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Revista medo

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1. LEITURASCOMPARTILHADAS EXEMPLAR AVULSO R$10,00 | DISTRIBUIÇÃO GRATUITA PA R A A S E S C O L A S D O L E I A B R A S I L | FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 |…
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  • 1. LEITURASCOMPARTILHADAS EXEMPLAR AVULSO R$10,00 | DISTRIBUIÇÃO GRATUITA PA R A A S E S C O L A S D O L E I A B R A S I L | FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR MEDO PREPARE-SE! VOCÊ VAI ENTRAR EM TERRENO PERIGOSO. TRATAMOS DOS MAIS VARIADOS SINTOMAS DO MEDO. VISITAMOS A LITERATURA E O CINEMA. BUSCAMOS TODAS AS SUAS CAUSAS: ESCURIDÃO, VIOLÊNCIA, PERDA E MORTE. CHEGAMOS AO PRAZER DO MEDO E AO MEDO DO PRAZER. COMECE JÁ! NÃO HÁ NADA A TEMER.
  • 2. LEITURASCOMPARTILHADAS FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR Editorial p.3 Benita Prieto O fascínio que as histórias de terror e mistério exercem sobre nós. p. 4 Araújo Leila Borges de Araújo Mary Shelley e a literatura fantástica. p. 8 Feitosa Charles Feitosa Como o medo pode ser sábio. p. 10 Tatiana Belinky Conheça Nieta, uma moça que temia parecer medrosa. p. 11 Miriam Sutter Fóbos, entidade mitológica. p. 12 Entre Entrevista O cordelista Gonçalves Ferreira da Silva p. 14 Gonçalves Ferreira erreir Silva. Albuquerque José Durval Cavalcanti de Albuquerque Existirá um dia no qual tenhamos vivido sem o mais leve sentimento de medo? p. 15 Eduardo J. Irineu Eduardo J. Corrêa Violência: o medo, às vezes, supera a própria causa. p. 16 Entre Entrevista Ventur entura Zuenir Ventura e uma cidade partida. p. 18 Bárbara Aranyl Bárbara Aranyl de La Corte O depoimento de quem sofreu a síndrome do pânico. p. 20 Janeir aneiro Cássia Janeiro Quando o medo pode seduzir. p. 22 Clara Albuquerque Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque Unidade de leitura. p.24 Entrevista Entre A autora da coleção “Quem tem medo?” , Fanny Joly fala, em Paris, Joly, com a jornalistaTatiana Milanez p. 26 Milanez. T Cacá Mourthé Pluft, o doce fantasminha com medo de gente. p. 28 João Carlos Rodrigues Filmes de arrepiar. p. 30 Filmografia Filmografia p. 31 Ricardo Ricardo Oiticica O diálogo entre Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos. p. 32 Paulo Condini Luizinho sofre com o valentão do ônibus da escola. p. 34 Roberto Corrêa dos Santos Breve genealogia do medo na obra de Clarice Lispector. p. 36 Didier Lamaison O pavor de falar um idioma estrangeiro. p.37 Rosa Gens A força da literatura de terror e seus maiores nomes. p. 38 hereza Thereza Lessa Um escritor assombrado por fantasmas geniais. p. 41 Bibliografia Bibliografia p. 42 2
  • 3. LEITURASCOMPARTILHADAS FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR BÚÚÚ! Quando escolhemos o tema dessa edição, imediatamente nos ocorreu buscar o depoimento daqueles que julgávamos sem medo: os evictos. Aqueles que, por estarem condenados por uma vida à reclusão; por viverem na total promiscuidade corroendo seu amor-próprio; por terem esquecido as condições de sociabilidade e já não terem mais qualquer esperança, são donos do mais absoluto “nada a perder”. Puro engano — se há vida, há medo. Logo descobrimos o conceito que norteia esse número de Leituras Compartilhadas: se alguma espécie, em qualquer tempo, não teve medo, então essa espécie foi extinta. O medo é o mais básico dos instintos e está ligado à sobrevivência. Não só à sobrevivência física, à dor e à morte da matéria. Ele está ligado, também, à manutenção de uma situação confortável. Na psicologia, confortável não é o que é agradável, mas o que não nos ameaça com mudanças. Vem daí o nosso medo de tudo: do desconhecido, do novo e até da felicidade.E também do escuro, de altura, de solidão, do outro etc. Como se isso não fosse o bastante, o medo nos é ensinado caprichosamente, por tudo e por todos, ao longo da vida.Quem nunca escutou dos pais um grito tenso dizendo — “cuidado”. Cuidado para não cair. Cuidado com estranhos, com os bichos, com fogo... Quantas