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Sob pressao

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    REVISTA PORTAL de Divulgação, n.4, Nov. 2010 - http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php   34  Sob pressão! Vera Brandão Este era o meu sentimento daquele dia. Na livraria do aeroporto procurava por revistas femininas, de leitura mais leve, para enfrentar as 12horas de vôo que me separam de uma parte de minha família – filha, genro e neto. Sob pressão porque dividida pelas tarefas profissionais e pessoais (com a casa em meio a uma grande reforma!) que vivia naquele momento e deixava “em suspenso”, e pelo desejo de ver e ajudar minha filha que precisava de um suporte emergencial, de caráter prático - meu neto de férias, seu marido viajando, ela trabalhando... Uma situação muito comum nas famílias hoje por aqui, mas na Alemanha, assim como em outros países europeus, não se tem empregada ou babá, e é quando as vovós entram em ação. Mas, no meu caso, a distância tornava essa ajuda uma “operação de alta complexidade” e me trazia ansiedade, além da natural em uma viagem tão longa. Foi quando um título “saltou” da prateleira – Sob Pressão – mas, quando nas minhas mãos li o subtítulo Criança Nenhuma Merece Superpais, v  erifiquei que o livro abordava a educação das crianças no mundo atual. Comprei instigada pelo título e porque achei interessante para ler (pensando nos meus netos) e para deixar como leitura para minha filha. Já na sala de embarque comecei sua leitura, que se estendeu por quase todo o vôo. O livro é de autoria de Carl Honoré, jornalista nascido na Escócia, que imigrou criança para o Canadá, mas que voltou para a terra natal para estudar, sendo formado em História e Italiano pela Universidade de Edimburgo. Ele também morou no Brasil em 1990, em Fortaleza atuando na ONG Terre des Hommes, e entre 1997-1998 em uma pequena cidade do interior do Ceará, participando do programa de intercâmbio Canadá World Youth. Ele ficou conhecido no Brasil pelo livro Devagar, lançado no Brasil em 2002 (editora Record), no qual aborda a cultura da velocidade, que se iniciou durante a Revolução Industrial, foi impulsionada pela urbanização e cresceu de modo assustador e veloz com os avanços da tecnologia no século XX. Ele constata que vivemos hoje o “o culto à velocidade”, no limite da exaustão! E que nossos corpos e mentes dão constantes sinais que esta velocidade é inadequada à boa saúde e bem estar, e pergunta: - Por que estamos sempre    REVISTA PORTAL de Divulgação, n.4, Nov. 2010 - http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php   35 com pressa? - Qual a cura para a falta de tempo? - É possível, ou até mesmo desejável, desacelerar? Estes questionamentos, sobre o tempo acelerado que nos é imposto, e que incorporamos, não é o tempo cíclico da natureza, e a consciência desta crescente “pressão” do tempo acelerado levou ao início de um movimento da desaceleração – procurar viver um tempo próprio, natural, interno, e que proporcione uma vida produtiva e saudável e, conseqüentemente, uma melhor qualidade para o nosso longeviver. Este movimento teve inicio na Itália focando o que eles mais prezam – uma boa refeição! Só que o foco era além de comer bem, comer mais devagar! Começava o, hoje conhecido, slow food   que acabou se estendo a outras atividades. O autor retoma esta perspectiva no livro Sob Pressão  ...(2010) no qual “busca uma nova fórmula para relação entre pais e filhos, que funcione no século XXI  – quando crianças, em sua maioria, estão mais medicadas, obesas e deprimidas do que qualquer outra geração anterior. Para compensar frustrações pessoais, adultos utilizam as crianças como forma de viver suas próprias vidas. O autor investiga minuciosamente as últimas pesquisas sobre o assunto e ouve opinião de especialistas, pais, professores e filhos. Conclusão: é preciso desacelerar, combater a tensão e a angústia, refrear a competitividade e criar espaços existenciais onde a criança possa ter momentos de afeto, de espiritualidade e de autonomia - para assumir erros e ultrapassar fronteiras” (sinopse editora Record). Então, a aceleração do tempo impõe, constantemente, novas necessidades que parecem ser aplacadas apenas por, cada vez mais, consumo! A edição de 14 de abril de 2010 da Revista Veja, em