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Jauss_História Da Lit Como Provocação à Teoria Da Literatura
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  JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Ática, 1994. 78p. JAUSS, Hans Robert.  A história da literatura como provocação à teoria literária . Trad. Sérgio Tellaroli. SãoPaulo: Ática, 1994. 78p.[5] I  A história da literatura vem, em nossa época, se fazendo cada vez mais mal-afamada — e, aliás, nãode forma imerecida [1] . Nos últimos 150 anos, a história dessa venerável disciplina tem inequivocamentetrilhado o caminho da decadência constante. Todos os seus feitos culminantes datam do século XIX. Àépoca de Gervinus e Scherer, de De Sanctis e Lanson, escrever a história de uma literatura nacional eraconsiderado o apogeu da carreira de um filólogo. Os patriarcas da história da literatura tinham como metasuprema apresentar, por intermédio da história das obras literárias, a idéia da individualidade nacional acaminho de si mesma. Hoje, essa aspiração suprema constitui já uma lembrança distante. Em nossa vidaintelectual contemporânea, a história da literatura, em sua forma tradicional, vive tão-somente umaexistência nada mais que miserável, tendo se preservado apenas na qualidade de uma exigência caduca doregulamento dos exames oficiais. Como matéria obrigatória do currículo do ensino secundário, ela já quasedesapareceu na Alemanha. No mais, histórias da literatura podem ainda ser encontradas, quando muito,nas estantes de livros da burguesia instruída, burguesia esta que, na falta de um dicionário de literaturamais apropriado, as consulta principalmente para solucionar charadas literárias [2] .[6] Nos cursos oferecidos nas universidades, a história da literatura está visivelmente desaparecendo.Há tempos já não constitui segredo algum afirmar que os filólogos de minha geração orgulham-se de ter substituído os tradicionais painéis globais ou de época de sua literatura nacional por cursos voltados paraum enfoque sistemático ou centrados em problemas históricos específicos. A produção científica oferece umquadro semelhante: as empreitadas coletivas, na forma de manuais, enciclopédias e volumes interpretativos— estes constituindo o ramo mais recente das assim chamadas slnteses de livraria —, desalojaram ashistórias da literatura, tidas por pretensiosas e pouco sérias. Significativamente, tais coletâneas pseudo-históricas raramente resultam da iniciativa de estudiosos, mas devem-se, em geral, à idéia de algum editor empreendedor. Já a pesquisa levada a sério, por sua vez, encontra registro em monografias de revistasespecializadas, pautando-se pelo critério mais rigoroso dos métodos científico-literários da estilística, daretórica, da filologia textual, da semântica, da poética e da história das palavras, dos motivos e dos gêneros.Por certo, também as revistas atuais especializadas em filologia encontram-se ainda, em grande medida,repletas de ensaios que se contentam com uma abordagem histórico-literária. Seus autores, porém, vêem-se expostos a uma dupla crítica. Da ótica das disciplinas vizinhas, os problemas que levantam são, abertaou veladamente, qualificados de pseudoproblemas, e seus resultados, desdenhados como um saber pura-mente antigo. Tampouco a crítica oriunda da teoria literária revela-se mais complacente em seu juízo. Talcrítica tem a objetar à história clássica da literatura que ela apenas se pretende uma forma da escrita dahistória, mas, na verdade, move-se numa esfera exterior à dimensão histórica e, ao fazê-lo, falhaigualmente na fundamentação do juízo estético que seu objeto — a literatura, enquanto uma forma de arte— demanda [3] .Primeiramente, cumpre esclarecer essa crítica. A história da literatura, em sua forma mais habitual,costuma esquivar-se do perigo de uma enumeração meramente cronológica dos fatos ordenando seu  material segundo tendências gerais, gêneros e “outras categorias”, para então, sob tais rubricas, abordar asobras individualmente, em seqüência cronológica. A biografia dos autores e a apreciação do conjunto desua obra surgem aí em passagens [7] alea|tórias e digressivas, à maneira de um elefante branco. Ou,então, o