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Poesia e prosa

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1. Vinicius de MoraesPoesia Completa e Prosa (org. Alexei Bueno) Rio de Janeiro. Nova Aguilar.1998 1 2. Em 1968, publicou-se pela editora José Aguilar a Obra poética…
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  • 1. Vinicius de MoraesPoesia Completa e Prosa (org. Alexei Bueno) Rio de Janeiro. Nova Aguilar.1998 1
  • 2. Em 1968, publicou-se pela editora José Aguilar a Obra poética deVinicius de Moraes (2ª ed. 1974), organizada pelo professor e crítico AfrânioCoutinho (1911-2000), com a colaboração do poeta. Adotou-se ali um arranjoda obra de modo que ficassem evidenciadas certas fases estéticas oucronológicas. Títulos foram agrupados e receberam outro nome (“epígrafe”), ealguns livros tiveram seus poemas espalhados. Uma nota, no início de cadauma destas seções, buscava esclarecer o novo conjunto. Esse agrupamento foimantido na 3ª edição, Poesia Completa e Prosa (Editora Nova Aguilar, 1998),organizada pelo poeta Alexei Bueno, acrescido da seção “Poesias Coligidas”. Segue, abaixo, a descrição dos títulos que compõe as 2ª e 3ª edições daAguilar/Nova Aguilar. Em algumas notas, buscamos esclarecer equívocossobre a divisão e proveniência dos poemas, que, por sua vez, foramdevidamente corrigidos a partir de um cotejamento com edições anteriores. O Sentimento do Sublime Título de uma secção que agrupava os três primeiros livros de Vinicius deMoraes: O caminho para a distância, Forma e exegese e Ariana, a mulher. A Saudade do Cotidiano “Epígrafe” que substituiu o título original do livro Novos poemas. Intermédio Elegíaco Título que substituiu o original: Cinco elegias. O Encontro do Cotidiano Uma nota explica que esta “epígrafe” substituiu o título original: Poemas,sonetos e baladas. No entanto, há vários poemas ali que não faziam partedeste livro e integravam a Antologia poética. Nossa Senhora de Los Angeles e Nossa Senhora de Paris Uma nota explica o uso do título (“epígrafe”) “Nossa Senhora de LosAngeles e Nossa Senhora de Paris”: “Esta epígrafe reúne parte dos poemas publicados sob os títulosAntologia poética e Novos poemas II e escritos durante a permanênca do poetaem Los Angeles (1946-1950) e Paris (1953-1957). O material restante passou aintegrar, indiscriminadamente, a seção “Poesia avulsa” em Dispersos.” De fato, os poemas enfeixados sob o título “Nossa Senhora de LosAngeles” foram publicados originalmente na Antologia poética (com exceção de“Não comerei da alface a verde pétala” e “O ônibus Grayhound atravessa oNovo México”) e os renidos em “Nossa Senhora de Paris” faziam parte do livroNovos poemas II. No entanto, não consta da bibliografia de Vinicius de Moraes 2
  • 3. nenhuma reunião de poemas intitulada Dispersos, assim como nenhum deseus livros traz uma seção com o nome “Poesia avulsa”. A Lua de Montevidéu Uma nota explica o uso do título (“epígrafe”) “A lua de Montevidéu”:“Os poemas agrupados sob a epígrafos títulos Antologia poética e Novospoemas II e escritos durante a permanênca do poeta em Los Angeles (1946-1950) e Paris (1953-1957). O material restante passou a integrar,indiscriminadamente, a seção “Poesia avulsa” em Dispersos.” Contrariando esta informação, não há nesta seção nenhum poema deNovos poemas II. Poesia Vária Reagrupa os poemas de Antologia poética, Novos poemas II, Pra viver umgrande amor e Livro de sonetos. Poesias Coligidas Seção aberta na terceira edição por Alexei Bueno. Compõe-se de poemasinéditos, organizados por ordem cronológica/alfabética. 3
