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Coletânea C i c l o A l c e u A m o r o s o L i m a

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Coletânea Ciclo A l c e u A m o r o s o L i m a Apresentação Alceu Amoroso Lima ( ), também conhecido pelo pseudônimo de Tristão de Athayde, figura entre os principais intelectuais brasileiros
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Coletânea Ciclo A l c e u A m o r o s o L i m a Apresentação Alceu Amoroso Lima ( ), também conhecido pelo pseudônimo de Tristão de Athayde, figura entre os principais intelectuais brasileiros do século XX. Essa afirmação, em que pese seu acento, ainda diz pouco sobre um homem que transitou regularmente entre a ciência e a religião, entre a crítica e a produção artística, entre a política e o ensino domínios nem sempre tranquilos se vistos a partir dos princípios organizadores internos que os regem, e diante dos quais, ao transitá-los, um indivíduo não passa ileso sem despender uma grande carga emocional e ter que praticar algo como um autocontrole ascético na organização do próprio pensamento. Em cada um desses domínios Alceu Amoroso Lima deixou marcas, propôs discussões, fez acordos e suscitou rusgas que atraíram e ainda atraem - pesquisadores de diversas áreas, voltados a estudar e compreender seu pensamento. Aderiu ao movimento modernista e escreveu profusamente sobre os principais poetas do movimento. Foi um grande pensador católico e teve uma das maiores carreiras jornalísticas da imprensa brasileira. Foi um intelectual pleno, ao estilo de Mário de Andrade, no sentido em que, além do trânsito entre áreas distintas, também procurou conhecer-se melhor, a cada idade e a cada contexto, mesmo sob o risco de defender posturas e ideias que o fariam ser incompreendido, e mesmo correndo o risco de errar. Esse diapasão de atuações só acentua seu rico itinerário como ser humano que não se encontra acima do bem e do mal. Foi simpatizante dos movimentos de esquerda durante a ditadura militar e foi o representante brasileiro do Concílio Vaticano 2º. Participou da fundação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; ocupou assento na Academia Brasileira de Letras; também fez parte do Conselho Nacional de Educação. Homem complexo, enfim. Homem pleno, com certeza Como notado, sua contribuição está presente nos principais acontecimentos da história brasileira do século XX. Para homenagear Alceu Amoroso Lima, o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc realizou o Ciclo Tristão de Athayde, entre junho e julho de 2015, com curadoria de Guilherme Arduini. As apresentações - que buscaram problematizar, entender e discutir o homem e sua obra - estão aqui reunidas nesta publicação. Com este ato, um duplo entre homenagem e sincero reconhecimento, espera-se poder contribuir para a disseminação do pensamento do autor e para manter viva na memória, e no espaço público, a imagem que merece perpetuar-se: a de um grande intelectual humanista. Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo Junho 2017 Alceu Amoroso Lima alegria e rigor Crítico literário, ensaísta, professor: diversas foram as atividades intelectuais exercidas por Alceu Amoroso Lima ( ), cujas obras (mais de oitenta no total) por vezes apareciam assinadas comotristão de Athayde. Para recompor suas múltiplas facetas e entender sua vida pública, organizamos o Ciclo Tristão de Athayde, que integrou a programação do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo nos meses de junho e julho de Durante cinco semanas, onze palestrantes tiveram a oportunidade de expor suas ideias. Nove entre eles registraram por escrito suas contribuições, das quais resultou este livro. As apresentações se deram sob o signo do diálogo aberto e da pesquisa solidamente interdisciplinar, posto que historiadores, sociólogos, cientistas políticos e educadores se propuseram a cobrir um espectro de análise que incluísse as relações sociais no seio das quais Tristão se formou, os traços de subjetividade que moldaram sua leitura de tais relações e o modo como elas aparecem em seus