histórias ouvimos na infância como as de Chapeuzinho Vermelho, Pedro e o Lobo e o Homem do Surrão, para ficar só nas que nos aconselhavam e não falar das que nos davam medo como as cantigas de ninar? Por isso, talvez, o medo nos cause tantas reações físicas como suor frio, taquicardia, boca seca, paralisia, necessidade de fechar ou cobrir os olhos, “Se alguma espécie, em qualquer tempo, não teve medo, então essa espécie foi extinta. ” pêlos arrepiados, e outros sintomas que são derivações de medo, que também se desdobra em pânico, fobia, pavor etc. Estranhamente, o medo que nos ameaça é o mesmo que nos seduz. Drácula, o príncipe das trevas que visitava o pescoço das donzelas em seus leitos desprotegidos tarde da noite, aterrorizava e seduzia com a mesma competência. É um paradoxo: quanto mais ameaçadora a história ou a personagem, tão mais atraente a obra. O medo inspira a literatura, rende bilhões no cinema e motiva dezenas de esportes chamados radicais, onde o homem testa seus limites físicos e emocionais. Na mitologia, Fóbos, o Deus do Medo, é filho de Marte, o Deus da Guerra. Curiosamente, sua face foi pouco interpretada pelas artes ao longo da história. Talvez porque o medo se propague e cresça sob o véu da escuridão e do desconhecimento. Poderíamos até afirmar, diante disso, que sua mãe seja a Noite, porque é nesse horário que o medo mais se apodera da mente humana. O medo sempre esteve ligado ao olhar, tanto pelo que se via quanto pelo que não se via: a Medusa transformava em pedra a todos que a viam. E todos os monstros — da Esfinge aos dragões medievais, de Cérbero, o cão do inferno ao recente Fred Krueger — possuem graves distorções estéticas que ampliam sua capacidade amedrontadora. Prepare-se para ler sem sustos nem sobressaltos. Desta vez vamos falar desse “gigante da alma”1, sob suas mais variadas faces, para ajudá-lo a livrar seus alunos dos medos, até mesmo dos livros. Leituras Compartilhadas é uma publicação da ONG Leia Brasil de Promoção da Leitura, distribuída gratuitamente às escolas conveniadas à ONG. Todos os direitos foram cedidos pelos autores para os fins aqui descritos. Quaisquer reproduções (parciais ou integrais), deverão ser autorizadas previamente. Os artigos assinados refletem o pensamento de seus autores. Leia Brasil e Leituras Compartilhadas são marcas registradas. Editor: Jason Prado Subeditora: Ana Cláudia Maia Direção de Arte e Produção Gráfica: Barbara Necyk Projeto Gráfico: Thiago Prado Consultor literário: Ricardo Oiticica Revisão: Sueli Rocha Tiragem: 10.000 exemplares Leia Brasil – Organização Não Governamental de Promoção da Leitura. Rua Santo Cristo 148/150 parte, Santo Cristo, Rio de Janeiro CEP 20220300 Tel/Fax: 21 22637449 leiabr@leiabrasil.org.br www.leiabrasil.org.br 1 Emilio Mira y Lopez. Georgii &Vladimir Stenberg (1927) litografia em cores, detalhe. Biblioteca Estatal Russa, Moscou. 3
  • 4. LEITURASCOMPARTILHADAS FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR O FASCÍNIO PE BENITA PRIETO “ A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido. ” H. P. Lovecraft DIVULGAÇÃO Estamos num novo século e a tecnologia se desenvolve cada vez mais. No entanto, somos ainda os seres que, maravilhados, ouvimos histórias de feitos, façanhas, assombrações... Também aumentaram os veículos de comunicação, com o surgimento do rádio, cinema, televisão, computador. Cada um buscando, à sua maneira, relacionar-se com a narrativa. E, num caldeirão repleto de gêneros, temos o desejo pelo medo. Querem a prova? Pois perguntem a uma criança ou adolescente que tipo de história quer ouvir e terão como resposta um sonoro: TERROR! O medo é um sentimento básico que faz parte do desenvolvimento emocional. Ele nos acompanha ao longo da vida e vai adquirindo novas dimensões e características. Tudo já começa no nascimento, ou quem sabe antes, quando o bebê, que se encontrava numa situação de total aconchego e proteção, de repente, passa a conviver com um mundo desconhecido, caótico e confuso. Logo ele vai atribuir a esse mundo externo tudo que lhe