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  Gestos de Leitura: uma análise discursiva sobre a língua dos índios kaingang do Oeste Paulista Maria Sueli Ribeiro da SILVA - UNESP/SJRP mssuribeiro@yahoo.com.br Resumo:  A presente pesquisa propõe um estudo sobre a língua dos índios kaingang no Oeste Paulista. Para a elaboração desse estudo, tomamos como base teórica e metodológica a Análise de Discurso de linha francesa, que trata da relação sujeito/língua/história, mostrando os diversos gestos de leitura e interpretação em relação à língua e à posição do sujeito índio kainganga nos discursos selecionados para esta análise. Palavras-Chave: gestos de leitura, análise de discurso, sujeito índio kaingang, urbano, língua kaingang,   1. Introdução A cidade é um resultado e também um pressuposto do desenvolvimento capitalista, já dizia Weber (1979 apud Orlandi, 2004). Ela se constitui ainda como um núcleo grande, denso e  permanente de indivíduos socialmente heterogêneos. Assim, observá-la, segundo Orlandi (2004), é procurar compreender as alterações que se dão na natureza humana e na ordem social. A presente pesquisa propõe um estudo discursivo sobre a língua dos índios kaingangs do oeste paulista, que residem no Posto Indígena de Icatu, localizado próximo ao município de Braúna, e de Vanuíre, próximo ao município de Arco-Íris, na região de Tupã, no Oeste Paulista. Para a elaboração desse estudo, tomamos como base de análise os procedimentos teóricos e metodológicos da Análise de Discurso de linha francesa. Com o intuito de refletir sobre alguns conceitos teóricos da Análise de Discurso e verificar a sua aplicação que, de acordo com Orlandi (2004), irá relacionar língua/sujeito/história, tornando-os analisáveis na textualidade do discurso, selecionamos três textos que retratam a história dos índios kaingang do oeste paulista e sua relação com o urbano, a partir da construção das estradas de ferro em seus territórios. Desta forma, por meio da Análise de Discurso de linha francesa, mostrar os gestos de interpretação em relação à língua e ao sujeito “índio kaingang” do oeste paulista. 2. A Análise de Discurso e a Cidade As bases da Análise de Discurso de linha francesa foram construídas por M. Pêcheux e  possuem fundamento na teoria de comunicação e na lingüística de R. Jakobson, em que a mensagem para ser transmitida depende de um emissor e um receptor, e na psicanálise de Freud;  para Pêcheux, o sentido não está somente no emissor e nem somente no receptor, mas na relação entre eles. Sobre o sujeito do discurso, o autor afirma que este possui alguns conceitos  psicanalíticos. Pêcheux (1990) formulou três exigências para ler, descrever e interpretar o discurso. A  primeira está relacionada aos gestos de descrição; para o autor, é importante descrever os elementos lingüísticos que serão considerados na interpretação do real da língua e, conseqüentemente, compreender os vários sentidos presentes no discurso. Sobre esta primeira exigência, Pêcheux (op. cit.) afirma: “(...) os objetos têm e não têm esta ou aquela propriedade, os acontecimentos têm e não têm lugar, segundo as construções discursivas nas quais se encontram inscritos os enunciados que sustentam esses objetos e acontecimentos.” (p.52) A segunda exigência apresentada pelo autor é a de que a língua está intrinsecamente exposta ao equívoco. Assim, todo enunciado é suscetível a outro, ou seja, pode ter o sentido deslocado para derivar um outro. E a seqüência de enunciados, descritível lingüisticamente, oferece lugar à interpretação, a qual é objeto da análise de discurso. A terceira exigência refere-se à questão da discursividade como estrutura ou como acontecimento. A concepção estrutural da discursividade não deve apagar o acontecimento, para que não haja uma sobreposição da interpretação, não ocorrendo uma reprodução do discurso, mas a sua interpretação em função de uma filiação sócio-histórica.   