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As Raízes e o Futuro do Homem Cordial.pdf

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Ricardo Luiz de Souza AS RAÍZES E O FUTURO DO “HOMEM CORDIAL” SEGUNDO RESENHA TEMÁTICA SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA Ricardo Luiz de Souza* Publicado em 1936, Raízes do Brasil é, niti- metodológico, a influência de Max Weber é nítida, damente, uma o
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     C    A   D   E   R   N   O    C   R   H ,   S  a   l  v  a   d  o  r ,  v .   2   0 ,  n .   5   0 ,  p .   3   4   3  -   3   5   3 ,   M  a   i  o   /   A  g  o .   2   0   0   7 343  Ricardo Luiz de Souza   343    R   E   S   E   N   H   A   T   E   M    Á   T   I   C   A Publicado em 1936,  Raízes do Brasil    é, niti-damente, uma obra de transição. Busca explicar oBrasil de forma ensaística, como Gilberto Freyre,Euclides da Cunha, Sílvio Romero e outros o fize-ram, mas, ao mesmo tempo, já se nota a presençade parâmetros científicos que, em Freyre, aindaestão perdendo espaço para a intuição. Dessa for-ma, na longa transição entre o ensaísmo e a adoçãode padrões científicos, que caracteriza os anos 30,o livro representa um inegável avanço.As regularidades apontadas por Buarque noprocesso de formação nacional não tendem a ad-quirir caráter definitivo. São construções teóricaspassíveis de reformulação pelo autor, como de fatoocorreu, ao contrário da obra de Gilberto Freyre,por exemplo, na qual os conceitos básicos formula-dos ainda nos anos 20 permanecem inalterados emplenos anos 80.Saes acentua, a respeito da influênciaweberiana sobre o autor, que: “Do ponto de vista AS RAÍZES E O FUTURO DO “HOMEM CORDIAL” SEGUNDOSÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA Ricardo Luiz de Souza  *  * Professor-Doutor da Fundação Educacional MonsenhorMessias – UNIFEMM. Centro Universitário de Sete Lago-as. Av. Mal. Castelo Branco, 2765. Santo Antonio - SeteLagoas-MG - Brasil. Cep: 35.701-242 riclsouza@uol.com.br metodológico, a influência de Max Weber é nítida,menos pelas inúmeras referências ao sociólogo ale-mão e mais pela própria estrutura da argumenta-ção” (Saes, 2000, p. 4-13). De fato, o método utili-zado por Sérgio Buarque é genético e weberiano:busca a gênese, as raízes do processo histórico aser analisado e intenta enquadrar esse processoem uma tipologia weberiana, de cuja utilização eleé pioneiro entre nós.Esse processo histórico gerou, por sua vez,uma identidade específica, cujas raízes estiverampresentes na sua evolução e foram por ele, ao mes-mo tempo, determinadas: são as raízes do Brasil.E fica, então, a pergunta: “Por que raízes? SérgioBuarque faz apelo a uma metáfora orgânica: se háraízes, há solo, plantas, árvores, frutos. Tudo oque frutificou aqui – e o verbo é utilizado inúme-ras vezes, ao longo do livro – alimentou-se dessaseiva primeira, o impulso trazido pelo coloniza-dor”   (Veloso; Madeira, 1999, p. 166). A busca des-sas raízes implica a busca da identidade nacional,a busca de uma chave para sua decifração.Trata-se de uma identidade pensada a par-tir de dualidades. Gera-se, entre o trabalhador e o     C    A   D   E   R   N   O    C   R   H ,   S  a   l  v  a   d  o  r ,  v .   2   0 ,  n .   5   0 ,  p .   3   4   3  -   3   5   3 ,   M  a   i  o   /   A  g  o .   2   0   0   7 344   344  AS RAÍZES E O FUTURO DO HOMEM CORDIAL... aventureiro, por exemplo, uma dicotomia salien-tada por Leenhardt, a partir da qual “o aventureiroibérico não saberia compreender, e ainda menospartilhar, o comportamento social e o comporta-mento econômico do trabalhador, figura caracte-rística do mundo sociopolítico do norte europeu”(Leenhardt, 2005, p. 96). E ainda, como acentuaAntônio Cândido em sua introdução clássica a  Raízes do Brasil  , Buarque trabalha com dualidades,com pares, como “trabalho e aventura; método ecapricho; rural e urbano; burocracia e caudilhis-mo; norma impessoal e impulso afetivo”   (Cândi-do, 1996, p. 13).Nessas dualidades, fica patente a distinçãoefetuada por Max Weber entre os diferentes tiposde legitimação, com o trabalho, o método, o urba-no, a burocracia e a norma impessoal, situando-seno campo dominado pelo que