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Movimentos sociais na era do Antropoceno1 Moysés Pinto Neto2 RESUMO: A segunda década do século XXI vive um longo ciclo de mobilização social que se alastrou pelo mundo todo, manifestando em comum uma revolta contra as instituições e a descrença nas mediações políticas da democracia representativa. Desde então, tem-se discutido as estratégias dos novos movimentos, sobretudo em face da ausência de um programa e
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  Movimentos sociais na era do Antropoceno 1  Moysés Pinto Neto 2  RESUMO:  A segunda década do século XXI vive um longo ciclo de mobilização social que se alastrou pelo mundo todo, manifestando em comum uma revolta contra as instituições e a descrença nas mediações políticas da democracia representativa. Desde então, tem-se discutido as estratégias dos novos movimentos, sobretudo em face da ausência de um programa específico e lideranças verticais. O texto procura refletir sobre essa Grande Recusa a partir de uma nova polaridade política - ortogonal à oposição entre direita e esquerda - que surge na era do Antropoceno : aceleracionismo e decrescimentismo. A partir disso, procura compreender o negativo desses novos movimentos como demanda pelo menor  . Palavras-chave : Movimentos sociais - Aceleracionismo - Decrescimento -  Antropoceno - Estratégia - Política. ABSTRACT : Second decade of 21th century lives a long cycle of social mobilization that expanded itself all the world around, having in common revolt against institutions and suspicion on political mediations of representative democracy. Since then, social movements’ strategies have been debated, especially on the topics of program and leadership. Paper reflects on this “Great Refusal” departing from a new political polarity – orthogonal to the opposition between right-wing and left-wing – that borns in the Anthropocene era: accelerationism and degrowth. In conclusion, paper tries to understand the “negative” of social movements as a petition for a minor politics . Key-words:  Social movements – Accelerationism – Degrowth –  Anthropocene – Strategy – Politics. SUMÁRIO : 1. O ciclo de manifestações pós-crise de 2008; 2 - O deslocamento do debate na era do Antropoceno; 3 - Decrescimentistas e  Aceleracionistas: uma nova polaridade política?; 4 - O negativo como menor: paixão pelo sub ; 5 – Bibliografia mencionada. 1  Esse texto é uma reescrita ampliada para estilo acadêmico , com citações e mais desenvolvimento teórico, de ensaio anterioramente publicado na revista PISEAGRAMA (Pinto Neto, 2015b) com o título Política no Fim do Mundo , em estilo mais jornalístico . 2  Doutor em Filosofia (PUCRS) e Professor da Universidade Luterana do Brasil. Email: moysespintoneto@gmail.com.    1. O ciclo de manifestações pós-crise de 2008 O mundo vive tempos agitados. Depois de a crise de 2008 encerrar a  pax da democracia liberal capitalista, as ruas voltaram a abrigar enxames de indignados, aglomerados de milhões de pessoas juntas em protestos mostrando a capacidade de resiliência diante da violência policial, do descrédito da mídia e da indiferença das instituições políticas tradicionais. O ciclo de mobilizações sociais iniciado a partir de 2010 incluiu a Primavera  Árabe (Tunísia, Egito, Líbia etc.), passando pela Europa (Grécia, Espanha, Islândia, Turquia etc.), pelos EUA e Canadá e pela América Latina (Chile, Brasil, México, Bolívia, Equador etc.), contendo uma heterogeneidade de motivos e demandas, mas tendo como ponto de encontro constante o déficit de legitimidade da representação e uma descrença geral no sistema (para uma visão geral, ver Castells, 2013).  A partir do ponto em que protestos e ocupações passam a fazer parte do cenário político com uma intensidade que não se via desde os anos 60 e 70, não raro se pergunta qual será a próxima etapa das lutas (Nunes, 2014). Nesse sentido, um complexo debate gira em torno das pautas   e estratégias   dos movimentos. O motivo de preocupação por parte de alguns é que esses movimentos parecem herdeiros em larga escala da geração de 1968, aproximando-se de ideias anarquistas a partir da ojeriza a lideranças verticais, à lógica instrumental meios-fins, à construção de uma identidade rígida e rejeição de alianças, compromissos e negociações com os poderes instituídos, chegando até a uma dificuldade considerável de definir exatamente o que buscam. Dois dos mais famosos intelectuais vivos da esquerda, Alain Badiou e Slavoj Zizek, por exemplo, ao mesmo tempo em que louvam a reemergência das contestações radicais (Badiou chama de renascimento da história e Zizek de ano em sonhamos perigosamente ), manifestam