Government & Politics

A VIOLÊNCIA NA VIDA COTIDIANA DE FAMÍLIAS VIOLENCE IN THE DAY-TO-DAY LIFE OF HOSTELED FAMILIES: THEIR SUFFERING AND SOCIAL RESIGNATION

Description
A VIOLÊNCIA NA VIDA COTIDIANA DE FAMÍLIAS ALBERGADAS: SEUS SOFRIMENTOS E CONFORMAÇÃO SOCIAL Angela Maria Pires Caniato Regina Perez Christopholli Abeche Silvia Aparecida Horvath Bastian RESUMO A pesquisa
Published
of 17
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
A VIOLÊNCIA NA VIDA COTIDIANA DE FAMÍLIAS ALBERGADAS: SEUS SOFRIMENTOS E CONFORMAÇÃO SOCIAL Angela Maria Pires Caniato Regina Perez Christopholli Abeche Silvia Aparecida Horvath Bastian RESUMO A pesquisa que originou este texto é um dos desdobramentos do Projeto de Pesquisa-Intervenção Phenix: a ousadia do renascimento da subjetividade cidadã (PHENIX) que se atualiza com populações pauperizadas da periferia de Maringá. Levantamos a História de Vida das famílias albergadas no Núcleo Social Papa João XXIII, acompanhando suas trajetórias de vida nas imigrações contínuas pela busca de trabalho. Este artigo é uma das teorizações dos dados dessa pesquisa-intervenção que teve a história de vida como principal procedimento. Ela complementa a compreensão de muitos adolescentes que delas são originários e com os quais interagimos semanalmente no CESOMAR (Centro Social Marista). Desvelamos a história de inserção psicossocial desses indivíduos tendo como embasamento teórico a Psicanálise sob a perspectiva da psicopolítica de Theodor Adorno. Constatamos o cotidiano de violência e sofrimento que atravessa a vida dessas famílias na luta pela sobrevivência e a maneira como suportam a tutela e o controle de instituições assistencialistas. Palavras-chave: Violência social. Opressão e exclusão. Sofrimento psicossocial. VIOLENCE IN THE DAY-TO-DAY LIFE OF HOSTELED FAMILIES: THEIR SUFFERING AND SOCIAL RESIGNATION ABSTRACT Current text refers to the Research Intervention Project Phoenix: daring in the rebirth of subjectivity and citizenship involving pauperized populations living in the outskirts of Maringá PR Brazil. A survey on the history of the lives of family hosteled at the Pope John XXIII Social Nucleus is provided and the life trajectory of their continuous migrations in search of jobs has been followed. Essay deals with theorizing on data of current research foregrounded on their life histories. Professora Doutora do Curso de Mestrado em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá UEM e Psicóloga Clínica. Endereço: Universidade Estadual de Maringá, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia. Avenida Colombo, Zona Sete Maringa, PR - Brasil. Professora Doutora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá UEM, Psicóloga Clínica. Psicóloga, Especialista em Ciências Sociais: Políticas Públicas/ Universidade Estadual de Maringá. Angela Maria Pires Caniato; Regina Perez Christopholli Abeche & Silvia Aparecida Horvath Bastian Research supplements the understanding of several teenagers hailing from these families and who are attended weekly by our group at the Marista Social Center (CESOMAR). Analysis of the history of the individuals psychosocial insertion is based on Psychoanalysis within the perspective of Adorno s psychopolitics. The daily violence and sufferings in the life of the families have been investigated in their struggle for survival and the meaning of tutelage and control of assistance institutions has been evaluated Keywords: Social violence. Oppression and exclusion. Psychosocial suffering. 