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“Apurando a subversão”: um estudo de caso sobre repressão na Universidade pelos arquivos da AESI/UFMG. Isabel Cristina Leite

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Analisaremos os arquivos pertencentes à extinta Assessoria Especial de Segurança e Informações (AESI) existente na UFMG. Tais arquivos evidenciam o auxílio da Universidade à repressão aos seus alunos pertencentes à organização Comandos de Libertação Nacional (COLINA). Daremos ênfase aos processos referentes à Escola de Medicina e Instituto de Ciências Biológicas. Com o estudo de caso, podemos vislumbrar, em parte, como ocorreu a relação entre funcionários da Universidade e governo militar
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  N este artigo procuramos analisar osdocumentos relativos à Assessoria Especialde Segurança e Informações (AESI) existente naUFMG. Estes arquivos evidenciam a sintonia entrea repressão e universidade contra seus alunos.Faremos o estudo de caso da repressão sobrediscentes pertencentes à organização Comandosde Libertação Nacional (COLINA). Nosso objetivoé analisar como ocorreu a relação entrefuncionários da Universidade e governo militar. O grupo COLINA surgiu como dissidência do grupo Política Operária (POLOP) em razão de suaopção pelas armas. A composição básica do grupoera de estudantes universitários da UFMG, cujosprincipais líderes pertenciam à Faculdade deMedicina. Tentaram fazer movimento de massa e tiveram grande apelo no movimento estudantil.Dentro das possibilidades, trabalharam commovimento operário, possuindo militantes dentrodas fábricas durante a greve de 1968, emContagem. Sua concepção foquista, que previa trabalho com os camponeses, contrapunha asrcem burguesa da maioria dos seus militantes,deste modo, acabaram descartando a militânciajunto aos trabalhadores do campo. Mesmo tendoeste grupo uma curta duração (1967-1969), tentaram dosar discussões teóricas com práticasrevolucionárias, característica herdada da POLOP.Suas ações, por vezes mal sucedidas, ao menosserviram para chamar a atenção para a lutarevolucionária que tentavam desencadear no país.Seus militantes protagonizaram importan-tespapéis nas denúncias contra o regime e as violaçõesaos direitos humanos, sendo por meio da “Carta deLinhares”, quando ainda estavam na prisão, edepois viabilizadas por alguns banidos no exterior.Foi por meio do COLINA, que analisaremos umaface da atuação do sistema repressivo dentro daUFMG.1 De acordo com Rodrigo Patto Motta, a políticado governo militar para as universidades teve comoeixo ações que combatiam e a censuravam as idéiasde esquerda, bem como o que fosse taxado por perigoso e desviante. Desta maneira, controlavamo movimento estudantil, como por exemplo, com acriação de agências de informação (as AESI) para vigiar a comunidade universitária. Cercearam apesquisa, publicação e circulação de livros e por fim, intentavam incutir valores tradicionais por meio de: técnicas de propaganda, da criação dedisciplinas dedicadas ao ensino de moral e civismo(chamadas nas universidades de Estudos deProblemas Brasileiros – EPB) e de iniciativasespeciais como o Projeto Rondon.2Desde 1964 o governo buscou aliados nasuniversidades públicas, sob pena de afastamentosou demissões, como observa Motta : No máximo houve algum espaço para jogosambíguos e sutis de negociação, em que algunsdirigentes universitários se empenharam emproteger certos membros da comunidadeuniversitária, mas sempre protestando apoio aoEstado. Assim, se os documentos da maioria das AESI sumiram é porque são comprometedores.3  A história da AESI está sendo escrita. A partir defragmentos consultados, realizaremos algunsapontamentos. 