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       A     R     T     I     G     O     S 223  Distúrbios da Comunicação, São Paulo, 18(2): 223-233, agosto, 2006 A clínica da gagueirae o livro infantil: consideraçõesa partir de um caso * Polyana S. de Oliveira ** Silvia Friedman *** Resumo O objetivo deste estudo é descrever e discutir a utilização do livro infantil como instrumento terapêuticona clínica fonoaudiológica da gagueira com crianças. Para isso apoiamo-nos numa concepção degagueira coerente com uma abordagem clínico-terapêutica centrada no sujeito. Com base na concepçãode gagueira e de clínica, apresentamos um caso clínico para mostrar como o livro infantil foi utilizado.Constatamos que o uso da história do livro como metáfora da história de fala da criança, ou seja, odeslocamento do significado contido na história do livro para as vivências de fala da criança permitiuressignificar o gaguejar como fala não patológica, constituindo-se em sentido singular para o sujeito da pesquisa. As ressignificações reveladas no processo terapêutico mostraram a assertividade do livro infantilcomo uma estratégia de linguagem para a clínica da gagueira. Palavras-chave:  clínica fonoaudiológica; gagueira; linguagem; subjetividade; criança.  Abstract  The purpose of this study is to describe and discuss the use of story telling books for children as atherapeutic instrument in the fonoaudiological clinic with children who stutter. To do so we supported our research with a concept of stuttering that is coherent with a clinic therapeutic approach centered inthe person. Based on this concept of stuttering and of clinical experience, we are presenting a case that expresses how a story-telling book for children can be used. Our findings showed that the metaphor of the story being told blended into the child’s story allowed the arousal of a new and single meaning for thechild as a non-pathological speech. The transformations reveled during the therapeutic process showed the appropriateness of using telling books for children as a language strategy for stuttering therapy. Key-words:  Speech-language pathology clinic; stuttering, language, subjetivity, child. * Esse artigo foi elaborado a partir da dissertação de mestrado (PUC-SP/2004) da primeira autora, sob orientação da segunda. ** Fonoaudióloga clínica e educacional. Docente do curso de Fonoaudiologia Unilus/Santos-SP. Mestre em Fonoaudiologia pelaPUC-SP. Especialista em Linguagem – CFFa 761/99. *** Fonoaudióloga clínica. Docente do curso de Fonoaudiologia daPUC-SP. Doutora em Psicologia Social pela PUC-SP. Especialista em Linguagem – CFFa 1993/02. FONOLOGIA       A     R     T     I     G     O     S 224  Distúrbios da Comunicação, São Paulo, 18(2): 223-233, agosto, 2006 Polyana S. de Oliveira, Silvia Friedman Introdução Ao analisar a literatura sobre a clínica da ga-gueira na Fonoaudiologia, podemos considerar queela se configura em pelo menos duas vertentes di-ferentes. Uma, que chamaremos de abordagem cen-trada no sintoma, está comprometida com a mate-rialidade deste e o entende como uma desor-dem do processamento motor da fala (Meira, 2002;Gargantini, 2001a; 2001b; Pereira et al. 2001; 2003;Bohnen, 2001; 2002; Jakubovicz, 2002; Keske-Soares e Bagetti, 2002; Sassi e Andrade, 2004;Andrade et al. 2004; Andrade e Martins, 2005).Nela, relaciona-se a gagueira uma dificuldade mo-tora na interligação dos sons e um aumento no tem-po de execução desses sons, sílabas, palavras e fra-ses. Entende-se, assim, que a incapacidade na pro-dução motora da fala e na temporalização preci-sam ser minimizadas/corrigidas. Recorta, dessemodo, a gagueira do falante, isolando-a do contex-to discursivo, intersubjetivo e cultural ao qual tan-to o falante quanto o seu dizer estão relacionados.Nessa abordagem, a fonoarticulação é o ponto departida e de chegada do clínico/terapeuta.A outra vertente, que chamaremos de abor-dagem centrada no sujeito, volta-se para o sinto-ma-gagueira como linguagem e entende que háum sujeito que fala para um outro, que é seu in-térprete, ambos subjetivamente enlaçados pela lin-guagem e seu funcionamento discursivo. Essaabordagem se mantém no contexto do sujeito/fa-lante e seu modo e tempo de dizer/ser no discur-so. Dentro dessa vertente, apoiamo-nos