ele chama de “do-mínio em virtude da legalidade, em virtude da féna validade do estatuto legal e da competência fun-cional, baseada em regras racionalmente criadas” ecom os pólos opostos de cada par situando-se noterreno dos tipos de autoridade tradicional ecarismática (Weber, 1974, p. 99). São esses tiposde autoridade, segundo Buarque (embora ele nãoas mencione segundo a tipologia weberiana), quetêm predominado no Brasil, e é a utilização dessadualidade e a constatação desse predomínio queirão nortear o pensamento do autor.Nesse contexto ainda, e seguindo a termi-nologia weberiana, a autoridade estatal não temcomo manter o monopólio legítimo da autoridade,que se espraia pela sociedade. A cordialidade bra-sileira não exclui a violência: pelo contrário, o  Homem Cordial   é um homem dado a atitudes ex-tremas, capaz de agir com extrema violência. Ex-trema porque se trata de uma violência que atuafora dos meios legais de coerção, e extrema porqueé a expressão de um comportamento incapaz demoldar-se a padrões legais e à ordem pública. Atal ordem o  Homem Cordial   contrapõe a lógica daesfera privada e de seus códigos particulares, quesão os códigos dessa esfera. É essa violência – quenão é a violência weberiana, monopolizada peloEstado, e, sim, a violência privada, sancionada porcódigos particulares – que leva o autor a contestara tese de ser a história do Brasil uma história in-cruenta, o que é visto por ele, aliás, como um con-ceito historicamente insustentável: De todas as histórias nacionais pode ser dito quesão cruentas e a do Brasil naturalmente não for-ma exceção. E pretender que o tenha sido - a doBrasil - em menor ou maior grau do que a dosoutros povos já é matéria dependente de critéri-os de mensuração e naturalmente de termos decomparação, que até o momento ainda não sedescobriram (Holanda, 1996a, p. 300). O  Homem Cordial   é definido por Grecocomo protótipo do não-cidadão, pelo fato de o seuperfil não se adequar à esfera pública, simbolizan-do, ainda, uma sociedade que prefere obedecer aassumir responsabilidades (Greco, 2001, p.74). Enão se adequa à modernidade, ainda, devido a umacaracterística ressaltada por Buarque, que mencio-na o “horror às distâncias que parece constituir,ao menos até agora, o traço mais específico do ca-ráter brasileiro”   (Holanda, 1996b, p. 149).O prestígio que o romantismo ganhou noBrasil derivou, segundo Sérgio Buarque, de umpersonalismo inato: Se o romantismo adaptou-se tão bem ao nossogênio nacional, a ponto de quase se poder dizernunca a nossa poesia pareceu tão legitimamentenossa como sob a sua influência, deve-se ao fatode persistir, aqui como em Portugal, o velho pres-tígio das formas simples e espontâneas, dos sen-timentos pessoais, a despeito das contorções edisciplinas seculares do cultismo e do classicismo(Holanda, 1996a, p.365). Isso decorre do fato de recusarmos oformalismo e buscarmos fundamentar nossas rela-ções em uma intimidade que prioriza o contatopessoal, em detrimento da regulamentação jurídi-ca, que deve, segundo Weber, definir as relaçõesburocráticas, excludentes em relação a qualquerdeterminação pessoal. No Brasil, ao contrário,“cada indivíduo afirma-se ante os seus semelhan-tes indiferentes à lei geral, onde esta lei contrariesuas afinidades emotivas, e atento apenas ao que odistingue dos demais, do resto do mundo”(Holanda, 1996b, p. 155). O brasileiro, segundo     C    A   D   E   R   N   O    C   R   H ,   S  a   l  v  a   d  o  r ,  v .   2   0 ,  n .   5   0 ,  p .   3   4   3  -   3   5   3 ,   M  a   i  o   /   A  g  o .   2   0   0   7 345  Ricardo Luiz de Souza   345 Buarque, é antiweberiano por excelência e, por isso,Cândido ressalta, no já mencionado ensaio, o quechama de inadequação visceral desse homem cor-dial às “relações impessoais que decorrem da po-sição e da função do indivíduo, e não da sua mar-ca pessoal e familiar, das afinidades nascidas naintimidade dos grupos primários”   (Candido, 1996,p. 17). E a análise de Cândido é reforçada pelaconclusão de Souza: Uma leitura atenta da caracterologia do homemcordial descobre que ele é, ponto por ponto, oinverso perfeito do protestante ascético como édescrito por Max Weber...Como resultado – daí acaracterologia do homem cordial ser a essênciado livro –, não temos aqui nem mercado capita-lista moderno nem democracia digna deste nome.