escritos, além do legado de suas ideias para a compreensão do presente. Esta publicação apresenta uma ordem lógica que se inicia com uma visão familiar de Alceu: Carlos Eduardo Affonso Ferreira (neto de Alceu) e Alceu Amoroso Lima Filho apresentam suas versões do personagem no convívio íntimo, restrito às pessoas mais próximas. Os testemunhos de um filho e um neto ajudaram a compor a intimidade deste personagem que, não obstante seu jeito expansivo e alegre, era bastante reservado no que concerne à vida familiar. Em seguida passamos à figura pública de Alceu, através das suas fortes amizades, nutridas por meio de uma prolífica correspondência, e também pelos enfrentamentos que inevitavelmente marcam a vida pública de grande envergadura. Para terminar, o remate da obra fica a encargo do decano entre todos os estudiosos de Alceu: Cândido Mendes, a quem também cabe o papel de preservar o arquivo pessoal de Tristão de Athayde e promover atividades sociais através do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade. Em suma, o Ciclo Tristão de Athayde foi, de um modo homólogo ao seu objeto de estudo, dotado de uma alegria e uma erudição impecáveis. Esta oportunidade única de repensar uma das trajetórias pessoais mais importantes do Brasil do século XX só foi possível graças à realização do CPF Sesc. Por este motivo, somos eternamente gratos a Andréa Nogueira e Maurício Trindade, respectivamente gerente e gerente adjunto do CPF, e especialmente a Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do Sesc São Paulo, pela confiança apresentada no trabalho. Através deste livro, a fecundidade de suas pesquisas poderá ser útil a um número muito maior de pessoas. Boa leitura! Guilherme Ramalho Arduini Doutor em Sociologia pela USP Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo Alceu e o equilíbrio dos antagonismos Carlos Affonso Ferreira Inicio agradecendo ao Sesc pela realização deste evento que evoca alguém pouco lembrado ultimamente, mas que é um escritor de papel fundamental na cultura brasileira segundo a opinião de seus correspondentes, como Mário de Andrade, Carlos Drummond e Dom Luciano de Almeida. Vem a propósito mencionar a biografia de Alceu, que lancei em 2015, da qual me utilizo nas linhas abaixo. É engraçado, associo à biografia um ótimo restaurante italiano em Curitiba, em que se entra pela cozinha. É uma forma do freguês conferir a higiene do local. Da mesma maneira, hoje quero primeiro tratar da cozinha da biografia, de como me envolvi com esse trabalho, e contar um pouco do que foi o processo de escrevê-lo. Meus avós vinham do Rio a São Paulo a cada dois ou três meses visitar as duas filhas e um filho que moravam nessa cidade. O item principal da agenda era passar o dia com Lia, a filha beneditina enclausurada na Abadia de Santa Maria. Vamos, daqui para a frente, chamála de Tuca, seu apelido. Tristão chegava ao mosteiro cedo e dedicava a manhã no parlatório a pôr em dia assuntos que vinham diariamente tratando por carta. Como ele tinha o costume de escrever artigos se antecipando ao cronograma dos jornais, para livrar-se do stress desta dívida, não faltavam assuntos a tratar com a filha e nisso ocupava o par de horas antes da chegada de minha avó para o almoço. Neste, dentro da realidade da dieta frugal das beneditinas, o que refletia seu orçamento apertado carne, só comiam uma vez por semana, não faltava um gesto de largueza das monjas, que acrescentavam às travessas um prato de doce. A tarde no parlatório, com os velhos instalados em cadeiras de balanço e a filha debaixo de seus panos pretos, sentada por detrás das grades a tarde ia-se enquanto os três repassavam a crônica familiar, como enxergavam a travessia de vida de cada um de seus descendentes, por cuja sorte invariavelmente interessavam-se. Quando às 6h da tarde os sinos do convento tocavam, chamando as 60 freiras para a capela onde diriam Vésperas, o casal embarcava num táxi para jantar lá em casa, no Jardim Paulistano. O carro largava-os na Pão Kent, esquina da Av. Europa com a Rua Iguatemi (hoje Faria Lima), talvez a primeira padaria incrementada