1Este artigo é parte da minhadissertação intitulada: “C OMAN - DOSDE L IBERTAÇÃO N  ACIONAL : O POSIÇÃO  A  RMADAÀ  D ITADURAEM M INAS G ERAIS (1967-1969)”, defendida em junho docorrente ano no departamento deHistória, sob orientação da professoraDra. Priscila Brandão.2MOTTA, Rodrigo Patto. Os olhos doregime militar brasileiro nos campi.  Asassessorias de segurança einformações das universidades. Topoi.  v.9, n.16, jan-jun.2008. pp.32. 3MOTTA, Rodrigo Patto. Os olhos doregime militar brasileiro nos campi.  Asassessorias de segurança einformações das universidades. Topoi.  v.9, n.16, jan-jun.2008. pp.33. 148 Temporalidades - Revista Discente do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 2, n.º 1, Janeiro/Julho de 2010 - ISSN:1984-6150 - www.fafich.ufmg.br/temporalidades “Apurando a subversão”: um estudo de caso sobre repressãona Universidade pelos arquivos da AESI/UFMG. Isabel Cristina Leite Mestre em História - Universidade Federal de Minas Gerais - UFMGic.leite@yahoo.com.br Resumo  Analisaremos os arquivos pertencentes à extinta  Assessoria Especial de Segurança e Informações (AESI) existente naUFMG. Tais arquivos evidenciam o auxílio da Universidade à repressão aos seus alunos pertencentes àorganização Comandos de Libertação Nacional (COLINA). Daremos ênfase aos processos referentes à Escolade Medicina e Instituto de Ciências Biológicas. Com o estudo de caso, podemos vislumbrar, em parte, comoocorreu a relação entre funcionários da Universidade e governo militar. Palavras-chaves:  AESI, UFMG, Militância estudantil.  Abstract  We will analyze the extinct Assessoria Especial de Segurança e Informações (AESI) belonging files localized inUFMG. Such files evidence the aid of the University to the repression to its students belonging to the organi-zation Comandos de Libertação Nacional (COLINA). We will give emphasis to the referring processes to theSchool of Medicine and Institute of Biological Sciences. With the case study, we can shimmer how happened the relationship between university employees and the military government. Keywords:  AESI, UFMG, Student militancy.  De acordo com Carlos Fico, os ministérios civisno período do regime militar eram espionadospelos “Sistemas Setoriais de Informação” que, por sua vez, eram constituídos pelos órgãos deinformação de seus respectivos ministérios edemais fundações ou empresas estatais ao qualeram ligados. O principal órgão de informações deum ministério civil era sua “Divisão de Segurança eInformações” (DSI). Concomitantemente, em cadaórgão de relevância da administração pública haviauma “Assessoria Especial de Segurança eInformações” (AESI). A influência destes órgãos foiaumentando significantemente na segunda metadeda década de 1960, chegando a ser decisiva emministérios considerados “problemáticos” como osda Educação, em função do movimento estudantil.Nas universidades públicas existiram as AESI,fundamentalmente em razão do Decreto-lei477/694, que cuidava da “subversão” dentro daacademia, seja por parte de alunos, professores oufuncionários5. Em toda repartição consideradaimportante haveria uma AESI, onde em algunscasos trabalhavam os militares “linha dura”, queestavam em busca de maiores rendimentos6. O arquivo da AESI na UFMG permaneceulacrado sob a guarda da Imprensa Universitária atéo ano de 1989, quando uma arquivista doMinistério da Educação e Cultura foi transferidapara a universidade. Sua entrada resultou naelaboração de um novo inventário. O material da AESI apenas teve seu conteúdo revelado eentregue à Biblioteca Universitária no segundosemestre daquele mesmo ano. A finalidade seriaintegrar o acervo de documentos relativos àmemória da UFMG. Os documentos foramprimariamente classificados como “confidencial