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2470) A luta armada no Brasil: depoimento de um quase combatente (2013)

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Hartford, 8 Março 2013, 22 p. Testemunho sobre o tema, e meu envolvimento pessoal no período, para evento co-patrocinado pelo Clube Militar (RJ). Feito resumo em 3 páginas, publicado na Revista do Clube Militar (Rio de Janeiro, ano 86, n. 448,
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   1 A luta armada no Brasil: depoimento de um quase combatente Paulo Roberto de Almeida Diplomata, professor universitário. (www.pralmeida.org;  pralmeida@me.com) A luta armada representou, no contexto das crises políticas vividas pelo Brasil nas décadas de 60 e 70 do século passado, uma conjuntura especial e um fenômeno específico, embora bastante grave, do ponto de vista do nosso destino futuro enquanto nação, que a maior parte da população desejava democrática e inserida numa economia de mercado. A despeito de ter sido relativamente circunscrita no tempo, com uma duração total inferior a dez anos, a luta armada deixou, entretanto, consequências  permanentes, ou residuais, na história política nacional, que devem ser devidamente avaliadas, se a sociedade brasileira pretende, realmente, superar os traumas individuais e coletivos causados pelos tristes episódios daquele período. Cabe registrar, inicialmente, que esses efeitos continuados da luta armada no Brasil se situam inteiramente no campo dos partidos e movimentos ditos de esquerda, que não parecem ainda ter se desligado de suas antigas crenças, bem como dos traumas e obsessões do passado, uma vez que os outros grandes contendores daquele fenômeno, as Forças Armadas, encontram-se totalmente inseridos no ambiente de reconciliação democrática e de construção de uma institucionalidade totalmente comprometida com os objetivos de paz, prosperidade e de normalidade política desejados pelo povo  brasileiro. Isto me parece bem evidente na movimentação atual do governo e dos  partidos de esquerda – que aliás, hoje em dia, são uma coisa só – em torno da chamada Comissão da Verdade e seu trabalho que me parece enviesado e muito longe de buscar ou estabelecer a verdade, parecendo bem mais um movimento vingativo contra os que derrotaram os promotores da luta armada naquele passado hoje distante. Pretendo, neste curto depoimento pessoal, oferecer minha avaliação do passado remoto, como testemunha e ator secundário que fui dos dramas vinculados à luta armada, e efetuar, depois, um proposta sensata quanto aos desafios do presente. Espero ser bastante objetivo e imparcial na minha exposição de certos fatos, bem como muito realista quanto à maneira de interpretar esses fatos e de tirar deles consequências para os dias que correm. Trata-se de uma contribuição totalmente desinteressada – focada em fatos, menos que em argumentos de cunho político – ao esclarecimento dos mais jovens e alguns menos jovens, mas que não passaram por essas vicissitudes, sobre aquela fase da vida brasileira, que justamente buscamos superar para o bom entendimento nacional.   2 O Brasil dos anos 1960: breve recapitulação histórica Desde meados da década anterior, nos estertores do segundo governo Vargas, o Brasil vivia em permanente crise político-militar, agravando-se as turbulências no início dos anos 1960 em função do comportamento bizarro do presidente eleito Jânio Quadros e da momentosa posse do vice-presidente (eleito pela chapa concorrente) João Goulart. A situação, durante os seus três anos de mandato (primeiro em regime parlamentarista, depois no retorno ao presidencialismo), se caracterizava por constantes greves, inflação crescente, quebra de autoridade em diversas instâncias do poder estatal, inclusive no âmbito das Forças Armadas, e intensa radicalização política por parte dos movimentos que pretendiam para o Brasil opção semelhante à dos países comunistas, indo até, em certos meios, à preparação para a guerrilha rural, em moldes cubanos ou chineses. O movimento civil-militar – não lhe cabe o nome de golpe, nem de revolução – que derrocou o regime da República de 1946 representou apenas o ponto culminante dessa fase de crise aguda, não sendo nem o resultado de uma conspiração organizada  pela direita e pelas elites – como pretende a esquerda – nem o acabamento de algum desígnio imperial no contexto da Guerra Fria – como pretendem os paranoicos anti-imperialistas e antiamericanos das mesmas correntes. Ele ocorreu porque grande parte da sociedade, representada majoritariamente pela classe média, demandava uma solução aos descalabros administrativos, à corrosão do poder de compra, ao clima de desordem  política, à percepção do aumento da corrupção que caracterizavam