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Light painting Mẽbêngôkre: olhares de fronteiras etnocultural 1 RESUMO

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1 Light painting Mẽbêngôkre: olhares de fronteiras etnocultural 1 Rafael Ribeiro Cabral - UFPA RESUMO A documentação audiovisual está cada vez mais presente no cotidiano dos Povos indígenas do Brasil.
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1 Light painting Mẽbêngôkre: olhares de fronteiras etnocultural 1 Rafael Ribeiro Cabral - UFPA RESUMO A documentação audiovisual está cada vez mais presente no cotidiano dos Povos indígenas do Brasil. Este trabalho tem como objetivo apresentar a vivência fotográfica que denominei de desenhando com a luz, ministrado para indígenas da Aldeia de Apexti localizados na Terra Indígena Mẽbêngôkre-Kayapó do município de São Felix do Xingu - PA. A iniciação à fotografia, deu-se por meio da apresentação das técnicas fotográfica através da utilização do recurso, light painting, como método de contato aos princípios da fotografia. Os resultados foram fotografias realizadas pelos indígenas em diferentes espaços pertencentes à aldeia. Palavras chave: Light painting, Mẽbêngôkre Kayapo 1 Trabalho apresentado no II Encontro de Antropologia Visual da América Amazônica, realizado entre os dias 25 e 27 de outubro de 2016, Belém/PA. 2 Introdução A partir da vivência em campo, criam-se formas de resistência e sensibilidade, que por meio de demandas solicitadas por indivíduos da comunidade possibilitam momentos de encontro e construção de redes de afetos. Este trabalho é o resultado de um dos rastros existentes ao longo de meu trajeto como artista-etno-pesquisador no adensamento teórico e prático junto aos povos indígenas do Brasil. O percurso da vivência fotográfica realizado por mim junto aos indígenas Mẽbêngôkre da Aldeia de Apexti 2 na oficina desenhando com a luz, partiu da necessidade de possibilitar a aproximação do universo fotográfico como forma potente da necessidade, expressa por eles, de poderem realizar os registros de suas festas e rituais, assim como manusear princípios fotográficos básicos de captura e armazenamentos de dados. A questão indígena no Brasil apresenta diferentes contextos de acordo com a região onde estão localizadas. O ethos presente no pensamento ocidentalizado, compartilha, territorialmente, conflitos e processos de resistências entre Povos. Como isso o cotidiano dentre esses indivíduos vai recombinando práticas individuais e coletivas no processo de contato interétnico. Diversos atores sociais como garimpeiros, madeireiras, comerciantes, indígenas, empresários locais, agentes governamentais, friccionam culturalmente a situação de organização e manutenção da dimensão simbólica dos povos indígenas do Brasil por meio de seus pressupostos. Onde está localizada a Terra Indígena Mẽbêngôkre-Kayapo, existem constantemente, conflitos devido a presença de ilícitos que corroboram para o silenciamento dos discursos indígenas, dificultando o protagonismo sociocultural dos Povos Indígenas ao longo do Rio Fresco, afluente do Rio Xingu ao sul do Estado do Pará. Um dos motivos que dificulta o protagonismo social dos Povos indígenas no Estado do Pará, habitualmente é marcado pelos resultados de fricção interétnica destes atores sociais que estão localizados nessas regiões. O termo fricção interétnica foi 2 Terra Indígena Mẽbêngôkre-Kayapo localizado nas regiões do sul e sudoeste do Estado do Pará e norte do Mato Grosso. Tal vivência foi realizada no ano de 2013 na aldeia de Apexti localizada na cidade de São Felix do Xingu, nas margens do Rio Fresco. 3 criado por Roberto Cardoso de Oliveira, um momento crucial da formação da antropologia brasileira, na qual o autor foi um dos principais protagonistas. O seu nascimento é resultado, principalmente, dos questionamentos acerca dos usos da teoria da aculturação no contexto antropológico brasileiro. Chamamos de fricção interétnica o contato entre grupos tribais e segmentos da sociedade brasileira, caracterizados por seus aspectos competitivos e, no mais das vezes, conflituais, assumindo esse contato muitas vezes proporções totais envolvendo toda a conduta tribal e não tribal que passa a ser moldada pela situação de fricção interétnica. Entretanto, essa situação pode apresentar as mais variadas configurações (...). Desse modo, de conformidade com a natureza socioeconômica das frentes de expansão da sociedade brasileira, as situações de fricção apresentarão aspectos específicos (OLIVEIRA, Roberto Cardoso. p. 86, 1962). Entre os Mẽbêngôkre-Kayapo, em decorrência da mudança da organização autônoma no espaço às intensas relações interéticas, o Povo Mẽbêngôkre-kayapó cria estratégias de sobrevivência e reconhecimento pela perda da autonomia ameríndia ao longo de sua história. A mudança mais radical provocada pelo contato mais intenso com a sociedade nacional foi a perda dessa relativa auto-suficiência: bem antes do estabelecimento de contato pacífico com a