Pêcheux (1988), acerca da forma-sujeito do discurso, diz que o sentido de uma palavra ou expressão não existe em si mesmo, pois toda formação discursiva dissimula dependência em relação ao todo complexo dominante. Assim, o sujeito e o sentido se constituem ao mesmo tempo. O sujeito, quando produz um discurso, está se mostrando em termos de significação. Ao significar, ele se significa. Portanto, segundo o autor, somente há discurso, quando há sujeito, e somente há sujeito, quando há uma ideologia. Assim, na Análise de Discurso o sujeito não é somente de direito, mas ideológico. O autor apresenta ainda a importância do papel da memória no discurso. Pêcheux (1999) afirma que a memória tende a absorver o acontecimento que irrompe; para ele, não é  possível dissociar acontecimento e sentido, já que a memória é a união de um acontecimento e um sentido a que ele se associa. Assim, a memória discursiva corresponde a processos de enunciados que designam gestos de interpretação. Orlandi (2004) também afirma que o sujeito é afetado pela ideologia e constituído por gestos de interpretação. Para autora, a Análise de Discurso irá compreender como um objeto simbólico produz sentidos, e como este está investido de significância para e por sujeitos. As condições de produção são outro fator que constituem os discursos. Na relação de forças, Orlandi (1999, p.39) diz que “o lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz”. Portanto, os sentidos, para ela também, resultam de relações. Além disso, busca estabelecer uma forma de compreender a cidade pelo discurso, afirmando que o corpo dos sujeitos e o corpo da cidade são um só, e que observar a cidade é compreender as alterações tanto na natureza humana como na ordem social. Orlandi (2004) mostra que o discurso urbano silencia o real da cidade, sobrepondo-se a esta. Sobre a questão da ordem e da organização do discurso urbano a serem seguidos, gerando uma verticalização (hierarquização) do espaço social, a autora retrata o sujeito considerado “socius” (o aliado) aquele que está dentro da organização urbana, e o sujeito dito “hostis” (o inimigo) aquele que ficou de fora dessa. Em relação ao discurso sobre a língua, Pêcheux (1990) afirma que é importante descrever os elementos lingüísticos que serão considerados na interpretação do real da língua e, conseqüentemente, compreender os vários sentidos presentes no discurso. Com base nestes conceitos teóricos, apresentamos os gestos de leitura sobre a língua e os kaingang paulistas nos textos selecionados para este estudo. 3. Os índios kaingang do Oeste Paulista De acordo com D´Angelis (2006), os kaingang pertencem à família lingüística Jê, sendo um dos cinco povos indígenas mais populosos no Brasil. Suas aldeias encontram-se espalhadas  pelo sul e sudeste do Brasil, sendo, hoje, em território nacional, uma população com 28.830 índios. A área indígena com maior concentração de kaingang é Guarita, no Rio Grande do Sul, com 6.100 indígenas. Já a de menor concentração fica em Icatu, no oeste de São Paulo, próxima à Braúna, com apenas 15 indígenas.  Nos séculos XVII e XVIII, o interesse político e econômico fez com que os portugueses adentrassem o território dos kaingang, na região sul, iniciando a catequese e o aldeamento desses povos. Após passar por muitas lutas e massacres, os kaingang do sul foram “pacificados”  pelo dominador português e confinados em reservas. Os que ainda não haviam se submetido ao domínio, vieram para o Estado de São Paulo, próximos à região do Tietê e seus afluentes. Em São Paulo, os kaingang tiveram novamente suas terras invadidas pelos cafeicultores; assim, passaram a fazer resistência à tomada de seu território e à construção da Ferrovia São Paulo - Mato Grosso. Como respostas, vieram os bugreiros , exterminadores de índios pagos  pelos construtores da ferrovia. Com tantos confrontos e massacres, que dizimavam a população, em 1910, foi criado o Serviço de Proteção aos Índios – SPI - que, segundo Manizer (2006), veio colaborar também com a “pacificação” dos kaingang. Em 1912, um grupo do SPI estabeleceu os primeiros contatos amistosos com os kaingang de São Paulo. Esse contato com o branco, segundo D´Angelis (2006), trouxe a depopulação vertiginosa, em virtude de doenças como a gripe. Além disso, a vinda do dominador branco fez com que sofressem o confinamento em áreas de terra  reduzidíssimas, no qual foram introduzidos membros de outras etnias em seu povo, provocando uniões interétnicas, o que dificultou a transmissão de sua cultura e, também, de sua língua. Conforme Pinheiro (1992), atualmente os kaingang do oeste paulista residem em postos indígenas. Um deles é denominado Vanuíre e está