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Prudente, r. c. a. c.; Ribeiro, m. a. c. Psicanálise e Ciência

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   Psicanálise eCiência Psychoanalysis and Science       A    r     t      i    g    o PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (1), 58-69 58 Regina Coeli AguiarCastelo Prudente & Maria Anita Carneiro Ribeiro Centro de Ensino Superiorde Juiz de Fora-MG  PSICOLOGIA CIÊNCIA EPROFISSÃO, 2005, 25 (1), 58-69 Resumo: Embora Freud tenha sido um cientista, formado no espíritocientífico de sua época, as relações da psicanálise com a ciêncianunca foram fáceis. Desde o “Projeto”, de 1895, até seus últimostextos, Freud nunca abandonou seu propósito de fazer com que apsicanálise fosse reconhecida como ciência. Jacques Lacan, a partirde sua teoria dos discursos, afirma que a psicanálise é um novocampo do saber que mantém conexões com o campo de saber daciência, mas com ele se confunde. O sujeito da psicanálise é o mesmosujeito da ciência - o sujeito do desejo - mas Freud subverte o cogitocartesiano ao descobrir o inconsciente. Palavras-chave: : psicanálise, ciência, saber.  Abstract:  Although Freud has been srcinally a scientist, formed onthe scientifical spirit of his age, relationship between psychoanalysisand science has never been an easy matter. Since his “Project”, from1985, to his last texts, Freud has never left down his purpose to havepsychoanalysis accepted as a legitimate science. Jacques Lacan,starting from his own theory of the discourse, confirmedpsychoanalysis as a new field of knowledge which has someconnections with the scientifical field of knowledge, but cannot bemixed up with it. The subject of psychoanalysis is the same as of science - the subject of the desire - but Freud, with his discovery of the unconscious mind, brings a subversion to the cogito of RenéDescartes. Key-words :psychoanalysis, science, knowledge. Com Freud “Nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seriaimaginar que aquilo que a ciência não nosdá podemos conseguir em outro lugar”(Freud, [1927] 1974, v. XIX).Nosso objetivo, na abordagem sobre aquestão da psicanálise e da ciência, éverificar como a psicanálise conquista paraa ciência um novo continente - o dopsiquismo inconsciente - e como esseinconsciente, erigido como objeto, não eranada de que a ciência do tempo de Freudpudesse dar conta e, muito menos, a eleconferir legitimidade científica.Partiremos do conceito de “ciência normal”,tal como Thomas S. Kuhn a descreve, o quevem a significar “a pesquisa firmementebaseada em uma ou mais realizaçõescientíficas passadas expostas e relatadas emmanuais científicos elementares ouavançados” (1970, p. 101). Esses manuais elivros tornaram-se bastante populares nocomeço do século XIX. Entre eles, podemos 59 “Nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seriaimaginar queaquilo que aciência não nosdá podemosconseguir emoutro lugar”   históricas, pois se define muito mais por seruma ciência exegética, hermenêutica ouinterpretativa”, de acordo com Japiassu(1989, p. 28). A formação intelectual de Freud dar-se-ánuma atmosfera positivista e cientificistatípicas do século XIX. O espírito positivo,testemunhado pelo impulso que toma ahistória natural do homem em detrimentoda condição que conferia uma visãoteológica do mundo, se afirmava. Além domais, no século XIX, a crença noconhecimento científico como o supremopoder resolutivo dos males do mundo -“crença que Freud guardou por toda a vida -estava principiando a deslocar as esperançasque se haviam erguido a favor da religião,da ação política e da filosofia,alternativamente. Freud estava altamenteimbuído de tudo isto” (Jones, 1961, p. 121).Ernst Jones nos aponta que o conflito entreentregar-se irrestritamente ao exercício dopensamento e ao jogo da fantasia ànecessidade de submeter-se a uma disciplinacientífica terminou em uma “inequívocavitória desta última” (ibid., p. 122).Freud jamais abriu mão de seu projeto detornar a psicanálise uma ciência. Em umapequena nota sua, datada de 1920, “Umanota sobre a pré-história da técnica deanálise” (Freud, 1976, v. XVIII), faz umaincisiva réplica às críticas de Havelock Ellis,pesquisador da ciência sexual e crítico dapsicanálise, que, em um ensaio de 1919(“The philosophy of conflict to sex”), incluium artigo cujo objetivo é demonstrar que osescritos do fundador da análise não devemser julgados como uma peça de trabalhoexemplificar: o “Princípio e a óptica”, deNewton, a “Eletricidade”, de Franklin, e a“Química”, de Lavoisier, entre outros, queserviram, por um longo tempo, para definirimplicitamente os problemas e os