na abor-dagem de Friedman (1986, 1994, 2004) que des-taca em seu trabalho o papel da ideologia do bemfalar e da estigmatização do falante para compre-ender a gênese da gagueira. Em linhas gerais, pro-põe que uma ideologia de bem falar perpassa oimaginário das pessoas no cotidiano. Essa ideo-logia pressupõe que fluência é absoluta e mantémuma visão idealizada de falante. Esse tipo de vi-são cria a possibilidade de estigmatizar padrõesde fala, especialmente na infância, quando a pro-dução de lapsos, repetições e hesitações no dis-curso da criança são interpretados como gaguei-ra. Esse tipo de interpretação, por ser estigmati-zante, pode ter como efeito a constituição de umaimagem de mau falante pela criança. Constituídaessa imagem, o falante tem o desejo de controlara fluência do discurso, a fim de impedir o apare-cimento de segmentos gaguejados e, desse modo,escapar do estigma. O fluir na fala, entretanto,acontece de modo espontâneo, ou seja, o falantesabe falar, mas não sabe como faz para falar. Nes-sa condição, para controlá-lo, passa a prever olugar da gagueira no discurso. A previsão de tre-chos, palavras ou sons gaguejados, somada à ten-tativa de impedi-los, gera gestos articulatórios ten-sos (muitas vezes bizarros), justamente porque aintenção do falante é impedir que uma supostagagueira se manifeste. Mas, ao realizar esses ges-tos, por serem eles tensos, surge gagueira e pare-ce ao falante que realmente sabia em que lugar dodiscurso ela estaria. Isso sustenta sua visão estig-matizada de falante e mantém todo o processo.Assim, a interpretação que outra pessoa faz do dis-curso da criança como gaguejante pode ter comoefeito a inauguração de um modo de funciona-mento discursivo marcado por gestos articulató-rios tensos, se a subjetividade do falante estiversubmetida a uma imagem estigmatizada defalante. Resumen El propósito de este estudio es describir y discutir la utilización del libro infantil como instrumentoterapéutico en la clínica fonoaudiológica de la tartamudez con niños. Para eso nos apoyamos en unaconcepción de tartamudez coherente con un abordaje clínico-terapéutico centrado en el sujeto. Conbase en la concepción de tartamudez y de clínica, presentamos un caso clínico para mostrar como ellibro infantil puede ser utilizado. Se ha constatado que al usar la historia del libro como metáfora de lasvivencias de habla del niño, fue posible resignificar el tartamudear como siendo habla no patológica, loque se constituyó en un sentido sensilho para el sujeto de la investigación. Las resignificaciones reveladasen el proceso terapéutico mostraron la asertividad del libro infantil como una estrategia de lenguaje para la clínica de la tartamudez. Palabras clave: clínica fonoaudiológica; tartamudez; lenguaje; subjetividad; niño.   A clínica da gagueira e o livro infantil: considerações a partir de um caso      A     R     T     I     G     O     S 225  Distúrbios da Comunicação, São Paulo, 18(2): 223-233, agosto, 2006 A partir disso, podemos compreender que asduas vertentes de clínica mostram diferenças subs-tanciais quanto à forma de conceber o sujeito, alinguagem e, em decorrência, os problemas de lin-guagem.Ao analisar a estrutura da clínica a partir deDunker (2000), vemos que ela compreende quatroelementos: a semiologia, a etiologia, a diagnósticae a terapêutica. Esses elementos, conforme explicao autor, devem manter entre si relações de homo-geneidade e covariância para que a estrutura sejacoerente.Na vertente centrada no sintoma, a estruturada clínica se apresenta a partir do seguinte quadro:quanto à semiologia, a gagueira é listada como re-petições, prolongamentos e bloqueios considera-dos sinais lingüísticos de uma fala com desordemmotora, indicando um déficit/distúrbio do funcio-namento orgânico. Quanto à etiologia, defende-seque fatores genéticos, neurofisiológicos e ambien-tais estão na srcem da gagueira, dando-lhe ori-gem multifatorial. Quanto à diagnóstica, como essavertente depende, em grande parte, da tecnologiada medicina para poder determinar a causa do dis-túrbio, o diagnóstico volta-se para a descrição e aclassificação da queixa, por meio de testes e exa-mes de linguagem que determinarão a severidadeda gagueira, o comprometimento do processamen-to auditivo central, das habilidades