historiador da literatura ordena seu material de forma unilinear, seguindo a cronologia dos grandesautores e apreciando-os conforme o esquema de “vida e obra” — os autores menores ficam aí a ver navios(são inseridos nos intervalos entre os grandes), e o próprio desenvolvimento dos gêneros vê-se, assim,inevitavelmente fracionado. Esta última modalidade de história da literatura corresponde sobretudo aocânone dos autores da Antigüidade clássica; já a primeira encontra-se com maior freqüência nas literaturasmodernas, que se defrontam com a dificuldade — crescente à medida que se aproximam do presente — deter de fazer uma seleção dentre uma série de autores e obras cujo conjunto mal se consegue divisar.Contudo, uma descrição da literatura que segue um cânone em geral preestabelecido e simplesmenteenfileira vida e obra dos escritores em seqüência cronológica não constitui — como já observou Gervinus— história alguma; mal chega a ser o esqueleto de uma história [4] . Do mesmo modo, nenhum historiador tomaria por histórica uma apresentação da literatura segundo seus gêneros que, registrando mudanças deuma obra para a outra, persiga as formas autônomas do desenvolvimento da lírica, do drama e do romancee emoldure o todo inexplicado com uma observação de caráter geral — amiúde tomada emprestada àhistória — sobre o Zeitgeist   e as tendências políticas do período. Por outro lado, não é apenas raro, masfrancamente malvisto, que um historiador da literatura profira vereditos qualitativos acerca de obras deépocas passadas. Muito pelo contrário, o historiador costuma, antes, apoiar-se no ideal de objetividade dahistoriografia, à qual cabe apenas descrever como as coisas efetivamente aconteceram. Sua abstinênciaestética funda-se em boas razões. Afinal, a qualidade e a categoria de uma obra literária não resultam nemdas condições históricas ou biográficas de seu nascimento, nem tão-somente de seu posicionamento nocontexto sucessório [ Folgerverhältnis ] do desenvolvimento de um gênero, mas sim dos critérios darecepção, do efeito [ Wirkung  ] [8] re|duzido pela obra e de sua fama junto à posteridade, critérios estes demais difícil apreensão. Ademais, se, comprometido com o ideal da objetividade, o historiador da literaturalimita-se à apresentação de um passado acabado, deixando ao crítico competente o juízo acerca daliteratura do presente inacabado e apegando-se ao cânone seguro das “obras-primas”, permanecerá ele omais das vezes, em sua distância histórica, uma ou duas gerações atrasado em relação ao estágio maisrecente do desenvolvimento da literatura. Na melhor das hipóteses, participará, pois, como leitor passivo dadiscussão presente sobre os fenômenos literários contemporâneos, tornando-se, assim, na construção deseu juízo, um parasita de uma crítica que, em segredo, ele desdenha como “nãocientífica”. Que papel restahoje, portanto, a um estudo histórico da literatura que, para recorrer a uma definição clássica do interessena história — a de Friedrich Schiller —, tem tão pouco a ensinar ao observador pensante que não ofereceao homem prático nenhum modelo a ser imitado, nem nenhum esclarecimento ao filósofo, e que, ademais,não logra prometer ao leitor nada que se assemelhe a uma fonte do mais nobre entretenimento [5] ?[9]II As citações não constituem apenas um apelo a uma autoridade com o propósito único de sancionar determinado passo no curso da reflexão científica. Elas podem também retomar uma questão antigavisando demonstrar que uma resposta já tornada clássica não mais se revela satisfatória, que essa própriaresposta fez-se novamente histórica, demandando de nós uma renovação da pergunta e de sua solução. Aresposta de Schiller à pergunta colocada em sua aula inaugural na universidade de Jena, de 26 de maio de  1789 — Was heißt und zu welchem Ende studiert man Universalgeschichte?  [O que significa e com que pro-pósito estuda-se história universal?] —, não é apenas representativa do modo de compreender a história doidealismo alemão, mas igualmente elucidativa no que se refere a um olhar retrospectivo e crítico voltadopara a história de nossa disciplina. E isso porque aquela resposta nos mostra com que expectativa a históriada literatura do século XIX, competindo com a hístoriografia geral, buscou desincumbir-se da tarefa legadapela filosofia idealista da história. Ao mesmo tempo, ela nos permite perceber por que razão o ideal doconhecimento da escola histórica tinha, necessariamente, de conduzir a uma crise, trazendo consigo odeclínio da história da literatura.Gervinus pode nos servir aqui de testemunha principal. Dele é não somente a primeira exposiçãocientífica de uma Geschichte der poetischen Nationalliteratur der Deutschen  [História [10] da literaturanacional poética dos alemães] (1835-1842), como também o primeiro (e único) tratado de teoria da históriade autoria de um filólogo [6] . Partindo da idéia central do Über die Aufgabe des Geschichtsschreibers  [Sobrea tarefa do historiador] (1821) de Wilhelm von Humboldt, seu Grundzüge der Historik  [Fundamentos da teoriada história] constrói uma teoria na qual Gervinus, em outra parte, embasou também a grande tarefa daescritura de uma história da beletrística. Para ele, o historiador da literatura somente se torna um historiador de fato quando, investigando seu objeto, encontra aquela idéia fundamental que atravessa a própria sériede acontecimentos que ele tomou por assunto, neles manifestando-se e conectando-os aos acontecimentosdo mundo [7] . Essa idéia fundamental, que, para Schiller, traduz-se ainda no princípio teleológico geral quenos permite compreender o desenvolvimento da história universal da humanidade, figura já em Humboldtem manifestações isoladas da idéia da individualidade nacional [8] . Quando, então, Gervinus se apropriadessa maneira ideal de explicar a história, ele, imperceptivelmente, coloca a idéia histórica deHumboldt [9]  a serviço da ideologia nacional. Assim, uma história da literatura nacional alemã teria demostrar de que forma a direção sensata na qual os gregos haviam colocado a humanidade — direção estapara a qual, em função de sua peculiaridade, os alemães sempre tenderam — foi conscientemente retoma-da por estes [10] . A idéia universal da filosofia esclarecida da história desagrega-se na multiplicidade dahistória das individualidades nacionais, afunilando-se, por fim, no mito literário segundo o qual precisamenteos alemães estariam qualificados para ser os verdadeiros sucessores dos gregos — e isso em funçãodaquela idéia que somente os alemães revelavam-se aptos a concretizar em toda a sua pureza [11] .Esse processo, tornado visível a partir do exemplo de Gervinus, não constitui um fenômeno típicoapenas da história do espírito [ Geistesgeschichte ] no século XIX. Uma vez tendo a escola históricadesacreditado o modelo teleológico da filosofia idealista da história, daí resultou também uma implicaçãometodológica, tanto para a história da literatura quanto para toda a historiografia. Censurando-se como a-histórica a solução da [11] filo|sofia da história de se compreender a marcha dos acontecimentos a partir deuma meta, de um apogeu ideal   da história mundial [12] , como se podia, então, entender e apresentar onexo da história, que jamais se revela em sua totalidade? Conforme demonstrou H. G. Gadamer, o ideal dahistoria universal transformou-se, assim, num embaraço para a investigação histórica [13] . O historiador —escreveu Gervinus —  pode somente pretender apresentar séries acabadas de acontecimentos, uma vez que, desconhecendo as cenas finais, não lhe é possível julgar  [14] . Histórias nacionais somente podiam ser consideradas séries acabadas de acontecimentos na medida em que culminam politicamente naconcretização da unificação nacional ou, literariamente, no apogeu de um modelo clássico nacional.Contudo, seu desenvolvimento posterior a essa “cena final” tinha, inegavelmente, de trazer de volta o velhodilema. Assim, em última instância, Gervinus só fez da necessidade uma virtude ao — em notávelconcordância com o famoso diagnóstico de Hegel acerca do fim da arte  — desprezar a literatura de seu  próprio período pós-clássico, como se se tratasse de mera manifestação decadente, e aconselhar ostalentos, agora desprovidos de uma meta , a, de preferência, ocuparem-se do mundo real e do Estado [15] .Livre, porém, do dilema envolvendo a conclusão e o avanço