Documents

Castro Gomes - Ciências Sociais, Violência Epistêmica e o Problema Da Ìnvenção Do Outro

Description
Ciências Sociais, Violência Epistêmica e o Problema Da Ìnvenção Do Outro
Categories
Published
of 10
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  Ciências sociais, violência epistêmica e o problema da 'invenção do outro'Titulo Castro-Gómez, Santiago - Autor/a; Autor(es)A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivaslatino-americanasEn:Buenos AiresLugarCLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias SocialesEditorial/Editor2005FechaColecciónglobalizacion; postmodernidad; modernidad; filosofia; capitalismo; ciencias sociales;estudios culturales; teoria critica; America Latina; TemasCapítulo de LibroTipo de documentohttp://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/clacso/sur-sur/20100624102434/9_CastroGomez.pdfURLReconocimiento-No comercial-Sin obras derivadas 2.0 Genéricahttp://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/deed.esLicencia Segui buscando en la Red de Bibliotecas Virtuales de CLACSOhttp://biblioteca.clacso.edu.arConsejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO)Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO)Latin American Council of Social Sciences (CLACSO)www.clacso.edu.ar  Ciênias soiais1 violênia epistêmia e o problema da 5invenção do outro6 7antiago Castro-G,me* G/I$1TE $7 LT<$7 G/$7 G $G$7 do século [[, a filosofia p#s!moderna e os estudos culturais constituíram!se em importantes correntes te#ricas que, dentro e fora dos recintos acadêmicos, impulsionaram uma forte crítica 6s patologias da ocidentaliza%ão. $pesar de todas as suas diferen%as, as duas correntes coincidem em apontar que tais patologias se devem ao car2ter dualista e e-cludente que assumem as rela%8es modernas de poder. $ modernidade é uma m2quina geradora de alteridades que, em nome da razão e do humanismo, e-clui de seu imagin2rio a hibridez, a multiplicidade, a ambigidade e a contingência das formas de vida concretas. $ crise atual da modernidade é vista pela filosofia p#s!moderna e os estudos culturais como a grande oportunidade hist#rica para a emergência dessas diferen%as largamente reprimidas. $bai-o mostrarei que o anunciado VfimY da modernidade implica certamente a crise de um dispositivo de poder que construía o VoutroY mediante uma l#gica bin2ria que reprimia as diferen%as. ontudo, gostaria de defender a tese de que esta crise não conduz 6 debilita%ão da estrutura mun ial   no interior da qual operava tal dispositivo. ? que aqui denominarei o Vfim da modernidadeY é apenas a crise de uma coni3ura)*o $ist,rica o po er   no conte-to do sistema!mundo capitalista, que no entanto assumiu outras formas em tempos de globaliza%ão, sem que isso implique no desaparecimento desse mesmo sistema!mundo. $rgumentarei que a atual reorganizacão global da economia capitalista se ap#ia na produ%ão das diferen%as e que, portanto, a afirma%ão celebrat#ria destas, longe de subverter o sistema, poderia contribuir para consolid2!lo. Gefenderei a tese de que o desafio atual para uma teoria cr4tica a socie a e  é, precisamente, mostrar em que consiste a crise do pro0eto moderno e quais são as novas configura%8es do poder global no que LUotard denominou a Vcondi%ão p#s!modernaY. inha estratégia consistir2 primeiro em interrogar o significado do que Babermas chamou de Vpro0eto da modernidadeY, buscando mostrar a gênese dos fenmenos sociais estreitamente relacionados a forma%ão dos estados nacionais e a consolida%ão do colonialismo. $qui coloquei a ênfase no papel desempenhado pelo con$ecimento cient4ico-t'cnico , e em particular pelo conhecimento propiciado pelas ciências sociais na consolida%ão destes fenmenos. @osteriormente mostrarei que o Vfim da modernidadeY não pode ser entendido como o resultado da e-plosão dos conte-tos normativos em que este pro0eto desempenhava ta-onomicamente, mas sim como uma nova configura%ão das rela%8es mundiais de poder, agora 02 não baseada na repressão e sim na produ%ão das diferen%as. Jinalizarei com uma breve refle-ão sobre o papel de uma teoria crítica da sociedade em tempos de globaliza%ão. %& ) pro.eto da governamentalidade ? que queremos dizer quando falamos do Vpro0eto da modernidadeYX Em primeiro lugar, e de maneira geral, referimo!nos 6 tentativa f2ustica de submeter a vida inteira ao controle absoluto do homem sob a dire%ão segura do conhecimento. ? fil#sofo alemão Bans (lumemberg '3::Q) mostrou que este pro0eto e-igia, conceitualmente, elevar o homem ao nível de princípio ordenador de todas as coisas. 