(Souza, 1999a, p.79-80). A continuidade da tradição ibérica gera umtempo que, ao invés de se renovar, produz areafirmação secular dos traços de significado(Pesavento, 2005, p. 59). E tal continuidade gerauma questão igualmente salientada por Pesavento:“O brasileiro, para salvar seu país das garras dopassado, precisaria ser um outro ? No mínimo,precisaria matar seu passado, aniquilar seu perfilidentitário” (2005, p. 70). Por isso, uma preocupa-ção central da obra de Buarque é descobrir as raízesdo  Homem Cordial  , traçar sua genealogia e refletirsobre sua ação determinante em relação a diversosaspectos da história brasileira. Como, por exemplo,o que ele define como o caráter epidérmico das re-beliões que antecederam e sucederam a Indepen-dência, o qual possui, na perspectiva do autor, ori-gens ao mesmo tempo políticas e identitárias: “Nãoé em suma o mesmo paternalismo, de raízes coloni-ais e barrocas, que forma, ainda hoje, abertamenteou não, o núcleo de quase toda atividade políticano Brasil?” (Holanda, 2004, p. 93).Ele faz isso, igualmente, em artigo publicadoem 1947, quando acentua: “a repulsa firme a todasas modalidades de racionalização e, por conseguin-te, de despersonalização, tem sido, até aos nossosdias, um dos traços constantes dos povos de raízesibéricas” (2004, p. 51). E ressalta, ainda, alguns dostraços básicos do ethos  econômico de tais povos: O que os distingue em primeiro lugar é, isso sim,o uso que fazem de preferência da riqueza acu-mulada, destinando-a a garantir-lhes antes a os-tentação ou o luxo que o próprio conforto. E, alémdisso, uma incapacidade, que se diria congênita,de conceber qualquer forma de ordenação im-pessoal e mecânica prevalecendo sobre os vín-culos de caráter orgânico e comunal, como são osque se fundam no parentesco, na vizinhança e nacomunidade (p. 56). Partindo de tais pressupostos, ele coloca nes-ses termos a questão da incompatibilidade entre amentalidade dos povos ibéricos e o capitalismo:“como explicar satisfatoriamente a constante resis-tência oferecida pelos mesmos povos a esse produ-to natural dos novos tempos, e a mentalidade capi-talista?” Coloca como critério, então, o conhecimentoapenas superficial que tais povos possuíam acercadas relações sociais características do novo sistema.E conclui: “De onde, entre portugueses e espanhóis,um igualitarismo fundamental, posto que nem sem-pre muito ostensivo, e que teve exemplo, talvez, nomundo muçulmano, mas que o resto da Europacristã ignorou, ao menos até a aurora dos temposmodernos” (Holanda, 2004, p. 49).A condenação do passado colonial não é,porém, absoluta, à maneira de um Manoel Bomfim,o que leva Finnazi-Agró a mencionar a existência,em Caminhos e fronteiras , de uma rememoraçãonostálgica de um passado ainda caracterizado porrelações complexas entre culturas diferentes e pelaacolhida do discurso do outro. E a concluir: “Hoje,aquilo que fica são apenas elementos esparsos eesgarçados de um tecido que apenas a sabedoria eo amor orgânico do estudioso conseguem retecernum desenho orgânico” (Finazzi-Agró, 2005, p.153). E há, na avaliação de Sérgio Buarque, umaambigüidade captada com precisão por Silva: “Seo Homem Cordial representa, de certa forma, nos-so não-lugar na modernidade, ele constitui aindaum híbrido entre a tradição e a modernidade. Seusrompantes modernos, apesar de sufocados pelostraços tradicionais, são latentes, o que evidenciaum sujeito singular, criatura nacional” (Silva, 2005,p. 130). Mas, apesar da constatação de tal singula-ridade, Paoli acentua, também de forma precisa, aconexão efetuada por Sérgio Buarque, em  Raízes     C    A   D   E   R   N   O    C   R   H ,   S  a   l  v  a   d  o  r ,  v .   2   0 ,  n .   5   0 ,  p .   3   4   3  -   3   5   3 ,   M  a   i  o   /   A  g  o .   