  • 4. O Sentimento do SublimeMísticoO ar está cheio de murmúrios misteriososE na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…Tudo está cheio de ruídos sonolentosQue vêm do céu, que vêm do chãoE que esmagam o infinito do meu desespero.Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobreEu sinto a luz desesperadamenteBater no fosco da bruma que a suspende.As grandes nuvens brancas e paradas –Suspensas e paradasComo aves solícitas de luz –Ritmam interiormente o movimento da luz:Dão ao lago do céuA beleza plácida dos grandes blocos de gelo.No olhar aberto que eu ponho nas coisas do altoHá todo um amor à divindade.No coração aberto que eu tenho para as coisas do altoHá todo um amor ao mundo.No espírito que eu tenho embebido das coisas do altoHá toda uma compreensão.Almas que povoais o caminho de luzQue, longas, passeais nas noites lindasQue andais suspensas a caminhar no sentido da luzO que buscais, almas irmãs da minha?Por que vos arrastais dentro da noite murmurosaCom os vossos braços longos em atitude de êxtase?Vedes alguma coisaQue esta luz que me ofusca esconde à minha visão?Sentis alguma coisaQue eu não sinta talvez?Por que as vossas mãos de nuvem e névoaSe espalmam na suprema adoração?É o castigo, talvez? 4
  • 5. Eu já de há muito tempo vos espioNa vossa estranha caminhada.Como quisera estar entre o vosso cortejoPara viver entre vós a minha vida humana...Talvez, unido a vós, solto por entre vósEu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...Sou bem melhor que vós, almas acorrentadasPorque eu também estou acorrentadoE nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.Eu estou acorrentado à noite murmurosaE não me libertais...Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.Eu sei que ela já tem o seu lugarBem junto ao trono da divindadePara a verdadeira adoração.Tem o lugar dos escolhidosDos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam. Rio de Janeiro, 1933O terceiro filhoEm busca dos irmãos que tinham idoEu parti com pouco ouro e muita bênçãoSob o olhar dos pais aflitos.Eu encontrei os meus irmãosQue a ira do Senhor transformou em pedraMas ainda não encontrei o velho mendigoQue ficava na encruzilhada do bom e do mau caminhoE que se parecia com Jesus de Nazaré... Rio de Janeiro, 1933 5
  • 6. O único caminhoNo tempo em que o Espírito habitava a terraE em que os homens sentiam na carne a beleza da arteEu ainda não tinha aparecido.Naquele tempo as pombas brincavam com as criançasE os homens morriam na guerra cobertos de sangue.Naquele tempo as mulheres davam de dia o trabalho da palha e da lãE davam de noite, ao homem cansado, a volúpia amorosa do corpo.Eu ainda não tinha aparecido.No tempo que vinham mudando os seres e as coisasChegavam também os primeiros gritos da vinda do homem novoQue vinha trazer à carne um novo sentido de prazerE vinha expulsar o Espírito dos seres e das coisas.Eu já tinha aparecido.No caos, no horror, no parado, eu vi o caminho que ninguém viaO caminho que só o homem de Deus pressente na treva.Eu quis fugir da perdição dos outros caminhosMas eu caí.Eu não tinha como o homem de outrora a força da lutaEu não matei quando devia matarEu cedi ao prazer e à luxúria da carne do mundo.Eu vi que o caminho se ia afastando da minha vistaSe ia sumindo, ficando indeciso, desaparecendo.Quis andar para a frente.Mas o corpo cansado tombou ao beijo da última mulher que ficara.Mas não.Eu sei que a Verdade ainda habita minha almaE a alma que é da Verdade é como a raiz que é da terra.O caminho fugiu dos olhos do meu corpoMas não desapareceu dos olhos do meu espíritoMeu espírito sabe...Ele sabe que longe da carne e do amor do mundoFica a longa vereda dos destinados do profeta.Eu tenho esperanças, Senhor.Na verdade o que subsiste é o forte que lutaO fraco que foge é a lama que corre do monte para o vale.A águia dos precipícios não é do beiral das casasEla voa na tempestade e repousa na bonança.Eu tenho esperanças, Senhor. 6
  • 7. Tenho esperanças no meu espírito extraordinárioE tenho esperança na minha alma extraordinária.O filho dos homens antigosCujo cadáver não era possuído da terraHá de um dia ver o caminho de luz que existe na trevaE então, SenhorEle há de caminhar de braços abertos, de olhos abertosPara o profeta que a sua alma ama mas que seu espírito ainda não possuiu. Rio de Janeiro, 1933IntrospecçãoNuvens lentas passavamQuando eu olhei o céu.Eu senti na minha alma a dor do céuQue nunca poderá ser sempre calmo.Quando eu olhei a árvore perdidaNão vi ninhos nem pássaros.Eu senti na minha alma a dor da árvoreEsgalhada e sozinhaSem pássaros cantando nos seus ninhos.Quando eu olhei minha almaVi a treva.Eu senti no céu e na árvore perdidaA dor da treva que vive na minha alma. Rio de Janeiro, 1933 7