faz mal, como a fome, o frio, a ansiedade. O mundo vai ficar dividido no que o satisfaz e lhe dá prazer e no que lhe provoca tensão, frustração e mal-estar. A criança passa por vários estágios. No princípio, na sua fantasia, ela atribui poderes mágicos a seus pensamentos e desejos, não diferenciando o que imagina do que ocorre na realidade. O que ela representa em imagens tem relação com a intensidade de suas tendências amorosas ou destrutivas e com sua capacidade de tolerância à frustração. A qualidade dessa dinâmica será a medida dos temores e dos medos que sente e, no futuro, 4 poderá se refletir em suas ações, quando for adolescente, adulto ou velho. Aos poucos, a fantasia vai se organizar em um mundo de fadas ou de bruxas, de monstros ou salvadores. A imaginação é muito rica, e as intensas e contraditórias emoções do dia podem se converter em imagens aterradoras durante a noite, nos sonhos. Também a escuridão tende a se transformar em tudo que representa o desconhecido, num mundo que está começando a se ordenar. A criança tem muita dificuldade de entender onde acaba o mundo de dentro e começa o mundo de fora. A escuridão pode aumentar essa dúvida e dar a possibilidade de que a imaginação, os sentimentos e as emoções reinem absolutos. Nesse momento, pode-se utilizar a arma poderosa e ancestral que é o conto popular. Ele é uma ferramenta valiosíssima a serviço do desenvolvimento emocional da criança. Nesses contos, fala-se dos conflitos reais e imaginários que todos experimentam durante seu crescimento. Jacqueline Held no livro O imaginário no poder, apresenta idéias que são fundamentais para o entendimento da necessidade que temos dos contos fantásticos. Para ela “a narração fantástica reúne, materializa e traduz todo um mundo de desejos para transformar à sua própria vontade o universo. Mas vai tocar o leitor ou o ouvinte se não for feito apenas de entidades ou seres abstratos. O que torna vivo o fantástico é o cotidiano com todos os seus diferentes aspectos”. Podemos pensar nessas questões e relacioná-las com as histórias de medo, tanto para adultos quanto para crianças. Como já vimos anteriormente, se inserimos seres fantásticos em um mundo que é nosso conhecido eles provocam angústia, pois há sempre a possibilidade de os relacionarmos com o nosso real, mesmo sem percebermos. Mas isso não causa grandes prejuízos e apenas vai possibilitar que vivenciemos todas aquelas sensações fortes, trazidas pela história, que se
  • 5. LEITURASCOMPARTILHADAS FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR LAS HISTÓRIAS E posteriormente servem para aprofundar o processo de amadurecimento pessoal, já que neles estão em jogo emoções básicas. Outra questão que nos parece muito interessante é de onde vem essa noção de sinistro tão em moda atualmente? Em primeiro lugar, fala-se de uma indução artística e literária ao medo que é provocada pelo grotesco, já que ele é o exagero, ou seja, o deformado, aquele que não tem forma. Portanto há uma indução ligada à morfologia ou iconologia literária facilmente identificável nos fantasmas ou defuntos, por seu aspecto. Essa idéia-núcleo de deformidade está na base de diversos arquétipos que se repetem incessantemente nas expressões artísticas. Mas o prefixo negativo de (de)formidade pode ser lido também como aquilo que está contra a forma habitual. As personificações deformes seriam aquelas que se contrapõem à realidade percebida ou que inclusive se aproximam dos mistérios da morte, do vazio, do inapreensível. Também há uma concepção degradada do grotesco, assimilada do aspecto disparatado, absurdo, extravagante ou grosseiro que vemos em muitos personagens. Historicamente o grotesco já era conhecido na Antigüidade como podemos ver nas representações mitológicas dos centauros, sátiros, medusas... A literatura e a arte medieval também estão povoadas de expressões grotescas, por causa do tom religioso dessas artes e a conexão com o mundo sobrenatural e escatológico. Portanto o deforme é o que está além da morte num duplo sentido: como carente de