1. INTRODUÇÃO Este artigo corresponde a uma das frentes de trabalho do projeto de Pesquisa-Intervenção Phenix: a ousadia do renascimento da subjetividade cidadã, que está vinculado ao Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá e é coordenado pelas Prof as Dr as Angela Maria Pires Caniato e Regina Perez Christofolli Abeche. O Projeto Phenix se desenvolve em duas etapas, a saber: em primeiro lugar, a prática, que consiste na atuação dos acadêmicos do Curso de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM) junto ao Cesomar (Centro Social Marista). Essa práxis se realiza por meio de reuniões semanais com grupos de adolescentes pauperizados da periferia da cidade nas quais, inicialmente, são levantadas as questões demandas a serem discutidas nos encontros posteriores com os grupos de adolescentes com os quais interagimos. A segunda etapa consiste na preparação teórica dos acadêmicos participantes do Phenix, com o objetivo de fundamentar as discussões que constituem a parte prática junto aos adolescentes. Na práxis desenvolvida por este projeto, temos como fundamentação epistemológica a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt cujo fundamento está na perspectiva de que o homem é produtor e produto da cultura em que vive. Na pesquisa, que fundamenta este artigo, levantamos a História de Vida de algumas das famílias desses adolescentes que moram em sistema de comodato e sob orientação de irmãs de caridade no Núcleo Social Papa João XXIII, residentes nas proximidades do CESOMAR. O nosso objetivo foi o de compreender não só a exclusão social dessas famílias e de seus filhos, como também identificar o sofrimento psicossocial por que atravessam em suas vidas cotidianas na busca do atendimento às suas necessidades básicas de sobrevivência, trabalho e moradia. O artigo está organizado, inicialmente, com as características do Núcleo Social Papa João XXIII, instituição assistencial religiosa que desenvolve um Programa de Promoção Humana. O projeto alberga essas famílias durante quatro anos em casas, sob o regime de comodato e de contenção de despesas, tendo a expectativa de que tais famílias venham a adquirir suas casas próprias. 90 Fractal Revista de Psicologia, v. 20 n. 1, p , Jan./Jun. 2008 A violência na vida cotidiana de famílias albergadas: seus sofrimentos e conformação social Trata-se de uma pesquisa qualitativa que segue os parâmetros metodológicos de uma pesquisa-intervenção, na forma de realização do projeto Phenix, do qual é uma extensão. Tem como procedimento a História de Vida, cuja especificidade está definida neste artigo. São analisados os resultados desse levantamento, levando-se em consideração a trajetória de vida e o contexto social do qual essas famílias são originárias, as influências atuais sobre suas vidas com a proposta institucional do Núcleo Social Papa João XXIII, já que ali vivem provisoriamente albergadas. Tratamos de algumas vicissitudes do cotidiano da vida dessas pessoas, destacando a violência social como a característica básica de suas histórias de vida na busca pela sobrevivência. Examinamos as implicações dessa violência em seus vínculos psicossociais para analisar o sofrimento subjetivo causado desde a exclusão social até o sufocamento de suas individualidades pelo status quo opressor. As análises aqui desenvolvidas foram discutidas com as famílias durante um período de mais ou menos seis meses e continuam servindo de subsídio ao trabalho realizado com os adolescentes do CESOMAR pelo Projeto de Pesquisa Intervenção Phenix: a ousadia do renascimento da subjetividade cidadã. 2. AS TAREFAS DO NÚCLEO SOCIAL E AS FAMÍLIAS AÍ ALBERGADAS O tema deste estudo está baseado nas histórias de vida de famílias agregadas à instituição filantrópica Núcleo Social Papa João XXIII na cidade de Maringá - Paraná. São pessoas que buscam, nessa entidade, o amparo e o espaço físico para se fortalecerem, ou mesmo, para tentarem superar as mazelas que a vida lhes vêm trazendo. Essas situações estão ligadas ao desemprego, às reduzidas possibilidades de trabalho, à contínua e desenfreada mecanização agrícola que expulsa violentamente o homem do campo, levando-os a migrarem e, conseqüentemente, a uma mudança forçada de cultura. Além dessas contingências econômicas hostis, recai sobre essa população decisões políticas pouco favoráveis aos excluídos na realidade brasileira. As famílias que são o objeto de estudo neste trabalho, isto é, cujas histórias de vida foram levantadas por meio de entrevistas gravadas, estão inseridas no Programa de Promoção Humana oferecido pelo Núcleo Social, cuja proposta principal visa a auxiliá-las na aquisição (conquista) da casa própria e uma intervenção