  • 8. InatingívelO que sou eu, gritei um dia para o infinitoE o meu grito subiu, subiu sempreAté se diluir na distância.Um pássaro no alto planou vôoE mergulhou no espaço.Eu segui porque tinha que seguirCom as mãos na boca, em conchaGritando para o infinito a minha dúvida.Mas a noite espiava a minha dúvidaE eu me deitei à beira do caminhoVendo o vulto dos outros que passavamNa esperança da aurora.Eu continuo à beira do caminhoVendo a luz do infinitoQue responde ao peregrino a imensa dúvida.Eu estou moribundo à beira do caminho.O dia já passou milhões de vezesE se aproxima a noite do desfecho.Morrerei gritando a minha ânsiaClamando a crueldade do infinitoE os pássaros cantarão quando o dia chegarE eu já hei de estar morto à beira do caminho. Rio de Janeiro, 1933 8
  • 9. RevoltaAlma que sofres pavorosamenteA dor de seres privilegiadaAbandona o teu pranto, sê contenteAntes que o horror da solidão te invada.Deixa que a vida te possua ardenteÓ alma supremamente desgraçada.Abandona, águia, a inóspita moradaVem rastejar no chão como a serpente.De que te vale o espaço se te cansa?Quanto mais sobes mais o espaço avança...Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.Volta, ó alma, ao lugar de onde partisteO mundo é bom, o espaço é muito triste...Talvez tu possas ser feliz um dia. Rio de Janeiro, 1933 9
  • 10. ÂnsiaNa treva que se fez em torno a mimEu vi a carne.Eu senti a carne que me afogava o peitoE me trazia à boca o beijo maldito.Eu gritei.De horror eu gritei que a perdição me possuía a almaE ninguém me atendeu.Eu me debati em ânsias impurasA treva ficou rubra em torno a mimE eu caí!As horas longas passaram.O pavor da morte me possuiu.No vazio interior ouvi gritos lúgubresMas a boca beijada não respondeu aos gritos.Tudo quebrou na prostração.O movimento da treva cessou ante mim.A carne fugiuDesapareceu devagar, sombria, indistintaMas na boca ficou o beijo morto.A carne desapareceu na trevaE eu senti que desaparecia na dorQue eu tinha a dor em mim como tivera a carneNa violência da posse.Olhos que olharam a carnePor que chorais?Chorais talvez a carne que foiOu chorais a carne que jamais voltará?Lábios que beijaram a carnePor que tremeis?Não vos bastou o afago de outros lábiosTremeis pelo prazer que eles trouxeramOu tremeis no balbucio da oração?Carne que possui a carneOnde o frio?Lá fora a noite é quente e o vento é tépidoGritam luxúria nesse ventoOnde o frio?Pela noite quente eu caminhei...Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo 10
  • 11. Que eu ouvia, do mar.Caminhei talvez para a carneQue vira fugir de mim.No desespero das árvores paradas busquei consolaçãoE no silêncio das folhas que caíam senti o ódioNos ruídos do mar ouvi o grito de revoltaE de pavor fugi.Nada mais existe para mimSó talvez tu, Senhor.Mas eu sinto em mim o aniquilamento...Dá-me apenas a aurora, SenhorJá que eu não poderei jamais ver a luz do dia. Rio de Janeiro, 1933 11
  • 12. Velha históriaDepois de atravessar muitos caminhosUm homem chegou a uma estrada clara e extensaCheia de calma e luz.O homem caminhou pela estrada aforaOuvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do solCom o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.O homem caminhou dias e dias pela estrada longaQue se perdia na planície uniforme.Caminhou dias e dias…Os únicos pássaros voaramSó o sol ficavaO sol forte que lhe queimava a fronte pálida.Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonteMas o sol tinha secado todas as fontes.Ele perscrutou o horizonteE viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.Ele perscrutou o céuE não viu nenhuma nuvem.E o homem se lembrou dos outros caminhos.Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontesEram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puroOs pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.Lá havia tempestade e havia bonançaHavia sombra e havia luz.O homem olhou por um momento a estrada clara e desertaOlhou longamente para dentro de siE voltou. Rio de Janeiro, 1933 12
  • 13. PurificaçãoSenhor, logo que eu vi a naturezaAs lágrimas secaram.Os meus olhos pousados na contemplaçãoViveram o milagre de luz que explodia no céu.Eu caminhei, Senhor.Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seivaEu, Senhor, pobre massa sem seivaEu caminhei.Nem senti a derrota tremendaDo que era mau em mim.A luz cresceu, cresceu interiormenteE toda me envolveu.A ti, Senhor, gritei que estava puroE na natureza ouvi a tua voz.Pássaros cantaram no céuEu olhei para o céu e cantei e cantei.Senti a alegria da vidaQue vivia nas flores pequenasSenti a beleza da vidaQue morava na luz e morava no céuE cantei e cantei.A minha voz subiu até ti, SenhorE tu me deste a paz.Eu te peço, SenhorGuarda meu coração no teu coraçãoQue ele é puro e simples.Guarda a minha alma na tua almaQue ela é bela, Senhor.Guarda o meu espírito no teu espíritoPorque ele é a minha luzE porque só a ti ele exalta e ama. Rio de Janeiro, 1933 13
  • 14. SacrifícioNum instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.– Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávidoPisando o sangue do chão, vibrando, na luta.No ódio do monstro que vinhaAbatendo com o peito a miséria que vivia na terraO homem sentiu a própria grandezaE gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.Ele avançou.Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.As únicas estrelas que restavam no céuDesapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.O homem sozinho, abandonado na trevaGritou que a treva é das almas traídasE que o sacrifício é a luz que redime.Ele avançou.Sem temer ele olhou a morte que vinhaE viu na morte o sentido da vitória do Espírito.No horror do choque tremendoAberto em feridas o peitoO homem gritou que a traição é da alma covardeE que o forte que luta é como o raio que fereE que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.No sangue e na lamaO corpo sem vida tombou.Mas nos olhos do homem caídoHavia ainda a luz do sacrifício que redimeE no grande Espírito que adejava o mar e o monteMil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na lutaEra o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo. Rio de Janeiro, 1933 14
  • 15. TardeNa hora dolorosa e roxa das emoções silenciosasMeu espírito te sentiu.Ele te sentiu imensamente tristeImensamente sem DeusNa tragédia da carne desfeita.Ele te quis, hora sem tempoPorque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.Ele te amouE te plasmou na visão da manhã e do diaNa visão de todas as horasÓ hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas. Rio de Janeiro, 1933 15
  • 16. Rua da amarguraA minha rua é longa e silenciosa como um caminho que fogeE tem casas baixas que ficam me espiando de noiteQuando a minha angústia passa olhando o alto.A minha rua tem avenidas escuras e feiasDe onde saem papéis velhos correndo com medo do ventoE gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladramTem árvores grandes que tremem na noite silenteFugindo as grandes sombras dos pés aterrados.A minha rua é soturna…Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemosSozinha e prostrada diante da imagemSem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.A minha rua tem um lampião apagadoNa frente da casa onde a filha matou o paiPorque não queria ser dele.No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.A minha rua é a expiação de grandes pecadosDe homens ferozes perdendo meninas pequenasDe meninas pequenas levando ventres inchadosDe ventres inchados que vão perder meninas pequenas.É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.É a impossibilidade de fuga diante da vidaÉ o pecado e a desolação do pecadoÉ a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredoComo negação do aniquilamento.É uma rua como tantas outrasCom o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.É a rua por onde eu passo a minha angústiaOuvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.É a longa rua que me leva ao horror do meu quartoPelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosaQue me leva à solidão gelada do meu quarto...Rua da amargura… Rio de Janeiro, 1933 16