próximo à cidade de Arco-Íris. O outro se denomina Icatu, sendo vizinho da cidade de Braúna. Outra cidade que exerce importante papel e influência sobre estes postos é Tupã, onde há a Diretoria de Ensino da Região e o museu Índia Vanuíre. O fundador, Luís de Souza Leão, que anteriormente havia perseguido estes indígenas, doou parte de suas terras para ser montado este museu, a fim de retratar a história desse povo e de outros grupos indígenas no Brasil. Existem muitas publicações, como livros, relatórios, dissertações, entre outros, que apresentam a história dos índios kaingang do oeste paulista, em que se manifestam interdiscursos. No entanto, para análise desse trabalho, tomamos para análise somente três textos que se referem à história deste grupo indígena, como veremos a seguir. 4. Descrição, interpretação e compreensão do sujeito “índio kaingang” no espaço urbano Por meio de conceitos e procedimentos da Análise de Discurso, elaboramos a análise de três textos que apresentam a história e o processo de pacificação dos kaingang no oeste paulista, com a construção da ferrovia e a criação de cidades em territórios, outrora pertencentes a este grupo indígena. Com esta análise, mostramos que há formações discursivas que contribuem à significação da língua e do sujeito kaingang, explicitando os sentidos de sujeito “índio kaingang” do oeste paulista, inseridos nestes textos, além de compreendermos como este sujeito significa e é significado no espaço urbano, advindo desse processo de pacificação. Os três textos escolhidos para esta análise foram retirados das seguintes obras: A) Livro: “A pacificação dos gaingangs paulistas” – L.B. Horta Barboza (1918); B) Dissertação: “Etnohistória Kaingang e seu contexto” – N.S. Pinheiro (1992); C) Cartilha: “Uma história Kaingang de São Paulo” – A. V. Macedo (Org.) (2001). A escolha de tais obras se deu em virtude de cada uma apresenta um discurso diferente quanto à trajetória dos kaingang do Oeste Paulista, mostrando a relação sujeito/ história/ língua de forma peculiar e possibilitando gestos de interpretação sobre esses povos indígenas no espaço urbano, de acordo com a época histórica em que foi escrito. Análise Texto A Este primeiro texto mostrou uma escrita arcaica da língua portuguesa, mas apropriada  para a época (1918), diferenciando-se da escrita atual de nossa língua materna. A própria denominação desse grupo indígena é transcrita de forma diferente. Neste contexto histórico, os  gaingangs paulistas , notamos que há na denominação desses indígenas o uso da letra “g” ao invés da letra “k” e, ainda, a marca do morfema de plural (s). Já, na escrita atual de sua denominação, o morfema plural não aparece. Na primeira grafia, a denominação  gaingangs   parece funcionar como um substantivo simples, um nome comum. Enquanto na segunda, a denominação kaingang funciona como um nome próprio, que não faz concordância, portanto, não necessita de morfema plural. Desta forma, a denominação  gaingangs , neste texto, provoca um efeito de sentido revelado em sua pronúncia e escrita, em que esse povo, naquele momento histórico, parece não receber denominações próprias, mas comuns, dada a sua condição de submissão em relação ao homem branco. Esta denominação corresponde a um significante, que sofre alteração, gerando também uma mudança na identidade desse povo. Há, ainda, um deslocamento de sentidos, dado pelo discurso fundador presente neste texto, em que a construção da estrada de ferro, fonte simbólica da chegada do urbano, não é apresentada como algo hostil aos índios, mas algo que sofre hostilidade, pois sua construção  passa a ser difficultada pelas disposições hostis com que os moradores da região (...) recebiam os empregados . Assim, conforme aborda Orlandi (2004), dentro do espaço urbano é “hostis” o que está fora da organização urbana, e “socius”, aquele que está dentro dessa organização. O sentido de “hostis” a este povo, neste texto, é demonstrado por meio de um adjetivo ( temidos ), que reflete uma estrutura sintática com um sentido carregado, gerando um certo eufemismo (exagero) em torno do sujeito: temidos Gaingangs . O sentido de sujeito “socius” é mostrado   pelo discurso político e militar presente no texto, que aponta para o sentido de ordem e organização daquele espaço, sendo mostrado na figura do trabalhadores da estrada, os tenentes e os empregados do serviço de proteção aos índios , que trabalhavam em prol da construção da estrada de ferro e sofriam os assaltos desses indígenas. Os sentidos presentes neste texto também são baseados no dito do homem branco, dominador do espaço indígena e aqui dado como o organizador do espaço urbano, que, por meio do discurso jurídico apontado pelo SPI – Serviço de Proteção ao Índio, fundado em 1910, diz promover a paz e ordem nesse espaço e entre esse povo. No entanto, não é dito o que faziam os bugreiros  (sujeito que, segundo este texto 1, é visto como  socius  nesse espaço) com os hostis    gaingangs  apresentando-se uma contradição no interdiscurso. Apesar do discurso político e fundador, apontar um sentido para os  gaingangs , como sendo um sujeito hostil, diante da nova ordem e organização do espaço, o interdiscurso revela uma outra interpretação e sentido: os  gaingangs  eram sujeitos  socius naquele espaço, antes da chegada da ferrovia e dos bugreiros. Estes, na verdade, perseguiam e hostilizavam os índios que se mostrassem contrários aos seus interesses políticos e econômicos, relacionados à estrada de ferro. Assim, a memória discursiva revela-nos que, de fato, o sujeito hostis não eram os os  gaingangs , mas quem os perseguiu e interditou seu espaço. Para ser lido e se reproduzir o sentido de que, nesse processo histórico, os  gaingangs  eram os hostis que impediam o progresso e a organização urbana. Estes se apresentam silenciados, tendo sua língua também silenciada, em virtude do predomínio da língua do dominador branco. Análise Texto B  Notamos um discurso acadêmico que revela a tensão entre os dominados ( índios kaingang  ) e os dominadores (homem branco), em função da transformação do espaço, devido a interesses político-econômicos da capital da província (espaço urbano). É apresentado um  breve relato histórico de como os índios kaingang   significavam em seu território: “o interesse dos kaingang não recaía apenas na obtenção de roupas, comida e ferramentas, mas também de autonomia sobre seus territórios.”  O sujeito  “índio kaingang” é interpretado, aqui, na posição de defensor de seu território, pois ele é parte desse espaço e se possui um significado a partir deste.  Não é apresentado, neste discurso, um sujeito hostis ou socius  em contradição, mas são revelados gestos de interpretação que mostram as diferentes posições do sujeito, a partir do que é enunciado em relação à cidade (a província). Os índios kaingang  , neste texto, ocupam uma  posição de sujeito defensor de sua terra; já o homem branco (dominador) aparece na posição de sujeito defensor do progresso urbano, da continuidade do desenvolvimento da província. Está  presente também o discurso administrativo, relacionado à ordem e à organização do espaço, na voz do presidente da província: “a conservação e o planejamento das estradas estavam entre os mais importantes deveres da administração” . Diferente da interpretação apontada pelo discurso administrativo, o discurso acadêmico faz uso de polissemia para mostrar o jogo de forças  presentes no discurso urbano que envolve a construção das ferrovias : “percebemos o duplo  papel das aberturas de estradas: unificadoras dos povoados e dos moradores dispersos e devastadoras das organizações sócio-espaciais indígenas, ou seja, condutoras do “progresso” e da guerra”.   Nesse texto, estão presentes outras denominações referentes aos kaingang   e ao homem branco  (dominador): a denominação kaingang refere-se a um nome, e não a um substantivo simples, como mostrado no texto A. Assim, o fato de constituir um nome próprio revela a conquista de sua identidade como povo, sendo dito interesse dos kaingang   e o fato dos  Kaingang (este último grafado até em letra maiúscula). A palavra bugreiro funciona como adjetivo, acompanhando o substantivo  fazendeiro , para referir-se ao sintagma nominal  fazendeiro bugreiro . Os kaingang   têm o sentido de sujeito  socius , que significa no novo espaço estabelecido pelos homens brancos. Diferente do texto A, o sujeito “ índio kaingang” , nesse texto, é interpretado como sujeito  socius  desse espaço modificado, significando ao lado do homem branco. Análise Texto C
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