52 não é a vontade inescrut2vel de Geus que decide sobre os acontecimentos da vida individual e social, e sim o pr#prio homem que, servindo!se da razão, é capaz de decifrar as leis inerentes 6 natureza para coloc2!las a seu servi%o. Esta reabilita%ão do homem caminha de mãos dadas com a idéia do domínio sobre a natureza através da ciência e da técnica, cu0o verdadeiro profeta foi (acon. Ge fato, a natureza é apresentada por (acon como o grande Vadvers2rioY do homem, como o inimigo que tem de ser vencido para domesticar as contingências da vida e estabelecer o Re3num $ominis  na terra '(acon, 3:O9 3;:). E a melhor t2tica para ganhar esta guerra é conhecer o interior do inimigo, perscrutar seus segredos mais íntimos, para depois, com suas pr#prias armas, submetê!lo 6 vontade humana. ? papel da razão científico!técnica é precisamente acessar os segredos mais ocultos e remotos da natureza com o intuito de obrig2!la a obedecer nossos imperativos de controle. $ inseguran%a ontol#gica s# poder2 ser eliminada na medida em 87  que se aumentem os mecanismos de controle sobre as for%as m2gicas ou misteriosas da natureza e sobretudo aquilo que não podemos reduzir 6 calculabilidade. a- =eber falou neste sentido da racionaliza%ão do ocidente como um processo de VdesencantamentoY do mundo.Nostaria de mostrar que quando falamos da modernidade como Vpro0etoY, estamos referindo!nos também, e principalmente, 6 e-istência de uma inst[ncia central   a partir da qual são dispensados e coordenados os mecanismos de controle sobre o mundo natural e social. Essa instDncia central é o Estado, que garante organiza%ão racional da vida humana. V?rganiza%ão racionalY significa, neste conte-to, que os processos de desencantamento e desmagicaliza%ão do mundo aos quais se referem =eber e (lumemberg come%am a ser regulamentados pela a%ão diretiva do Estado. ? Estado é entendido como a esfera em que todos os interesses encontrados na sociedade podem chegar a uma VsínteseY, isto é, como o locus  capaz de formular metas coletivas, v2lidas para todos. @ara isso se e-ige a aplica%ão estrita de Vcritérios racionaisY que permitam ao Estado canalizar os dese0os, os interesses e as emo%8es dos cidadãos em dire%ão 6s metas definidas por ele mesmo. <sto significa que o Estado moderno não somente adquire o monop#lio da violência, mas que usa dela para VdirigirY racionalmente as atividades dos cidadãos, de acordo com critérios estabelecidos cientificamente de antemão. ? fil#sofo social estadunidense <mmanuel =allerstein '3::3) mostrou como as ciências sociais se transformaram numa pe%a fundamental para este pro0eto de organiza%ão e controle da vida humana. ? nascimento das ciências sociais não é um fenmeno a itivo  no conte-to da organiza%ão política definido pelo Estado!na%ão, e sim constitutivo dos mesmos. Era necess2rio gerar uma plataforma de observa%ão científica sobre o mundo social que se queria governar 3 . 7em o concurso das ciências sociais, o Estado moderno não teria a capacidade de e-ercer controle sobre a vida das pessoas, definir metas coletivas de largo e de curto prazos, nem de construir e atribuir aos cidadãos uma VidentidadeY cultural ; . 1ão apenas a reestrutura%ão da economia de acordo com as novas e-igências do capitalismo internacional, e também a redefini%ão da legitimidade política, e inclusive a identifica%ão do car2ter e dos valores peculiares de cada na%ão, e-igiam uma representa%ão cientificamente embasada sobre o modo como VfuncionavaY a realidade social. 7omente sobre esta informa%ão era possível realizar e e-ecutar programas governamentais.