esecreto” devido à natureza especial do arquivo. Dentro das Universidades, as AESI passaram aexistir partir de janeiro de 1971, pelo Plano Setorialde Informações do MEC. Deste modo, asUniversidades receberam os documentos quediziam respeito à sua criação juntamente com aordem de nomeação do chefe responsável pelosetor em um prazo de 10 dias. Sobre a AESI/UFMG, escreve Motta: Na UFMG a documentação indica que houvealguma indefinição no momento de criar a AESI.De início, a Reitoria nomeou um professor parao cargo (16/3/1971), porém, poucos mesesdepois (junho de 1971) foi indicado o Procurador  Jurídico da Universidade como responsável, soba alegação de que o primeiro desistira pararealizar pós-graduação no exterior.7 Trabalhos sobre a Universidade de Brasília e aUniversidade Federal de Sergipe também apontampara a criação da AESI em suas unidades em 19718,o que contraria informações contidas na BibliotecaUniversitária da UFMG que alega:  A AESI surgiu como um órgão instituído pelasPortarias Ministeriais nºs 360-BSB e 361-BSB,datadas de 27/06/73, e posteriormentedenominada ASI/UNI, por meio da PortariaMinisterial de 12/05/76 9. No ano de 1973 um técnico da área jurídica daUniversidade Federal de Minas Gerais foi nomeadopara chefiar a AESI, uma vez que o Procurador nãopoderia mais acumular os dois cargos. Foi estefuncionário que esteve no comando até a extinçãodo órgão10. As principais funções das AESI nas universidadesseriam: controle das contratações, evitando oingresso de docentes de esquerda; vigilância dasmanifestações estudantis (shows, passeatas,formaturas); aplicação das punições previstas nalegislação, principalmente do Decreto no 477; ocontrole da circulação internacional dos docentes;e divulgação ampla de material de propagandaproduzido pelo governo11.Identificaremos agora, perspectivas civis emilitares relacionadas ao COLINA nos arquivos da AESI, órgão responsável pelo monitoramento erepressão dos militantes desta organização dentrodos institutos da UFMG. Levando em consideraçãoa relevância e abundância de fontes acerca daEscola de Medicina, apresentaremos o materialrelacionado a esta, bem como o material do que dizrespeito ao Instituto de Ciências Biológicas(ICB)12. Aliado a este acervo, trabalharemos comarquivos do DOPS/MG e do Centro de Memória daEscola da Medicina. Ao adentrarmos nestesarquivos, encontramos processos sumáriosreferentes a estes militantes dentro dos citadosinstitutos. Encontramos também depoimentos,relatórios produzidos pelo DOPS e históricosescolares. O mais importante é a percepção decomo o sistema de informações e a direção dauniversidade estiveram trabalhando em conjuntono combate aos chamados “subversivos”. Estasrelações são mais evidentes entre alguns diretoresde institutos e professores, todavia, não exclui aconivência de todos com a repressão. Em trabalho sobre Memória de Reitores daUFMG, organizado por Maria Efigênia Lage deResende e Lucília de Almeida Neves, identificamosalguns apontamentos sobre as relações entre estaUniversidade e o governo militar. Estasinformações servem como complementares àscontidas no arquivo da AESI, guardada toda aproblemática da subjetividade da história oral. Oque mais se evidencia nos depoimentos analisadosé a defesa da autonomia universitária durante operíodo. Aluísio Pimenta, reitor que assumiu em1964, chama a atenção para o fato que: 4Define infrações disciplinarespraticadas por professores, alunos,funcionários ou empre-gados deestabele-cimentos de ensino públicoou particular, e dá outras providên-cias. Decreto-lei n 477 de 26 defevereiro de 1969.5FICO, Carlos. Como eles agiam. SãoPaulo: Record, 2001. pp.84-93;BRANDÃO, Priscila. SNI & ABIN: umaleitura da atuação dos serviços secretosbrasileiros ao logo do século XX. Rio de Janeiro: FVG. 2002. pp.57.6FICO, Calos. Espionagem, PoliciaPolítica e Propaganda: os pilaresbásicos da repressão. In: FERREIRA, Jorge & DELGADO. Lucilia. O tempoda ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.pp. 176.7MOTTA, Rodrigo Patto. Os olhos doregime militar brasileiro nos campi.  