à la padrão europeu da cidade, instalada em uns 500 metros quadrados de fartas vitrines,balcões com tampos de mármore e bons equipamentos para a época, como fatiadores de frios e máquinas de fazer sucos. Dali, atulhados de bisnagas de pão de qualidade (não disponível no Rio então) e barras de chocolate Sonksen, aquele da vaquinha, Alceu e Maria Tereza seguiam a pé três quarteirões, ele debaixo de indefectível boina, segurando embrulhos, uma pasta de couro e guarda-chuva. Aí pelas 7h da tarde chegavam lá em casa. Alceu investia pela sala adentro com seu andar rápido e decidido. Preparava-se para se instalar na poltrona junto à lareira, no que usaria a hora de sobra a ler os salmos. Estes são os 150 poemas líricos do Antigo Testamento, entre os salmos há hinos, súplicas e louvações. São louvações por prodígios realizados por Deus na natureza, súplicas com pedidos de socorro ou manifestações de confiança. Há ainda salmos de ação de graça por um bem qualquer conseguido. Vovô teria um intervalo descontraído, nele ruminaria o mistério que encontrava em cada dia e o faria a sorver uma dose de uísque em copo alto com gelo e água. Senti-me particularmente importante ao ser escalado seu barman. O neto já tramava cavar-lhe conversa, sem muita noção do valor para ele de uma oportunidade de contemplação e aterrissagem suave ao cabo dos compromissos cotidianos. Assim penetrei no mundo de sua infância e juventude, marcadas pelo eixo Rio/Paris, de que ele tinha relatos sedutores. Seu grupo social assimilara dos franceses o dom de prosear, das conversas de salão que até acabaram batizando um móvel próprio: causeuse, uma poltrona de dois lugares. Os relatos começavam de sua primeira viagem, com seis anos de idade, à Europa, em As estadias estendiam-se meses a fio e o menino foi inscrito num colégio em Paris. Mas o padrinho de Alceu, Antonio Marinhas, que acompanhara os Amoroso Lima na viagem, ao invés de entregar Alceu ao liceu, seguia com ele para lojas de brinquedos ou para passear no Jardim das Tolherias. Em outra das viagens à França, a bordo com eles iam famílias argentinas, que mantinham vacas no porão do navio de maneira a garantir-lhes leite fresco todas as manhãs. Nesse tempo, o transporte refrigerado de carne acabava de ser descoberto e a Argentina tornara-se o açougue da Inglaterra. Buenos Aires era capital da sexta economia do mundo. Outra temporada de Alceu na Europa levou 18 meses, e só terminou com o estouro da I Guerra. Em Paris ele enturmou-se com um grupo animado de portenhas, com quem manteve agenda social animada incluindo tardes dançantes no Majestic, um hotel sofisticado a duas quadras do Arco do Triunfo, onde o meteram no sexto andar sem elevador, junto às pombas, segundo ele contava. No Majestic aprendeu a dançar tango, ritmo argentino ainda visto mais próprio para cabarés pouco recomendáveis da zona do cais do porto em Buenos Aires. Pois vovô foi talvez o introdutor do tango nos salões elegantes do Rio de Janeiro. Tudo isso era pé de conversa para histórias que seduziam o neto. Pois eu curtia cada detalhe do relato, começando daquele castiço sotaque carioca, sem excesso de silvo nos s, mas com r s assertivos e de som que sabe bem ao ouvido. Nesta terceira ida à Europa da belle époque os Amoroso Lima encostaram na hecatombe universal, pois estavam em Paris quando as tropas alemãs já haviam superado a barreira supostamente indevassável da linha Maginot e avançavam na direção da capital francesa. Andou o tempo, ia eu lá com 19 anos de idade todo pimpão, certo de triunfar, afinal cursando faculdade cobiçada (FGV), saúde sobrando e na garagem um automóvel conversível. Foi também quando me surge uma crise existencial braba precipitada por um desgosto afetivo dilacerante, foi como se alguém retirasse a escada em que eu subira. Machucado, aproximei-me do convento beneditino nessa altura meu vizinho em SP, onde hoje funciona o Hotel Maksoud e está erguida uma dúzia de arranha-céus. Ali onde existia apenas a abadia, uma igreja e um parque espalhado em metros quadrados de terreno tocando na Rua Pamplona, vivia enclausurada