Slides

A obra do cineasta mais velho do mundo em actividade (net)

Description
1. A Obra do Cineasta Mais Velho do Mundo em actividade<br />Manoel Cândido Pinto de Oliveira, mais conhecido por Manoel de Oliveira, nasceu no Porto, a 11 de…
Categories
Published
of 30
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  • 1. A Obra do Cineasta Mais Velho do Mundo em actividade<br />Manoel Cândido Pinto de Oliveira, mais conhecido por Manoel de Oliveira, nasceu no Porto, a 11 de Dezembro de 1908, embora a data oficial do seu nascimento seja 12 de Dezembro, dia em que foi registado. É um cineasta português, até a data conta, entre curtas e longas-metragens, trinta e quatro e é tido como o mais velho realizador em actividade no mundo. É o mais novo de três irmãos, oriundos de uma família de industriais abastados, viveu a adolescência sonhando ser actor. Estudou primeiro no Colégio Universal no Porto, posteriormente foi para a Galiza onde ingressou no colégio Jesuíta de La Guardia. Foi no âmbito do desporto, nomeadamente no atletismo, natação, remo, ginástica, automobilismo, tendo sido campeão de salto à vara, que Manoel de Oliveira se tornou inicialmente conhecido. No entanto, o gosto pelo cinema nasceu cedo. Foi pela primeira vez ao cinema, acompanhado pelo seu pai, quando tinha apenas cinco ou seis anos. Seguindo depois os filmes de Charles Claplin e de Max Linder. Aos 19 anos estreou-se a trabalhar, colaborando com o pai, na indústria e na gestão agrícola das propriedades rurais. Ao mesmo tempo, cultivou uma vida estúrdia e de enriquecimento cultural frequentando assembleias literárias. Depois, já com vinte anos de idade, decidiu frequentar sob o pseudónimo de Rudy Oliver, a escola de actores (para cinema) que o realizador italiano Rino Lupo abriu na cidade do Porto, um dos pioneiros do cinema português de ficção.<br />Foi através de Rino Lupo que Manoel de Oliveira se estreou no cinema como figurante, no filme Fátima Milagrosa em 1928, juntamente com o seu irmão Casimiro de Oliveira.<br /> A fortuna familiar foi indispensável para o arranque da sua carreira. O pai não só lhe comprou uma câmara de filmar, da marca Kimano, como financiou as latas de película necessárias. Juntamente com um amigo que gostava de fotografia chamado António Mendes e, inspirado no documentário Berlim, Sinfonia de uma Cidade, do realizador Walther Ruttmann, decidiu fazer um filme desse carácter, uma curta-metragem intitulada Douro, Faina Fluvial, que preludiou a 21 de Setembro de 1931, em versão muda. António Lopes Ribeiro, que viu esse filme ainda em execução, propôs a sua apresentação no V Congresso Internacional da Crítica. <br />No entanto, quando esse filme foi apresentado ao público português não foi bem sucedido, mas esse facto não fez com que Manoel de Oliveira perdesse o gosto pela arte cinematográfica.<br />O gosto pela representação levou-o a participar, em 1933, como actor no filme A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo, contracenando com Vasco Santana. Passado um ano (1934) estreou a versão sonora de Douro, Faina Fluvial, além fronteiras, que o consagrou como cineasta.<br />Manoel de Oliveira realizou, entretanto, outros documentários do ponto de vista etnográfico:<br /> Estátuas de Lisboa (1932);  Os Últimos Temporais: Cheias do Tejo  (1937); Miramar, Praia das Rosas (1938); Coração  (1958); Famalicão (1941).<br />Em 1938, o Jornal Português faz manchete: "II RAMPA DO GRADIL GANHA POR MANOEL DE OLIVEIRA, NUM CARRO EDFORD". Nesse ano, realizou também o documentário Já se Fabricam Automóveis em Portugal <br />No dia 4 de Dezembro de 1940 Manoel de Oliveira casou com Maria Isabel Brandão Carvalhais. Desse casamento nasceram quatro filhos, Manuel Casimiro Brandão Carvalhais de Oliveira (nascido em 1941), José Manuel Brandão Carvalhais de Oliveira (nascido em 1944). Isabel Maria Brandão Carvalhais de Oliveira (nascida em 1947), Adelaide Maria Brandão Carvalhais de Oliveira (nascida em 1948).