Asassessorias de segurança einformações das universidades. Topoi.  v.9, n.16, jan-jun.2008. pp.35.8Cf. Portal do Arquivo Nacional.  Assessoria de Segurança e Informaçõesna Universidade de Brasília. Retirado de:http://www.portalan.arquivonacional.gov.br/Media/UNB.pdf em 10/11/2009;e CRUZ, José Vieira. Estudantes vigia-dos. Órgãos de Segurança eInformação na Universidade Federalde Sergipe (1969-1977). In: Ponta deLança, São Cristóvão v.2, n. 3, out.2008 - abr. 2009. 9Decreto 93.314/86.Art. 1º Ficamextintas as Assessorias de Segurança eInformações integrantes das estruturasorganizacionais das instituições deensino superior, vinculadas aoMinistério da Educação. Cf.http://webpergamum.adm-serv.ufmg.br/pergamum/biblioteca/index.php?resolution2=800#posicao_dados_acervo10O processo de extinção das AESI/ASI nas universidades brasileirasprolongou-se de 1979 a 1986conforme ofícios 009/3000/79-SNM/DSI/MEC de 08.05.1979 e0236/81/20/DSI/ MEC de 21/10/81 e oDecreto 93.314 de 30/09/86. MOTTA,Rodrigo Patto. Os olhos do regimemilitar brasileiro nos campi.  Asassessorias de segurança einformações das universidades. Topoi.  v.9, n.16, jan-jun.2008. pp.35.11MOTTA, Rodrigo Patto. Os olhosdo regime militar brasileiro nos campi.  As assessorias de segurança einformações das universidades. Topoi.  v.9, n.16, jan-jun.2008. pp.37.12Na dissertação, além das duasunidades, trabalhamos com a FAFICHe os cursos de Veterinária, Farmácia eEngenharia.   149 Temporalidades - Revista Discente do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 2, n.º 1, Janeiro/Julho de 2010 - ISSN:1984-6150 - www.fafich.ufmg.br/temporalidades   A maioria dos membros do ConselhoUniversitário, onde eu mantinha a presença darepresentação estudantil, muitos eramconservadores, mas dignos. Muitos delesapoiaram o movimento de março de 1964, masse uniram quando a questão foi a defesa daautonomia da Universidade13.  A gestão de Aluísio entre 1964 e 1967, foimarcada pelo debate acerca da reformauniversitária e por turbulências envolvendo o general Carlos Luís Guedes, um dos expoentes dasarticulações do golpe em Minas Gerais. Guedeschegou ao ponto de afastar o reitor Aluísio enomear Expedito Orsi Pimenta interventor daUFMG. Contudo, não obteve apoio nem doministro da justiça Milton Campos, tampouco doentão governador, Magalhães Pinto, que acabarampor promover Guedes e transferi-lo para SãoPaulo. O reitor que sucedeu Aluízio Pimenta e esteveno mandato no período de existência e atuação doCOLINA, foi o jurista Gerson de Britto MelloBoson (1967-1969). Em 1968, este reitor passoupor duas situações delicadas. A primeira ocorreuem 03 de maio de 1968, dia de assembléiaestudantil. O resultado foi prisão de cerca de 200estudantes, após uma invasão à Faculdade deMedicina. Os alunos das escolas de Direito eEngenharia, naquele mesmo dia, solicitaram aosrespectivos diretores que interviessem junto àpolícia para a liberação de alguns colegas presos, aoqual foram atendidos. O mesmo não ocorreu naFaculdade de Medicina, onde Oscar Versianifechou-se para o diálogo14.Os alunos decidiram, então, prendê-lo dentroda faculdade, juntamente com cerca de 20professores e funcionários, através de um cordãohumano que impedia a saída do prédio. Estesdiscentes realizaram outra assembléia e decidirampor manter a ocupação. Com a chegada da políciahouve a invasão do prédio e agressão aos alunos.Em nota, a Secretaria de Segurança