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  Sobre o 05/03/1974, como antecedente do 25 de Abril de 1974 Constatando que muita gente da minha faixa etária anda por cá a morrer, sinto que já ultrapassei a média e que tudo poderá acontecer de um momento para o outro, como aliás já do anterior poderia ter acontecido, e que, portanto, são agora cada vez maiores as probabilidades de tal ocorrêncua. Em 2018 publiquei o meu 1º volume de memórias profissionais, com forte incidência na comissão militar em Angola no comando da C Eng 2580 no período de 1969-71, bem como na consolidação da percepção da inutilidade do caminho.  No 2º volume dessas memórias profissionais, que penso publicar no princípio do  próximo ano e que começam em 1973, na altura em que fui para a Academia Militar como professor e que vão até 1989, altura em que passei à situação de reserva para ser engenheiro a 100% são referidos, no princípio e até 1976, os acontecimentos a que estive ligado que se relacionam directamente com o 25 de Abril de 74, relativamente ao qual penso que muitas coisas estão ainda por esclarecer, ou pelo menos apenas por clarificar. Já apresentei no facebook, se bem me lembro, uma ou duas vezes, um artigo feito 25 anos depois e que, estando então eu em Macau, foi publicado no jornal a Tribuna de Macau, ao qual dei o título de “ Um ponto de vista sobre o 25 de Abril, 25 anos depois” . Esser artigo foi na altura complementado com duas entrevistas que pretendo juntar ao 2º volume: - uma, para a TV, a 5 com: Monge, Aparício, Geraldes e Ramos; - outra, para a rádio, a solo  Nas três intervenções disse coisas que fogem à “leitura” sedimentada, tendo na entrevista para a TV, conduzida pelo meu amigo António Bondoso, desde logo apresentado, a pedido e de passagem, por estar visível, um documento que não é conhecido e que acho de interesse revelar enquanto estou vivo, pois ele permitirá talvez melhor caracterizar uma fase da movimentação militar preparatória do 25 de Abril de 1974, que não considero correto ignorar. De facto, ao referir esse documento numa conferência para o NICCM no ano de 2018, verifiquei que alguns dos directos envolvidos, que estavam presentes, não tinham dele conhecimento. Fiz a minha intervenção na referida conferência, a solicitação do Eng Taborda e numa sessão que me parece ainda não foi publicada ou, se o foi, penso que o documento não terá sido incluído. Considero no entanto de interesse revelá-lo por  pensar ter sido um marco importante no que se passou, conforme interpretação pessoal, que não será porventura descabida de todo. Se na altura eu não a tinha clara, agora, depois da sua maturação, penso que é altura de ser ventilada, embora possa ser encarada ou querer-se que apareça como coisa insignificante. Creio porém que Soren Kirkgaard tinha razão, quando afirmava qualquer coisa como: Para vivermos, temos de avançar, mas para perceber é preciso recuar. Sem entrar nas envolventes longínquas, próximas e directamente condicionantes do que aconteceu que, bem ou mal, serão abordadas no 2º volume e já foram também abordadas mais sucintamente na referida conferência do NICCM, penso que é preciso consciencializar que, num paradigma de Passado, Presente e Futuro, característico do tempo tríbio de Gilberto Freire relativamente a um acontecimento político-social marcante, como o foi o derrube do muro de Berlim, estaremos ainda agora no seu Futuro, mas estávamos na altura do 25 de Abril de 74, no seu Passado, fortemente determinado e determinante do avolumar crescente da influência das vontades globais que a esse derrube conduziram.  Assim: A - o regime tinha chegado ao fim, sabia que tinha de sair porque se tinham fechado todas as portas por onde entravam os mais ou menos velados apoios, mas não tinha coragem, nem sabia como o haveria de fazer, temendo o caos nas ruas; B - os que estavam para entrar, sabiam que iam entrar e, para isso estavam “ apitados ”  mas também não sabiam como lhe pegar. Na altura e genericamente falando, a manus militar ainda tinha credibilidade no meio dos políticos que esboçavam os primeiros  passos, com maior ou menor experiência política. Os capitães, ingénuos e limpos, tinham percebido nos diversos locais da colonização o que era óbvio, e Macau nunca  para aqui poderia ter sido chamado, mas não podiam passar além disso e sabiam que, embora inevitável, qualquer uma sua intervenção seria intrinsecamente geradora de caos, sabendo também que havia limites a não ultrapassar. Para os políticos, era preciso que as chefias intermédias se definissem, para uma parcial utilização temporária. E era  preciso ter em conta que, para além daquela ultima ratio, havia não só PIDE, GNR, PSP, Legião (com FACs e GIIs, etc) e, possivelmente agentes infiltrados, mas também toda a  problemática da descompressão de uma população contida e fortemente sacrificada nos últimos anos. Em termos de transferência de poder, os que sabiam que iam sair, queriam ter a garantia