que pretende promover a melhoria nas relações dentro da família. Na trajetória das histórias de vida dessas pessoas evidenciamos uma enorme procura pela sobrevivência que muitas vezes desemboca no esgarçamento da convivência e em uma expressiva dificuldade na formação e na manutenção de vínculos. O Núcleo Social Papa João XXIII, 1 fundado em 9 de dezembro de 1972, 2 ocupa uma área de m², cedida, provisoriamente, pela Prefeitura de Maringá à Mitra Arquidiocesana, na qual foram construídas as primeiras Fractal Revista de Psicologia, v. 20 n. 1, p , Jan./Jun Angela Maria Pires Caniato; Regina Perez Christopholli Abeche & Silvia Aparecida Horvath Bastian dez casas de madeira, subdivididas em três quartos, sala, cozinha, banheiro e alpendre. O material foi proveniente de escolas, igrejas e residências demolidas, até mesmo, da antiga Catedral. Atualmente, a Arquidiocese possui os terrenos escriturados com uma cláusula específica de assistencialismo, ou seja, o objetivo é construir casas para serem cedidas provisoriamente para as famílias. O Núcleo Social possui 65 casas construídas em madeira ainda na década de 1970, que estão sendo substituídas por casas de alvenaria 3 destinadas às famílias e uma casa para a acomodação das Irmãs Vicentinas Filhas da Caridade 4 que atuam na comunidade e auxiliam na instituição. Essa entidade é administrada por uma Diretoria voluntária que está, há mais de 15 anos, à frente do programa. A diretoria é constituída por 12 membros e um Conselho Fiscal composto por seis pessoas, eleitos a cada dois anos em Assembléia Geral, com direito à reeleição. Conta ainda com o auxílio de cinco das Irmãs, principalmente, na coordenação do Programa de Promoção Humana. O Núcleo Social é assistido pela Mitra Arquidiocesana, Secretariado Fraternitá Papa João XXIII de Brescia (Itália), Congregação das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, ABEC Associação Brasileira de Educação e Cultura Irmãos Marista, UEM Universidade Estadual de Maringá, Rotary Club Maringá Colombo, Funcionários do Banco do Brasil e demais entidades religiosas, órgãos públicos e privados de Maringá. O Programa de Promoção Humana, desenvolvido pelo Núcleo Social Papa João XXIII, coordenado e executado pelas Irmãs Vicentinas, está subdividido em oito projetos menores que se sobrepõem ou, mesmo, complementam-se, constituído da seguinte forma: Seleção das Famílias; Apadrinhamento; Acolhimento e Acompanhamento; Orientação para a Aquisição da Casa Própria; Atendimento ao Público; Evangelização; Pastoral da Saúde e Senhoras Voluntárias. Às famílias selecionadas e, após a devida formalização de sua entrada no Programa, solicita-se o cumprimento das normas estabelecidas pela instituição, na forma de aceitação e participação em todos os subprojetos referidos. Em relação à conquista da casa própria, o Projeto prevê o acolhimento das famílias por um período de quatro anos, em uma das 65 casas, cedidas em regime de comodato e de parceria. O prazo previsto, estipulado pelo Núcleo, para a desocupação das casas, é o tempo considerado suficiente para que as famílias se restabeleçam ou se estruturem social e economicamente, fazendo uma poupança para que possam ter acesso às suas casas próprias. No contrato de comodato, além das disposições sobre os direitos e obrigações de ambos os lados comodante e comodatário e o tempo de permanência nas casas, estipula-se também um depósito mensal junto ao departamento financeiro, no valor equivalente a 12 sacos de cimento. 