<br />Realização do filme Aniki-Bóbó<br />Em mil novecentos e quarenta e dois, após ter abandonado o automobilismo, Manoel de Oliveira realizou a sua primeira longa-metragem de ficção com o título de Aniki-Bóbó, que  estreou a 18 de Dezembro desse mesmo ano, em Lisboa, no cinema Éden. O filme inspirava-se no conto Meninos Milionários da autoria de João Rodrigues de Freitas (1908 - 1976) escritor e advogado e foi quase todo rodado em exteriores, nas zonas ribeirinhas do Porto e de Gaia, com pouco mais que uma câmara de filmar. Porém, a acção não decorre nessa cidade mas sim numa cidade fictícia.<br />REALIZAÇÃOManoel de OliveiraADAPTAÇÃOManoel de OliveiraARGUMENTOManoel de Oliveira, segundo a obra "Meninos Milionários", de João Rodrigues de Freitas.DIÁLOGOSManoel de Oliveira, Manuel Matos, António Lopes Ribeiro, Nascimento FernandesPRODUÇÃOAntónio Lopes RibeiroPortugal | 1942 | Preto e Branco| 35 mm | pb | 1937 mt* | 70 mnPOEMAAlberto SerpaFOTOGRAFIAAntónio MendesASSISTENTE DE FOTOGRAFIAPerdigão Queiroga e Cândido SilvaCENÁRIOSJosé PortoCENOGRAFIASilvino VieiraCARACTERIZAÇÃOAntónio VilarDECORAÇÃO/ SOM / ASSISTENTE DE SOM /MÚSICAJosé PortoLETRA DAS CANÇÕESAlberto de SerpaASSISTENTE GERALManuel GuimarãesFOTÓGRAFO DE CENAJoão MartinsMONTAGEMVieira de SousaINTÉRPRETESNascimento Fernandes (lojista), Fernanda Matos (Teresinha), Horácio Silva (Carlitos), António Santos (Eduardinho), António Morais Soares (Pistarim), Feliciano David (Pompa), Manuel Sousa (o "Filósofo"), António Pereira (o "Batatinhas"), Américo Botelho (o "Estrelas"), Rafael Mota (Rafael), Vital dos Santos (Professor), Manuel de Azevedo (cantor de rua), António Palma (Freguês), Armando Pedro (Caixeiro), Pinto Rodrigues (Polícia).ASSISTENTE DE PRODUÇÃOFernando GarciaESTÚDIOSTóbis PortuguesaESTREIAEdén Teatro – 18 de Dezembro de 1942ORÇAMENTO700 ContosPRÉMIOSDiploma de Honra no II Encontro de Cinema para a Juventude, Cannes, 1961<br />Ficha técnica<br /> A história retrata a rivalidade entre dois miúdos, Carlitos (actor, Horácio Silva) e Eduardinho (actor, António Santos).  Um é insolente, valentão e astucioso, enquanto o outro é retraído, benigno e sossegado. A rivalidade entre ambos vai aumentando no decorrer do filme, devido ao interesse que fortalecem pela mesma rapariga, Teresinha (actriz, Fernanda Matos). Carlitos sabia que a menina gostava e desejava ter uma boneca para si, para conquistar as suas boas graças. Então decide saquear uma na loja das tentações, aproveitando a desatenção do lojista (actor, Nascimento Fernandes). Teresinha fica muito contente com a boneca e começa a dar mais atenção ao Carlitos.Um dia, quando o grupo de amigos na brincadeira assiste à passagem de um comboio, Eduardinho escorrega, rolando pelo morro, caindo a poucos metros da linha férrea, ficando gravemente ferido. Todos pensaram que fora Carlitos a empurrá-lo e afastaram-se dele. Carlitos pensa abalar, num barco que estava atracado no cais do rio, por se sentir sozinho e desamparado pelos amigos, mas é descoberto.O lojista que tinha sido testemunha do acidente, restitui a verdade, retirando as suspeitas de cima do Carlitos. Todos se conciliam com o rapaz e voltam às recreações dos polícias e ladrões, ou seja, ao jogo do Aniki-Bóbó, fórmula mágica que nas brincadeiras de crianças permite determinar, sem discussão, quem é polícia e quem é ladrão.O filme transmite uma mensagem de paz, de reconciliação feita através do dono da "loja das tentações", a todos os jovens perdidos em rivalidades inúteis. Faz um apelo à amizade, à compreensão sentida, verdadeira e real dentro das normas de convivência.Ainda que seja um filme onde os protagonistas são crianças, não é um filme para crianças. Alguns críticos terão talvez pensado que o filme transmitia ideias erróneas sobre a vida e a inocência das crianças.Críticas da época"A fita é uma infame cilada armada à inocência das crianças e à imprevidência dos pais. É uma verdadeira monstruosidade”“Jornal Cidade de Tomar” de 24/01/1943“Manoel de Oliveira construiu uma história de amor infantil como fulcro e articulou neste alguns dos elementos que constituem parte da vivência psíquica de garotos daquela idade e daquele