perplexidade na dificuldade dos novos movimentos de construir  organização e disciplina em torno da ideia comunista , a única que até hoje seria capaz de se apresentar como alternativa à devastadora hegemonia capitalista e que eles, até de certa forma ousadamente, buscam associar a essas manifestações. Zizek afirma explicitamente, por exemplo, ao referir-se à Grécia no citado livro:  Assim, devemos ver nesse desenvolvimento também um desafio: não basta rejeitar o governo especializado e despolitizado como uma forma rude de ideologia; devemos começar a refletir seriamente sobre o que vamos propor no lugar da organização econômica predominante, imaginar e experimentar formas alternativas de organização, procurar os germes do novo naquilo que já existe. O comunismo não é apenas ou sobretudo o carnaval do protesto de massa quando o sistema é momentaneamente interrompido; o comunismo é também, e acima de tudo, uma nova forma de organização, disciplina e trabalho árduo. Independentemente do que se diz sobre Lenin, ele tinha plena ciência dessa necessidade urgente de uma nova disciplina e organização (Zizek, 2012, p. 84). Em uma linha paralela, mas sem deixar de compartilhar uma crítica similar, a esquerda reformista, integrada nos quadros partidários e alinhada com a Realpolitik  , critica a falta de clareza nas pautas dos protestos e seu teor utópico, preferindo se manter alinhada aos tímidos governos que hoje, segundo os jovens que saem às ruas, pouco se diferenciam da direita e seriam responsáveis pelo descrédito da política representativa em geral, não raro implementando os programas liberais que seus rivais não conseguem quando no poder  3 . Será essa, no entanto, a única interpretação viável? Esse negativo que constitui os novos movimentos seria interpretável apenas à luz da falta? A expressão de Maurice Blanchot que Herbert Marcuse, um dos nomes sempre associados aos movimentos de 1968, consagrou - a Grande Recusa - não 3  Sobre o tema, ver, por exemplo, o debate brasileiro em torno das manifestações de 2013 - representando o pólo governista que sinaliza essa posição, por exemplo Souza (2014 e 2015), Singer (2013), Santos (2013); para uma visão geral do debate, ver Pinto Neto, 2014), ou o debate entre Alvaro Garcia Linera, Eduardo Gudynas e Salvador Schavelzon sobre o esgotamento do ciclo progressista na América do Sul e sua relação com o neoextrativismo e práticas políticas verticalistas (Schavelzon, 2014, 2015; Gudynas, 2010; Garcia Linera, 2012).  seria ela própria uma pauta possível? Em outros termos: e se o não fosse uma resposta?  A política ocidental e sua reflexão filosófica tem dificuldade para lidar com o negativo. Como tantos mostraram ao longo do século XX, o sonho da razão - que também era o sonho da política - era uma pretensão totalizante, buscando esquadrinhar os mais diversos cantos da realidade nas suas descrições. A Modernidade é a era em que real e racional se confundem,  justificando a intervenção humana para transformar o mundo na efetivação dos seus projetos racionalizadores. Mais tarde, a partir da autocrítica dilacerante que ficou conhecida como dialética do esclarecimento , chega-se à conclusão de que a razão instrumental - orientada pelas relações meios-fins - comandava essa lógica de controle sobre a realidade e funcionava como matriz da violência do dominador, contrariando as finalidades emancipatórias que a racionalidade por si só carregaria (Adorno & Horkheimer, 1985, passim; Souza, 2004, pp. 96-126). Não por acaso um dos autores do respectivo ensaio, Theodor Adorno, elege mais tarde o negativo , aquilo que resiste à pulsão totalitária da razão instrumental e se afirma real para além do pensamento, como emblema da emancipação (Adorno, 2009. pp. 11-56). Sob esse prisma, a necessidade de se estabelecer rapidamente um  programa para os protestos, refletindo-se em pautas específicas e negociações viáveis , parece cair no mesmo problema. Segundo a lógica proposta por Zizek e os reformistas social-democratas, a irrupção do novo precisa ser domesticada e marcada pelo positivo, colocando segundo a lógica dos meios e fins um conjunto de objetivos que, no fim das contas, efetivariam um projeto de poder. É claro que, por outro lado, o purismo é tentador e é mais fácil, especialmente em nível discursivo, sustentar que todo compromisso é reprovável e apenas a condição ascética em relação ao poder e fiel aos princípios é adequada. Sabemos os dilemas que conduzem essas posições, muitas vezes apelidadas pelos seus críticos de principismo . A fidelidade absoluta a um plano abstrato situada apenas no horizonte da resistência
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