5 Esse dinheiro vai sendo creditado para a família para a futura aquisição da moradia. Poderá ser resgatado em dez parcelas quando de sua saída, caso não saia promovida, como a instituição entende a aquisição da casa própria. A família interessada fica encarregada de apresentar 92 Fractal Revista de Psicologia, v. 20 n. 1, p , Jan./Jun. 2008 A violência na vida cotidiana de famílias albergadas: seus sofrimentos e conformação social outra pessoa, que não esteja inserida no programa, para atuar como co-responsável e que, aderindo a esse pedido, compromete-se com a instituição para colaborar com a família em questão nos depósitos mensais. Caso necessário, essa pessoa, designado como padrinho ou madrinha, poderá ajudar, desde que não arque com o valor total. Tal procedimento é denominado Projeto de Apadrinhamento e a indicação poderá ser aceita ou recusada após o levantamento de informações sobre a vida desse indivíduo e deliberação da Administração do Núcleo. As casas que, inicialmente, nas décadas de 1970 e 19 80, eram cedidas às famílias, conforme a gravidade da situação de sobrevivência, agora são cedidas mediante um processo seletivo que observa alguns critérios, inclusive, morais. Os critérios adotados pelo Núcleo Social para a seleção das famílias que serão acolhidas estão fundamentados no preenchimento de uma Ficha de Apresentação da Família Requerente, seguido de uma triagem em que um representante da família, ou o casal, passa por uma entrevista com uma das Irmãs encarregadas dessa tarefa. Além desses procedimentos, a família requerente recebe uma ou mais visitas no local em que está residindo, ou mesmo hospedada, cumprindo-se, assim, a proposta do Projeto Seleção das Famílias. E ainda: Mais antigamente, assim, mais no começo, as pessoa que morava aqui era pessoa bem... que num tinha mesmo, né. A gente sempre fala, a gente é pobre, todo mundo é pobre, mais era só prá quelas pessoa beeem... que tinha aquele monte de criança, que num tinha mesmo donde segurá, né. Agora não, agora que daí a gente ficou sabendo que tava entrando assim, pessoas mais assim... aí a gente fez inscrição e deu... (Entrevista com OS). [...] porque naquele tempo eles pegava as pessoa assim, que, geralmente, mulher que tinha pobrema com marido, marido que bebia, então eles trazia pra cá pra dá uma força, né, prá ajudá as pessoa, né. Pelo menos, o que eu conheço era isso, né... das pessoa que morava aqui, era difícil pegar uma casa aqui também, né... e agora aqui pelo menos para mim foi fácil porque eu fiz inscrição aqui... a gente fez assim... vamo tentar, né, aí num deu nem dois meis, aí já saiu a casa, até a gente ficou admirado porque pelo que a gente sabia, sabia que tava difícil (Entrevista com OS). Alguns dos parâmetros observados para a seleção são: famílias com filho(s) menor(es), preferencialmente crianças, sem passagem anterior pelo Núcleo, sem história de vícios ou má conduta, imbuídos de vontade de trabalhar e com o desejo de se promoverem. Isto significa aceitar os acompanhamentos sistemáticos, realizados pelas Irmãs, as orientações para a aquisição da casa própria, a disposição para economizar e comprar seu terreno e o comprometimento na assinatura e no cumprimento de todas as cláusulas do contrato de comodato e no de parceria. Fractal Revista de Psicologia, v. 20 n. 1, p , Jan./Jun Angela Maria Pires Caniato; Regina Perez Christopholli Abeche & Silvia Aparecida Horvath Bastian Existe também um Termo de Compromisso que os moradores assinam quando entram no Programa, no qual as pessoas se comprometem a cumprir dez regras estabelecidas pelo Núcleo Social: participar das reuniões, encontros, palestras, cursos promovidos pela instituição; participar ativamente de encontros e celebrações religiosas; estabelecer controle e prioridade nos gastos; evitar vícios; buscar trabalho; respeitar os vizinhos; cumprir os contratos com o Núcleo; prezar pela educação dos filhos, valorizando a escola; ter zelo pela casa e manter o espírito fraterno. A escolha da população estudada aconteceu de forma intencional, já que havia no Núcleo Social Papa João XXIII, desde setembro de 2000, um trabalho desenvolvido pelo Projeto Phenix: a ousadia do renascimento da subjetividade cidadã junto aos adolescentes inseridos no Programa Governamental Agente Jovem. Dessa forma, decidimos por uma pesquisa envolvendo as famílias inseridas no Programa de Promoção Humana do Núcleo Social, uma vez que, em sua maioria, elas têm seus filhos, crianças e adolescentes, assistidos pelo Centro Social Marista Irmão Beno Tomasoni (CESOMAR), situado no edifício construído em 1987, espaço antes destinado à Escola Profissionalizante do Núcleo Social. Levantar a história de vida dessas famílias, no