a Tuca, Irmã. Maria Teresa Amoroso Lima, irmã de minha mãe. Visitar a Abadia de Santa Maria sempre foi programa atraente, as freiras têm uma enorme disposição de ouvir, produto escasso em nosso mundo superdotado de recursos eletrônicos de comunicação e nítido déficit de atenção. É uma gente de cotidiano fisicamente afastado do mundo, mas com prática de drenagem do próprio ego e hábitos contemplativos, então naturalmente atenta e hospitaleira. Era tudo o que eu procurava: acolhida. E ainda por cima Tuca tinha um temperamento delicioso, humor de plantão, era simples e prática, entusiasmada e interessada, sabia ouvir. As cartas do pai a mantinham bem informada, nele colhia uma influência arejada, na vanguarda do pensamento esclarecido. Aliás, falando nisso, sintomático foi um episódio com um amigo meu. Ele, muito boêmio, disse à abadessa que amaria escutar o canto gregoriano do Laudes, às 6:00 da manhã, mas tal horário de soldado não lhe convinha. Sabe o que Tuca propôs? Que ele emendasse a noite, que viesse diretamente dos bares. A sugestão soou blague, incorporou-se ao folclore familiar, mas a madre não pilheriava. Muitas tardes completas, durante vários meses seguidos, eu gastei nos parlatórios da abadia. À entrada a porteira entregava ao visitante um papelucho que este preenchia se identificando e indicando qual madre gostaria de encontrar. O bilhete era posto na roda, um armário giratório dando no outro lado para a clausura, de onde a freirinha a postos levava até a pessoa procurada. E tal era a alegria prelibada do encontro com minha tia que começamos a avançar fuzarcas nos bilhetes, eventualmente alguma coisa séria antecipando os assuntos do parlatório. Pois num desses papeizinhos volta uma anotação de Tuca sugerindo que eu escrevesse a vida do pai dela, para que os bisnetos soubessem quem ele foi. A ideia me soou estapafúrdia, como é que um aluno de português medíocre, despreparado em literatura e treinando para vender trator poderia retratar um autor de 80 livros, crítico literário consagrado, erudito membro da Academia Brasileira de Letras, que logo se tornaria seu decano?! A madre não insistiu, de caju em caju tocava de leve na ideia. Corta a cena, avança mais um lustro o calendário. Aos 29, morando no Rio, a Belacap, esta covardia da natureza que é o cenário de tirar o fôlego, passou a me cobrar algum registro. Era impressão demais para acumular nos sentidos, as imagens tendiam a criar umas poças de emoções, que sem serem expressas, não trabalhadas e não articuladas ficavam sem drenos para o espírito. Este empoçava, formava lagoas, bolhas. Ora, além do desperdício de energia elas me causavam insônias devastadoras e grandes ressacas. Foi também quando reencontrei o Padre Charbonneau, meu antigo professor de Lógica no colégio Santa Cruz, e mencionei a ele o projeto encalhado. Sua usual assertividade foi contundente: a tarefa urgia, o tema merecia registro, era-me o projeto fundante. Seria também minha escritoterapia. Quando no ano seguinte ele visitou a Chapada Diamantina Charbonneau ofereceu-me improvisar ali mesmo uma oficina preparatória. Fomos já naquela noite para a varanda da nossa casa na fazenda, onde o teólogo preparou um esboço da evolução das ideias do Iluminismo até o renouveau catholique noséc.xx, em seguida à I Guerra, antes de chegar ao Vaticano II. Nas anotações rascunhadas nasceram o mapa do meu projeto e da pesquisa. Comentei com o Charbonneau minhas dificuldades, meu medo da página em branco, meu despreparo. O padre canadense era extremamente prático, propôs que eu substituísse minhas hesitações por uma serie de entrevistas com gente que conhecera Alceu, que com ele travara relações intelectuais. Das entrevistas brotariam as chaves de leitura do pensamento de Tristão de Athayde. Podendo invocar parentesco com ele foi fácil conseguir entrevistas, logo eu me vi por exemplo no escritório de doutor Sobral Pinto, de Zuenir Ventura e mais outras 50 pessoas. Com Paulo Francis eu também estive, no apartamento em Nova Iorque em que ele morava nos anos 1970, embora depois de alguma insistência. Hoje olho