afirmou que apolícia foi recebida de maneira “altamentepericulosa” pelos estudantes, que “despejavamfuriosamente grande carga de pedras” das janelas.Lamentou, também, ter tido que se declarar publicamente em função dos atos “insensatos eilegais” dos alunos. A nota terminou informando àpopulação que agiria da mesma maneira, todas as vezes em que situações análogas ocorressem15.Os alunos presos foram levados para oDepartamento de Ordem Política e Social de MinasGerais. (DOPS/MG). Dentre os militantesenvolvidos com COLINA e detidos na referidamanifestação identificamos nos arquivos doDOPS/MG: Mauricio Paiva, João Batista do MaresGuia, Erwin Resende Duarte, Herbert Eustáquio deCarvalho, Pedro Paulo Bretas e Athos Magno16.Mauricio Paiva já havia passado pouco tempo antespelo DOPS, quando participava de umamanifestação, logo após ser eleito presidente doDCE da Escola de Engenharia. Em seu relato, aatuação dos estudantes na medicina consistiu embarricadas nas portas e janelas do primeiro andar da faculdade com cadeiras e mesas, e na retençãode seu diretor: “Fora ele, um velhote tão avançadoem idade quão atrasado de mentalidade, quemsolicitara a intervenção policial quando realizá- vamos uma assembléia”17. Laís Pereira, simpatizante do COLINA nomovimento estudantil relata como conseguiuescapar da confusão: Me escondi e saí escondida de todo mundo (...)porque uma moça que não fazia parte ficou presalá, e era filha de um homem muito importante, eeu escondi dentro de um armário de bioquímica.Eu tirei os vidros e entrei, eu era muitopequenininha, eu puxei os vidros e fiquei lá anoite inteira. De manhã, ela conseguiu ligar parao pai dela. Eu e ela lá. Ela se escondeu também.Eu e ela saímos correndo e escondemos quando vimos que estava invadindo, porque nosescutamos eles batendo com o pé earrebentando a Universidade. (...) Se souber queeu sou essa pessoa do DA, claro que eles vão mepegar. Aí ela chegou para o pai e falou assim: “Pai,eu e minha colega ficamos presas em uma sala,não deu tempo para a gente correr”. Nemperguntou, mandou a gente entrar no carro e eusaí como coleguinha, essa eu escapei18. Oscar Versiani, ordenou a suspensão das aulasenquanto durasse a confusão, com apoio dosdemais colegas de departamento. Solicitou também a interdição do Diretório Acadêmico19.  Após a liberação dos alunos foi instauradoinquérito. Nos dias que se sucederam à invasão,ainda havia bombas sendo estouradas pelafaculdade e o clima de hostilidade com a direçãopermaneceu.20. Segundo Gerson Boson, suacompreensão sobre o ocorrido foi que: Na verdade teriam como refém qualquer outroque se apresentasse e que pretendesse negociar com eles. Não é que eu tenha dado autorizaçãoà polícia para invadir a Escola de Medicina. Nãodei por duas razões. Primeiro, porque a polícianão precisava de autorização minha para invadir.Ela já havia, sem esta autorização já haviaminvadido a FAFICH e a própria Faculdade deDireito. Segundo, porque naquela ocasião elesestavam querendo a minha autorização, paradepois jogar nas costas do reitor aresponsabilidade por algumas tropelias que, por acaso, resultassem desta invasão. Mas o episódio,afinal de contas, terminou bem”21. O relatório final do inquérito é interessante, namedida em que apresenta algumas considerações 13RESENDE, Maria Efigênia & NEVES,Lucilia.  Memória de Reitores (1961-1990) . Belo Horizonte: UFMG, 1998.pp.56.14Fortes lembranças dos anos dechumbo. Estado de Minas. 03/05/1999. Acervo CEMEMOR.15Secretário explica a atuação dapolícia. Estado de Minas. 05/05/1968. Acervo CEMEMOR.16Relação 1 de detidos na Faculdadede Medicina em 04 de maio de 1968.Pasta 0251. Rolo .017. AcervoDOPS/MG; Relação 2 de detidos naFaculdade de Medicina em 04 de maiode 1968. Pasta 0251.Rolo. 017. AcervoDOPS/MG.17PAIVA, Maurício. O sonho exilado. Rio de Janeiro: MAUAD, 2004. pp. 18.18Entrevista de Laís Soares Pereira a James N. Green em 06/01/2009.Entrevista gentilmente cedida à autora. 