Documents

A Actualidade Da Crítica Vicentina

Description
A Actualidade da Crítica Vicentina No seu tempo, o brilhante dramaturgo criticava o fidalgo, o sapateiro, o onzeneiro, a alcoviteira, o frade, o judeu, o corregedor e o procurador. E se Gil Vicente vivesse no nosso tempo? Quem preenche os requisitos para se tornar na versão moderna destas personagens quinhentistas? Desde os políticos até às redes de prostituição, candidatos não faltam. As luzes da sala apagam-se. Esta cai numa escuridão suave e as cortinas do palco abrem-se de par em par. Lá est
Categories
Published
of 3
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  A Actualidade da Crítica Vicentina No seu tempo, o brilhante dramaturgo criticava o fidalgo, o sapateiro, o onzeneiro, a alcoviteira, o frade,o judeu, o corregedor e o procurador. E se Gil Vicente vivesse no nosso tempo? Quem preenche os requisitospara se tornar na verso moderna destas personagens quinhentistas? !esde os pol ticos at# $s redes deprostitui%o, candidatos no faltam. As luzes da sala apagam-se. Esta cai numa escuridão suave e as cortinas do palco abrem-se de par em par. Láestão as barcas, o Anjo e o Diabo: o Auto da Barca do n!erno vai come ar.#eis s$culos se passaram desde %ue &il 'icente levou ( cena este mesmo auto. )a%uele tempo, as v*timas dassuas cr*ticas !oram o orgul+oso !idalgo, os corruptos onzeneiro e sapateiro, o mul+erengo !rade, a materialista edesencamin+adora alcoviteira, o corruptor judeu e os subornáveis corregedor e procurador. Agora, passadas a revolu ão industrial, a revolu ão !rancesa e as duas grandes guerras, ou seja, depois de tantasmudan as no mundo, %uem diria %ue tantas das cr*ticas %ue na%uela altura se !aziam permanecem actuaisA sociedade portuguesa do s$culo  não parece ter mudado muito: a%ui e ali ouvem-se casos de corrup ão esubornos /basta !alar-se em Apito Dourado e caso 0elgueiras, e logo nos saltam ( mem1ria dezenas de e2emplossemel+antes3, trá!ico de in!lu4ncias, materialismo obsessivo, entre muitos outros. &E tu viveste a teu prazer cuidando c' guarecer porque rezam l' por ti?( Acusado de ter pecado en%uanto vivo, e conse%uentemente estar destinado ao in!erno, o 0idalgo reageincredulamente, não aceita a realidade, procura a todo o custo uma solu ão para os seus problemas. 'olta-se para a barca do 5ara*so e e2ige embarcar por ser 60idalgo de #olar7. 8 momento $ intenso. 8 anjo recusa, sem demora,acusando-o de ser tirano e cruel para com os de menor condi ão social 6desprezastes os pe%uenos9 ac+ar-vos-eistanto menos9%uanto mais !ostes !umoso7. A cr*tica parece !amiliar embora não mais +aja 0idalgos em 5ortugal. m sen+or na !ila de trás murmura 6#e em vez de um 0idalgo pusessem ali um ministro não destoava nada7; um !acto. A educa ão, a justi a, a sa<de, a seguran a, o bem-estar, o e%uil*brio ambiental %ue se dizemgratuitas apenas o são teoricamente, os impostos aumentam sempre %ue poss*vel, os portugueses vivem cada vez pior= >as ol+a-se para meia d<zia de privilegiados= e a situa ão $ totalmente oposta E por%u4 5or%ue as leis,%ue se dizem para todos, a!inal, parece s1 se aplicarem a alguns. Assim, considerando %ue +á ministros e outros pol*ticos %ue, nas !$rias, partem para o estrangeiro depois de dizerem %ue o pa*s está em crise e consentem em leis%ue bene!iciam os de maior condi ão social mas prejudicam o comum dos portugueses, parece ser acertado a!irmar %ue a versão moderna do 0idalgo seria o #en+or >inistro /e2pressão suprema dos 6ilustres e superiores7 pol*ticos3.E não $ %ue, no momento oportuno para levar a cabo certo projecto /e !az4-lo bem !eito3, nunca +á recursos,nem vontade, e2cepto %uando se trata de remediar o %ue já come ou mal, para %ue os responsáveis possam sair menos mal vistos A* os ?nimos e2altam-se, as vontades congregam-se e os recursos aparecem. @ontudo, nosentremeios, cometeram-se erros desnecessários e muitos !oram lesados.   &)u roubaste, bem trinta annos, o povo, com teu mister.( Depois do 0idalgo, c+egam o #apateiro e o 8nzeneiro. A estas personagens estão associadas a corrup ão!inanceira e a !alta de $tica comercial. orna-se, por isso, di!