e documenti, Garzanti, Milano, 1982, p Da edição moderna deste comentário encarregou-se Paulus Wessner (Aeli Donati Commentum Terenti, Estugarda, Teubner, 1902). 7 Entendemos aqui um conjunto de peças, em geral anónimas, ligadas ao ambiente universitário de Pavia, de finais do séc. XIV e princípios do XV. 8 Destas farsas de Pavia refiramos o célebre Janus sacerdos, datado de maio de 1427, cujo enredo tem como protagonista um padre pederasta. 9 Cf. Antonio Stäuble, «Rissonanze europee della commedia umanistica del quatrocento» in «Parlar per lettera», cit., pp Sobre esta corrente teatral, vide cap. 2 ( The contribution of the Christian Terence to Tragicomedy ) in Marvin T. Herryck, Tragicomedy, University of Illinois Press, Urbana, 1962, pp 8 Luís da Cruz Teatro alemão e flamengo durante todo o século XVI. Esta corrente teatral caracteriza-se basicamente pela tendência de associar, a enredos dramáticos de concepção clássica, temática bíblico-cristã, e colhe a sua inspiração primeira no teatro medieval de Rosvita, editado pela primeira vez na cidade de Nuremberga, no ano de 1501, pelo humanista Conrad Celtis ( ). Os seis dramas compostos por aquela monja douta de Gandersheim, que viveu no séc. X, assentam em enredos dramáticos cuja característica comum é a de exibir em cena o heroísmo de donzelas cristãs lutando abnegadamente em defesa da sua virtude contra as pretensões torpes dos seus perseguidores pagãos. Este tipo de teatro iria ter muita voga em contexto escolar, ao longo do séc. XVI, e inspiraria muitos dramaturgos sobretudo na área flamenga e alemã, mas não só. Alguns nomes merecem ser destacados nas várias experiências que entretanto foram tendo lugar. Refiramos em primeiro lugar o famoso humanista alemão Iohannes Reuchlin, que ficou célebre sobretudo pelo seu drama intitulado Henno, publicado pela primeira vez em 1497 e republicado depois em Tubingen em 1512, acompanhado de um douto comentário de Jacob Spiegel. Henno é uma farsa medieval com moldura de comédia clássica. O principal episódio do seu enredo é uma acção em tribunal contra o apalhaçado criado Dromo, por roubo ao seu patrão. Reuchlin estruturou a acção em cinco actos, com coros, segundo o padrão do coro trágico romano, tal como acontece, aliás, na versão definitiva da Vita Humana. Contemporâneo de Reuchlin é Johannes Ravisius Textor, célebre mestre de humanidades, cujo teatro escolar combina também elementos medievais com elementos clássicos, a alegoria com a mitologia. O seu diálogo Iuuenes, Pater, Vxor merece destaque especial na medida em que aparenta representar um dos primeiros tratamentos dramáticos da parábola do Filho Pródigo, muito presente na dramaturgia humanista de génese escolar, como o testemunha, aliás, Luís da Cruz com o seu Prodigus. Refira-se a propósito a comédia Acolastus (1529), do flamengo Gulielmus Gnapheus. Nesta, o seu autor chama a atenção no prólogo para a novidade de inserir temática cristã numa estrutura dramática de moldes plautino-terencianos. Esta peça seria mais tarde muito aproveitada pelos Jesuítas, certamente com as convenientes adaptações, para prover às insuficiências dum repertório teatral próprio, nos primeiros tempos da sua actividade pedagógica. Citemos por fim Nicodemus Frischlin ( ), um ilustrativo exemplo dos pedagogos da Alemanha e da Holanda que, movidos pelos ideais da Reforma protestante, incentivavam o drama bíblico. O privilégio concedido, neste caso, a Terêncio ter-se-á devido sobretudo ao facto de o encararem como um excelente modelo de latinidade e de verem nos enredos das suas comédias uma óptima estrutura de acolhimento a temas sacros. A obra dramática de Frischlin mostra-o bem. Ele compôs uma trilogia sobre a história de José do Egipto em que decalca o Eunuchus, os Adelphoe e o Heautontimoroumenos. Decalcou também a Hecyra (A sogra) de Terêncio num drama em que toda a história de Rute é levada à cena. Introdução 9 Luís da Cruz, contemporâneo de Frischlin mas perfilhando, ao invés, os ideais da Contra-Reforma, trilhou caminhos decerto modo paralelos aos do humanismo flamengo e alemão acima descritos. Por um lado, admiração pelo estilo de Terêncio e Plauto, vertido para as suas peças; por outro lado, e reportando-me agora apenas à Vida Humana, introdução no género comédia de elementos novos, ou seja, temas assumidamente morais e confessionais que, pela sua natureza, atenuam, ou subvertem mesmo, aquela força genuinamente cómica que vemos presente quer nos textos de Plauto quer nos da comédia humanística. A Vida Humana, tal como os dramas que na corrente teatral do Terêncio cristão recebem a designação de comédia, está iniludivelmente marcada por um certo hibridismo que, em vez de comédia, justificaria que a classificássemos, por exemplo, de cómico-tragédia, atendendo a certas fases do seu enredo. O precioso estilo de Terêncio e Plauto era tido em grande conta pelos altos responsáveis da pedagogia jesuítica. Indício claro disso é o trabalho encomendado a Luís da Cruz de emendar Terêncio, como nos testemunha uma carta deste enviada ao Superior Geral em 19 de Julho de Desta emenda de Terêncio, cujos contornos concretos não