comunidade com a sociedade brasileira, todos os grupos kayapó tinham deixado de ser unidades políticas, sociais e culturais autônomas. A perda de autonomia resultava em partes da necessidade de defesa contra os ataques de representantes da fronteira em avanço e em parte da dependência em relação à sociedade brasileira para obtenção de bens essenciais, como armas e ferramentas, assim como de artigos de luxo de valor intestinas, como miçangas e pano. (TUNER, Terence. p ). Com isso a vida social do grupo se apresenta como uma alternância regular entre períodos de residência numa aldeia coletiva principal e grupos seminômades que se deslocam por períodos de um à vários meses para caça e coleta. Os Mẽbêngôkre-kayapó provavelmente se diferenciam de outros grupos jê setentrionais em algum momento do século XVI ou no início do XVII. Isso ocorreu ao longo do rio Tocantins, provavelmente na área entre o Tocantins e Araguaia ao norte da ilha do Bananal. Pelo final do século XVI ou princípio do XVII os Kayapó já tinham se dividido em dois ou três subgrupos principais, dos quais pelo menos dois tinham se deslocado para o oeste, atravessando o Araguaia, e estavam atacando, e possivelmente 4 se estabelecendo por períodos grandes, a oeste do Xingu. (TURNER, Terence. p ). Assim, os grupos kayapo se autodenominam Mẽbêngôkre (povo da nascente d agua). Em Terence Turner (1992), ele denomina o significado de Mẽbêngôkre como gente do espaço dentro das(s), ou entre a(s), àgua(s) (TURNER, p ). Tais denominações correlatas podem se complementar entendendo o mito de origem desse Povo, sendo representado pela vinda dos indígenas Mẽbêngôkre por meio de um buraco que ligava o espaço sideral ao Planeta Terra à procura de um gigantesco jabuti. O acesso à aldeia de Apexti é bastante difícil e perigoso, ausentes de estradas pavimentadas e portos ou estações de barco de Tucumã até a vicinal P9, a estrada encontra-se em bastante descaso. Para chegar a aldeia de Apexti saindo de Belém do Pará, é necessário chegar primeiramente a cidade de Tucumã Pará, e posteriormente pegar um transporte até a vicinal P9. Da cidade de Tucumã até a vicinal P9 são duzentos quilômetros na estrada de chão, passando por diferentes fazendas localizadas no território. 1. Estudo, pesquisa e contato com a escrita/desenho da luz. A recurso de light painting consiste em desenhar com a luz sobre o dispositivo de captura fotográfico (filme ou dispositivo eletrônico). Para tal, o obturador, mecanismo que permite a passagem da luz para a área sensível, deve ficar aberto e a câmera permanecer imóvel. Assim o criador, com a utilização de uma lanterna, fósforo, led, ou qualquer outra fonte que emita luz, pode gravar na superfície sensível o movimento de seus gestos. 5 Figure 1. fotografia realizado com a velocidade de 20, 5.6mm, ISO 800. Foto: Rafael Cabral Quando revelada ou processada, a imagem proveniente dessa captura nos permite enxergar a fixação da luz em um espaço de tempo. A presença do tempo, contudo, está sempre à mostra no resultado fotográfico, como mostra a imagem acima. Entenda-se aqui longa exposição desde a fotografia das estrelas onde conseguimos ver o movimento de rotação da terra até fotografias borradas quando o movimento do objeto fotografado é mais rápido que a velocidade do obturador, criando imagens sobrepostas. No entanto, a utilização do light painting permite uma compreensão mais objetiva da passagem do tempo onde o criador pode expressar-se dentro dessa realidade que só o suporte fotográfico enxerga. (...) a fotografia define uma verdadeira categoria epistêmica, irredutível e singular, uma nova forma não somente de representação, mas mais fundamentalmente ainda de pensamento, que nos introduz numa nova relação com os signos, o tempo, o espaço, o real, o sujeito, o ser e o fazer. (DUBOIS, Philippe. 1993, p. 94.). Antes de analisarmos um corpus de imagens contemporâneas vamos discorrer um breve histórico do desenvolvimento da técnica na história da fotografia, que começou com o intuito de registrar o movimento do corpo humano e depois foi utilizada 6 com intenções artísticas. Esse é um corte histórico que, com certeza, deixou muitos trabalhos de fora. Contudo, o material apresentado parece suficiente para entendermos as aplicações da técnica e foi baseado nas pesquisas do lightpainter 3. A iniciação aos suportes de captura e produção audiovisual na aldeia de Apexti, deu-se por meio de recursos técnicos encontrados em aparelhos de telefone móvel. Por meio dos recursos existentes nos aparelhos telefônicos, a aproximação e experimentação desses recursos audiovisuais, davam-se no cotidiano da aldeia. Entendendo neste momento as fronteiras diacrônicas na vivência em questão, onde o processo fotográfico se entrecruza com o processo audiovisual no decorrer das perguntas proveniente dos indígenas. O aprendizado dos recursos fotográficos foi desenvolvido por meio de experimentações em light painting, possibilitando assim o reconhecimento do obturador, velocidade e ISO, recursos imprescindíveis na composição da imagem por meio da fotografia. Figure 2. 20'' v, 7.0 mm, ISO Foto: Tapiet Kayapo 3 7 A utilização do light painting como método do ensino dos recursos fotográficos, possibilitou o mergulho no universo da produção da imagem fazendo com que os jovens indígenas identificassem os processos de preparação e construção criativa das fotografias através da captura e produção fotográfica. Gerando assim o ineditismo na produção fotográfica na fotografia digital por meio da utilização de lanternas trazidas pelos jovens no processo de captação de luz, tornando divertido o aprendizado da escrita da luz. A oficina foi vivenciada pelos jovens da aldeia de Apexti, que experimentaram a fotografia e os recursos que uma câmera fotográfica semiprofissional pode proporcionar. A câmera que os indígenas tiveram o contato foi da marca Canon, modelo T3i com uma lente 18-55mm. Assim fui apresentando os recursos fotográficos que possui uma câmera fotográfica, identificando as diferentes partes e funções da câmera escura como lentes, obturador, velocidade, espelhos. Posteriormente mostrei como tais recursos estariam relacionados na produção da fotografia e seus aspectos luminosos. E eles me mostrando as possibilidades que queriam experimentar nas posições e nos espaços potentes de utilização espacial na aldeia. Esta apresentação teórica ocorreu na casa do guerreiro, espaço localizado no centro da aldeia. Diferentemente da parte teórica do qual ministro em cursos ou minicursos sobre fotografia, a oficina na aldeia me possibilitou olhar um novo horizonte. Tal despertar vez com que os procedimentos que até então manipulava como ferramentas no ensino-aprendizagem se modificassem na troca com a comunidade de Apexti. Os caminhos que me levaram a metodologicamente realizar o percurso da vivência, deu-se por meio do recurso light painting. Esta técnica é utilizada artisticamente como forma de compreensão dos diferentes espectros de luz induzidos por um objeto luminoso que incide no espaço fotografado. Assim utilizei a técnica light painting como percurso metodológico na estratégia de tornar mais dinâmica e divertida o ensino da fotografia e a aproximação técnica de produção e documentação fotográfica. 8 Figure 3. 15'' v, 9.0mm, ISO Foto: Takap Kayapo. A finalidade no percurso da oficina, era a demanda proveniente da própria comunidade. Tal demanda era necessariamente no ensino do manuseio do suporte fotográfico. Depois desse momento, solucionado a aproximação técnica, iniciamos o próximo passo de descarregamento dos materiais para as memorias compactas que tínhamos em mãos (pen drive, notebook, hd externo). A etapa do descarregamento dos materiais favoreceu com que os indígenas se familiarizassem ainda mais e conhecessem mecanismos técnicos para ter a maneira mais segura e confiável de manipulação dos dados produzidos na captura fotográfica. Por isso foi necessário alguns dias para o ensino de conhecimentos básicos de informática e armazenamento dos materiais. Esta etapa durou maior tempo comparado com a criação das imagens. Considerações Finais Os Mẽbêngôkre-Kayapo vivem uma situação de intensos conflitos que friccionam diferentes contextos que estão presentes na Terra Índigena Mẽbêngôkre- Kayapo. Com isso o processo de aprendizado pela aproximação dos indígenas às cidades no entorno de suas aldeias por motivo de dúvidas no armazenamento e na 9 produção fotográfica compartilhado por mídias e redes sociais na virtualidade, prejudicam o acesso e compartilhamento confiável de seus arquivos. Com isso a possibilidade do aprendizado de técnicas e materiais técnicos e tecnológicos, possibilitam os indígenas na familiarização de seus modos de compartilhamento em rede de seus conteúdos, assim como a criação, documentação e armazenamento de seus arquivos. Assim a técnica fotográfica light painting possibilitou sua utilização como suporte metodológico para aproximar o aprendizado de recursos fotográficos. Neste sentido aproximando ao universo técnico da produção, documentação e armazenamentos de dados produzidos no processo de criação de imagens. Tal percurso motivou jovens indígenas no interesse de conhecer a dimensão simbólica por traz da produção da imagem por meio da produção da imagem digital. Referências bibliográficas BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico. Campinas: Papirus, p. Acesso em 30/07/2012 OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Do índio ao bugre: o processo de assimilação dos Terena; (prefácio de Darcy Ribeiro). Rio de Janeiro: Francisco Alves, ed. Revisada. OLIVEIRA, Roberto Cardoso. Estudo de Áreas de Fricção Interétnica. América Latina, ano V, nº 3, pp , HAMU, Denise, Org. Ciência Kayapo: alternativa contra a destruição. Belém, Museu Paraense Emílio Goeldi, CUNHA, Manuela. TURNER, Terence. História dos índios no Brasil. Org. São Paulo, SP: Companhia das letras Secretária Municipal de Cultura FAPESPA, p , 1992.
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