*cil associá-las a um grupo social ou pro!issionalespec*!ico: tais 6pecados7 acontecem em tantas situa Ces A sociedade portuguesa está c+eia de e2emplos desitua Ces semel+antes ( do #apateiro e ( do 8nzeneiro. uem não ouviu !alar de comerciantes %ue enganam osclientes /não s1 nos pesos e nas medidas, mas tamb$m no pre os convenientemente arredondados em unidadesm<ltiplas ou in!lacionados de !orma a posteriormente permitirem 6descontos7 de F, GF, HF ou mais I - sem %ue o produto c+egue ao pre o de custo E o caso das comissCes bancárias e dos arredondamentos das ta2as de jurosodos sabemos %ue rendem largos mil+Ces aos bancos, sempre proclamando-se como servidores p<blicos e protectores dos necessitados. al e %ual como o #apateiro. uem não ouviu !alar de !iguras pol*ticas %ue, c+egadasao poder, !azem os poss*veis para 6enc+er os bolsos7 ; %ue servindo os outros, 6servem-se a si pr1prios7 %uandoc+ega o momento da retribui ão dos !avores, como no !amoso caso do saco azul. E lá diz o Anjo “Essa barca quelá está, [Barca do Inferno] leva quem rouba de praça” &Eu sou *r sida, a preciosa +- a que criava as meninas para os c/negos da 0#( ; a cena da Br*sida 'az, a alcoviteira, dona de um bordel. A liga ão desta personagem ( actualidade $ evidente.5ode-se come ar pela rela ão ( prostitui ão, tão criticada no Auto da Barca do n!erno /especialmente a prostitui ão 6de lu2o73 %ue ainda +oje se pratica, sendo um 6neg1cio7 muito 6rentável7. >as &il 'icente, com aalcoviteira, não se !ica por a*: da sua obra pode-se tamb$m e2trair uma cr*tica ( manipula ão da verdade. DizBr*sida 'az 6#anta Jrsula não converteu9 tantas cac+opas comKeu9 todas salvas pollo meu9 %ue nen+ua se perdeo78bviamente manipulando os !actos, ela tenta convencer o Anjo %ue levar raparigas a prostituir-se $ uma obra santa.ranspondo para a actualidade, %uase se pode comparar Br*sida 'az aos media. )ão %ue eles de!endam omesmo %ue ela, mas a sua atitude $ semel+ante. uantas vezes não se acusou já a televisão, os jornais ou as revistasde distorcerem os !actos, levando as pessoas a acreditarem numa coisa %ue, na realidade não era bem assim 5or !im, pode-se destacar uma terceira cr*tica %ue, nos dias de +oje, tem ainda mais peso: a cr*tica aomaterialismo obsessivo e (s !alsas apar4ncias. Br*sida traz, com ela, para a cena, 6#eiscentos virgos posti os9 e tr4sarcas de !eti os9 %ue nam podem mais levar.7 #em comentários.  &Eu mu1 bem me confessei mas tudo quanto roube1 encobri ao confessor( Desta vez tem-se o corregedor e o procurador em cena, a representa ão da Musti a em 5ortugal. Nepresenta ão%ue, de positiva, pouco tem. De !acto, a justi a $ retratada como sendo corrupta e obscura. Ainda +oje, oemaran+ado legal $ de tal !orma comple2o %ue apenas %uem l+e con+ece os meandros a pode usar para obter  justi a. Em %uantos casos a v*tima inocente não pode !azer prova da sua boa !$, nem dirigir-se directamente aotribunal, por%ue a lei l+e impCe tantas e2ig4ncias %ue s1 com recurso a um mediador /um advogado3 pode tentar dizer de sua justi a E todos con+ecem o 6pre o7 da justi a=amb$m são se pode es%uecer %ue, muitas vezes, a justi a acaba por !avorecer, não o inocente, mas a%uele %uetem din+eiro para pagar a /e%uipas de3 juristas para descobrirem nas teias da Lei os preceitos mais !avoráveis ou osvazios legais ou como, de estrat$gia em estrat$gia ou de recurso em recurso, delongar a conclusão dos processos.  O  2 0ociedade Vicentina e a 0ociedade 2ctual >uito ainda +avia a dizer nesta compara ão entre a sociedade vicentina e a sociedade actual. 0icam de parte ascr*ticas ao mul+erengo 0rade, ao discriminado Mudeu /%ue nem na barca do n!erno o %uiseram levar3 e ao iludidoEn!orcado.Depois de tudo isto, não restam d<vidas: apesar da dist?ncia temporal %ue nos separa, a sociedade portuguesanão evoluiu signi!icativamente. E por%ue será#erá %ue, a partir dos descobrimentos /$poca áurea de 5ortugal, na %ual este !oi, indubitavelmente, um dosmaiores pa*ses do mundo3 nos ten+amos acomodado e, em vez de ver passar navios c+eios de ouro e ri%uezas /!rutodo saber, das t$cnicas e do es!or o dos portugueses3, ten+amos !icado a ver passar os navios dos outros pa*ses /maisrápidos e desenvolvidos3 alvez. 8 certo $ %ue ainda podemos ser criticados como +á PFF anos atrás. alvez ten+a c+egado o tempo de mudar. Teknocrazy  +ttp:99autodoin!ernoQtR.blogs.sapo.pt9GS.+tml 

Marcas Do Perdão

Aug 17, 2017
Search
Similar documents
View more...
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks