Slides

Dionísio na Idade Mídia versão 2001

Description
1. 1 Dionísio na Idade Mídia - Televisão, ficção seriada e culturas híbridas do Brasil Um estudo de Comunicação, Cotidiano e SociabilidadeIntrodução 41. A…
Categories
Published
of 226
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  • 1. 1 Dionísio na Idade Mídia - Televisão, ficção seriada e culturas híbridas do Brasil Um estudo de Comunicação, Cotidiano e SociabilidadeIntrodução 41. A televisão e o medo do diabo2. A ficção como experiência estética e mitológica3. Um novo olhar sobre a televisão4. As máquinas de visão e as pulsões selvagens do social5. Ecologias e Antropologias da Comunicação6. Notas bibliográficasCapítulo I - Estética de massa e Tecnologia das imagens 101. A telenovela como narrativa pós-moderna2. Das óperas de sabão às telenovelas e minisséries3. Os intelectuais e as ilusões necessárias4. Evolução tecnológica e capitanias hereditárias5. Notas bibliográficasCapítulo II – Elementos de Metodologia da Comunicação 181. Bases interpretativas da comunicação2. O dionisismo e as formas de agregação coletiva3. Uma sociologia compreensiva4. Contribuições de uma epistemologia poética5. Interpretação e Recepção das Telenovelas6. Notas bibliográficasCapítulo III - Raízes e Antenas do Brasil 271. Um breve balanço dos anos 60, 70, 80, 90.2. Imagens, estilos e interpretações do Brasil.3. Uma arqueologia do híbrido cultural brasileiro.4. Do homem tipográfico ao homem midiático.5. Cultura televisual, barroquização midiática.6. Notas BibliográficasCapítulo IV - Dionísio e os Garimpeiros, Os homens assistem telenovela(A saga de “Irmãos Coragem”) 321. Anos de chumbo na política, anos de ouro no mercado2. As projeções do masculino na ficção brasileira3. Regime diurno e regime noturno das imagens4. Um épico marcado pelo espírito trágico e dionisíaco5. Linhas evolutivas na telenovela do Brasil6. Notas BibliográficasCapítulo V - Raça e História na Atualidade de “Escrava Isaura” 371. O livro, a televisão e a terceira margem da experiência estética
  • 2. 2. Biscoitos finos para as massas3. Diferentes leituras da telenovela “Escrava Isaura”4. Processos intertextuais, relações intermidiáticas5. Elementos trágicos numa obra romântica6. Notas BibliográficasCapítulo VI - Dionísio, Ariadne e Teseu nos Labirintos da Ficção, 42Uma leitura social da telenovela “O Casarão”1. Ficção e realidade dos “noveccento” na história do Brasil2. História oficial e histórias da vida privada3. A terra, o tempo e a mulher4. O fim da idade de ouro dos barões do café5. Figuras da ficção, figuras dos mitos6. Notas BibliográficasCapítulo VII – Os médiuns e as mídias, imagens da morte e do renascimento 1. Introdução - Finitude e longevidade na era das mídias 2. A sinopse da telenovela “A Viagem” 3. As formas elementares do materialismo místico 4. A arte sob o signo da Iniciação 5. Gigantes transcendentais: a vida, a morte e o renascimento 6. Notas BibliográficasCapítulo VIII Hollywood com filtro no país da abertura, 45Uma leitura da telenovela “Dancing Days”1. Um retrato allegre da classe média brasileira2. “Bye Bye, Brasil”: o cinema assiste televisão3. O êxtase da música, marketing e frenesi dionisíaco4. Notas BibliográficasCapítulo IX – Comunicação e Cultura de Natureza Selvagem 501. Quando a juventude descobre a ficção política.2. Potência e velocidade das imagens.3. O som, o sentido e a fúria das massas.4. A estranha arte de acender e apagar as estrelas.5. Sade, Artaud, Bataille e a interpretação das culturas.6. Notas BibliográficasCapítulo X - Identidades da mulher na mídia, 571. Família, Trabalho e Sexualidade2. Quem vai juntar os tais caquinhos do velho mundo?3. Anima e animus da ficção brasileira4. Objetos de consumo e histórias da vida privada5. Imagens dionisíacas no contexto da mídia6. Notas BibliográficasCapítulo XI - Um Crime Quase Perfeito: A Ficção Mata as Estrelas! 64