que remonta às suas trajetórias em busca de trabalho e moradia, visou ao conhecimento das infindáveis vicissitudes e agruras devido à instabilidade vivenciada por essa população no processo migratório contínuo em seu percurso até chegarem ao Núcleo Social. Tal perspectiva objetivou compreender as condições concretas de vida dessas pessoas, identificar questões psicossociais envolvidas nessa incessante busca de sobrevivência e, com isso, proporcionar a tal população discussões que pudessem levar a uma compreensão reflexivo-crítica do processo de desenraizamento contínuo que elas vivenciaram e ainda vivenciam. 3. O MÉTODO E PROCEDIMENTOS PARA CONHECER AS FAMÍLIAS O método utilizado para a realização desse estudo se insere dentro da perspectiva metodológica mais ampla na qual se fundamenta o Projeto Phenix Pesquisa Participante ou Pesquisa Intervenção (CANIATO, 2000). É uma pesquisa qualitativa na qual a trajetória da história de vida dessas famílias tornou-se necessária para melhor entendimento dos adolescentes do CESOMAR e das diferentes questões trazidas por eles para discussão com os acadêmicos integrantes do Projeto de Pesquisa Intervenção Phenix. A História de Vida, enquanto procedimento para coleta de dados, segundo Queiroz (1988), foi concebida por diversos cientistas sociais como um instrumento fundamental para suas disciplinas. Trazia, entretanto, uma preocupação com as interferências ou influências psicológicas que tal método poderia gerar na obtenção dos dados necessários à pesquisa. Nessa perspectiva, encontrava-se um apego à idéia de neutralidade na pesquisa e, dificultava, conseqüentemente, uma exagerada cautela que, para os cientistas sociais, dificultava sua utilização. 94 Fractal Revista de Psicologia, v. 20 n. 1, p , Jan./Jun. 2008 A violência na vida cotidiana de famílias albergadas: seus sofrimentos e conformação social De acordo com Queiroz (1988, p. 15, grifo nosso): O grande desenvolvimento das técnicas estatísticas, em fins dos anos 1940, relegou para a penumbra relatos orais e histórias de vida [...] Pouco a pouco se percebeu, no entanto, que valores e emoções permaneciam escondidos nos próprios dados estatísticos, já que as definições das finalidades da pesquisa e a formulação das perguntas [visando obter dados inquestionáveis, supondo que a realidade é objetiva e mensurável] estavam profundamente ligadas à maneira de pensar e de sentir do pesquisador, o qual transpunha, assim, para os dados, de maneira perigosa e invisível, sua própria percepção e seus preconceitos (Comentários entre colchetes são grifos nossos). Debert (1986) afirma que o levantamento da História de Vida, por muito tempo utilizado quase com exclusividade por antropólogos, tem cada vez mais aumentado seu prestígio entre os cientistas sociais e outras disciplinas interessadas na memória e experiências pessoais. Ocupa, dessa forma, um lugar proeminente como um instrumento que vem preencher um vazio intransponível (DEBERT, 1986, p. 141) quando se deparam com a escassez de informações (oficiais) documentadas ou mesmo com uma extrema diversidade social. A autora parte da premissa de que a utilização da História de Vida, em pesquisas voltadas para as classes populares, possibilita o estabelecimento de uma conversação entre o informante e o pesquisador e, mais ainda: é um instrumento que produz uma reflexão na perspectiva histórica, o que vem a ser condição básica para uma prática transformadora da população pesquisada. A História de Vida é entendida aqui como um instrumento, um suporte teórico-metodológico específico da Pesquisa Participante para coleta de dados, uma vez que, parafraseando Queiroz (1988, p. 20), trata-se de uma narrativa linear e individual de acontecimentos significativos na vida do narrador, de relações estabelecidas em seu grupo de convivência, em suas experiências profissionais e sociais, numa tentativa de reconstruir acontecimentos, transmitir experiências que adquiriu em sua trajetória de vida. Paralelamente, realizamos um brev
Search
Similar documents
View more...
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks