Documents

limitac3a7c3a3o-limite-confim-e-limiar-filomena-molder.pdf

Description
Limitação, limite, confim e limiar Maria Filomena Molder 1 Aquele que começa a viver, aquele que começa a pensar, encontra-se com o obstáculo, isto é, uma energia depara-se com outra, um corpo embate noutro, um argumento vence um outro argumento, etc. E é a partir da relação entre obstáculo e resistência, em particular as variedades de resistência ao obstáculo, que esse alguém se dá co
Categories
Published
of 20
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  Limitação, limite, confim e limiar Maria Filomena Molder 1 Aquele que começa a viver, aquele que começa a pensar, encontra-se com o obstáculo, isto é, uma energia depara-se com outra, um corpo embate noutro, um argumento vence um outro argumento, etc. E é a partir da relação entre obstáculo e resistência, em particular as variedades de resistência ao obstáculo, que esse alguém se dá conta de que começa a viver e de que começa a pensar (sem que as segundas partes destas experiências coincidam necessariamente). É neste quadro da relação entre obstáculo e resistência ao obstáculo que a Metafísica é tematizada na Crítica da Razão  Pura como desmedida, lembremos as suas “exorbitantes pretensões”, como diz Kant (1). E, no entanto, é uma espécie única de ciência, pois não só não se pode evitar, uma vez que é por natureza que a razão exorbita as condições que a restringem e, ao mesmo tempo, a legitimam, como, além disso, não convém pô-la de lado, já que “é próprio do varão dedicar-se às coisas imortais” (palavras de Aristóteles). Na verdade, a sua desmedida está indissociavelmente ligada a questões de vida ou de morte. Tendo como vocação ultrapassar limites, a razão não os reconhece naturalmente, o que é notificável pela indisciplina que a enreda na sua própria dialéctica e a faz cair no cepticismo. A razão é uma entidade, uma força, uma energia, excessiva, que tende a eliminar obstáculos. Efectivamente, na Crítica da Razão Pura , o conceito de obstáculo diz respeito a uma experiência primeira (no que vai ao encontro do problema em Platão e da aporia em Aristóteles, variações do arcaico enigma). É notório, aliás, o apreço que Kant demonstra pelas afecções que pertencem ao que ele designa, na Crítica da  Faculdade de Julgar  , como “género vigoroso”: a cólera, o desespero revoltado (e não o desencorajado) e, igualmente, o género de sofrimento que permite engendrar a coragem,  precisamente aquelas afecções que despertam a consciência das nossas forças, a consciência de poder vencer qualquer obstáculo, a disciplina e a fortificação da resistência aos obstáculos, a sua superação. É no conceito de limite e no seu cortejo de variações (enunciemos algumas: identidade, consistência, potência de um ser, contorno e pertences) que este paradoxo está inscrito. Ir para além dos limites consiste em pôr-se à prova em relação à sua identidade, etc., em relação ao fechamento das suas fronteiras. Ultrapassando-as,  passando por cima do limite ou convertendo o limite em limiar, surpreende-se vinculado ao limite, inseparável dele, a nossa relação com ele, e, nesse momento, o limite transforma-se num problema, em fonte da sua própria interrogação, numa visão do horizonte longínquo e inacessível, do espaço vazio. Procedendo do seu próprio anseio de totalidade, de completude, a desmedida da razão não é acidental. É precisamente no 2º Prefácio da Crítica Razão Pura  que Kant afirma que todos os homens possuem uma disposição natural para a totalidade, para a visão do seu destino completo, isto é, para o excesso e a desmedida, disposição   2 rigorosamente metafísica. Em contrapartida, no 1º Prefácio, Kant havia sublinhado o género de experiências que cabem em sorte àquele que dá vazão ao anseio metafísico: tormento por não pode evitar as perguntas inoportunas que ele próprio faz e insatisfação devido às contradições, obscuridades e perplexidades em que cai, quando tenta dar respostas a essas perguntas, ousando ultrapassar os limites da razão.  