para a empreitada intrigado. Constato a ação ao longo dela de uma força insistente e enérgica capaz de vencer minha indisciplina, minhas postergações e minha pequena escolaridade na matéria. Alceu é transparente no que escreve, tem muita didática, põe-se nos sapatos do interlocutor com a genuína e espontânea vocação de professor, sua parte flui bem. Mas foi preciso também ao menos mobralizar-me nas influências por ele recebidas e aí foram aparecendo os obstáculos. Ler Chesterton é instigante e especialmente divertido, mas digerir pensadores como Maritain e Mounier, ambos carregando o traço de um pensamento que trata menos de fatos e mais de conceitos abstratos, algo característico dos intelectuais franceses, é batalha morro acima. Essa força em contramaré os católicos chamariam de Espírito Santo. Ela se repete em Guimarães Rosa, em Grande Sertão quando o texto refere-se ao personagem Hermógenes, que nasceu formado tigre, e assassim!!! e que se pergunta Será que a vida socorre à gente certos avisos?. Este socorre alude ao sobrenatural. A mesma força aparece também em Homero, cuja Pala Atenas, da Odisseia, aguarda o viajante na estrada para protegê-lo de perigos, defendê-lo de salteadores e de tempestades. Afinal aos poucos, ao longo das entrevistas e leituras foram aparecendo as tais chaves de leitura. *** Mas vocês não vieram aqui pra saber das décadas de gestação de meu livro e sim conhecer Alceu Amoroso Lima um pouco mais. Penso que o melhor que eu teria a contar a vocês nasce da ideia de um dos meus entrevistados, Riolando Azzi. A ele o que mais impressiona na biografia de Alceu é a intensidade dos contrastes, as aparentes contradições, o choque de forças antagônicas e o equilíbrio que se forma entre elas. Esse equilíbrio não se dá pelo afrouxamento das forças, ambas continuam fortes, enérgicas, intensas. Vou apresentar esse traço o equilíbrio de antagonismos- em cinco instâncias ao longo da vida de Alceu, poderíamos falar de 50 outras. Infância Alceu foi educado a domicílio até os nove anos de idade. Era na Casa Azul, uma chácara verde no Cosme Velho, por onde corria a descoberto o Rio Carioca antes de desembocar na Praia do Flamengo. Alfabetização, matemática e noções básicas de botânica, geografia e economia eram dadas pelo professor Kopke, um refugiado alemão que vinha à casa dar aula ao menino. O método de ensino empregado destoava do padrão pedagógico daqueles tempos mais dados ao Ateneu, de Raul de Pompeia, feito de decorebas, do professor que pontificando despejava conhecimentos sobre o aluno submisso. Kopke levava o menino a passear pela chácara e quando encontravam uma planta ou pedra paravam para analisar suas características vegetais ou minerais. Também circulavam pelo bairro identificando sua topografia espetacular, a por lado a lado granitos colossais despencando sobre o oceano e matas floridas crescendo nos intervalos. Naquela pedagogia itinerante iam identificando fenômenos sociais, frequentadores daquelas calçadas, consistindo em mascates de vassouras, frangos e frutas, fulanos que giram a manivela do realejo em troca de meio tostão, todos esses personagens do cotidiano da capital da República. Música era outro item fundamental na formação de Alceu. Vinha à chácara dar-lhe aula particular de piano o cearense Alberto Nepomuceno, autor de peças melódicas eruditas que logo seriam influência importante em Villa Lobos. Caligrafia tentou o prof. Goldsmith ensinar ao menino, sem nenhum sucesso. Este outro refugiado alemão, que vinha ao Cosme Velho abraçado a desenhos de sua autoria na vã esperança de empurrar alguns sobre os pais dos alunos para reforço de suas finanças combalidas, tentava configurar o traço rebelde do garoto a um mínimo de estética, mas fracassou. A ponto daquela escrita irrequieta de Alceu, em estilo arame farpado seguido de rabiscos deselegantes, que ele próprio tinha dificuldade de entender, uns anos mais tarde ficou reduzida a uma única intérprete, Tuca e sua paciência beneditina. Com a morte dela, em 2012, tornaram-se órfãs e quase
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