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C. s. lewis as cronicas de narnia vi - a cadeira de prata

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1. C. S. LEWIS AS CRÔNICAS DE NÁRNIA VOL. VI A Cadeira de Prata Tradução Paulo Mendes Campos Martins Fontes São Paulo 2002___________________________________…
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  • 1. C. S. LEWIS AS CRÔNICAS DE NÁRNIA VOL. VI A Cadeira de Prata Tradução Paulo Mendes Campos Martins Fontes São Paulo 2002___________________________________ 1C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 2. As Crônicas de Nárnia são constituídas por:Vol. I – O Sobrinho do MagoVol. II – O Leão, o Feiticeiro e o Guarda-RoupaVol. III – O Cavalo e seu MeninoVol. IV – Príncipe CaspianVol. V – A Viagem do Peregrino da AlvoradaVol. VI – A Cadeira de PrataVol. VII– A Última Batalha___________________________________ 2C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 3. Para Nicholas Hardie___________________________________ 3C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 4. ÍNDICE 1. ATRÁS DO GINÁSIO 2. A MISSÃO DE JILL 3. A VIAGEM DO REI 4. UMA REUNIÃO DE CORUJAS 5. BREJEIRO 6. AS TERRAS AGRESTES DO NORTE 7. A COLINA DOS FOSSOS ESTRANHOS 8. A CASA DE HARFANG 9. UMA DESCOBERTA QUE VALEU A PENA 10. VIAGEM SEM SOL 11. NO CASTELO ESCURO 12. A RAINHA DO SUBMUNDO 13. O SUBMUNDO SEM RAINHA 14. O FUNDO DO MUNDO 15. O DESAPARECIMENTO DE JILL 16. REMATE DE MALES___________________________________ 4C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 5. 1 ATRÁS DO GINÁSIO Era um dia tristonho de outono e Jill Poleestava chorando atrás do ginásio de esportes. Chorava porque alguém andara mexendocom ela. Como não vou contar uma história deescola, tratarei de falar o mais depressa possívelsobre o colégio de Jill, assunto que não é nadasimpático. Era um “colégio experimental” parameninos e meninas. Os diretores achavam que ascrianças podiam fazer o que desejassem.Infelizmente, porém, havia uns dez ou quinze daturma que só queriam atormentar os outros. Láacontecia de tudo: coisas horríveis que, numaescola comum, seriam descobertas e punidas. Masali, não. Mesmo que se descobrisse quem as havia___________________________________ 5C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 6. feito, o responsável não era expulso nemcastigado. O diretor achava que se tratava de“interessantes casos psicológicos” e passava horasconversando com tais alunos. E estes, seencontrassem uma resposta adequada para dizerao diretor, acabavam se tornando privilegiados. Por isso Jill estava chorando naquele diatristonho de outono, na alameda úmida que vai dofundo do ginásio de esportes à mata de arbustos.Ainda não tinha acabado de chorar quando, asso-viando, um menino surgiu do canto do ginásio,mãos nos bolsos, quase dando um tropeção nela. – Está cego? – perguntou Jill. – Opa, desculpe... também não precisava...– e aí notou a cara da menina. – Ei, Jill, o que hácom você? Jill só fez uma careta, a careta que a gentefaz quando quer dizer alguma coisa, mas senteque vai acabar chorando se falar.___________________________________ 6C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 7. – Só podem ser eles, como sempre – disse omenino, carrancudo, afundando ainda mais asmãos nos bolsos. Jill concordou com a cabeça. Não erapreciso falar mais nada. Já sabiam de tudo. – Olhe aqui – disse o menino –, de nadaadianta que nós... Falava como quem começa um sermão. Jillirrompeu numa crise de nervos (o que é comumacontecer às pessoas quando são interrompidasdurante um acesso de choro). – Deixe-me em paz e cuide da sua vida.Ninguém lhe pediu para meter o bico. Você émesmo muito bacana para me ensinar o que eudevo fazer. Vai dizer, na certa, que a gente devechaleirar eles, fazer o que eles quiserem, comovocê faz. – Caramba, Jill! – disse o menino,sentando-se na relva espessa e pulando logo, poisa relva estava toda molhada. Seu nome___________________________________ 7C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 8. infelizmente era Eustáquio Mísero; mas não eraum mau sujeito. – Jill, você