viver: o tédio de uma escola arcaica, mas ainda corrente entre nós, o medo da polícia, as lendas que envolvem o mistério da morte, o jogo dos polícias e ladrões.”Rui Grácio no Horizonte de 13/01/1943”Uma tarde de Agosto, fez este verão um ano, Manoel de Oliveira leu a algumas pessoas, entre as quais me encontrava, a história de Aniki-Bóbó que não tinha ainda este título tão impopular. A história foi discutida durante horas e Manoel de Oliveira defendeu-a com entusiasmo de quem havia imaginado e desenvolvido. Quanto a mim, considerei-a, desde logo, anti-comercial – e demasiadamente literária para poder suportar a ampliação humana que a tela, necessariamente lhe conferiria. Procurámos convencer Manoel de Oliveira que a sua história carecia de verdade humana e que, com outro desenvolvimento, que unisse aquelas crianças em torno de uma boa acção, lhe faria perder o ar de “Dead End Kids” tripeiros, com vantagem para o espectáculo e para a acção construtiva de que o filme, e sobretudo o filme português não deverá alhear-se. Esta norma é tanto mais para ponderar quando se trata do chamado cinema sério, do cinema em que se faz Arte pela Arte.”Fernando Fragoso na Vida Mundial de 07/01/1943”De uma grande honestidade, com pedaços de límpido cinema, tudo bem equilibrado, interpretação admirável, cingida, certa, expressividade, este filme dá o encanto das coisas despretensiosas e belas, no seu aprumo de simplicidade emotiva, recortada duma intenção social irónica e popular. Um artista, muito artista, este Manoel de Oliveira.”Poeta António Botto, in Jornal Os Sport de 04/01/1943Quando o filme estreou no cinema Éden foi mal recebido pelo público que o vaiou, sendo mesmo um fracasso comercial, havendo pessoas que criticaram este trabalho e o realizador. O valor e a importância desta obra só foram unanimemente reconhecidos muito após a sua estreia, encarregando-se o tempo de tornar Aniki-Bóbó numa obra-prima do cinema português, apesar de muitos dos protagonistas serem actores amadores. O filme é exibido noutros países, tendo sectores da crítica apontado como o precursor do neo-realismo.Quanto ao acolhimento internacional de Aniki-Bóbó,  é curioso referir que em 1961, praticamente vinte anos depois da sua realização, recebeu o Diploma de Honra no II Encontro de Cinema para a Juventude, em Cannes.Aniki-Bóbó, hoje é reconhecido por todos como um grande clássico do cinema português, tendo sido recentemente restaurado, encontrando-se de novo em exibição nas salas de cinema portuguesas desde o dia 8 de Dezembro de 2010, nas vésperas do centésimo segundo aniversário de Manoel de Oliveira.Talvez por Aniki-Bóbó não ter tido sucesso, mesmo tendo inúmeras ideias no papel, Manoel de Oliveira decidiu afastar-se e esteve catorze anos sem filmar. Nesta fase, chegou mesmo a considerar que a sua actividade como cineasta tinha chegado ao fim, envolvendo-se nos negócios das empresas da família durante esse período. Porém, não perdeu a paixão pelo cinema e em 1955 viajou para a Alemanha, mais propriamente Leverkussen, onde fez estágio nos Laboratórios Agfa, estudou a cor no cinema e técnicas fotográficas.Quando regressou desse estágio,  encetou uma nova curta-metragem sobre a obra plástica do pintor António Cruz na sua relação com a cidade do Porto, com o titulo O Pintor e a Cidade. O filme foi apresentado nos festivais de Veneza e de Cork (na Irlanda), tendo sido premiado no festival de Cork com a Harpa de Prata, o primeiro prémio internacional da sua carreira.Em 1959, desta feita patrocinado pela Federação Nacional dos Industriais de Moagem, realizou outro documentário, com o titulo O Pão.Os anos sessenta consagram Manoel de Oliveira no plano internacional, a partir de Itália e de França. É homenageado no Festival de Locarno, em 1964, sendo a sua obra apresentada na Cinemateca de Henri Langlois, Paris, em 1965. Vemos que, no estrangeiro, Manoel de Oliveira recebia o reconhecimento que, em Portugal, quase sempre lhe foi negado, de certa forma, ainda hoje. Tal facto dever-se-á à mentalidade portuguesa, numa época em que a censura