  • 17. VigíliaEu às vezes acordo e olho a noite estreladaE sofro doidamente.A lágrima que brilha nos meus olhosPossui por um segundo a estrela que brilha no céu.Eu sofro no silêncioOlhando a noite que dorme iluminadaPavorosamente acordado à dor e ao silêncioPavorosamente acordado!Tudo em mim sofre.Ao peito opresso não basta o ar embalsamado da noiteAo coração esmagado não basta a lágrima triste que desce,E ao espírito aturdido não basta a consolação do sofrimento.Há qualquer coisa fora de mim, não sei, no vagoComo que uma presença indefinidaQue eu sinto mas não tenho.Meu sofrimento é o maior de todos os sentimentosPorque ele não precisou a visão que flutuaE não a precisará jamais.A dor estará em mim e eu estarei na dorEm todas as minhas vigílias...Eu sofrerei até o último diaPorque será meu último dia o último dia da minha mocidade. Rio de Janeiro, 1933 17
  • 18. O poetaA vida do poeta tem um ritmo diferenteÉ um contínuo de dor angustiante.O poeta é o destinado do sofrimentoDo sofrimento que lhe clareia a visão de belezaE a sua alma é uma parcela do infinito distanteO infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.Ele é o etemo errante dos caminhosQue vai, pisando a terra e olhando o céuPreso pelos extremos intangíveisClareando como um raio de sol a paisagem da vida.O poeta tem o coração claro das avesE a sensibilidade das crianças.O poeta chora.Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristesOlhando o espaço imenso da sua alma.O poeta sorri.Sorri à vida e à beleza e à amizadeSorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.O poeta é bom.Ele ama as mulheres castas e as mulheres impurasSua alma as compreende na luz e na lamaEle é cheio de amor para as coisas da vidaE é cheio de respeito para as coisas da morte.O poeta não teme a morte.Seu espírito penetra a sua visão silenciosaE a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.A sua poesia é a razão da sua existênciaEla o faz puro e grande e nobreE o consola da dor e o consola da angústia.A vida do poeta tem um ritmo diferenteEla o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céuPreso, eternamente preso pelos extremos intangíveis. Rio de Janeiro, 1933 18
  • 19. MormaçoNo silêncio morno das coisas do meio-diaEu me esvaio no aniquilamento dos agudíssimos do violinoQue a menina pálida estuda há anos sem compreender.Eu sinto o letargo das dissonâncias harmônicasDo vendedor de modinhas e da pedra do amoladorQue trazem a visão de mulheres macilentas dançando no espaçoNa moleza das espatifadas da carne.Eu vou pouco a pouco adormecendoSentindo os gritos do violino que penetram em todas as frestasE ressecam os lábios entreabertos na respiraçãoMas que dão a impressão da mediocridade feliz e boa.Que importa que a imagem do Cristo pregada na parede seja a verdade...Eu sinto que a verdade é a grande calma do sonoQue vem com o cantar longínquo dos galosE que me esmaga nos cílios longos beijos luxuriosos...Eu sinto a queda de tudo na lassidão...Adormeço aos poucos na apatia dos ruídos da ruaE na constância nostálgica da tosse do vizinho tuberculosoQue há um ano espera a morte que eu morro no sono do meio-dia. Rio de Janeiro, 1933 19
  • 20. RomanzaBranca mulher de olhos clarosDe olhar branco e luminosoQue tinhas luz nas pupilasE luz nos cabelos lourosOnde levou-te o destinoQue te afastou para longeDa minha vista sem vidaDa minha vida sem vista?Andavas sempre sozinhaSem cão, sem homem, sem DeusEu te seguia sozinhoSem cão, sem mulher, sem DeusEras a imagem de um sonhoA imagem de um sonho eu eraAmbos levando a tristezaDos que andam em busca do sonho.Ias sempre, sempre andandoE eu ia sempre seguindoPisando na tua sombraVendo-a às vezes se afastarNem sabias quem eu eraNão te assustavam meus passosTu sempre andando na frenteEu sempre atrás caminhando.Toda a noite em minha casaPas
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