de que o poder não cairia na rua e o Movimento dos Capitães deu-a no dia 05/03/74 em Cascais: - no plenário do Exército com observadores da Marinha e da Força Aérea, num total de cerca de duas centenas elementos e um quase pleno de assinaturas recolhidas em circunstâncias difíceis e que seriam complementadas com assinaturas em diversas unidades; - com um planeamento conceptual inicial da movimentação que conduziria ao fim do regime, sem forças ainda empenhadas; e, finalmente - com a adesão ao documento Melo Antunes, intitulado Manifesto  –    O “Movimento” as Forças Armadas e a Nação. De 05/03/74 a 25/04/74 concretizou-se o empenho e a afectação de forças, que evoluiria ao sabor da definição política a que as hierarquias se tiveram de se submeter tendo-se assim concretizado a mudança naquele dia, em resultado, como eu costumo referir das acções de “os capit ães que saíram à rua no dia 25 de Abril ” , provocando na altura um caos que foi possível manter controlado. A partir daí, a política que assentou arraiais, foi tomando o seu lugar, melhor ou pior, num mundo complexo de que sempre dependeu de uma forma ou de outra, já na altura e, mais aceleradamente depois de 89-91, de modo mais globalizado e com comandamentos acima dos do estado nação, a que tão habituados estávamos. Quero pois aqui deixar referido que, em meu entender, a data de 05/03/74 é mais importante do que parece e os seus dois principais pontos foram: - para a reunião que teve lugar, o planeamento estratégico conceptual das fases a executar após a reunião e que levariam à queda do regime; e - para a viabilização do 25 de Abril conseguido, a adesão da principal parte do então  presente e ainda descomprometido Movimento dos Capitães, ao Documento Melo Antunes, pelas assinaturas recolhidas no gabinete do Arquitectura, em Cascais, em que a referida reunião teve lugar.  Esse gabinete foi arranjado pelo capelão militar, em alternativa a pelo menos uma  primeira hipótese que seria o edifício da Sedes perto do Marquês de Pombal e que, pelo menos eu, desaconselhei (outras considerações que desconheço poderão ter tido mais  peso), por me parecer que perto do 1º de Maio, que já foi agitado naquele ano, misturar capitães ingénuos, puros e duros quanto necessário, com movimentos de contestação  política e laboral, poderia não ser conveniente na altura. E não é por acaso que Boaventura Sousa Santos no seu livro “O Pulsar da Reunião”, a  paginas 46 a 48, refere esta reunião, que era previsto ser dirigida pelo Victor Alves e por mim próprio, que sempre considerei Pinto Soares como coordenador da Comissão de Engenharia Militar, eleita em Óbidos. As minhas preocupações, até pelas funções que desempenhava e como referido no 2º volume, andaram sempre muito mais na área de um D de Desenvolvimento, que ainda nem sequer tinha na altura aflorado. Da acta da referida reunião, feita por Pinto Soares, que ma enviou e que me tinha pedido dias antes um planeamento sob forma PERT, que preparei, que terá sido analisado em detalhe a 28 de Fevereiro em casa do Vitor Alves em reunião prévia em que não estive presente, e que foi apresentado logo no início considero então de destacar: - O documento Melo Antunes, que é sobejamente conhecido e relativamente ao qual, logo de seguida à implantação do MFA após a acção de “os capitães que saíram à rua no dia 25 de Abril”, a realidade e dinâmica desenvolvidas no exterior, tornaram inexequível a sequência anunciada para os dois primeiros Ds, de Democratização e de Descolonização, tornando este último determinante do tipo e do timing da Democratização, posta em stand-by até aquela terminar. Foi então necessário continuar o caos controlado até esse final e só depois da Descolonização de Angola e da chegada a Lisboa do navio com as últimas tropas com funções coloniais e a bandeira nacional, implantar a ordem democrática, com todas as suas qualidades e defeitos Só depois  poderia então ser possível começar a pensar no terceiro D do Desenvolvimento, que ainda por aí anda hoje a nível de preocupação à procura da sua via de concretização, ao sabor da nossa idiossincrasia e das crises que sobre nós se refletem, vindas do exterior. - O plano conceptual da movimentação para a queda regime, que animou os primeiros momentos da reunião; e, finalmente, no fundo como elemento principal, - As assinaturas conseguidas na altura, a que outras se seguiram nas unidades, assegurando que o poder não iria, na transição, cair na rua, independentemente de divergências também sentidas no interior das próprias Forças Armadas, mas permitindo então começar a intervenção política através das lideranças militares intermédias e temporárias, sob o olhar atento e as indicações norteadoras de agentes das duas  principais lideranças de então da OSCE, presentes em Lisboa e, muito semelhantes aos elementos da recente troika. Carnaxide, 13 de Outubro de 2019 Agostinho Mourato Grilo
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