exercia uma enorme pressão sobre todas as formas de arte.O SNI (Secretariado Nacional da Informação Cultural Popular e Turismo), fundado em 1944, através do Fundo do Cinema Nacional, financia a curta-metragem A Caça (finalizada só em 1963) e a longa-metragem Acto da Primavera (1962), os filmes que definitivamente marcam o renascimento do realizador.O filme O Acto da Primavera marcou uma nova fase do seu percurso. Praticamente ao mesmo tempo que António Campos (realizador), Manoel de Oliveira iniciou em Portugal a prática da antropologia visual no cinema, prática essa que seria amplamente explorada por cineastas como João César Monteiro, na ficção, como António Reis,  Ricardo Costa e Pedro Costa, no documentário. Os filmes  O Acto da Primavera e A Caça são obras marcantes na carreira de Manoel de Oliveira. O primeiro filme é representativo enquanto incursão no documentário, trabalhado com técnicas de encenação e o segundo como ficção pura, em que a encenação não se esquiva ao gosto do documentário.Os filmes deste cineasta são autênticas peças de teatro, com recurso a poucas tecnologias (pouco mais do que uma câmara de filmar). A teatralidade permanente de O Acto da Primavera afirmar-se-ia como estilo pessoal, como forma de expressão que Manoel de Oliveira achou por bem explorar nos seus filmes seguintes, apoiado por reflexões teóricas de amigos e conhecidos comentadores. Trata-se de uma transposição fílmica da representação popular do Auto da Paixão, tendo por base um texto de Francisco Vaz de Guimarães, datada do séc. XVI. Rodado na aldeia de Curalha, no concelho de Chaves, em Trás-os-Montes, o filme teria consultoria do escritor José Régio e dele viria a ser feita uma versão francesa, supervisionada por António Lopes Ribeiro. Esta longa-metragem, realizada há quase 50 anos, valeu a Manoel de Oliveira dez dias de cadeia na PIDE. Por se tratar de um filme ligado à religião, alguns diálogos da película geraram inquietação nos agentes do regime. Foi o suficiente para ser levado pela polícia política do regime de Salazar para a prisão, em Lisboa. Mais uma vez, vemos a PIDE em acção.«Tive problemas com a PIDE porque a PIDE não era propriamente religiosa.Fazia parte da defesa de uma ditadura feroz e eu era contra essa ditadura e manifestei-o numa conversa»«Passei lá uns dez dias, ou coisa parecida, mas depois houve um movimento forte cá fora e eu vim para fora ao fim desse tempo. Mas foi uma experiência»Declarações de Manoel de Oliveira, lusa / sol 3 de Setembro,  2010Manoel de Oliveira regressa em 1964 a Trás – os – Montes, desta vez para produzir o documentário  Villa Verdinho, Uma Aldeia Transmontana. A película retrata a visão do realizador sobre uma aldeia transmontana e foi realizada para oferecer a um amigo, razão pela qual nunca foi exibido publicamente. O filme ficou na posse desse amigo, e depois da sua família, sem nunca ter sido exibido publicamente. Mais de 40 anos depois, a família autorizou a projecção do filme, a pedido da Fundação de Serralves e do próprio Manoel de Oliveira. Neste documentário sobressai a música de José Afonso, nomeadamente a canção "Grândola, Vila Morena", que viria, dez anos depois, a ser uma das senhas radiodifundidas do Movimento dos Capitães na revolução de 25 de Abril 1974.A obra do pintor Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão do escritor José Régio, é o alvo para um curto documentário,  As Pinturas do Meu Irmão Júlio, decorria o ano de 1965. Em 1966 realizou um documentário com título O Pão, e trabalhou como supervisor no filme  A Propósito da Inauguração de Uma Estátua - Porto 1100 Anos, de Artur Moura, Albino Baganha e António Lopes Fernandes.A obra de Manoel de Oliveira é uma referência para a crítica e para os cineastas do chamado "Cinema Novo". Em torno da sua figura, em 1967, elaboram um manifesto em que são expostas as exigências de profissionais do cinema, e batalham por uma dignificação da sua actividade. Manoel de Oliveira começa a década de 70 como supervisor no filme Sever do Vouga… Uma Experiência (1970) de Paulo Rocha. A