19Professores apóiam diretor daMedicina. Estado de Minas .05/05/1968. Acervo DOPS/MG.20Elevou-se a 154 o número deuniversitários detidos. Estado de Minas .05/05/1968. Acervo DOPS/MG;Fortes lembranças dos anos dechumbo. Estado de Minas. 03/05/1999. Acervo CEMEMOR.21RESENDE, Maria Efigênia & NEVES,Lucilia.  Memória de Reitores (1961-1990) . Belo Horizonte: UFMG, 1998pp. 93-94. 150 Temporalidades - Revista Discente do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 2, n.º 1, Janeiro/Julho de 2010 - ISSN:1984-6150 - www.fafich.ufmg.br/temporalidades  iniciais, baseadas nos depoimentos dos 142 alunospresos. O primeiro ponto diz respeito à deficiênciado ensino: É impressionante como os estudantes ouvidos sequeixam do ensino. A grande maioria se queixado mau aprendizado, de deficiência do corpodocente, de aulas práticas não satisfatórias, demá distribuição horária e de restrição do cursopara 5 anos. Quase todos, ao comentar esteaspecto acentuam que o curso em 5 anos quaseos obriga a pleitear “pós-graduação”. Isso traduzlogicamente a falta do internato obrigatório. Nãoserá oportuno rever-se a matéria?22  Aproveitando a abertura das reclamações, ospróprios docentes dissertaram sobre a necessidadede diálogo para a melhora do ensino, como formade encarar objetivamente este problema: “Todosnós sabemos que não se pode cobrar bom ensinode uma faculdade com o dobro de alunos emrelação à sua capacidade docente, com verbasinsuficientes”23. O segundo ponto observadoantes da apresentação dos resultados do inquéritoaponta para questões políticas: “haverá algumaatividade política ou subversiva nestes movimentosestudantis”? Baseadas em impressões edepoimentos, os estudantes negaram qualquer linha política ou infiltração comunista para se opor ao governo24. Em “autocrítica”, os membros dacomissão reconheceram “honestamente asdeficiências do ensino e de nossas (suas) própriasdeficiências”. Realçaram o importante papel daUniversidade em formadora de humanistas epropuseram a criação de atividades que propiciemapoio psicológico aos estudantes. O inquérito objetivava responder a trêsquestões básicas: caracterizou-se a indisciplina?Quais os responsáveis? E como punir?25Uma vez confirmada a pichação de um ônibus eprisão de funcionários da instituição, foicaracterizada a existência da indisciplina. Osresponsáveis seriam, a princípio, os dirigentes doDA, que haviam convocado a assembléia. Todavia, oelevado número de prisões conduziu a umaconclusão acerca da dificuldade de culpar tãosomente os dirigentes, já que a situação havia fugidodo controle. Perceberam que 2/3 dos alunos presospertenciam ao primeiro e segundo ano dafaculdade26, o que em tese, teria levado ao seguintequestionamento: uma vez que os motivos da revoltaestavam relacionados à melhoria do ensino, nãoseriam os veteranos quem deveriam, em suamaioria, ter participado da assembléia? O voto vitorioso da comissão, presidida pelo prof. HiltonRocha e composta por mais um professor e doisfuncionários, foi pela dissolução do DA e convocaçãode novas eleições para dali a 30 dias. Outra decisãofoi de notificar as direções das demais unidadessobre a presença de alunos envolvidos edevidamente identificados no episódio.27Outra situação delicada ocorreu no final do ano,em 05 de outubro de 1968. Alguns alunos daFaculdade de Filosofia de Ciências Humanas(FAFICH) estavam reunidos no subsolo dauniversidade, para organizar a viagem aoCongresso da União Nacional de Estudantes(UNE), em Ibiúna (SP). Mesmo sendo uma reuniãosigilosa, os militares