forma (espíritos, duendes...) e como exagero ou deformação (as visões do inferno, a imagem do diabo com chifres e asas de morcego). Em todo caso, mais que a deformidade, o conceito moderno sobre monstro está aproximado ao desconhecido e à surpresa. O monstruoso é o contravalor da beleza, o espelho ou o foco que ajusta a sua imagem ou, dito de continua 5 DIVULGAÇÃO resolverão num plano imaginário, preservando nossa integridade física. Acontece que, muitas vezes, pais, avós, familiares, amigos transformam o quase prazer que esses contos provocam em algo aterrador, através da atmosfera de pavor construída, e propositalmente criando um medo real, como se algo pudesse acontecer. E muitos de nós já fomos vítimas desse terror na infância, quando ouvíamos que uma infinidade de monstros podiam nos levar. Por isso deve-se tomar cuidado, não especificamente com o conteúdo, mas com a forma de utilização da história. Claro que estamos pensando em crianças que não estão traumatizadas ou têm algum transtorno psíquico ou psicológico. O professor francês Marc Soriano defende que “as crianças utilizam certo tipo de imagens que despertam nelas ressonâncias afetivas para se ‘vacinar’ contra eventuais traumatismos”. Mas de onde vem esse fascínio pelas histórias de medo? O psicólogo Bruno Bettelheim nos explicou o assunto a propósito dos contos de fadas, dizendo que são um meio de projeção dos instintos e problemas da criança. Através deles são exteriorizados determinados conflitos da psique infantil, dando forma e corpo a esses “fantasmas”. Já Freud interpreta o sinistro como aquilo que foi convertido em espantoso, mas que em algum tempo foi familiar e conhecido. Da união das duas idéias podemos supor que o sinistro, contido nos contos de medo, consiste em que tais “fantasmas” pessoais nunca nos abandonam de todo e nos revisitam periodicamente, materializando-se na ocasião em que algum estímulo os evoque. Por detrás do sinistro está, de forma encoberta um desejo de algo proibido ou oculto. Por isso, nos primeiros anos de vida, esses contos que tanto fascinam são importantes, como uma forma inconsciente de exorcizar medos reais através de medos fictícios.
  • 6. LEITURASCOMPARTILHADAS FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR O FASCÍNIO PEL outra maneira, a outra face da mesma moeda. É próprio do sinistro a sua presença latente, como na Cuca das cantigas de ninar, ou a necessidade de ocultamento, daí a importância dos heróis mascarados. Todos são pessoas com uma “pele de animal”, ou animais com uma “pele de pessoa”, trazendo de novo o mito. Como exemplo de uma figura folclórica e sinistra, temos o “Homem do Saco”. Sua fascinação depende do seu mistério, seu ocultamento, e mesmo seus objetivos não revelados. O que acontece é que essa irracionalidade é assimilada rapidamente, no campo moral, ligado à maldade e à monstruosidade. Mas a morfologia das aparições sinistras coincide também com o luminoso. Assim a presença de Deus é a intuição do desconhecido, de uma força sobre-humana que produz pânico, estupor e fascínio, que causa ao sujeito experiências de diversos graus de prazer ou desprazer. Deus, em seus aspectos de fascinante, excessivo, superabundante, aproxima-se do conceito de grotesco no seu duplo sentido como carente de forma ou contra a forma, contrapondo-se à normal. A experiência do sagrado se transforma à medida que a religião racionaliza a idéia do sagrado, em uma experiência do sinistro, do não-conhecido, do inominável, que adota as rubricas literárias do fantástico, estranho, aterrador. Desse modo, o sinistro nos aparece como grotesco e o grotesco se reafirma como essa percepção irracional dos aspectos desconhecidos de nossa personalidade, como o retorno ao proibido, provocado por estímulos que têm alguma relação (metafórica ou metonímica) com essa pulsão latente. A análise do medo, tendo como paradigma a psicologia e a psicanálise, é muito extensa, mas não poderia deixar de ser abordada, mesmo que, minimamente, nesse artigo. Agora podemos perceber que o desejo pelas histórias