Fundação Gulbenkian acabará por passar a apoiar o cinema português, patrocinando, de certo modo, o Centro Português de Cinema (C.P.C.), uma cooperativa de cineastas que cria um plano de produção de filmes para os primeiros anos da década de 70. A primeira obra a ser produzida pela C.P.C. (Centro Português de Cinema) será O Passado e o Presente  (1971), de Manoel de Oliveira. Trata-se de uma adaptação de uma peça de Vicente Sanches a que Manoel de Oliveira acentua o tom caricato, nomeadamente ao optar por uma linguagem artificial, desvinculada do português falado na época, e por uma direcção de actores visando a teatralidade.Benilde ou a Virgem MãeNo primeiro trimestre de 1974 foi revelada, pelo Instituto Português de Cinema (I. P. C.), uma lista para atribuir subsídios. Era uma lista inaugural e nela se incluíam vários cineastas que o marcelismo se via constrangido a reconhecer, apesar de não serem próximos do regime. Um deles foi Manoel de Oliveira, subsidiado para fazer a adaptação de uma peça de José Régio,  Benilde ou a Virgem Mãe. Entretanto, aconteceu a revolução do 25 de Abril e a maior parte dos projectos acabou por nunca se fazer. Com Manoel de Oliveira não sucedeu assim. Enquanto o país fazia a Revolução, o realizador fechou-se nos estúdios da Tobis, ocupado com a longa-metragem Benilde ou a Virgem Mãe. Este é mais um trabalho com base na teatralogia (teatro) do cinema, ou seja, pela representação da representação. O filme começa com um plano sequência da câmara a entrar nos bastidores do filme, ou seja, a mostrar-nos onde a acção se irá desenrolar. Daí ser uma representação da representação. Uma obra extraordinária e das menos conhecidas do seu autor, estreou a 4 dias do 25 de Novembro, sofreu o recolher obrigatório e saiu de cena sem mais demoras. Baseando-se na peça homónima de José Régio, datada de 1947, Manoel de Oliveira escreveu o argumento e realizou, em 1974-75, um dos filmes mais incompreendidos da sua carreira enquanto cineasta. Essa incompreensão pode ser explicada de diversas maneiras. Pela data de estreia, situada a poucos dias do 25 de Novembro de 1975 e pela temática, entre outras, pois pretende denunciar uma hipocrisia religiosa e social latente. É um filme colorido, com uma duração de 1h 52m. A história desenrola-se no Alentejo, numa grande casa isolada, suspeita-se que a filha dos proprietários, Benilde, está grávida. A governanta, Genoveva, chama o médico em segredo que confirma o seu estado de gravidez. Mas Benilde jura que não conheceu nenhum homem, e que se está à espera de um filho é por vontade de um Anjo de Deus. Um vagabundo circunda a casa, com uivos horríveis, sem nunca ser visto. A convicção de Benilde perturba todos à sua volta, particularmente a sua tia, que procura explicações mais razoáveis. Benilde anuncia a Eduardo, seu noivo, aniquilado pelos factos, que vai morrer em breve. Na hora da morte diz-lhe que em breve se encontrarão. Do único cenário, a casa de Benilde, Manoel Oliveira só sai duas vezes: no início, quando um fulgurante travelling (viajante) atravessa o espaço imenso e vazio do estúdio de cinema até entrar por um quadro (com uma paisagem do Alentejo) na cozinha (estúdio) no primeiro acto da peça, e no final, quando, após a morte de Benilde, a câmara eleva-se e regressa ao estúdio vazio por um buraco existente no tecto. É o cinema que invade o teatro, num jogo de alçapões e sótãos, como se sob a profundidade do primeiro se escondesse no espaço do segundo. E é dos subterrâneos do cinema que emerge essa história misteriosa em que é legítimo ver-se também a parábola do país perdido que fomos e somos e a impossibilidade de rapidamente o transformar.Apesar de a revolução já ter acontecido, os valores morais (ou melhor, moralistas), por vezes feitos de uma enorme hipocrisia, permanecem. As mentalidades não se mudam com revoluções nem decretos, mas sim com a passagem dos anos e, até, das gerações. Na
  • We Need Your Support
    Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

    Thanks to everyone for your continued support.

    No, Thanks