Brochures

A Anatomia do Corset (The Anatomy of the Corset)

Description
Resumo: Este trabalho propõe, a partir da obra de Landowski, um estudo preliminar dos diferentes usos do corset, partindo da análise do nome da peça – que traz em si seu uso pressuposto – seguindo para sua plástica – ou sua anatomia –, e, a partir
Categories
Published
of 13
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  IV Seminário Moda Documenta. I Congresso Internacional de Memória, Design e Moda. São Paulo, 2014. A Anatomia do CorsetThe Anatomy of the Corset Marília Hernandes Jardim (Pontifícia Universidade de São Paulo) Resumo:  Este trabalho propõe, a partir da obra de Landowski, um estudo preliminar dos diferentes usos do corset, partindo da análise do nome da peça – que traz em si seu uso pressuposto – seguindo para sua plástica – ou sua anatomia –, e, a partir dela, busca-se entender os diferentes graus de objetivação e subjetivação do corpo, dados por cada forma de interação entre corpo e corset. Palavras-chave:  corset; sociossemiótica; uso e prática. Abstract:  The article intents, through Landowski’s work, a preliminary study of the different uses of the corset. Starting on the analysis of the name of the garment – which evokes its presupposed uses – and its plastic ensemble – or the anatomy –, allowing the observation of the many degrees of objectivation or subjectivation permitted by each form of interaction between body and corset. Key-words:  corset; socio-semiotics; use and practice. Introdução  Ao longo dos anos, o estudo da Moda no Ocidente perpassou sobretudo questões de cunho histórico, e neste sentido, inúmeros estudos podem ser consultados e já oferecem uma importante fonte de pesquisa para os estudantes e pesquisadores da área. No entando, carecemos de estudos de natureza mais analítica, sobretudo no que toca a questão do uso do corset  : é deste outro olhar, embasado na teoria semiótica de Greimas e de Floch, bem como na teoria dos regimes de interação e de sentido de Landowski, que este trabalho busca dar conta. A partir da abordagem semiótica de um objeto, novas questões podem ser levantadas e discussões mais aprofundadas fazem-se possíveis, contemplando aspectos ainda pouco explorados na pesquisa acerca da Moda do Ocidente. Este trabalho propõe uma espécie de preâmbulo desta forma de olhar o traje, a partir de um primeiro olhar semiótico para o uso do corset. corset  n. m. I  anciennt Gaine baleinée serrant la taille et le ventre des femmes. 1 corset  n. a tightly fitting garment worn under the outer garments to shape the body, or to support it in case of injury. 2 1   Le Robert de Poche 2009. 2   Oxford Advanced Learner’s Dictionary.   A palavra corset  , proveniente do inglês (‘k !" s # t) e do francês (k !$ s % ) em forma escrita idêntica, espalhou-se por toda a Europa em variáveis semelhantes – corsé , no espanhol, corsetto , no italiano, korsett  , em alemão – e no português, o termo “espartilho” – adotado por uma particularidade matérica da peça, como confeccionada em Portugal, com folhas de esparto – foi substituído, a partir da década de 1990, pelo termo anglo-francês. Mas o que significa “ corset  ”? Para os franceses, uma espécie de “cinto” que “refecha” o tronco e a cintura das mulheres , confeccionado com barbatanas de baleia – “ baleinée ” –, material tradicional empregado até o século XIX (LYNN, 2010). Já os ingleses destacam que tal vestimenta deve ser utilizada por dentro da roupa, que seu ajuste deve ser apertado – “ tightly fitting  ” –, que ele deve moldar o corpo, provendo suporte.Já nestas duas definições é destacada uma distinção: enquanto a definição do Le Robert frisa a importância da matéria, o Oxford se foca na função, na necessidade de constrição proporcionada pela peça. A definição francesa, portanto, repousa sobre o que o corset é ; a definição inglesa, sobre o que o corset faz  . Este segundo aspecto será abordado por Landowski (2009) como nom d’usage , o nome de uso que geralmente coincide com o nome do objeto, e que tem o poder de evocar o conjunto de funções e de usos atribuídos a ele (LANDOWSKI, 2009). Mais do que aprofundarmo-nos na análise dos diversos aspectos da palavra, tal como o faria Hjelmslev (Cf. 2000), esta exploração inicial busca  justificar o uso do vocábulo anglo-francês no lugar do termo disponível no português, espartilho. Nos interessa abordar aqui, a função pressuposta desta peça, mais do que sua particularidade matérica e, a posteriori  , a possibilidade de uma distinção entre o uso  do corset e a sua  prática .Para Landowski, o sentido de um objeto emerge de seu uso (LANDOWSKI, 2009). Desta forma, é inútil estudar apenas o aspecto do corset enquanto objeto-coisa, sem tocar no uso  que é feito desta peça. Dentro desta lógica, é através do vestir   o corset que sua função se realiza: é somente através do corpo que veste a peça que o sentido deste objeto pode ser atualizado (GREIMAS & COURTÉS, 2012). Seu nom d’usage , portanto, não possui sentido na peça guardada em uma caixa