Enquanto o conhecimento da razão for homogéneo, não podemos estabelecer-lhe limites [Grenzen]  determinados. Na matemática e na ciência da natureza, a razão conhece, na verdade, limitações [Schranken]  mas não limites [Grenzen],  no sentido de que haja seguramente fora dela qualquer coisa onde ela não poderá jamais chegar, mas não que ela própria possa encontrar um termo na sua evolução interior. Tem-se em vista pôr em relevo a diferença entre dois conceitos de limite fixados  por Kant de maneira inaugural e definitiva neste texto do §57 dos  Prolegómenos : o conceito de limite que está preparado para se transformar em limiar [ Grenze ] e o conceito de limite que é uma limitação (2) ,  uma forma de confinamento que se desconhece enquanto tal e não conhece o confronto com o espaço vazio [ Schranke ]. Em ambos os casos são assinaláveis como inerentes duas experiências, a experiência do obstáculo e a experiência da insatisfação, mas em cada um deles nem os efeitos nem o alcance das experiências se equivalem. Estamos diante da diferença entre filosofia e ciência. Dado o alcance exclusivamente negativo de Schranken , a sua determinação pode dizer-se definitiva ou, melhor, não contém nenhuma problematicidade . Schranken  é o termo que Kant aplica quase sempre que se refere ao limite inultrapassável, como restrição e condição do conhecimento, em relação à sensibilidade ou à razão adstrita à sensibilidade. Para essa espécie de limite não há apelo nem agravo, se o ultrapassarmos, saltamos, como dirá Wittgenstein, para fora do mundo, ao passo que o limite como Grenze  faz ressaltar a relação da razão consigo própria. É deste solo que se alimenta a filosofia e, por isso, ela lida mais naturalmente com Grenzen  do que com Schranken , espécie de limites inerentes à ciência, que estabelece o seu domínio com fronteiras mais ou menos seguras, que tomam o aspecto de fortificações, e isto mesmo se as fronteiras tenderem a esbater-se no que respeita à identidade das disciplinas científicas ou até se o regime instituído for o da inter-disciplinaridade, quer dizer, a ciência não persegue a metafísica. […] uma vez que as ideias transcendentais nos obrigam a ir até elas e, por assim dizer, levam-nos até ao ponto de contacto do espaço cheio (da experiência) com o espaço vazio (do qual nada  podemos saber, os númenos), podemos igualmente determinar os limites [Grenzen]  da razão pura; pois, em todos os limites há qualquer coisa de positivo […] ao passo que as limitações  [Schranken]  contêm apenas negações […]. A 170 Enquanto Grenze , limite significa o ponto de contacto entre o espaço pleno e o espaço vazio da determinação conceptual, ponto esse que se transforma num limiar. Vencer o fechamento dos e nos limites, convertê-los em limiares, dá conta de uma forma inesperada de transcendência. Como veremos, na vertente estética da Crítica da  Faculdade de Julgar  , a finitude há-de conhecer a sua fertilidade e, ainda mais, revelará   3 a sua grandeza. É nos  Prolegómenos , porém, que vemos dar-se aquela conversão e engendrar-se essa nova possibilidade de transcendência.   Pausa analógica I Goethe  Numa conversa com Riemer, datada de 2 de Agosto de 1807, reencontramos, intacta, a visão de Kant (3)  que se estabiliza entre a Crítica da razão Pura  e os  Prolegómenos , onde Goethe incrusta as suas próprias e certeiras intuições. A finitude não lhe faz levantar um coro de lamentos, antes, e não ignorando que qualquer esforço compreensivo não há-de passar de um antropologismo, reafirma a sua confiança na realidade e no valor do conhecimento, pondo em relevo a incomensurabilidade das coisas às nossas expressões delas, isto é, “as coisas são infinitas”e, ao mesmo tempo, acentuando a fertilidade da nossa relação com elas, na medida em que elas revelam qualquer coisa delas próprias que sem a nossa aproximação ficaria oculta. […] toda a filosofia da natureza continua a ser unicamente antropomorfismo, quer dizer, o homem, que é uma unidade consigo próprio, participa essa unidade a tudo o que é ele, compromete tudo isso no que é seu, converte-o na sua própria unidade […]Isto para nos entendermos e associarmos com aqueles que ainda falam das coisas em si […] as coisas são infinitas […] o homem não expressa o objecto na sua totalidade. Mas aquilo que ele expressa sobre ele é uma coisa real nem que seja apenas a  sua idiossincrasia, quer dizer, a relação que só essa coisa tem com ele.  Conversa com Riemer, 2 de Agosto de 1807, Artemis Ausgabe, 22, pp.469-470.  Além disso, surpreendemos no conceito de  Aperçu  a apresentação goethiana mais completa do conceito de limite, simultaneamente, o limiar inultrapassável (o limite que permite pressentir o inescrutável) e o contorno, em duplo sentido, a forma de cada ser e o nosso modo de a apreender. Neste último caso, o  Aperçu  é equivalente ao desenhar um contorno, ao esboçar um perfil, o limite de um ser, e mostra-se como uma outra variação sobre os limites e a fertilidade dos limites. Seja na arte, na história ou no conhecimento, tudo o que podemos fazer é contornar, preencher o contorno, isso é o nosso único tesouro. Restituir a carne –   parenchyma  – da coisa, já não é connosco, já não é a nossa tarefa. Não podemos deixar de reconhecer aqui – de novo, numa conversa com Riemer – um conjunto de variações srcinais sobre um tema kantiano. Tudo depende de um Aperçu.  