são ainda conhecidos, beneficiou sem dúvida a pedagogia das humanidades desenvolvida nos colégios, com inevitáveis reflexos na produção de textos teatrais. No teatro de Luís da Cruz, predominantemente de temática bíblica, são facilmente perceptíveis vários decalques dos comediógrafos latinos, sobretudo de Plauto. Na tragicomédia Manasses deparamos com o decalque de cenas dos Menecmos de Plauto na actuação dos gémeos judeus Metamorphus B e P. 12 No caso da Vita Humana, a entrada em cena do parasita Pânfago (acto II, cena 6) lançando uma série de bravatas, inspira-se na cena inicial do Miles plautino; por outro lado, a acção que gravita em torno do avarento Pólipo decalca iniludivelmente o enredo da Aulularia de Plauto, onde o velho Euclião se mostra continuamente receoso de que lhe descubram e roubem o dinheiro que esconde numa marmita. Luís da Cruz tinha consciência das características singulares desta sua comédia e, pela forma como se pronuncia, percebe-se que estava por dentro da história da recepção deste subgénero teatral e das concepções vigentes no âmbito da crítica literária. Vejamos como no prefácio à sua obra teatral ele se justifica em relação à poética da Vita Humana, admitindo o hibridismo de género a que acima nos referimos: O mesmo tens de notar em a Vida Humana, que é chamada de comédia; contém no entanto muitos pormenores trágicos, não só os que mentem contra a Fé, mas os que tantas vezes diria eu que vimos ou que aceitamos como tendo sido praticados 11 Cf. Archivum Romanum Societatis Iesu (ARSI), Lus. 70, fl. 313r. 12 Cf. Manasses, acto V in Tragicae comicaeque actiones a Regio Artium Collegio Societatis IESV, datae Conimbricae in publicum theatrum, auctore Ludouico Crucio eiusdem Societatis olisiponensi, nunc primum in lucem editae et sedulo diligenterque recognitae. Cum privilegio. Lugduni, apud Horatium Cardon, 1605, pp Estas personagens apareceriam em cena com uma caracterização em tudo idêntica, apenas se distinguindo por uma daquelas letras colocadas na indumentária (cf. Ibid., p. 796). 1 0 Luís da Cruz Teatro por aqueles que não quiseram enganar apesar de mentirem. Nesta peça Cadmo não se transforma em serpente nem Procne em ave, Atreu não coze entranhas humanas, nem Medeia diante do público mata a seus filhos, mas os avarentos, todas as vezes que for caso disso, enforcam-se; os invejosos definham de tristeza; os ladrões são castigados pela lei; os jovens são arrebatados por morte de razões desconhecidas. E quem não chora todas as coisas deste género que podem acontecer na vida humana? 13 Também no texto da própria comédia transparece por duas vezes, numa fala de Dorião e noutra do Prólogo, esta consciência do autor sobre o carácter híbrido desta sua comédia: Pois se ele farejar que és um parasita, / a personagem que agora representas, encantadora e espirituosa / como é próprio da comédia, talvez bem depressa / passe a triste, como é a da tragédia. 14 Quanto ao mais, peço-vos / que avalieis o vosso caso com imparcialidade / e que penseis que o que acontece na comédia / poderá resultar em triste tragédia. 15 Na realidade, esta comédia de Luís da Cruz sai fora da habitual definição de comédia como imitação duma acção de pessoas do povo, em modo dramático, acção essa caracterizada por uma evolução que parte duma situação inicial de angústia, atravessa uma fase turbulenta e acaba num desenlace feliz, em ordem a deleitar e agradar aos espectadores. Pelo fim trágico de muitos dos seus personagens, pelo tipo de enredo de que é dotada, a concepção desta comédia é inteiramente devedoura duma preocupação moralizadora que sobreleva às demais, designadamente às preocupações de ordem poética, surgindo inequivocamente ligada à mundividência medieval. Alimenta-a uma poética condicionada por propósitos moralizadores que alia, em eficaz simbiose, uma espiritualidade oriunda de fontes medievais a uma moldura discursiva inspirada claramente em modelos literários da latinidade clássica. Vita Humana é, fundamentalmente, uma alegoria e, neste aspecto, ela insere-se numa longa tradição literária ao serviço da metáfora theatrum mundi, tão própria dos dramas medievais, segundo a velha ideia de que o homem, arrastado por forças que o transcendem, representa na terra um papel que não é propriamente o seu, transformando a sua vida numa comédia ou numa tragédia. 16 De facto, logo nos 13 P.e Luís da Cruz, O Pródigo, Tragicomédia Novilatina, trad. de J. Mendes de Castro, Lisboa, INIC - Centro de Estudos Clássicos, 1989, Vol. II, pp Esse sycophantam namque si te olfecerit, / Persona quae nunc prodis ut Comoediae / Lepida, et iocosa: mox redibit forsitan / In luctuosam, qualis est tragoediae. vv [...] Quod restat, precor, / Rem uestram ut animis aequis metiamini: / Et cogitetis quod fit in Comoedia, / Migrare posse lugubrem in tragoediam. vv Expressão entre outras desta metáfora foi a famosa moralidade medieval Everyman, de que o flamengo Georg Lanckvelt, mais conhecido pelo seu nome humanista de Georgius Macropedius ( ), fez uma versão latina em 1539, a que deu o título grecizado de Hecastus. Tal co
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