métodoslegítimos de um campo de pesquisa parauma geração de praticantes da ciência. Ainda, para melhor esclarecer seu conceitode “ciência normal”, Thomas Kuhn irá lançarmão de exemplos aceitos na práticacientífica, que incluem, ao mesmo tempo,lei, teoria, aplicação e instrumentação,gerando modelos dos quais brotaram astradições coerentes e específicas ‘da’pesquisa científica, tais como a “AstronomiaCopernicana” e a “Dinâmica Aristotélica” ou“Newtoniana”, entre outros modelos ouparadigmas muitas vezes bem maisespecializados. Apresentaremos, neste estudo, a psicanálisecomo promotora de uma revoluçãocientífica que terá início no momento emque “o paradigma existente deixou defuncionar adequadamente” (Kuhn, 1970, p.126). Ao promover um corte paradigmáticoatravés de seus conceitos, a psicanálise geraum complicador, na medida em que seuspressupostos anunciam que essa ciência seocupa, sobretudo, da subjetividade numtempo em que a exigência era a de se atingirum conhecimento objetivo e generalista. A experiência do sujeito, sua história, nãosão dados que poderiam fornecer umcritério suficiente de credibilidade elegitimidade científicas, cabendo àpsicanálise uma definição muito maispróxima às ciências “semiológicas ou PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2005, 25 (1), 57-68 Psicanálise e Ciência 60  científico, mas, sim, como uma produçãoartística. Freud considera a apreciação de H.Ellis como resistência e repúdio à análise,“ainda que se ache disfarçada sob formaamistosa e, na verdade, lisonjeante demais”(Freud, 1976, v. XVII, p. 315).Freud inicia esse trabalho afirmando suadisposição de enfrentar tais afirmações coma mais decidida oposição e o finalizaapontando a importância da leitura de Ludwig Börne, autor que lhe fora apresentadoquando, aos quatorze anos de idade, foipresenteado com suas obras completas; Freudafirma que Börne foi o primeiro autor cujosescritos o afetaram profundamente e queficara espantado em se encontraremexpressas, em seu conselho a um escritorsrcinal, algumas opiniões que ele própriosempre prezara.Uma covardia vergonhosa com relação aopensar nos retém a todos: a censura dogoverno é menos opressiva que a censuraexercida pela opinião pública sobre nossasproduções intelectuais. Não é a falta deintelecto, mas de caráter que impede amaioria dos escritores de serem melhores quesão (Börne apud Freud, [1920] 1976, v. XVII,p. 317). Às críticas de seu tempo em relação a seuanseio de ser homem da ciência, Freud reagiucom vigor. Em seu manuscrito de 1895,«Projeto para uma Psicologia Científica», jáno primeiro parágrafo, apresenta suaintenção: «a finalidade deste projeto éestruturar uma psicologia que seja umaciência natural, isto é, representar os processospsíquicos como processos quantitativamentedeterminados de partículas materiaisespecíficas» (Freud, [1895] 1976, v. I, p. 403). A primeira grande Revolução promovida pelapsicanálise ocorrerá a partir da descobertada motivação inconsciente nas açõeshumanas e da sexualidade infantil. Por essasduas vias, um corte é proposto e lançadoatravés de um conjunto de questões que,além de sustentarem toda a pesquisapsicanalítica, irão fornecer-lhe material erecurso teórico extraídos da escuta clínica.No ano de 1874, o médico Moritz Benedikt apresentou sua idéia a propósito do que seriaa discussão entre a experiência direta e afundamentação científica no capítulo dirigidoao método sobre o tratamento da histeria. As ciências clínicas têm peculiaridades vis-à-vis das ciências naturais; elas têm deocupar-se da prática enquanto base para oentendimento teórico da mesma, a saber,sobretudo a anatomia e a fisiologia aindaacusam lacunas enormes. A essência doclínico precisa ser outra que não opesquisador das ciências da natureza, maisexatas (apud Lorenzer, 1984, p. 71). A observação de Benedikt, anos antes deFreud surgir como autor, antecipa uma dasgrandes questões da psicanálise: a clínica daescuta, que, “rompendo com aquela do olhar,incessantemente invocada por seu empirismo,a modéstia de sua atenção e o cuidado comque permite que as coisas silenciosamente seapresentem ao olhar, sem perturbá-Ia comdiscurso” (Foucault, 1998, p. 4). A invenção da escuta do inconscienteproposta pela psicanálise rompe com aMedicina da época, que propunha umacorrespondência exata do “corpo” da doençacom o corpo do homem doente. Era esse omodelo da Medicina que vigorava no século Regina Coeli Aguiar Castelo Prudente & Maria Anita Carneiro Ribeiro 61  A essência doclínico precisa ser outra que não o pesquisador dasciências da natureza, maisexatas PSICOLOGIA CIÊNCIA EPROFISSÃO, 2005, 25 (1), 58-69
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