É ao mais elevado que o homem chega e mais longe não pode ele chegar. É apenas um contorno, o perfil de uma coisa. Ele não pode dar o parenchyma do pormenor sem ser um segundo criador. ”Tischgespräche mit Riemer” (20 de Maio de 1819) in Franz Schmidt, “Über den Wert des Aperçus”, pp. 263-264. Por sua vez, na Teoria das Cores  [  Die Farbenlehre ,   Hamburger Ausgabe, 14] encontramos uma série de considerações preciosas (vindos de um não-filósofo) que nos dão uma assistência bem-vinda e agradecida para a melhor compreensão do que está em causa nas diferenças insuperáveis entre filosofia e ciência, em particular, a afirmação clarividente sobre a incapacidade teórica da ciência, no sentido mais antigo e mais   4 autêntico de teoria, enquanto contemplação: para esse reino a ciência só pode olhar de longe, sem nunca poder pisar o seu chão (Kant não chega sequer a conceder à ciência a  possibilidade desse olhar). Ao chegar aos limites da sua ciência, o físico […] encontra-se na elevação empírica, de onde olhando para trás pode sobrevoar a experiência em todos os seus graus e, para a frente, pode lançar um olhar sobre o reino da teoria, onde não poder entrar, embora possa dar uma espreitadela. § 720 2 Convém considerar e enfrentar com disciplina a diferença entre o limite que se vence e o limite inultrapassável, mas não é aí que Kant se concentra, o que interessa a Kant é a tensão para vencer os limites da parte de quem os sabe invencíveis. Essa não é a situação em que se encontra a ciência, ela não tem esse problema. E, por isso, o seu limite não é confim mas confinamento, não confina com, está confinado a. A ciência não conhece o limite como limiar, não tem a experiência do umbral, cria as suas  próprias limitações, que nada deixam de fora (deixando tudo o resto de fora).  A extensão dos conhecimentos matemáticos e a possibilidade de invenções sempre novas estendem-se ao infinito; de igual modo, a descoberta de novas propriedades da natureza, de novas forças e leis, graças a uma experiência ininterrupta e à sua unificação pela razão. Em todo a caso, não  podemos deixar de reconhecer limitações, pois a matemática só incide sobre fenómenos; e aquilo que não é objecto da intuição sensível, como os conceitos da metafísica e da moral, está fora da sua esfera, ela não pode conduzir a eles; também não tem necessidade dessas coisas; por conseguinte, não há na matemática um progresso contínuo, aproximação dessas ciências, um ponto, uma linha de contacto com elas qualquer que seja. A ciência da natureza não há-de nunca revelar-nos o interior das coisas, quer dizer, aquilo que não é não fenómeno, mas pode, no entanto, servir de princípio supremo de explicação  suprema para os fenómenos […].   A 167   Não imaginando o espaço vazio que estaria fora dela, o espaço de actuação da ciência é sempre cheio ou disposto a ser preenchido, por consequência, para além do seu campo de actuação, a ciência não concebe a existência de nada que não tenha a ver com ela, no sentido em que os seus limites fossem transcendidos. Os seus limites elevam-se como os circuitos de um condomínio fechado. Não nos esqueçamos que há sempre qualquer coisa de positivo do ponto de vista do limite, por ex., a superfície é um limite do espaço dos corpos, a linha é o limite da superfície, o ponto é o limite da linha. Ao invés, as limitações são negações. Ora, é precisamente no interior desses limites que a infinitude da ciência tem lugar, no sentido em que não será possível antecipar aquele  ponto onde não se chegará (“ainda não chegámos lá, mas havemos de fazê-lo”, é costume ouvir dizer a cientistas de diferentes campos e procedências). Entrar em contradição consigo própria, que é o destino a que sujeita a razão quando tende a seguir os seus movimentos naturais, não tem cabimento no interior de nenhuma ciência. O que nos leva a considerar como “esperança malograda” (4)  qualquer tentativa que tenha em vista pôr um freio à investigação científica – e isto ainda antes de se estabelecer qualquer vínculo com interesses económicos e de mercado, o que apenas acrescenta conteúdos finalísticos, que encontram nessa ausência de limite como limiar ( Grenze ) a
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks