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MULHERES E SERVIÇO SOCIAL: mudanças e permanências

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MULHERES E SERVIÇO SOCIAL: mudanças e permanências Rita de Lourdes de Lima 1 Resumo: Analisa as representações dos/as assistentes sociais sobre o ser mulher e o serviço social. Utilizou-se associação de
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MULHERES E SERVIÇO SOCIAL: mudanças e permanências Rita de Lourdes de Lima 1 Resumo: Analisa as representações dos/as assistentes sociais sobre o ser mulher e o serviço social. Utilizou-se associação de palavras com 167 assistentes sociais mulheres e 4 homens, escolhidos de forma aleatória, inscritos no CRESS/Natal-RN. A representação dos assistentes sociais entrevistados sobre o serviço social mostra afastamento dos valores dos quais o Serviço Social se originou. Com relação à representação sobre o ser mulher, também se deram transformações importantes, apesar de, aparecerem elementos que remetem à valores tradicionais ligados à mulher. A mesclagem de elementos novos e antigos, mas com predominância de elementos novos indica que houve transformações significativas nas representações investigadas. Palavras-chave: Serviço social, ser mulher, representação social. Abstract: It analyzes representations of social workers about to be woman and social work. For that, used association of words with 167 women social workers and 4 men, chosen of random away, subscribed in the CRESS/Natal-RN. The representation of social workers interviewed about the social work shows move away of the values of which the social work has begun. The representation about to be woman has happened important changes, despite of there are elements that refer to traditional values related to women. The mix of the new and old elements, but with predominance of new elements, shows that has happened significant changes in the searched representations. Key words: Social work, to be woman, social representation. 1 Doutora. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 1 1. INTRODUÇÃO: A pesquisa, ora apresentada, foi realizada em 2003 e é parte da tese de doutorado em serviço social realizado na UFPE que trata das representações sociais dos assistentes sociais sobre o serviço social e sobre o ser mulher 2. Partimos do pressuposto que há uma representação social tradicional das mulheres na sociedade que lhes atribui como características inatas o serviço, a docilidade, a abnegação entre outras. O serviço social surgiu e se construiu historicamente, como uma profissão destinada a mulheres e com forte ligação com os valores cristãos e humanitários. Este trabalho objetivou, portanto, conhecer as representações dos(as) assistentes sociais sobre o serviço social e sobre o ser mulher. Trabalhamos com associação de palavras com 171 Assistentes Sociais (167 mulheres e 4 homens), escolhidos a partir dos inscritos no CRESS/14 a região(conselho Regional de Serviço Social/RN). Utilizamos o software Evoc para ajudar na análise e organização dos dados. Apresentamos a seguir, os dados encontrados e fazemos uma rápida análise dos mesmos. 2. A REPRESENTAÇÃO DOS ASSISTENTES SOCIAIS SOBRE O SERVIÇO SOCIAL A representação social dos(as) assistentes sociais sobre o serviço social indica um crescente afastamento dos valores dos quais o Serviço Social se originou e com os quais se identificou por tanto tempo. A palavra cidadania foi a mais citada (79 vezes), indicando, no nosso modo de ver, uma modificação da representação social dos(as) assistentes sociais sobre o serviço social. Ora, o serviço Social a partir dos anos 1970, questionou suas bases tradicionais e começou a traçar um novo caminho teórico-metodológico e ético-político. Esse caminho se propõe a buscar o reconhecimento dos direitos sociais dos(as) usuários(as) dos 2 - A tese em questão intitula-se: Os assistentes sociais e a questão da subalternidade profissional: reflexões acerca das representações sociais do ser Mulher e do serviço social. Recife: UFPE, serviços, ou seja, o(a) usuário(a) é visto(a) como cidadão(ã) de direitos. Neste sentido, o serviço social se distanciou da postura inquisitória e policialesca que caracterizou seu surgimento e uma parte de sua prática histórica. Mesmo que ainda hoje, entre as atribuições do serviço social nas instituições, se encontre a triagem ou seleção dos(as) usuários(as) para acesso ao serviço, os(as) assistentes sociais encaram esta atribuição institucional de outra forma: é uma oportunidade de assegurar direitos sociais aos usuários. Neste sentido, a alta freqüência da palavra cidadania parece indicar o mesmo sentido: o serviço social e sua prática hoje tem um novo significado para os(as) profissionais. A segunda palavra mais citada foi assistência, palavra que, aos