psicolingüísti-cas, etc. A terapêutica visa à supressão dos com-portamentos constituintes e acessórios à gagueira,tentando aproximar a fala do padrão consideradonormal. Nessa vertente, a semiologia, a etiologia ea diagnóstica se alinham em torno de um corpo de-ficitário, restando para a terapêutica apenas a mo-delagem do déficit de fala, e não sua cura, já quehá uma impossibilidade de manipulação dos fato-res genéticos e neuronais que, segundo essa ver-tente, sustentaria a fala com gagueira. Vemos, as-sim, falta de homogeneidade e covariância entreos elementos desse modelo clínico fonoaudiológi-co, porque, enquanto a semiologia e a etiologia seapóiam na idéia de precariedade do funcionamen-to neuronal/genético, a diagnóstica não tem comoevidenciar tal disfunção por meio dos testes/exa-mes de fala/linguagem. Por sua vez, restará à tera-pêutica garantir constantemente o monitoramentoda fala e o controle dos aspectos ambientais, já queprescinde de uma intervenção direta (cirúrgica, me-dicamentosa) sobre o déficit corporal (Oliveira eFriedman, 2005; Oliveira, 2004).Na vertente centrada no sujeito, que desenvol-veremos aqui de modo mais aprofundado porque écom ela que se alinha o presente artigo, propõe-seuma estrutura de clínica que mantém a necessáriahomogeneidade e a covariância entre os quatro ele-mentos para sustentar uma intervenção clínico-terapêutica coesa e coerente.Com base nessa vertente, quanto à semiolo-gia ,  entendemos que se trata de um sintoma de lin-guagem que se dá a ver no corpo/fonoarticulação,mas cujo funcionamento está submetido à lingua-gem que faz movimento na relação do sujeito como outro, relação essa que tem como efeito tornargaguejada a forma como a fala se apresenta. Res-saltamos que entender a gagueira como linguagemnão é desconsiderar sua face motora, mas entenderque tal aspecto não pode ser concebido de formaisolada dos processos de subjetivação do corpo (osquais, no presente artigo, se referem à constituiçãode uma imagem de si como mau falante) que vãoencontrar na cultura e nas relações intersubjetivassua marca fundamental. É dessa perspectiva que osintoma passa a ganhar status de linguagem e nãode doença.Para compreender tal perspectiva, (...) é preciso supor que a linguagem é fundante dosujeito, que ela o determina como tal. Com isso,não se acredita em dois tempos para o homem, acre-dita-se que a linguagem é um sempre  já-aí  , nadapreexiste a ela. (Salfatis e Palladino, 2001, p. 32) Dessa perspectiva e para aprofundar a compreen-são do sintoma-gagueira como linguagem, segui-mos com Arantes (2003), que afirma: (...) se o sintoma é na fala, certamente o falante, suacondição-sujeito, está implicado. Daí que a clínicade linguagem só se justifica a partir da solidarieda-de entre processo de subjetivação e processo de es-truturação da linguagem. (P. 62) Nesse sentido, encontramos nos casos de gagueiraum processo de subjetivação estigmatizador, queleva à estruturação de uma fala gaguejada.Ao entendermos a gagueira como um sintomae este como um acontecimento de linguagem, te-mos que assumir duas condições para o sintoma-gagueira: sua opacidade e sua dispersão. A opaci-dade da linguagem se refere à impossibilidade deapreendermos de modo imediato e linear as signi-ficações. Assim, também o sintoma gagueira nãose apresenta ao clínico de modo linear e transpa-rente, pois, ao revelar certos modos de ser do sujeito       A     R     T     I     G     O     S 226  Distúrbios da Comunicação, São Paulo, 18(2): 223-233, agosto, 2006 Polyana S. de Oliveira, Silvia Friedman e de sua situação de fala, encobre as condições sub- jetivas que a sustentam. O sintoma de linguagemrequer do terapeuta uma abertura para a polisse-mia discursiva, pois os sentidos se darão na singu-laridade do caso e na possibilidade de o terapeutarealizar interpretações sobre o dizer do paciente. Adispersão se refere à diversidade de processos – oideológico, o cultural, o histórico, o psíquico – quesobredeterminam as significações, ou seja, refere-se a uma série de sentidos e significados que seentretecem na constituição do sintoma. Dessemodo, essa pluralidade de fatores heterogêneoscompõe o sintoma, tornando-o complexo e dinâ-mico, passível de ser captado a partir do contextono qua1 se apresenta. Assim também