da história, o historiador do historicismoparecia estar quando se limitava à abordagem de épocas as quais podia abarcar com os olhos até a “cenafinal” e descrever em sua ‘plenitude própria, sem considerar o que delas resultou. Assim, a história comopainel de época prometia atender plenamente até ao ideal metodológico da escola histórica. Desde então,quando o desenvolvimento da individualidade nacional não mais lhe basta como fio condutor, a história daliteratura alinhava umas às outras principalmente épocas acabadas. A regra fundamental da escritura his-tórica, segundo a qual o historiador deve anular-se ante seu objeto, permitindo que ele se apresente comtotal objetividade [16] , deixava-se aplicar melhor através desse enfoque por épocas, como todos sig-nificativos apartados e isolados uns dos outros. Se a “total objetividade” demanda que o historiador abstraiado ponto de vista de seu presente, então o valor e o significado de uma época [12] pas|sada hão também deser cognoscíveis independentemente do curso posterior da história. As célebres palavras de Ranke, de1854, conferem a esse postulado uma fundamentação teológica: Eu, porém, afirmo: todas as épocasapresentam-se imediatas a Deus, e seu valor não repousa naquilo que delas resulta, mas em sua exis-tência, nelas próprias [17] . Essa nova resposta à pergunta acerca de como compreender o conceito de“progresso” na história destina ao historiador a tarefa de uma nova teodicéia: na medida em que contemplae apresenta cada época como algo válido em si, ele está justificando Deus perante a filosofia progressistada história, que vê as épocas como meros estágios para a geração seguinte, pressupondo, assim, umaprimazia da última e, portanto, uma injustiça divina [18] . Entretanto, a solução de Ranke para o problemalegado pela filosofia da história foi obtida à custa de um corte no fio que liga o passado ao presente — istoé, a época, “como ela efetivamente foi”, àquilo que “dela resultou”. Afastando-se da filosofia da história doIluminismo, o historicismo abandonou não apenas o modelo teleológico da história universal, como tambémo princípio metodológico que, acima de tudo, segundo Schiller, marca o historiador universal e seu pro-ceder: vincular o passado ao presente [19]  — um conhecimento imprescindível, apenas supostamenteespeculativo, o qual a escola histórica não podia impunemente desconsiderar  [20] , como o demonstra, aliás,o ulterior desenvolvimento no campo da historiografia literária. A obra da história literária do século XIX apoiou-se na convicção de que a idéia da individualidadenacional seria a parte invisível de todo fato [21] , e de que essa idéia tornaria representável a forma dahistória [22]  também a partir de uma seqüência de obras literárias. Havendo desaparecido tal convicção,tinha de perder-se também o fio dos acontecimentos, fazendo-se inevitável que a literatura passada e apresente se apartassem uma da outra em esferas separadas do juízo [23] , bem como que a escolha,determinação e valoração dos fatos literários se tornassem problemáticas. A guinada rumo ao positivismo foideterminada primordialmente por essa crise. A historiografia literária positivista acreditava estar fazendo danecessidade uma virtude ao tomar emprestados os métodos [13] das ciências exatas. O resultado ébastante conhecido: a aplicação do princípio da explicação puramente causal à história da literatura trouxe àluz fatores apenas aparentemente determinantes, fez crescer em escala hipertrófica a pesquisa das fontes ediluiu a peculiaridade específica da obra literária num feixe de “influências” multiplicáveis a gosto. O protestonão tardou a chegar. A história do espírito apoderou-se da literatura, contrapôs à explicação histórica causaluma estética da criação irracional e buscou o nexo da poesia na recorrência de idéias e motivossupratemporais [24] . Na Alemanha, ela se deixou envolver na preparação e fundamentação da ciêncialiterária nacionalista do nacional-socialismo. Depois da guerra, substituíram-na novos métodos, os quaislevaram a cabo o processo de desideologização, sem, no entanto, reassumir a tarefa clássica da história
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