menos avisados, pode parecer remeter às bases históricas tradicionais do serviço social. Contudo, justamente durante a década de 1980, ou seja, já depois de iniciado o processo de ruptura profissional com o serviço social tradicional, um grupo de profissionais se preocupou em resgatar criticamente o significado histórico desse termo e em distingui-lo de assistencialismo 3. Destarte, associar serviço social à assistência não mais significa vê-lo como caridade, ações emergenciais, mas como associado a cidadãos(ãs) portadores de direitos sociais. Estas duas palavras mais citadas e presentes no núcleo central mostram, do nosso ponto de vista, uma nova configuração na representação acerca do serviço social. Outras palavras com uma alta freqüência e que vão igualmente nesta mesma perspectiva são: compromisso (21 vezes), orientação (27), participação (20). Por outro lado, a palavra ajuda, mesmo com uma freqüência de 16 vezes, teve um rang baixo, ou seja, foi uma das palavras primeiramente lembradas quando se falava em serviço social, o que mostra a permanência da associação entre a profissão e o ato 3 - As discussões teóricas acerca da assistência estabeleceram a distinção entre as ações de cunho assistencialista - ou assistência na perspectiva stricto sensu - e aquelas ações de cunho assistencial - ou realizadas na perspectiva lato sensu. As primeiras são aquelas que visam a perpetuar a dependência da população, ou seja, é um conjunto de atividades de caráter fragmentado, indefinido, instável, apresentando-se como auxílios temporários ou emergenciais que são repassadas como favor, benesse, bondade do poder público ou do político que as realiza. As segundas, mesmo se carregadas de elementos contraditórios, podem ser prestadas na perspectiva do direito e inclusão social. Ver a este respeito: Sposati, Aldaíza de Oliveira et al,1985 e de ajudar ou a caridade falada nos primórdios profissionais. A palavra dedicação, apesar de ter sido citada somente 10 vezes, foi também uma das palavras primeiramente lembradas ao se falar sobre serviço social. Isto mostra ainda uma relação com a idéia de missão/vocação/dedicação, presente também nos primórdios da profissão. A convivência destas palavras junto com cidadania, assistência, compromisso, participação, orientação, inclusão, educação, entre outras, no núcleo central da representação social, mostra que ocorreu uma importante transformação nesta, embora, ainda seja forte no meio profissional a noção de ajuda como associada ao serviço social. Mesmo assim, a palavra amor, que no início da Profissão era central ao se falar sobre serviço social, parece ter sido substituída por compromisso, que agora consta no núcleo central da representação. Amor ficou com uma freqüência de apenas 6 evocações e com um rang alto (3,67), ou seja, não foi uma das palavras primeiramente lembradas ao se falar em serviço social. O mesmo pode ser dito da palavra comunidade (5 vezes evocada e com rang de 5,60), palavra-chave nas décadas do desenvolvimentismo no Brasil ( ) e que passou a ser questionada por ocasião do novo projeto profissional Junto com a palavra amor, aparecem palavras novas no discurso profissional, que pouco a pouco estão entrando no universo representacional dos(as) assistentes sociais, inserindo-se na periferia da representação uma transformação progressiva. Tais palavras estão também associadas ao novo projeto profissional, mas não com a mesma força que cidadania, compromisso, assistência. Daí se explica o seu aparecimento na periferia distante da representação. Entre estas podemos enumerar: articulação, assessoria, competência, conquistas, democracia. O que se observa, portanto, é que a representação social dos assistentes sociais sobre o serviço social mescla, tanto no núcleo central quanto no sistema periférico, elementos que remetem a formas tradicionais do modo de ser profissional com elementos que estão ligados ao novo modo de ser da profissão, com predominância, entretanto, dos novos elementos. Pode-se assinalar, desta forma, que o serviço social ainda se encontra em fase de transformação. O serviço social não se despiu totalmente da velha roupagem, é verdade, mas tampouco permanece da mesma forma. Pelo contrário, percebemos fortes indícios de um processo de transformação na forma de representar o serviço social e tal processo já atingiu o núcleo central, configurando, assim, uma transformação na representação social. 