está sendo injusta. Por acaso eufiz alguma coisa ruim este ano? Não fiquei dolado do Daniel no caso do coelho? E não guardeisegredo no caso da Gabriela... mesmo debaixo detorturas? E não fiquei... – Não sei, nem quero saber! – soluçou Jill.Eustáquio, vendo que ela ainda não estava bem,ofereceu-lhe uma pastilha de hortelã e começou achupar outra. Jill já enxergava tudo com maisclareza. – Desculpe, Eustáquio. Confesso que sófalei aquilo de maldade. Você foi muitobonzinho... este ano. – Então, esqueça o ano passado. Admitoque já fui um sujeito muito diferente. Puxa vida!Como eu era chato! – Para ser franca, era mesmo. – Acha que eu mudei?___________________________________ 8C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 9. – Acho, e não sou só eu que acho. Todomundo diz o mesmo. Ainda ontem no quarto,Eleonor ouviu Adélia dizer que você está mudadoe que iam pegá-lo no ano que vem. Eustáquio sentiu um tremor. Todos noColégio Experimental sabiam o que era ser pegopela turma da pesada. – Por que você era tão diferente no anopassado? – Aconteceram comigo coisasestranhíssimas – disse Eustáquio, misterioso. – Como assim? Ele ficou calado durante um tempão. – Escute, Jill, tenho ódio deste lugar, maisdo que uma pessoa pode ter ódio de qualquercoisa. Você também, não é? – Ora, se tenho! – Assim sendo, acho que posso ter todaconfiança em você. – Quanta gentileza!___________________________________ 9C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 10. – Pois é, mas acontece que é um segredopara lá de assustador. Jill, você é boa de acreditarem coisas... quer dizer... nas coisas que fariam osoutros aqui cair na gargalhada? – Nunca me aconteceu... mas acho que sou. – Iria acreditar em mim, se eu dissesse quejá estive fora deste mundo? – Não estou entendendo bulhufas. – Bem, vamos esquecer os mundos.Suponha que eu dissesse que já estive num lugaronde os animais sabem falar e onde há... hum...encantamentos, dragões... bem, essas coisas queaparecem nos livros de fadas. Eustáquio sentia-se como um noveloembaraçado, um novelo vermelho. – Como você chegou lá? – perguntou Jill,também um pouco encabulada. – Da única maneira possível: magia. Euestava com dois primos meus. Fomossimplesmente levados, assim. Eles já tinhamestado lá antes.___________________________________ 10C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 11. Como tinham passado a cochichar, era maisfácil acreditar, mas, repentinamente, Jill foiapanhada por uma tremenda suspeita (tão violentaque, por um instante, virou uma onça): – Se eu descobrir que está querendo mefazer de boba, nunca mais falo com você durantetoda a minha vida! Nunca, nunca, nunca! – Juro que não estou! Juro por tudo que ésagrado! – Está bem, eu acredito. – E promete não contar para ninguém! – Quem é que você está pensando que eusou? Estavam muito nervosos. Mas, quando Jillolhou em torno e reparou o céu tristonho deoutono, com as folhas gotejando, e lembrou-se deque não havia esperança no Colégio Experimental(faltavam ainda onze semanas para as férias),disse:___________________________________ 11C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 12. – Mas, afinal de contas, de que adianta?Não estamos lá: estamos aqui. E não há nenhumjeito de ir para lá. Ou há? – É por isso mesmo que estamos aquiconversando. Quando voltei do tal lugar, alguémdisse que os meus dois primos nunca mais iriamlá. Era a terceira vez que iam, entende? Mas essealguém não disse que eu não ia voltar. Se nãodisse é porque achava que eu ia voltar. Não me saida cabeça a idéia de que nós... poderíamos... – Dar um jeito para que a magia aconteçade novo? Eustáquio fez que sim. – Quer dizer que a gente podia desenhar umcírculo no chão, escrever umas letras dentro... erecitar umas fórmulas mágicas? Eustáquio ficou atento por um instante: – Estava pensando em coisa parecida. Masagora estou vendo que esse negócio de círculo ede fórmulas não dá certo. Só há uma coisa a fazer:temos de pedir a ele.