  • 3. 31. Introdução: Investigações sobre “A Próxima Vítima”2. Breve digressão antes do crime3. A estesia da televisão e a felicidade do jardim público4. Dos preconceitos raciais e sexistas5. Inconclusão da trama6. BibliografiaCapítulo XII - O Horror e o Humor dos vampiros na hora do jantar 701. Vampirismo e imortalidade na telenovela “Vamp”2. Vampiros na literatura, cinema e televisão3. Cultura de massa como cultura vampira4. Notas BibliográficasCapítulo XIII - Terra Nostra, Cosa Nostra: Mídias & Culturas Híbridas do Brasil 751. Introdução2. Corpus e Pertinência3. Por que “Terra Nostra, Cosa Nostra” ?4. Questões de Método5. Do dois ao três é que são elas6. Notas BibliográficasCapítulo XIV - Razão e Sensibilidade Tecnológica: 83Um estudo da ficção seriada “Lampião e Maria Bonita”1. Introdução2. Telenovela, recepção e estudos culturais3. Heróis, vilões, guerreiros e visionários4. Ética e estética dos cangaceiros na televisão5. Antropologias e tecnologias da comunicação6. Notas BibliográficasCapítulo XV - Mídias e Máquinas Pedagógicas, Uma leitura da ficção seriada 93"Sítio do Pica Pau Amarelo"1. Introdução2. O eterno retorno das mitologias3. Mídias e máquinas pedagógicas4. Walt Disney, Asterix e Monteiro Lobato5. Eros e Psiquê no jardim da infância6. Notas BibliográficasCapítulo XVI - O caos urbano e a poética das cidades: 1041. Introdução2. Mitologias e laços comunitários3. Histórias híbridas do interior e da cidade4. Mediações culturais: De Cabral à “Blade Runner”5. Atualização dos mitos na cultura pop da televisão6. Cidades ocultas do Brasil, no cinema e na televisão7. Notas Bibliográficas
  • 4. Capítulo XVII - Êxtase da Juventude e Estesia da Televisão1. Introdução2. Os jardins suspensos da contracultura (“Ciranda Cirandinha”)3. Dionísio invade a praia dos surfistas (“Armação Ilimitada”)4. Narcisismo nos tempos da cibercultura (“Malh@ção”)5. Conclusão6. Notas BibliográficasCapítulo XVIII- Afinidades estéticas no contexto da latinidade1. Introdução2. Cultura e Política: Globalização e Latinidade3. Comunicação e Latinidade4. Conclusão: Estética e Politização do cotidiano5. Notas BibliográficasCapítulo XIX – Roque Santeiro, Uma alegoria do Brasil1. Introdução2. O bizarro, o grotesco e o popularesco na televisão3. Dias Gomes, um novelista dionisiano4. O mito como base da narrativa5. Imagens regionais, janelas do mundo6. Conclusão: As diversidades culturais – o regional, o massivo e o folkpop7. Notas BibliográficasCapítulo XX – Mitologias do feminino na cultura das mídias1. Introdução2. Sinopse de Xica da Silva3. Anayde Beiriz e as revoluções de 304. “
  • 5. 5Dona Beija, a Feiticeira de Araxá”5. Hilda Furacão6. Notas BibliográficasCapítulo XXI - Visão e Fúria da Vida Privada1. Introdução2. A videoliteratura do século XX3. Manual básico para o crime e ascensão social4. Vilões simpáticos e heróis moralistas5. Interfaces da televisão, intimidade e publicidade6. O indivíduo, a casa e a rua pós-moderna em “Labirinto”7. Notas BibliográficasCapítulo XXII – Crônica de uma festa anunciada,Ficções ecológicas, políticas e sobrenaturais1. Introdução2. Iniciação, amor e morte à beiramar3. A natureza como estrela da televisão4. A natureza do sobrenatural na telenovela “Porto dos Milagres”5. Arquétipos da natureza: fontes de destruição e vitalidade6. As narrativas pagãs de Jorge Amado: “Gabriela”, “Dona Flor” e “Tieta”7. Notas BibliográficasConclusão Geral1. Introdução2. O dorso de tigre no cotidiano fabricado pelas mídias3. Além do apenas empírico, interpretações e análises qualitativas4. O prestígio da pesquisa sobre comunicação e ficção seriada5. As tendências atuais na TV: o popularesco, o sangrento e o interativo6. O sublime e o grotesco das imagens dionisíacas7. Notas Bibliográficas