tomaram conhecimento dosplanos estudantis e decidiram boicotá-los. Odiretor da faculdade, professor Pedro Parafita deBessa, foi chamado à Secretaria de Estado deSegurança pela manhã, pouco antes da invasão.Quando retornou o prédio, que funcionava na ruaCarangola, já estava cercado pela Polícia Militar.Iriam prender o presidente do DA da FAFICH, oestudante de história Waldo Silva, e outros líderesestudantis. Os militares teriam tirado Bessa daescola justamente para cercá-la. Tanto Aluísio Pimenta, como o ex-diretor daFAFICH Pedro Parafita de Bessa, foramaposentados compulsoriamente durante o regimemilitar. Gérson Boson foi cassado ainda comoreitor, em 1969. Embora não se tratasse de umapessoa de esquerda, era uma pessoa mais aberta aodiálogo, em tempos de autoritarismo reinante. Emfunção disto, não raramente estava em situaçõesparadoxais. Relata Boson:  Você já ouviu falar na história da luta entre o mar e o rochedo, em que sofrem os mariscos? (...)Porque os estudantes, já que eu não podiaatender à maioria de suas reivindicações, me tinham como partidário da ditadura. E, de outrolado, quando eu não admitia que a polícia ou asegurança usassem dos seus processos violentoscontra estudantes dentro da Universidade oucontra a comunidade universitária, viam-mecomo esquerdista.28  Após sua cassação em 13 de outubro de 1969,o chefe do CIE em Belo Horizonte teria lhe ditoque o Exército nada teve a ver com seuafastamento, e que os responsáveis foram algunsprofessores da Escola de Medicina, interessadosem prejudicá-lo29. Em um determinado momento,o Reitor resolveu ir atrás de Alfredo Buzaid, entãoMinistro da Justiça, para buscar informações sobresua cassação. Boson apenas teria encontrado umaficha relativa a ele, na qual estava escrito:“Omisso”. Em sua visão, “por não admitir atos deperseguição contra professores e alunos daUniversidade”30.Em outra situação encontrou-se com o entãoembaixador do Brasil em Portugal, Gama e Silva,quem o teria perguntado sobre: “Como ia aUFMG”? Ao que teria respondido: “Tudo bem, atéo dia em que assinou o ato de sua aposentadoriacompulsória, ou seja, sua cassação como reitor”.Foi então que Gama e Silva teria se surpreendido eafirmado jamais ter assinado o referido ato31.Embora não tenhamos evidências empíricas queeste realmente fosse um dos casos, fato é quenaquele período não foi incomum a prática de 22Relatório Final acerca da Invasão daFaculdade de Medicina. Presidido peloprof. Dr. Hilton Rocha. 20/07/1968. Acervo CEMEMOR.23Relatório Final acerca da Invasão daFaculdade de Medicina. Presidido peloprof. Dr. Hilton Rocha. 20/07/1968. Acervo CEMEMOR.24Relatório Final acerca da Invasão daFaculdade de Medicina. Presidido peloprof. Dr. Hilton Rocha. 20/07/1968. Acervo CEMEMOR. 25Relatório Final acerca da Invasão daFaculdade de Medicina. Presidido peloprof. Dr. Hilton Rocha. 20/07/1968. Acervo CEMEMOR.261ª. Série: 47 alunos; 2ª. Série: 50;3ª.Série: 21; 4ª Série: 16; 5ª Série: 8.27 João Batista dos Mares Guia(FACE); Mauricio Paiva (Engenharia);Luis Macedo (ICEX) e Maria Barbosa(FAFICH).28RESENDE, Maria Efigênia &NEVES, Lucilia.  Memória de Reitores(1961-1990) . Belo Horizonte: UFMG,1998 pp. 3.29RESENDE, Maria Efigênia & NEVES,Lucilia.  Memória de Reitores (1961-1990) . Belo Horizonte: UFMG, 1998.pp. 95.30RESENDE, Maria Efigênia & NEVES,Lucilia.  Memória de Reitores (1961-1990) . Belo Horizonte: UFMG, 1998pp. 99.31RESENDE, Maria Efigênia & NEVES,Lucilia.  Memória de Reitores (1961-1990) . Belo Horizonte: UFMG, 1998.pp.99 151 Temporalidades - Revista Discente do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, vol. 2, n.º 1, Janeiro/Julho de 2010 - ISSN:1984-6150 - www.fafich.ufmg.br/temporalidades
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