___________________________________ 12C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 13. – Quem é ele? – Lá naquele lugar ele é chamado deAslam. Mas vamos em frente. Ficamos um aolado do outro, assim, e estendemos os braços paraa frente com as palmas das mãos viradas parabaixo, como fizeram na ilha de Ramandu... – Ilha de quê? – Depois eu conto. Acho que ele gostariaque olhássemos para o oriente. Onde é o oriente? – Sei lá. – Gozado, as mulheres não sabem nada depontos cardeais – Você também não sabe – replicou Jillindignada. – Sei, sei e muito bem. É só você não meinterromper. Já vi tudo. Lá é o oriente, onde estãoaquelas árvores. Agora você tem de repetirminhas palavras. – Que palavras?___________________________________ 13C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 14. – As palavras que eu vou dizer, é claro.Agora... Aslam, Aslam, Aslam! – Aslam, Aslam, Aslam – repetiu Jill. – Por favor, deixe que nós dois... Nesse momento uma voz do outro lado doginásio gritou: – Jill ? Eu sei onde ela está. Só pode estarchoramingando atrás do ginásio. Vou pegar ela. Jill e Eustáquio entreolharam-se,mergulharam debaixo das árvores e começaram aescalar a encosta íngreme da mata de arbustos auma velocidade de campeões. (Devido aoscuriosos métodos de ensino do ColégioExperimental, lá não se aprendia muitoMatemática ou Latim, mas todos sabiamdesaparecer rapidamente e sem ruído, quando elesestavam atrás de alguém.) Depois de um minuto de correria,detiveram-se para ouvir e concluíram quecontinuavam sendo perseguidos.___________________________________ 14C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 15. – Se ao menos a porta estivesse aberta! –suspirou Eustáquio, e Jill concordou com acabeça. No fim da mata de arbustos havia um altomuro de pedra, com uma porta que dava para umterreno relvado. Essa porta quase sempre estavatrancada, mas já fora encontrada aberta uma ououtra vez. Ou só uma vez, quem sabe. Massempre havia uma grande esperança de que nãoestivesse trancada. Seria a oportunidademaravilhosa para que os alunos, sem serpercebidos, escapassem dos domínios do colégio. Jill e Eustáquio, fatigados e desarrumados,pois tinham corrido quase de gatinhas por debaixodas árvores, chegaram ofegantes ao muro. Aporta, fechada, como de hábito. – Não vai adiantar nada – disse Eustáquio,com a mão na maçaneta, para suspirar emseguida: – O-o-oh! A porta abriu-se. E eles, que não desejavamoutra coisa, agora ficaram apalermados, pois___________________________________ 15C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 16. deram com uma paisagem muito diferente da queesperavam. Esperavam encontrar uma encosta cinzentaindo juntar-se ao céu tristonho do outono. Em vezdisso feriu-lhes os olhos o clarão do sol, queentrava pelo portal como a luz do verão quando seabre a porta da garagem. As gotas deslizavamcomo contas pela relva. Via-se melhor o rosto deJill lambuzado de lágrimas. A luz do sol pareciachegar de um mundo diferente. Mais macia era arelva. Umas coisas reluziam no céu azul comojóias ou borboletas gigantescas. Apesar de esperar por alguma coisaparecida, Jill sentiu-se amedrontada. Eustáquiodemonstrava o mesmo dizendo com dificuldade: – Vamos, Jill. Será que podemos voltar? Não há perigo?Uma voz gritou lá de trás, cheia de maldade eescárnio: – Já sei que você está aí, Jill. Não adianta seesconder.___________________________________ 16C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 17. Era a voz de Edite, que não pertencia àturma da pesada, mas era subserviente e delatora. – Depressa! – exclamou Eustáquio. –Segure minha mão. Antes que ela soubesse bem o que estavaacontecendo, foi puxada para fora dos domíniosdo colégio, dos domínios do seu país, dosdomínios do mundo. A voz de Edite sumiu de repente como seapaga a voz de um rádio que se desliga. Outrosom dominou os ares. Vinha das coisas quereluziam no alto: pássaros, para dizer a verdade.Faziam um barulho de algazarra, que, no entanto,parecia música, música de vanguarda, de que agente não gosta logo. Contudo, apesar da cantoria,havia, envolvendo tudo, uma espécie de silêncioprofundo. Este, combinado à leveza do ar, levouJill a imaginar se não estariam no cume de umaalta montanha. Segurando a mão da