comentário sobre esse livro, traz a reportagem Excesso de proteção faz mal ao seu filho,  de Daniela Macedo e Gabriella Sandoval, que mostra como “As crianças de hoje não podem vacilar - estão sob constante pressão dos pais, da escola e de si mesmas. A preocupação excessiva com o desempenho infantil em um mundo cada vez mais competitivo faz com que nossos filhos tenham uma agenda que deixaria um executivo bem-sucedido cansado”. Durante a leitura, ainda “no ar”, pensei que as questões abordadas pelo autor, e retomadas na reportagem, poderiam ser as mesmas que rondam os conceito de “envelhecimento ativo” e / ou “velhice bem sucedida”. Envelhecemos neste tempo acelerado, de constantes mudanças e novas necessidades e “consumos” vários. As crianças não podem vacilar, nem seus pais! Nem seus avós! Sabemos que é importante para bem envelhecer ter projetos, grandes e pequenos, preservar a capacidade de autogerenciamento - exercendo uma ação preventiva em relação aos desgastes e fragilidades, naturais ao passar    REVISTA PORTAL de Divulgação, n.4, Nov. 2010 - http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php   36 dos anos – alimentação saudável, atividade física moderada, sociabilidade preservada. Mas, o modelo da “nova velhice” mantém os + de 60 “sob pressão” para uma disposição e disponibilidade além, muitas vezes, de sua capacidade ou desejo. È muito comum nas atividades dirigidas aos grupos “seniors” – esta é a expressão da moda, em inglês, talvez porque fique mais “chic” e moderno – onde impera um ativismo “desenfreado” e até danoso ao bem estar e equilíbrio que se apregoa. Exercícios físicos – muitos fazem atividades diárias e, às vezes, mais de uma no mesmo dia; depois aulas (de qualquer coisa); coral; computação; uma língua estrangeira; viagens; excursões de um dia; cinema e teatro e....Ufa! Domingo é dia de encontrar a família! Interessante, pois assim como os filhos e os netos, crianças e adolescentes, os mais velhos também têm uma agenda cheia. De que? A resposta pode ser: - “Bem, as crianças estão em formação, e precisam, no mundo atual, estar cada vez mais bem preparadas para o mercado de trabalho!” Isto já se diz aos 6 -7 anos! No caso dos mais de 60: - “Mas é isto é o preconizado para um envelhecimento saudável! Exercícios físicos e muita diversão para manter “a cabeça ocupada, e não ficar pensando...!” Um parênteses - esta expressão sempre me incomoda (apesar de também utilizá-la, às vezes) “não ficar pensando...”. Já ouvi também – “mas você pensa demais”. Não pensar, pensar demais... Vamos pensar sobre isto! Voltando, muitos da turma + de 60 continuam trabalhando e, para estes, existe o fantasma do julgamento - “velho para o mercado”, mesmo que estejam no auge de suas competências. Então, para não ficar “para traz”, mais atividades, cursos, atualizações, etc, etc... Devagar! E um tempo para o prazer contemplativo? Para pequenos prazeres? Fazer as refeições sem pressa saboreando os alimentos, se possível em boa companhia; cuidar de um jardim, ou dos vasinhos da janela e do terraço; ler o  jornal ou um livro; ouvir música, ao vivo ou na poltrona favorita; passear sem destino ou compromisso pela cidade ou num parque; ir ao cinema; assistir palestras; visitar um amigo querido; ser voluntário; admirar a natureza...Tantas possibilidades, cada pessoa poderia escolher o que lhe desse mais prazer. Nossa cidade, agitada, poluída, barulhenta oferece, em contrapartida, muitas atividades de lazer saudável e gratuito e, também, a possibilidade de contemplação da natureza.    REVISTA PORTAL de Divulgação, n.4, Nov. 2010 - http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php   37  As árvores estão floridas, alguém percebeu? Enquanto escrevo estas reflexões ouço, ao longe, o ruído dos aviões porque moro não muito longe do aeroporto de Congonhas. Mas, pela janela posso ver, entre muitos prédios, nesgas de um céu bem azul e ouço passarinhos cantando na árvore, bem verdes, que fica aqui defronte. Pequenos prazeres. Sabemos dos muitos desafios de crescer, viver e envelhecer em uma sociedade desigual, e em uma cidade que é seu melhor espelho. Mas, além de manter a atividade e ter projetos é fundamental que todos – crianças, adultos e idosos - tenham tempos livres, para brincar livremente, descansar, contemplar e refletir. Escuto de muitas pessoas – “Não gosto de pensar na vida!” Não consigo ficar sozinha!”