$s ta-onomias elaboradas pelas ciências sociais não se limitavam, assim, 6 elabora%ão de um sistema abstrato de regras chamado VciênciaY &como ideologicamente pensavam os pais fundadores da sociologia&, mas tinham conseqências pr2ticas na medida em que eram capazes de legitimar as políticas reguladoras do Estado. $ matriz pr2tica que dar2 srcem ao surgimento das ciências sociais é a necessidade de Va0ustarY a vida dos homens ao sistema de produ%ão. Todas as políticas e as institui%8es estatais 'a escola, as constitui%8es, o direito, os hospitais, as pris8es, etc.) serão definidas pelo imperativo 0urídico da Vmoderniza%ãoY, ou se0a, pela necessidade de disciplinar as pai-8es e orient2!las ao benefício da coletividade através do trabalho. $ questão era ligar todos os cidadãos ao processo de produ%ão mediante a submissão de seu tempo e de seu corpo a uma série de normas que eram definidas e legitimadas  pelo con$ecimento . $s ciências sociais ensinam quais são as VleisY que governam a economia, a sociedade, a política e a hist#ria. ? Estado, por sua vez, define suas políticas governamentais a partir desta normatividade cientificamente legitimada.@ois bem, esta tentativa de criar perfis de sub0etividade estatalmente coordenados conduz ao fenmeno que aqui denominamos Va inven%ão do outroY. $o falar de Vinven%ãoY não nos referimos somente ao modo como um certo grupo de pessoas se representa mentalmente a outras, mas nos referimos aos dispositivos de saberCpoder que servem de ponto de partida para a constru%ão dessas representa%8es. ais que como o VocultamentoY de uma identidade cultural pree-istente, o problema do VoutroY deve ser teoricamente abordado da perspectiva do  processo e pro u)*o material e sim,lica  no qual se viram envolvidas as sociedades ocidentais a partir do século [*< F . Nostaria de ilustrar este ponto recorrendo 6s an2lises da pensadora venezuelana (eatriz Nonz2lez 7tephan, que estudou os dispositivos disciplinares de poder no conte-to latino!americano do século [<[ e o modo como, a partir destes dispositivos, foi possível a Vinven%ão do outroY.Nonz2lez 7tephan identifica três pr2ticas disciplinares que contribuíram para for0ar os cidadãos latino!americanos do século [<[ as constitui)7es , os manuais e urani a e  e as 3ram5ticas o i ioma . 7eguindo o te#rico uruguaio Hngel Iama, (eatriz Nonz2lez 7tephan constata que estas tecnologias de sub0etiva%ão possuem um denominador comum sua legitimidade repousa na escrita . Escrever era um e-ercício que, no século [<[, respondia 6 necessidade de ordenar e instaurar a l#gica da Vciviliza%ãoY e que antecipava o sonho modernizador das elites criollas. $ palavra escrita constr#i leis e identidades nacionais, plane0a programas modernizadores, organiza a compreensão do mundo em termos de inclus8es e e-clus8es. @or isso o pro0eto fundacional da na%ão se leva a cabo mediante a implementa%ão de institui%8es legitimadas pela letra 'escolas, hospitais, oficinas, pris8es) e de discursos hegemnicos 'mapas, gram2ticas, 88  constitui%8es, manuais, tratados de higiene) que regulamentam a conduta dos atores sociais, estabelecem fronteiras entre uns e outros e lhes transmitem a certeza de e-istir dentro ou fora dos limites definidos por essa legalidade escritur2ria 'Nonz2lez 7tephan, 3::R).$ forma%ão do cidadão como Vsu0eito de direitoY somente é possível dentro do conte-to e da escrita disciplinar e, neste caso, dentro do espa%o de legalidade definido pela constitui%ão. $ fun%ão 0urídico!política das constitui%8es é, precisamente, inventar a ci a ania , ou se0a, criar um campo de identidades homogêneas que tornem vi2vel o pro0eto moderno da governamentabilidade. $ constitui%ão venezuelana de 3OF: declara, por e-emplo, que s# podem ser cidadãos os homens casados, maiores de ; anos, que saibam ler e escrever, que se0am propriet2rios de bens de raiz e que tenham uma profissão que gere rendas anuais não inferiores a 9PP pesos 'Nonz2lez 7tephan, 3::R F3). $ aquisi%ão da cidadania é, então, um funil pelo qual s# passarão aquelas pessoas cu0o perfil se a0uste ao tipo de su0eito requerido pelo pro0eto da modernidade homem, branco, pai de família, cat#lico, propriet2rio, letrado e heterosse-ual. ?s indivíduos que não cumpram com estes requisitos 'mulheres, empregados, loucos, analfabetos, negros, hereges, escravos, índios, homosse-uais, dissidentes) ficarão de fora da Vcidade letradaY, reclusos no Dmbito da ilegalidade, submetidos ao castigo e 6 terapia por parte da mesma lei que os e-clui.as se a constitui%ão define formalmente um tipo dese02vel de sub0etividade moderna, a pedagogia é a grande artífice de sua materializa%ão. $ escola transforma!se num espa%o de internamento onde se forma esse tipo de su0eito que os Videais reguladoresY da constitui%ão estavam reclamando. ? que se busca é intro0etar uma disciplina na mente e no corpo que capacite a pessoa para ser VAtil 6 p2triaY. ? comportamento da crian%a dever2 ser regulamentado e vigiado, submetido 6 aquisi%ão de conhecimentos, capacidades, h2bitos, valores, modelos culturais e estilos de vida que lhe permitam assumir um papel VprodutivoY na sociedade. as não é 6 escola como Vinstitui%ão de seqestroY que (eatriz Nonz2lez 7tephan dirige suas refle-8es, e sim 6 fun%ão disciplinar de certas tecnologias pedag#gicas como os manuais de urbanidade, e em particular o muito conhecido de arreo, publicado em 3O9. ? manual funciona dentro do campo de autoridade aberto pelo livro, com sua tentativa de regulamentar a su0ei%ão dos instintos, o controle sobre os movimentos do corpo, a domestica%ão de todo tipo de sensibilidade considerada como Vb2rbaraY 'Nonz2lez 7tephan, 3::). 1ão se escreveram manuais de como ser um bom camponês, bom índio, bom negro ou bom gaAcho, 02 que todos estes tipos humanos eram vistos como pertencentes ao Dmbito da barb2rie. ?s manuais foram escritos para ser!se Vbom cidadãoY+ para formar parte da civitas , do espa%o legal que habitam os su0eitos epistemol#gicos, morais e estéticos de que necessita a modernidade. @or isso, o manual de arreo adverte que Vsem a observDncia destas regras, mais ou menos perfeitas, segundo o grau de civili/a)*o de cada país _...` não haver2 meio de cultivar a sociabilidade, que é o princípio da conserva%ão e do  pro3resso  dos povos e da e-istência de toda sociedade em or ena a Y 'Nonz2lez 7tephan, 3:: 9FR).?s manuais de urbanidade transformam!se na nova bíblia que indicar2 ao cidadão qual deve ser seu comportamento nas mais diversas situa%8es da vida, pois da obediência fiel a tais normas depender2 seu maior ou menor ê-ito na civitas terrena , no reino material da civiliza%ão. $ VentradaY no banquete da modernidade demandava o cumprimento de um receitu2rio normativo que servia para distinguir os membros da nova classe urbana que come%ava a emergir em toda a $mérica Latina durante a segunda metade do século [<[. Esse Vn#sY a que faz referência o manual é, assim, o cidadão burguês, o mesmo a que se dirigem as constitui%8es republicanas+ o que sabe como falar, comer, utilizar os talheres, assoar o nariz, tratar os empregados, comportar!se em sociedade. o su0eito que conhece perfeitamente Vo teatro da etiqueta, a rigidez da aparência, a m2scara da conten%ãoY 'Nonz2lez 7tephan, 3:: 9F:). 1este sentido, as observa%8es de Nonz2lez 7tephan coincidem com as de a- =eber e 1orbert Elias, para quem a constitui%ão do su0eito moderno vem de mãos dadas com a e-igência do autocontrole e da repressão dos instintos, com o fim de tornar mais visível a diferen%a social. ? Vprocesso da civiliza%ãoY arrasta consigo um crescimento dos espa%os da vergonha, porque era necess2rio distinguir!se claramente de todos aqueles estamentos sociais que não pertenciam ao Dmbito da civitas  que intelectuais latino!americanos como 7armiento vinham identificando como paradigma da modernidade. $ VurbanidadeY e a Veduca%ão cívicaY desempenharam o papel, assim, de ta-onomia pedag#gica que separava o fraque da ralé, a limpeza da su0eira, a capital das províncias, a repAblica da colnia, a civiliza%ão da barb2rie.1este processo ta-onmico desempenharam também um papel fundamental as gram2ticas da língua. Nonz2lez 7tephan menciona em particular a 2ram5tica e la Len3ua Castellana estina a al uso e los americanos , publicada por $ndrés (ello em 3O9Q. ? pro0eto de constru%ão da na%ão requeria a estabiliza%ão lingística para uma adequada implementa%ão das leis e para facilitar, além do mais, as transa%8es comerciais. E-iste, pois, uma rela%ão direta entre língua e cidadania, entre as gram2ticas e os manuais de urbanidade em todos estes casos, do que se trata é de criar ao $omo economicus , ao 89
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks
SAVE OUR EARTH

We need your sign to support Project to invent "SMART AND CONTROLLABLE REFLECTIVE BALLOONS" to cover the Sun and Save Our Earth.

More details...

Sign Now!

We are very appreciated for your Prompt Action!

x