de medo não é da atualidade. Esses personagens são os que estão no nosso imaginário e há muito tempo amedrontam e convivem com o homem, embora tenham trocado um pouco de feição. Nossos monstros de hoje estão baseados em arquétipos antigos, mas mudaram de forma e até de endereço. Temos, por exemplo, os alienígenas e até os psicopatas, bem verdadeiros, que passeiam pelas cidades ferindo ou matando. Podemos conviver com todos os tipos de monstros, como os dos desenhos japoneses, os Aliens, os Dráculas, os morto-vivos e os seres primitivos, nossos velhos conhecidos, que ainda existem nas pequenas comunidades. E todos podem amedrontar, pois de alguma maneira revivem os mitos. E será que essas narrativas também não trazem embutidas as velhas funções de Propp? Através delas, não estaremos buscando como desenlace a recompensa, a descoberta do objeto mágico ou a reparação de um mal? Mas hoje nossos meninos não são os mesmos. Têm um mundo de modernidades que os faz ver e sentir de outra forma. Aprendem com mais rapidez, quando têm acesso à informação e à escola. Podem ver o universo através das telas dos computadores e dos televisores. Por isso muitas coisas se banalizam e sentimentos que deveriam ser preservados para toda a vida são esquecidos ou nem são sentidos. Não há mais o silêncio que possibi- 6
  • 7. LEITURASCOMPARTILHADAS FASCÍCULO 6 | OUTUBRO DE 2002 | WWW.LEIABRASIL.ORG.BR LAS HISTÓRIAS litava elaborar os medos internos. Nem existe o mistério e o encanto que rodeava as coisas. As relações vão ficando frias e individualizadas. E a criança vai perdendo a oportunidade de imaginar. Talvez dai venha a necessidade de ouvir/ver o terror, que eles querem forte. As histórias têm que ter muitos componentes de violência como o sangue, ossos expostos, morte. Isso deve exprimir o desejo de algo muito mais horripilante que a própria crueldade da vida, vista através dos diversos meios de comunicação. Há um lado que pode ser saudável quando atendemos o pedido: levamos contos que tenham os tais elementos do horror, mas também ajudem a recriar algum ambiente mágico. Dessa maneira estaremos, mais uma vez, religando esses ouvintes a toda uma ancestralidade. Sem esse clima estaremos apenas contribuindo para banalizar a morte, reforçando a violência que vemos todos os dias em nossas casas, a qualquer hora, impassíveis, através das centenas de notícias sobre o assunto. Outro perigo é que, atualmente, construímos uma idéia de que somos imortais. Quem sabe para abafarmos o enorme pavor que temos de morrer. Essa falsa idéia de imortalidade deve-se ao aumento da expectativa de vida do homem, através do avanço da medicina e à modificação de nossos rituais, pois geralmente estamos sós em um leito de hospital quando chega o nosso momento final. A morte não é mais compartilhada e, como diz Philippe Ariès passamos a morte DIVULGAÇÃO 7 doméstica para a morte selvagem. Todas essas coisas se associam e para que possamos pensar um pouco sobre o reflexo delas nas crianças, trazemos uma declaração muito interessante do escritor Jesús Callejo que está no seu livro Los dueños de los sueños. Ele sugere que, nos tempos atuais, a Cuca foi substituída pela opressão e comercialização que é feita com o carinho, quando alguém diz para uma criança: Se não fizer tal coisa, eu não vou mais gostar de você. Assim a criança vai incorporar à sua grande lista de temores o de não ser querida por aqueles de quem ela gosta tanto e necessita. Esse será mais um dos conflitos psicológicos que ela terá que vencer ao longo da vida. BIBLIOGRAFIA CALLEJO, Jésus. Los dueños de los sueños: ogros, cocos y otros seres oscuros. Barcelona: Martínez Roca, 1998. CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990. CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro/ Ministério da Educação e Cultura, 1954. Literatura oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1984. COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. 2.ed. Rio de Janeiro: Ática, 1991. HELD, Jacqueline
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