o sintomagagueira implica uma sobredeterminação simbóli-ca, na medida em que uma rede de significações esentidos vai a ele se prendendo. Por isso, a tramanarrativa que se instaura a partir dessa rede vai li-gando a materialidade do sintoma (hesitações, blo-queios, repetições, etc.) aos aspectos subjetivos,discursivos, culturais, sociais de cada sujeito.Essa sobredeterminação evidencia a impossi-bilidade de se estipular uma direcionalidade para osintoma, como se a gagueira fosse fruto linear deacontecimentos internos (falhas no processamentomotor, por exemplo), ao quais se somam conse-qüências externas ao sujeito (complicações emocio-nais e sociais, por exemplo). Em outras palavras,um acontecimento complexo como um sintoma delinguagem não poderia ter uma srcem determina-da apenas pelo organismo ou pelo psíquico, ou pelasociedade e cultura. Isso implicaria o esvaziamen-to da complexidade. Assim, quanto à etiologia, nãose procura uma delimitação topográfica para a ga-gueira e não se considera a justaposição linear defatores ou causa multidimensional (Andrade, 2004)na sua constituição. Quando o sinal gagueira (se-miologia) é lido desde sua face simbólica (lingua-gem), sua srcem é interpretada a partir da tramanarrativa que se inaugura com a queixa do pacien-te e aos poucos se revela o modo como os aspectossociais, psicológicos e orgânicos estão ali entrete-cidos. Por intermédio da trama narrativa, portanto,o sintoma-gagueira mostra seu significado , ou seja,aquilo que ele contém de fechado e cristalizado navisão dos que dele falam e também mostra seu sen-tido , naquilo que ele tem de aberto, imprevisível,inédito, 1  e que determinará a singularidade do caso.É desse lugar que a diagnóstica procede, le-vando em consideração o sujeito da/na linguagemdistante de uma tentativa de homogeneizá-lo emtipologias, escalas de severidade ou padronizaçõesde habilidades motoras, comportamentais e lingüís-ticas. O sintoma-gagueira é avaliado pela/na dialo-gia constituída na interação terapeuta-paciente, nãosendo considerado como subproduto de um maufuncionamento orgânico. O diagnóstico é uma lei-tura das condições de produção discursiva na qualo sujeito se encontra, considerando sua história,atravessada pelas condições socioculturais, pelasrelações familiares e pela inscrição do sintoma nalinguagem e no corpo. Portanto, leva em conta osujeito e o seu dizer, o relato que faz de si e de suafala, suas associações, todas revelando para o tera-peuta por onde caminha o sintoma.A terapêutica ( therapeutiké , substantivo gre-go: “cuidar, tratar, curar”) é permeada por doismovimentos, a escuta da trama narrativa construí-da pelo falante e a interpretação, que é o ato deconfrontar significados para que sentidos possamemergir. A emergência de novos sentidos pode fa-zer circular o que estava paralisado, enquistado;sendo assim, a interpretação é ato submetido aosefeitos da fala do paciente no terapeuta, que põeum discurso em funcionamento, gerando efeitos te-rapêuticos no paciente.Nessa direção, a terapêutica estrutura-se: 1. Pelaassimetria assumida pelo terapeuta diante do pa-ciente e da família (nos casos de gagueira infantil), ouseja, o terapeuta não tem como objetivo correspon-der ao apelo do paciente para que se adapte a suafala com gagueira ao modelo idealizado sociocultu-ralmente como normal. O terapeuta não correspon-de à expectativa ilusória do paciente de encontrarnele o oráculo que o libertará do mal que acomete asua fala; 2. Pela confrontação de significados quemobiliza o terapeuta na dialogia para os aspectosque revestem e implicam o sintoma com a estigma-tização, com a ideologia, com a cristalização de umaposição de sujeito cuja fala manca, falta, vacila.3. Pela desconstrução do sintoma-gagueira no cor-po/fala, ou seja, por meio da abordagem da materia-lidade do sintoma, lidando com o corpo/fonoarti-culação de forma sensível para que a fala se mani-feste em sua fluência/disfluência/gagueira e, assim,em qualquer uma dessas posições/movimentos pos-samos garantir o sentido de autoria na/da fala do 1 Esse modo de definir significado e sentido é tomado da obra Todos os nomes , de José Saramago (1997).

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Apr 16, 2018
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