menina, Eustáquioavançava. Arregalavam os olhos para todos oslados. Arvores imensas, mais altas do que cedros,___________________________________ 17C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 18. erguiam-se à direita e à esquerda, deixandoabertas algumas brechas para a visão. Sempre amesma paisagem: relva lisa, pássaros de coramarela, com azulados de libélulas, ou plumagemde arco-íris e sombreados azuis... e o vazio. Erauma floresta solitária. Na frente não havia árvores, só o céu azul.Caminharam sem falar até que Jill ouviu a voz deEustáquio: – Cuidado! – E viu-se empurrada para trás.Estavam à beira de um precipício. Jill era uma dessas meninas felizes quepossuem a cabeça boa para grandes alturas. Podiaparar sem tremer à beira de um abismo. Nãogostou, portanto, do puxão de Eustáquio (“comose eu fosse uma criança”), e soltou a mão docompanheiro. Notando que ele ficou branco,chegou a sentir desprezo: – Que é que há? – E, para mostrar que nãotinha medo, parou na beirinha do precipício (unspalmos além da própria coragem) e olhou parabaixo.___________________________________ 18C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 19. Só então percebeu que Eustáquio tinharazão de ficar branco, pois não há em nossomundo um penhasco como aquele. Imagine-se àbeira do precipício mais alto que você conheça.Imagine-se olhando lá para baixo. Pense agora oseguinte: o abismo não acaba onde devia acabar,mas continua, mais fundo, mais fundo, vinte vezesmais fundo. E lá embaixo você nota umascoisinhas brancas; à primeira vista parecemcarneiros; olhando melhor, descobre que sãonuvens, nuvens imensas e gordas. Enfiando oolhar entre as nuvens, você consegue afinal verum pouquinho do fundo do abismo, mas é tãodistante que se torna impossível afirmar se é feitode relva, de árvores, de terra ou de água. Jill ficou olhando de boca aberta. Não deuum passo para trás por medo do que Eustáquio iriapensar. Mas – decidiu logo – “que me importa oque ele vai pensar?” O jeito era afastar-se daqueleabismo e nunca mais zombar de quem tem medode altura. Tentou, mas não conseguiu sair dolugar. As pernas pareciam feitas de massa. Estavatudo dançando diante de seus olhos.___________________________________ 19C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 20. – Que está fazendo, Jill ? Caia fora daí, suaboboca! – gritou Eustáquio. Mas a voz parecia virde muito longe. Sentiu que ele procurava agarrá-la. Jill, no entanto, não tinha mais o domínio dosbraços e das pernas. Houve um instante de agonia na ponta dopenhasco. O medo e a tontura impediam que elasoubesse de fato o que estava fazendo, mas deduas coisas se lembraria a vida toda, e sonhariacom elas: uma, de que se libertara, com umsafanão, das mãos de Eustáquio; outra, de queEustáquio, no mesmo instante, tinha perdido oequilíbrio, precipitando-se, com um grito deterror, em pleno abismo. Felizmente não teve tempo de pensar noque havia feito. Um imenso animal de coresbrilhantes apareceu à beira do precipício. Estavadeitado e (coisa estranha) soprando. Não estavarugindo ou bufando: simplesmente soprando coma boca escancarada, como se fosse um aspiradorde pó trabalhando para fora. Jill estava tão pertoda criatura que podia sentir as vibrações no___________________________________ 20C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 21. próprio corpo. Por pouco não desmaiou. E atéqueria desmaiar, mas o desmaio não depende danossa vontade. Por fim, lá embaixo, viu umpontinho escuro afastando-se do penhasco,flutuando ligeiramente para cima. A medida quesubia, mais se afastava, movendo-se a grandevelocidade, até que Jill acabou por perdê-lo devista. Parecia que a criatura ao lado soprava opontinho para longe. Virou-se e olhou. A criatura era um Leão.___________________________________ 21C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 22. 