4 3. A REPRESENTAÇÃO DOS ASSISTENTES SOCIAIS SOBRE O SER MULHER Com relação à representação social sobre o ser mulher, também parece-nos que se deram transformações importantes na forma de se perceber e representar as mulheres, apesar de, à semelhança da representação acerca do serviço social, aparecerem elementos no núcleo central da representação que remetem a valores tradicionais ligados à figura feminina. É o caso da palavra amor que, neste caso, aparece no núcleo central com uma evocação alta (13 vezes) e um rang médio de 3,0, o que indica que a associação mulheramor ainda é forte entre os(as) entrevistados(as). Contudo, deve-se assinalar que todas as outras palavras componentes do núcleo ( cidadania, coragem, determinação, força, luta, trabalho ) remetem à representação da palavra mulher, como um ser forte, determinado, corajoso e que trabalha. Deste modo, as mulheres se vêem como seres fortes e decididos, mas, ao mesmo tempo, se vêem fundamentalmente como um ser de amor, voltado para este elemento e tendo-o como valor básico. Destas palavras presentes no núcleo central da representação social, é importante assinalar que a palavra luta foi a mais citada (84 vezes), vindo em seguida a palavra força (45 vezes). As duas palavras aparecem muito juntas e tendo, por vezes, o conteúdo semântico muito próximo. Neste sentido, podem remeter tanto a esta nova representação do ser mulher ser corajoso, batalhador, forte, trabalhador - como também significar a luta diária das mulheres no mercado de trabalho, acrescida da jornada de trabalho com filhos e cuidados domésticos na volta para casa. Da mesma forma que no núcleo central, na periferia próxima se mesclam elementos novos e antigos e assim, junto com capacidade, competência, conquistas, inteligência aparecem, com muita força, as palavras maternidade (36 vezes, rang de 3,69) e sensibilidade (44 vezes, rang de 3,89) remetendo a uma representação tradicional sobre o ser mulher. Já as palavras família e dedicação foram pouco lembradas respectivamente 7 e 8 vezes, mas aparecem também na primeira periferia, pois foram primeiramente evocadas. Contudo, apesar destas palavras estarem presentes e remeterem a uma representação antiga sobre o ser mulher, elas se constituem 5 minoria, pois, na primeira periferia predominam os elementos que remetem a uma nova forma de ver as mulheres. Ora, somos resultado de um longo processo de construção histórica da representação social da figura da mulher e da figura do homem, construídas como seres dicotômicos e antagônicos. As últimas décadas de luta e participação social e política das mulheres tentam romper com esta visão, construindo percepções de mundo e das pessoas menos dicotômicas e mais parceiras e companheiras. Percebe-se, portanto, uma representação social que tem em si muito mais elementos novos, construídos nas lutas e transformações sociais pelas quais passou a sociedade. No sistema periférico, distante da representação social sobre o ser mulher dos(as) assistentes sociais, aparecem 3 elementos para os quais achamos necessário chamar atenção. Os termos preconceito e violência aparecem na periferia distante, o que é motivo de preocupação, pois pode indicar que, a partir do surgimento desta nova mulher, mais decidida, forte, trabalhadora, os(as) assistentes sociais possam estar se esquecendo de que o preconceito e a violência persistem na sociedade, às vezes de forma silenciosa e subterrânea, mas presente, atuante, excludente e silenciadora. A mulher, vista como independente, determinada, resolvida, parece, num primeiro momento, distante do preconceito e da violência. É como se eles já não mais existissem na sociedade. Este pode ser um dos motivos para que estes elementos apareçam na periferia distante da representação social sobre o ser mulher. Embora estes dois elementos possam estar longe da realidade pessoal e/ou afetiva de cada uma, o fato de ser mulher - mesmo quando numa classe privilegiada e com uma relação afetiva satisfatória -, faz com que nos deparemos cotidianamente com o preconceito e a violência contra as mulheres. É necessário alertarmos para isto, pois as modificações sociais, embora significativas, ainda deixam muito a desejar e é preciso estar atento a denúncia da violência e do preconceito, para avançarmos mais ainda na busca de transformações cada vez maiores, no sentido de relações mais igualitárias entre os gêneros. O terceiro elemento que nos chamou atenção e que também aparece na periferia distante da representação social sobre o ser mulher dos assistentes sociais é o termo vaidade. Historicamente associado à mulher, esse termo, ao mesmo tempo em que significava o cuidado e embelezamento da imagem pessoal, carrega também o forte traço 6 semântico que o associava à futilidade, falta do que fazer. Havia um raciocínio subjacente e implícito que partia do pressuposto de que, se a mulher se preocupava excessivamente com a beleza era porque lhe faltava o que fazer, não tinha outras preocupações mais importantes diferentemente do homem e por isso, a vaidade era, na verdade, pura futilidade de pessoas vazias e desocupadas. A sociedade atual, com o seu discurso em torno da boa forma, corpo sarado e da beleza, modificou a forma de ver e tratar a vaidade, incentivando os cuidados com o corpo, cabelos, pele, enfeites etc. Desta forma, a vaidade foi se tornando uma característica comum aos dois sexos - o que a torna menos associada ao sexo feminino ou ao ser mulher. Esta equalização da importância da vaidade para os dois sexos veio reforçar a permissão de um novo olhar para a vaidade. Se, agora, o homem também se cuida e é vaidoso - e ele tem coisas muito importantes para realizar - então isto é positivo e não mais futilidade. Parece-nos, portanto, que estas determinações fizeram o termo vaidade migrar para a periferia distante na representação social sobre o ser mulher. Ainda nessa periferia aparecem elementos que remetem, do ponto de vista semântico, à figura da mulher dócil, intuitiva, sentimental. São eles: amizade, beleza, carinho, feminilidade, intuição, sentimento, solidariedade. Por outro lado, aparecem também elementos que, do nosso ponto de vista, significam novos valores que estão sendo incorporados ao sistema periférico sem representar questionamento ao núcleo central, mas que com o passar do tempo podem vir a se incorporar a ele. São eles: profissão, sabedoria, poder e preconceito. Neste sentido, acreditamos que a representação social dos(as) assistentes sociais sobre o ser mulher encontra-se em processo de transformação. Tal transformação pode ser constatada através da presença destes novos elementos que foram sendo gradativamente incorporados ao sistema periférico e, com a permanência das práticas sociais novas, foram pouco a pouco migrando para o núcleo central. 4. CONCLUSÃO 7 A que nos leva, portanto, a análise destas duas representações? A primeira consideração a ser feita é que as transformações na forma de representar o serviço social e o ser mulher andaram juntas em seu processo de transformação. A sociedade mudou, as mulheres conquistaram novos espaços e o serviço social acompanhou o seu tempo. Desta maneira, ao longo destes 30 anos, o serviço social, acompanhando as modificações sociais e assumindo a postura de comprometimento com os setores para os quais se destina seu trabalho, delineou um novo projeto profissional, que foi aceito e incorporado pela maioria dos(as) profissionais. Assim sendo, parece-nos que o serviço social está tecendo uma nova forma de se ver e de se construir historicamente. Essa nova forma ainda está em processo de construção e mudança, mas seus sinais são evidentes. O mesmo pode ser dito da forma como os(as) assistentes sociais vêem as mulheres, ou melhor dizendo, como vêem a si mesmas, pois são mulheres em sua grande maioria. Neste sentido, as mulheres assistentes sociais construíram uma nova forma de se ver e de ver as mulheres e esta nova forma é mais compatível com o que experimentam nas suas vidas e em suas lutas diárias. Trata-se de uma mulher determinada, trabalhadora, lutadora, forte e que mescla com todos estes elementos o amor, colocando-o como base de suas ações. Sendo assim, é também uma mulher em transição e em processo de transformação de suas representações. Por fim, esta mesclagem de elementos novos e antigos, mas com predominância de elementos novos no núcleo central das duas representações, parece indicar que houve transformações significativas nas formas de representações investigadas. Essas transformações que surgiram nas representações estudadas mesclam elementos das transformações conceituadas por Abric (1998 e 2000) como resistente e progressiva, ou seja, elementos novos trazidos por práticas sociais novas, foram se incorporando à periferia das representações e mesmo ao núcleo central, sem grandes rupturas, modificando as representações de forma lenta e gradual. REFERÊNCIAS 8 ABRIC, Jean-Claude. A abordagem estrutural das Representações Sociais: desenvolvimentos recentes. (Trad. Maria de Fátima de Souza Santos). V Conferência Internacional sobre Representações Sociais. México A abordagem estrutural das Representações Sociais. In: MOREIRA, Antônia S. Paredes & OLIVEIRA, Denize Cristina de (orgs). Estudos Interdisciplinares de Representações Sociais. Goiânia: AB, LIMA, Rita de Lourdes de. Os Assistentes Sociais e a questão da subalternidade profissional: reflexões acerca das Representações Sociais do Ser Mulher e do Serviço Social. Recife: UFPE, MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise.(trad. Álvaro Cabral). Rio de Janeiro: Zahar, SÁ, Celso Pereira de. Núcleo Central das Representações Sociais. Petrópolis: Vozes, SPOSATI, Aldaíza de Oliveira et all. A Assistência na Trajetória das Políticas Sociais Brasileiras: Uma questão em análise.são Paulo: Cortez, Cidadania ou Filantropia: um dilema para o CNAS. São Paulo: Núcleo de Seguridade e Assistência Social da PUC/SP,
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