  • 6. INTRODUÇÃO 1. A Televisão e o Medo do diabo Na aurora do século XXI, as máquinas de visão parecem saturar os espaços etempos da cidade; freqüentemente, a sua velocidade é apontada como fator de regressão equase tudo contribui para colocá-las sob suspeita. A televisão ainda é vista como cúmplicena tentativa de assassinato do real; isto é, ao fabricar cópias ou simulacros da realidade,provocaria uma “desrealização” do mundo (1). Uma leitura apressada só pode perceber asimagens no vídeo como alienação. Na “idade mídia”, como na idade média, os indivíduosparecem conservar o medo de perder a alma para o diabo. No imaginário ocidental, comosugere o filme Poltergeist (Spielberg, 1984), o diabo e a técnica parecem surgir emparceria, enviando o espectro do mal pelo pontilhado das imagens da televisão. A crítica radical dos meios de comunicação através do conceito de indústriacultural, proposto por Adorno e Horkheimer (2), significa um momento pessimista dospensadores, e ainda hoje, contribui para estigmatizar as imagens da televisão. Por outrolado, a noção de cultura de massa, difundida pelos norte-americanos, para designar acultura produzida pelas tecnologias de comunicação, presta-se à dispersão e generalidade;hoje, após revisões importantes, esta noção se mostra frágil ante a diversidade da cultura doatual e cotidiano. Entretanto, McLuhan (3), o profeta da mídia e autor do slogan “aldeiaglobal”, considera positiva a dimensão estética e cognitiva da cultura de massa, emarticulação com a sensibilidade pop, percebendo os objetos de consumo como fontes deexpressão artística. Para ele, os media podem ser frios ou quentes, em relação à suapotência comunicativa, sua forma comunica antes mesmo do conteúdo e favorecem aparticipação multissensorial do público. Num outro registro, o semiólogo Umberto Eco (4), decifrando a cultura de massa,coloca em discussão o problema do código e do repertório dos indivíduos, distinguindo osdiferentes níveis de produção, de circulação e de acesso aos códigos da cultura de massa, ecritica o extremismo dos apocalípticos e integrados. De sua parte, o sociólogo brasileiro Renato Ortiz (5), por exemplo, utiliza a noçãode “cultura popular de massa”, e ao invés de usar a sigla globalização, interpreta a culturacontemporânea inscrita nos termos de uma mundialização cultural. Recentemente, novas correntes teóricas tem buscado enfocar a cultura de massa sobo prisma do receptor, telespectador e leitor como elemento ativo no contextocomunicacional, enfatizando o aspecto das mediações culturais (6). Evidentemente, não sepode superestimar o papel do usuário no contexto da comunicação de massa; contudo, estaperspectiva, que privilegia as formas de utilização, adequação e negociação do receptor,não pode ser negligenciada. Convém também assinalar a importância dos estudosetnográficos e etnológicos (a rigor, antropológicos), que buscam destacar o papel dasculturas locais, no processo de apreensão dos bens simbólicos (7). E, no contexto brasileiro,especificamente, há novos autores, como Arlindo Machado, que têm levado a sério acultura produzida pelos audiovisuais, como a televisão, buscando mostrar que esta se firmacomo o meio de comunicação de maior influência nos costumes e na opinião pública (8). Atualmente, as novas tecnologias audiovisuais têm se expandido significativamente,gerando profundas mudanças na paisagem cultural como mostram distintamente JeanBaudrillard (9) e Paul Virilio (10). De certo modo, assistimos hoje o fim da comunicação
  • 7. 7massiva e o advento de novos estilos de comunicação, a partir da Internet, TVs a cabo,satélites e antenas parabólicas. Há autores, como Eugênio Trivinho, que radicalizam oenfoque da cultura na época das novas tecnologias e apontam para “a implosão da teoria dacomunicação (por exemplo) na experiência do ciberespaço” (11). O uso de termos como cibercultura, por um autor como Pierre Lévy (12), traduzmodificações importantes nas teorias e práticas da comunicação e da cultura. Contudo, nomomento, tratando ainda da TV aberta, buscamos repensar a modalidade de cultura, comoum produto de comunicação veiculado pelas telenovelas (13). A ficção mostra como amídia pode ser um meio de percepção das experiências do cotidiano. Esta perspectiva não érecente, mas pode atualizar o debate, considerando as interações simbólicas existentes entrea mídia e a sociedade. 2. A ficção como experiência estética e mitológica Elegemos o mito do deus grego Dionísio, como referência para pensar a culturacontemporânea, em que a mídia se inscreve de modo importante. Primeiro porque este mitoencarna, desde a aurora dos tempos, um duplo aspecto de fascínio e violência, como ocorre,aliás, com as imagens da televisão em nossos dias; depois porque o dionisismo consistenum tipo de culto revelador das formas híbridas e do sincretismo, que como veremos, ésemelhante, em vários aspectos, ao sincretismo cultural brasileiro. Enfim, porque Dionísiorepresenta uma mitologia que traduz as pulsões selvagens da civilização ocidental e, hoje,sob uma nova modulação, serviria como estratégia para repensarmos a desordem da culturaquando o modelo de racionalidade entrou em crise. Interessamo-nos pela ficção da telenovela brasileira como pretexto para refletirsobre a mídia e a sociedade, numa perspectiva dionisíaca, que se desenha sob o signo docoletivo e onde o imaginário social ocupa um lugar importante. Empregamos a noção deimagens dionisíacas, para designar a aparição das imagens de choque e arrebatamento querevigoram o imaginário coletivo. Assim, no universo midiático dominado pelas repetições,as imagens dionisíacas estabelecem uma certa diferença que agita a paisagem audiovisual,como uma arte tecnológica que revitaliza o ambiente convencional. A figura do deus Dionísio revela a face extrema, grave e incontornável da vida.Dionísio representa o êxtase, as paixões e o entusiasmo, e também o júbilo e o prazer docotidiano, sem ocultar o aspecto de violência e destruição da vida. No espaço midiático emque as experiências fundamentais da estética, poética e catarse aparecem ligeiras, a ficçãoabre um intervalo, onde explodem as imagens dionisíacas. Por um triz, num videoclipe,telenovela ou publicidade bem feita, a TV pode vir a ser vetor de uma obra de arte. O termo dionisíaco, tomado de empréstimo ao domínio da reflexão filosófica (14),presente nos estudos sobre estética e crítica literária (15), assim como nas ciências sociais(16), parece-nos expressivo para designar a cultura plural em curso, em que termosantagonistas, como o sublime e o grotesco aparecem vizinhos no ato de contemplação. O hedonismo, misticismo e erotismo, assim como a exibição no vídeo, dos conflitossociais, violência, guerra das tribos na selva de pedra, em emergência por todo o planeta,permitem-nos pensar que nos encontramos diante de um novo renascimento do deusDionísio com todo o seu aspecto de maravilha e de horror. O interesse pelo mito deDionísio nos permite definir uma nova perspectiva diante da mídia e nos aproximar docaráter híbrido da cultura brasileira. As imagens dionisíacas revelam a dimensão de
  • 8. desordem e de ruído do social que invade de modo provocante os meios de comunicação. 3. Um novo olhar sobre a televisão A realidade forjada pela televisão é fruto de um processo tecnológico que sepretende harmônico e transparente; entretanto, o ruído do social, penetrando no espaço damídia modifica este projeto de harmonia e de transparência. No universo da cultura brasileira, a mídia ultrapassa a simples produção depassatempo. A ficção brasileira, por exemplo, faz o público atingir o êxtase diante dasimagens. Mesmo sendo um produto tecnológico, provoca experiências de ordem religiosa eestética, e performatiza um tipo de mitologia contemporânea, na medida que consiste numarealidade paralela que alimenta o imaginário social. É de ordem religiosa, em seu aspectoepifânico, de aparição, implicando numa comunhão entre os telespectadores; é tambémobjeto de culto, semelhante às religiões tradicionais. É, igualmente, um fenômeno de ordemestética porque desencadeia a atração social, os afetos e emoções coletivas, por meio dasimagens em exibição (17). Para Edgar Morin, “As estrelas” do cinema e da televisão são seres que participam,ao mesmo tempo, do humano e do divino, são análogos, em alguns traços, aos heróis dasmitologias antigas ou aos deuses do Olimpo, suscitando um tipo de culto, um tipo dereligião. Sem abrir mão de uma perspectiva crítica, Morin compreende a cultura de massacomo parte integrante da complexidade cultural contemporânea: isto já aparecia comclareza nos trabalhos “O Cinema e o homem imaginário” (1956) e “O espírito do tempo”vol. I e II (1962-1976). Propomos uma aproximação das sensações, da sensibilidade, das paixões sociais,que concedem forma e estética à sociabilidade contemporânea. Analisar os produtos decomunicação em sua dimensão estética nos leva a tratá-los como bens simbólicos, cujaleitura, é pertinente no esforço de repensar a cultura. A repetição do ritual cotidiano dostelespectadores face à televisão, a mistura dos fatos reais e ficcionais, as formas derecepção e adequação do público, face às proposições midiáticas são fenômenos queremetem a uma compreensão da ética e estética que estruturam a sociedade. Focalizamos o simbolismo que estrutura o imaginário coletivo para apreender ocaráter diversificado da sociedade, do qual ele é uma projeção. Este simbolismo pode serobservado em toda sua potência ao contemplarmos as formas do sincretismo religioso, oemocional coletivo, a sensualidade, o caráter lúdico e hedonista desta cultura. O conjuntodestes elementos se exprime objetivamente na projeção das artes e da literatura, na poéticadas canções, na ficção do cinema e da televisão, na maneira como se definem os ritos emitos contemporâneos. Estes elementos permitem identificar o espírito sensivelmentedionisíaco que organiza toda a vida em sociedade. 4. As máquinas de visão e as pulsões selvagens do social A mídia eletrônica é marcada pelas regras da organização tecnoburocrática e pelasdeterminações da sociedade de consumo. O trabalho realizado pela mídia se perfaz sob osigno do efêmero, da velocidade e da fragmentação. A televisão, enquanto instrumento demediação do gosto, tende a colocar em harmonia as diferenças e diluir as tensões sociaispara atingir o consenso. Ela é, deste modo, um veículo de projeção das imagens de natureza
  • 9. 9apolínea, que traduz vontade de harmonia, ordenação e transparência. No entanto, um olharmais atento sobre essas imagens pode perceber uma comunicação de natureza diferente.Em meio à ordem, clareza e alta definição da tela eletrônica, na comunicação que sepretende sem ruído, explode, cotidianamente, o ruído das imagens dionisíacas (18). Atelevisão pode ser vista apenas como uma fábrica de simulacros ou como geradora de umairrealidade cotidiana, como escreve Umberto Eco (19); entretanto, um olhar mais apuradopode perceber que o processo da comunicação é mais dinâmico. As fontes de que jorram asimagens da televisão advêm das pulsões subterrâneas da cultura, cujo despertar gera adinâmica e o vitalismo do social; assim, a ficção televisiva encontra a matéria prima queassegura o seu funcionamento na substância viva da cultura. A ficção das telenovelas se perfaz cotidianamente na proximidade da energia evitalidade das massas. É um tipo de obra aberta, cujo discurso em construção, contaminaas massas e é reciprocamente contaminado por estas. A exibição da sociedade, por meio deuma estética realista, define a natureza do discurso de ficção das telenovelas, e estabeleceum tipo de sincronicidade entre os tempos da ficção e os tempos da realidade. Os discursosde ficção da mídia, a despeito da vontade de transparência e do empenho em produzir umacomunicação sem ruído, são invadidos pela parte de sombra e ruído da sociedade.Conseqüentemente, a construção apolínea (harmônica, linear e ordenada) que caracteriza osmeios de comunicação, torna-se desordenada pelas pulsões dionisíacas do social (20). Propomos uma leitura da ficção, observando o seu caráter mitológico e buscandotranscender a compreensão deste gênero como um vetor de manipulação e alienação. Atelenovela brasileira é um campo de produção dos mitos na sociedade contemporânea; asnarrativas de ficção na TV possuem uma significação análoga às narrativas da mitologiaantiga. O século XXI escreverá que a televisão e o cinema significaram para o século XX oque a tragédia grega significou para os antigos. No berço da civilização ocidental, na Grécia antiga, as narrativas mitopoéticascoexistiram
  • Search
    Related Search
    We Need Your Support
    Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

    Thanks to everyone for your continued support.

    No, Thanks