o governo Goulart. Talvez os militares devessem ter aguardado as eleições do ano seguinte, e ter apostado numa solução democrática em face desse quadro turbulento, mas o fato é que o agravamento da situação induziu algumas lideranças civis e militares a atuarem de imediato contra o governo, sem que a necessária coordenação de todas as forças  políticas se fizesse num sentido mais consentâneo com a legalidade constitucional. Existem momentos na história de um país nos quais a população decide assumir ela mesma as atribuições de um poder constituinte srcinário; foi o que parece ter ocorrido em março de 1964, quando a grande maioria da população brasileira secundou e se solidarizou com as Forças Armadas que assumiram o comando involuntário daquele movimento. A história poderia ter sido outra, mas ela é o que é: incontrolável. Tendo me politizado precocemente, justamente em função dessas crises do início dos anos 1960 e do “golpe militar”, acompanhei muito de perto, embora ainda adolescente, as movimentações que se seguiram à inauguração da nova fase política.   3 Todo o ambiente universitário ao qual eu me vinculava intelectualmente – a despeito de ainda estar no secundário – era invariavelmente caracterizado por uma ideologia de esquerda, basicamente marxista, nas diversas variantes da época, mais a radicalização concomitante da chamada Igreja progressista. Como muitos outros jovens da minha geração, fui sendo levado quase naturalmente para a opção socialista, que na época se apresentava como uma solução “factível” e “possível”, tendo em vista os exemplos  precedentes da revolução bolchevique, da guerra civil conduzida por Mao Tsé-tung na China e, sobretudo, porque bem mais perto de nós, da aventura guerrilheira cubana. Tudo isso era muito teórico para mim, já que eu era, basicamente, um “rato de  biblioteca”, ávido por ler de tudo, orientação que foi sendo concentrada na literatura marxista à medida em que eu me formava politicamente. Mal sabia eu – como vim a descobrir mais tarde – que grupos de pessoas, movimentos inteiros, considerando os  partidos de esquerda (na verdade, representados quase unicamente pelo Partidão, o Partido Comunista de orientação soviética) muito conservadores, já haviam decidido seguir o exemplo cubano da guerrilha rural, alguns até o exemplo maoísta da guerra revolucionária camponesa. Vários jovens, como eu, participávamos de manifestações contra o regime militar, contra o imperialismo americano, basicamente na forma de  panfletagens e de ruidosas passeatas contra as autoridades políticas e contra algum representante do império (lembro-me de ter protestado amplamente contra a visita ao Brasil do vice-presidente Nelson Rockefeller, símbolo do capitalismo, e contra os acordos do Ministério da Educação, então comandado pelo coronel Jarbas Passarinho, com a USAID, para a modernização do sistema universitário no Brasil). Progressivamente, esses movimentos foram se preparando para a luta armada, de acordo com as diretrizes que então emanavam de Havana, onde tinha sido organizada, em 1965, a conferência tricontinental, para prestar solidariedade ao Vietnã do Norte, em sua luta contra a república pró-americana do sul, e para estimular a luta armada na América Latina, como recomendava Fidel Castro e como já tinha passado à ação Ché Guevara. Este era – parece que continua sendo, a despeito de todas as evidências em contrário – o símbolo da rebeldia juvenil contra a opressão capitalista, e a metodologia  proposta para romper com o capitalismo e o imperialismo era dar início a um “foco guerrilheiro”, conforme teorizado pelo militante francês Regis Debray, em livrinho então muito lido por todos nós, ainda que clandestinamente. No Brasil, entretanto, na ausência de enormes massas camponesas sujeitas a algum tipo de dominação “feudal”, ou de alguma “Sierra Maestra” próxima das cidades e dos latifúndios, nem a solução   4 maoísta da guerra camponesa, nem o modelo cubano da coluna de guerrilha rural  pareciam aplicáveis, razão pela qual os líderes comprometidos com a luta armada adotaram a via da guerrilha urbana, como depois seria enfatizado no “Mini-manual do guerrilheiro urbano”, do dissidente do Partidão e líder da ALN, Carlos Marighella. Essas nuances das táticas de combate não se manifestavam, contudo, de forma muito clara no debate político desses grupos guerrilheiros, que decidiram passar à ação mesmo na completa confusão do que fazer, de quem doutrinar, que tipo de mensagem  política preconizar, ou que tipo de governo se pretendia, exatamente. O que é certo é que ninguém, nenhum desses grupos tencionava lugar contra a ditadura militar para colocar no lugar uma “democracia burguesa”, e sim alguma variante dos regimes cubano ou