2 A MISSÃO DE JILL Sem olhar para Jill, o Leão levantou-se edeu uma última soprada. Depois, satisfeito comseu trabalho, voltou-se e entrou lentamente nafloresta. – Só pode ser um sonho, tem de ser umsonho – disse Jill para si mesma. – Vou acordaragorinha mesmo. – Mas não era sonho. – A gentenunca devia ter atravessado o portão. Duvido queEustáquio conheça melhor este lugar do que eu. E,se conhecia, não tinha nada que me trazer para cásem me dizer antes como era. A culpa não éminha se ele caiu no abismo. Se tivesse medeixado em paz, não teria acontecido nada. –Lembrou-se novamente do berro de Eustáquio aocair e debulhou-se em lágrimas.___________________________________ 22C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 23. Chorar funciona mais ou menos enquantodura. Porém, mais cedo ou mais tarde, é precisoparar de chorar e tomar uma decisão. Ao parar,Jill sentiu uma sede enorme. Havia chorado decara contra o chão, mas agora estava sentada. Asaves não cantavam mais. O silêncio seria total,não fosse um barulhinho insistente que parecia virde longe. Ouviu com atenção e teve quase certezade que se tratava de água corrente. Levantou-se e olhou em torno, atenta.Nenhum sinal do Leão, mas, com tantas árvorespor ali, podia ser que ele estivesse por perto. Asede era intolerável e ela juntou coragem paralocalizar a água. Na ponta dos pés, escondendo-sede árvore em árvore, espreitando por todos oscantos, avançou. A floresta estava tão quieta quenão era difícil descobrir de onde vinha o ruído.Numa clareira corria o riacho, brilhante como umespelho. Apesar da visão da água multiplicar suasede, não correu logo para beber. Ficou paradinha,como se fosse de pedra, boquiaberta. Motivo: oLeão estava postado exatamente à beira do riacho,cabeça erguida, patas dianteiras esticadas. Não___________________________________ 23C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 24. havia dúvida de que a vira, pois olhou dentro dosolhos dela por um instante e virou-se para o lado,como se a conhecesse há muito tempo e nãoprecisasse dar-lhe muita atenção. Ela pensou: “Se eu correr, ele me pega; seeu ficar, ele me come.” De qualquer forma, mesmo que tivessetentado, não teria saído do lugar. Não tirava osolhos de cima do Leão. Quanto tempo durou issonão saberia dizer. Pareciam horas. A sede era tãoforte que chegou a pensar que pouco se importariaem ser comida pelo animal, desde que dessetempo de beber um bom gole. – Se está com sede, beba. Eram as primeiras palavras que ouvia desdeque Eustáquio falara com ela à beira do abismo.Por um segundo procurou descobrir quem falara.A voz voltou: – Se está com sede, venha e beba. Lembrou-se naturalmente do que disseraEustáquio sobre os animais falantes daquele outro___________________________________ 24C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 25. mundo e percebeu que era a voz do Leão. Não separecia com a voz humana: era mais profunda,mais selvagem, mais forte. Não ficou maisamedrontada do que antes, mas ficou amedrontadade um modo diferente. – Não está com sede? – perguntou o Leão. – Estou morrendo de sede. – Então, beba. – Será que eu posso... você podia... podiaarredar um pouquinho para lá enquanto eu mato asede? A resposta do Leão não passou de um olhare um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso aodefrontar o corpanzil) como pedir a umamontanha que saísse do seu caminho. O delicioso murmúrio do riacho era deenlouquecer. – Você promete não fazer... nada comigo...se eu for? – Não prometo nada – respondeu o Leão.___________________________________ 25C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. VI
  • 26. A sede era tão cruel que Jill deu um passosem querer. – Você come meninas? – perguntou ela. – Já devorei meninos e meninas, homens emulheres, reis e imperadores, cidades e reinos –respondeu o Leão, sem orgulho, sem remorso,sem raiva, com a maior naturalidade. – Perdi a coragem – suspirou Jill. – Então vai morrer de sede. – Oh, que coisa mais horrível! – disse Jilldando um passo à frente. – Acho que vou ver seencontro outro riacho. – Não há outro – disse o Leão. Jamais passou pela cabeça de Jill duvidardo Leão; bastava olhar para a gravidade de suaexpressão. De repente, tomou uma resolução. Foia coisa mais difícil que fez na vida, mas caminhouaté o riacho, ajoelhou-se e come
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