. “Ficar no final de semana em casa? Deus me livre!”. Reveillon sem festa? Que horror! Vive-se em constante “estado de agitação”, buscando “fazer” alguma coisa. Qualquer coisa? Sabemos o quanto as atividades contemplativas são benéficas para restaurar nosso corpo e nosso espírito, e são cada vez mais comuns os apelos a uma prática milenar – a meditação! Muitos são os artigos na área médica que indicam como a espiritualidade, a religiosidade e a meditação são benéficas para a saúde em geral, e em casos de recuperação após problemas de saúde. Na área médica Lucchetti, et all (2010) afirmam que inúmeras são as pesquisas que indicam a relação entre saúde mental e a espiritualidade / religiosidade, e que essas práticas podem ser benéficas para a menor prevalência de depressão, ansiedade e suicídio; para melhor qualidade de vida e bem estar geral. Do ponto de vista clínico foram observados menores níveis de hipertensão, de mortalidade nas doenças cardiovasculares e menor mortalidade em geral, entre outros resultados positivos, nos pacientes mais religiosos. Outros estudos indicam esse potencial regenerativo por meio da meditação. Na coluna publicada, mensalmente, na Revista Veja a psicanalista e escritora Betty Milan aborda, em dois meses diferentes, este tema - em 4 de agosto sob o título A arte de não morrer,  no qual faz uma interessante análise a respeito do taoísmo e da psicanálise; e em 29 de setembro com o título O gosto da surpresa, no qual nos convida ao exercício do olhar e surpreender-se. Nos dois artigos o tema de fundo é o tempo cronos – tempo marcado, e kairós  – tempo vivido e meditado. No primeiro artigo ela analisa o taoísmo – “nome que se dá ás artes de viver e do não morrer” e base de uma cultura do corpo, e    REVISTA PORTAL de Divulgação, n.4, Nov. 2010 - http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php   38 a psicanálise - como possibilidade de autoconhecimento pela cultura da palavra. Em ambos os casos “o não agir e a paciência são os requisitos básicos da meditação e da cura analítica” – o não agir, que pressupõe paciência “sem a qual a vida não é possível”. O taoísmo se aproxima da psicanálise também na perspectiva da transformação, ou seja, a possibilidade de reinventar a própria vida e, assim, esse “não morrer”, como possibilidade simbólica. A capacidade de olhar e surpreender-se, tema do segundo artigo, também pressupõe um “andamento” mais lento, pois no tempo acelerado muito olhamos, sem nada ver. É preciso “suspender a agitação e o clamor do cotidiano” para ouvir a própria respiração - base de todos os exercícios de meditação. Afirma Milan que: “Quem escuta com o espírito, e não com o ouvido, percebe os sons mais sutis. Ouve o silêncio, que é o mais profundo de todos os sons, como bem sabem os músicos [...] ele permite entrar em contato com um outro eu, que só existe quando nos voltamos para nós mesmos”. Então, devagar...Sem Pressão! Para melhor crescer, viver e longeviver é necessário desacelerar, exigir menos de nós e dos outros – nossos filhos, pais, amigos, colaboradores; desestimular a competitividade e o consumismo exagerado; criar espaços “de vida” onde se tenha tempo para as demonstrações de afeto, de cultivo dos “pequenos prazeres, da busca de si, caminhos para uma trajetória autônoma e bem sucedida, e para a espiritualidade presente em todos nós – o sentido da vida. Esse “desligamento” ou desaceleração é o que pode facilitar este “novo olhar” sobre nós mesmos e sobre o mundo. “Surpreender-se é preciso. A surpresa é a verdadeira fonte da juventude, promessa de renovação e de vida”. (Milan, setembro de 2010) Leia mais Veja trecho de conferência de Carl Honoré sobre o tema do livro Devagar. http://www.ted.com/talks/lang/por_br/carl_honore_praises_slowness.html Sinopse do livro Sob Pressão  . Criança Nenhuma Merece Superpais.  http://www.record.com.br/novidades_cada.asp?id_novidade=352  Excesso de proteção faz mal ao seu filho.  Daniela Macedo e Gabriella Sandoval http://veja.abril.com.br/140410/excesso-protecao-faz-mal-filho-p-108.shtml  Meditação reduz o stress   – Globo Repórter de 8 de outubro. http://fisiogerontologica.blogspot.com/2010/10/globo-reporter-do-dia-08-de-outubro.html 
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