chinês (a União Soviética já era julgada então como muito burocrática e conservadora). Mas essas eram questões que não me afetavam ainda, ou a meus colegas de debate político, ocupados que estávamos principalmente com as lutas estudantis. Desde essa época constatei que os grêmios estudantis e os diretórios acadêmicos vinham sendo sistematicamente tomados de assalto pelos militantes do PCdoB, uma tribo de fundamentalistas maoístas com os quais era impossível ter qualquer discussão racional: eles estavam dispostos a qualquer manobra suja, a todos os tipos de manipulações políticas, e a muita propaganda enganosa, para se apossar das representações estudantis (isso até hoje, como demonstra seu longo domínio sobre a UNE e outras associações de estudantes). Talvez tenha sido por isto que, com todo o meu radicalismo juvenil, chegando mesmo a me acreditar um “guevarista”, eu nunca suportei os hábitos de seita e as ações conspiratórias dos maoístas alucinados. Mais adiante, durante e mesmo depois do completo fracasso da aventura guerrilheira de Ché Guevara na Bolívia, os grupos que se preparavam, de modo algo canhestro – como depois vim a reconhecer – para a luta armada no Brasil passaram à ação, com ataques a quarteis, atentados a bomba, assaltos a bancos (chamados de “expropriações”) e de municiamento em armas e munições, mas tudo isso de forma muito desorganizada e improvisada, como também vim a saber bem depois. Nessa época, ou seja, antes do AI-5, que representou um endurecimento do regime, ante o recrudescimento dos ataques desses grupos armados, eu não tinha contato direto com o “pessoal da pesada”, como chamávamos os guerrilheiros urbanos. Meu “trabalho”, auto-atribuído, de militante contra a ditadura era apenas o de um manifestante a mais, um  participante de eventuais passeatas e um doutrinador voluntário de colegas de escola, tentando converter à “boa causa” aqueles a quem designávamos como “alienados”,   5 segundo um termo marxo-marcusiano bastante usado nessa época. Alienados eram todos aqueles que não compartilhavam da nossa crença no futuro radioso da humanidade sob o socialismo, enfim liberta das taras do capitalismo e da dominação  burguesa. Em outros termos, minhas ocupações eram totalmente marginais e acessórias ao verdadeiro trabalho de um revolucionário profissional, o que eu também aspirava ser, assim que a ocasião se apresentasse.  Na verdade, como eu vinha de uma família muito modesta, e tive de acumular trabalho e estudo desde muito cedo em minha vida, eu simplesmente não tinha tempo, como os “filhinhos de papai” – como eram chamados os garotos de classe média alta, que não precisavam trabalhar, e portanto podiam dedicar-se à “revolução” – de tornar-me um revolucionário profissional: acordar às 6:00hs da manhã, seguir para a fábrica às 7:00hs, retornar às 18:30 para casa, engolir uma comida rápida e correr para o colégio (depois para a faculdade), estudar até às 11:00 da noite, e voltar cansado para casa, não combina muito, convenhamos, com a dedicação integral que um verdadeiro profissional  precisa dar à causa revolucionária. De resto, todo meu tempo livre era dedicado à leitura, seja dos textos necessários aos estudos, seja da literatura marxista, com a qual eu  já estava amplamente familiarizado: uma leitura “de ônibus”, portanto, quando dava. Quando consegui contato supostamente com a “turma da pesada”, a via apontada revelou-se, na verdade, uma armadilha: foi-me dito, por um jornalista estrangeiro que estava levando os escritos de Marighella para traduzir e publicar no exterior, que eu deveria ir à “livraria dos dominicanos”, no centro de São Paulo, para fazer contato com a ALN (Ação de Libertação Nacional), que era a organização do velho dissidente do Partidão, adquirido, desde 1964, à causa cubana. Obviamente que não fui: conhecendo, por tudo o que se publicava e circulava entre os meios “bem informados”, o estado presente da chamada “repressão”, guardei-me de aparecer num local público, assim como quem não quer nada, e pedir para entrar em contato com a organização do “terrorista” mais procurado do Brasil naquela conjuntura. Com efeito, poucas semanas depois dessa “recomendação”, o dito chefe da guerrilha urbana, responsável por diversos ataques e assaltos desde muitos meses, acabou emboscado numa das alamedas próximas à Avenida Paulista e morto pelo Dops do delegado Fleury (que ficou ainda mais famoso depois dessa ação “exemplar”). Os culpados pela queda teriam sido os dominicanos, justamente, presos e barbaramente torturados para revelar seus contatos com Marighella; um deles, inclusive, era meu colega no curso de Ciências Sociais noturno da FFLCH-USP, campus da Cidade
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