2   0   0   7 346   346  AS RAÍZES E O FUTURO DO HOMEM CORDIAL... do Brasil  , entre cordialidade e o que a autora cha-ma de “desrealização republicana damodernidade.” (Paoli, 2003, p. 167). E a cordiali-dade brasileira é, por fim, enfaticamente definidapor Sérgio Buarque como nociva ao indispensávelprocesso de organização política nacional: Em sociedade de srcens tão nitidamentepersonalistas como a nossa, é compreensível queos simples vínculos de pessoa a pessoa, indepen-dentes e até exclusivos de qualquer tendênciapara a cooperação autêntica entre os seus com-ponentes, tendo em vista um fim exterior a eles,foram sempre os mais decisivos. De onde, comcerteza, a vitalidade, entre nós, de certas forçasafetivas e tumultuosas, em prejuízo das qualida-des de disciplina e método, que parecem melhorconvir a um povo em vias de se organizar politi-camente (Holanda, 2004, p.81). Sérgio Buarque pensou em oposição a cor-rentes de pensamento que utilizaram, igualmente,a influência colonial como elemento decisivo paraa compreensão do Brasil contemporâneo. E Oli-veira Viana é, nesse sentido, o nome mais eviden-te a ser lembrado. Ele trabalhou, segundo Canedo,com o mesmo conjunto de elementos de Viana,desenvolvendo o conceito de cordialidade, deri-vado, por sua vez, da “cultura da personalidadeibérica” (Canedo, 1994, p. 90). Mas Buarque afir-ma ter ressaltado, em  Raízes do Brasil  , a herançaindígena e mameluca, em deliberada oposição àsconcepções arianistas de Oliveira Viana (Graham,1982, p. 13). E a relação entre colonizadores e in-dígenas, no período das monções, é, na descriçãode Buarque, ao contrário do que ocorre na análisehistórica de Viana, longe de ser idílica: “É o con-fronto de duas humanidades tão diversas, tão he-terogêneas, tão verdadeiramente ignorantes, agorasim, uma da outra, que não deixa de impor-se en-tre elas uma intolerância mortal” (Holanda, 1986,p. 59). A oposição entre os autores torna-se, as-sim, nítida. Já em relação a Freyre, delineia-se um con-junto complexo de contrastes e aproximações. Tan-to Gilberto Freyre quanto Sérgio Buarque trabalhama partir de dualidades, mas, enquanto as dualidadesde Freyre caminham no sentido da adaptação, asdualidades de Buarque estão em constante e instá-vel tensão (Costa, 1992, p. 237). Nesse sentido,Monteiro aponta uma distinção fundamental entreambos os autores: Freyre registra um equilíbrio deantagonismos entre poder público e privado noperíodo colonial, “já Sérgio Buarque viu ali sobre-tudo o conflito, ou uma invasão totalmente indevida”(Monteiro, 1999, p. 179), com o sistema patriarcalservindo como obstáculo à expansão da atividadepolítica. Como conseqüência, o espaço público passaa pautar-se por regras próprias da esfera privada e,dessa forma, ainda segundo Monteiro, “... é o rela-cionamento com todos que deve dar-se numa con-duta tipicamente cordial, sobre bases concretas epersonalizadas, imediatizadas, de modo a reconhe-cer, pessoal e diretamente, cada qual com quem estáse mantendo algum tipo de ligação” (p. 228).Não há lugar, nesse contexto, para o indiví-duo abstrato e neutro: ele é sufocado por uma teiade relações que é tecida sob o signo da cordialida-de, mas sacramenta a hierarquia e a desigualdade.Concluindo, ainda com Monteiro, “... a cordiali-dade não constituía, evidentemente, uma basesatisfatória para a ereção de um Estado democráti-co, que, ao contrário dos valores cordiais, pressu-punha uma radical despersonalização”   (p. 244).Buarque tenta identificar as raízes do Brasil,mas é uma tentativa que se configura como contra-ditória, na medida em que o brasileiro é caracteriza-do como portador de uma identidade sem raízes:“somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”(Holanda, 1996b, p. 31). Esse desterro se liga aoque ele define como a predominância do caráter deexploração comercial da colonização portuguesa,mais preocupada em explorar a terra, ainda que deforma predatória, do que em estabelecer-se nela deforma consistente (Holanda, 1996b, p. 98).Tal tentativa liga-se, por sua vez, à questão:qual é, para Sérgio Buarque, o sentido da coloni-zação (para utilizarmos uma expressão cara a CaioPrado)? “O princípio que, desde os tempos maisremotos da colonização, norteara a criação da ri-queza no país, não cessou de valer um só momen-to para a produção agrária. Todos queriam extrairdo solo excessivos benefícios sem grandes sacrifí-cios” (Holanda, 2004, p. 74). E, a partir de tal de-
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