ou pendurada em um cabide. Isto toca de forma expressiva na questão museológica concernente à peça: geralmente os corsets são expostos em manequins que procuram “imitar” a silhueta pretendida pela peça, buscando reconstituir o sentido srcinal do corpo que porta um objeto constritivo.Por meio de um breve estudo da composição de um corset “genérico” – ou seja, sem prender-se a uma data ou moda específica – este trabalho busca associar o que o objeto é  ao seu nom d’usage  para, por meio desta análise, identificar o que seria uma  prática  do corset, em oposição ao uso pressuposto que dele se faz. Este estudo foca-se na  identificação de diferentes formas de interação entre corset e corpo, que poderão ser associadas aos diferentes graus de virtuosismo tanto do sujeito que faz uso do corset, quando do corset-sujeito, além do corsetier   que o confecciona. Estes diferentes aspectos também abrigam diferentes regimes de interação (LANDOWSKI, 2005), bem como diferentes formas de enunciação (GREIMAS & COURTÉS, 2012; LANDOWSKi, 2012) presentes em seus arranjos. É por meio do estudo destes regimes de interação que o presente artigo busca dar conta de uma anatomia do corset que contemple os diferentes aspectos de sua manifestação, além de seus modos de inter-agir  . A plástica do corset Salvo as diferenças de modelos ou materiais específicos que marcaram cada época, pode-se definir um corset como uma peça que recobre o tronco – parcial ou totalmente – confeccionada em três materiais: um tecido, preferencialmente plano 3  e firme, sobreposto em duas ou mais camadas, perpassado por uma estrutura rígida, geralmente na vertical, e costurado e amarrado por fios de diferentes espessuras – da linha de costura à amarração. Esta seria a “anatomia” propriamente dita: o corset é dotado de uma pele-músculos-carne, seu tecido; de ossos 4 , ou a estrutura rígida que pode ser metálica ou de barbatanas, e de um tecido conectivo, a linha e as amarrações, que mantêm todos os elementos alinhados e unidos. Ao longo das épocas, diferentes tendências adicionaram mais elementos a esta tríade de componentes essenciais: trata-se de elementos cosméticos (LANDOWSKI, 2004) que não influem em sua funcionalidade. No século XIX, por exemplo, o tecido rígido ficou confinado ao interior da peça (LYNN, 2010; WAUGH, 1954), e os corsets ganharam uma nova camada de tecido exterior , uma nova pele (ou seria uma roupa?) mais bonita e que tornava o aspecto do corset mais atraente enquanto produto. Esta primeira descrição daria conta, portanto, do que é chamado em semiótica plástica de formante matérico (OLIVEIRA, 2004). As particularidades do arranjo descrito são os pilares que garantem a eficácia de uma modelagem – do uso pressuposto – do corset: para que o tecido da peça dê conta de rearranjar os tecidos do corpo, é necessário o suporte de uma estrutura rígida, vertical e/ou oblíqua, que o mantenha esticado verticalmente e reforçado em pontos críticos, onde poderia romper-se ou deformar-se. Por outro lado, sem o elemento de costura e de 3   Distingue-se aqui “tecido plano”, confeccionado com trama e urdume, dos “tecido em malha”, formados por laçadas, que proporcionam o efeito elástico. 4    A palavra em inglês que designa “barbatana” é “ bone ” (ou “ whalebone ”), que também significa osso, o que talvez explique a confusão de que os corsets antigos eram confeccionados com “ossos de baleia”, quando na verdade as barbatanas são derivadas da cartilagem do mesmo animal.  amarração, não seria possível a correlação entre a estrutura e o tecido, bem como o ajuste da peça, que é feito pela regulagem das costas.Não basta, porém, a simples presença destes materiais para que um corset “funcione”: grande parte do sucesso de seu valor de uso repousa na capacidade do corsetier   ou da corsetière  de arranjar estes elementos de forma correta, garantindo que cada matéria realize sua performance: modelar o tronco dando a ver uma silhueta em que o desnível entre seios e cintura e entre cintura e quadril é intensificado, proporcionando a sensação de que a cintura é menor do que realmente é (STEELE, 2001). Este aspecto se relaciona com aquele do formante eidético (FLOCH, 1985), referente à forma, e já esboça em si a topologia do torso feminino, apontando a cintura como o centro de ação da peça.Em sua obra, Hammad (2005) desenvolve o conceito de topohierarquia , ou o privilegiar de um certo ponto de um dado espaço em detrimento de outro, atribuindo a ele um maior valor (HAMMAD, 2005), investimento este extraído de um conjunto de valores sociais ou culturais previamente dados. Trata-se, portanto, de uma construção semiótica da valorização de um lugar de acordo com uma dada tradição: esta centralidade do corpo feminino em torno da cintura se ligará com os sistemas de valores ocidentais europeus, sobretudo aqueles da França e da Inglaterra – os primeiros a definirem a palavra “corset” como o nome do objeto no qual buscamos aqui nos aprofundar, e de cujos idiomas todas as outras definições europeias variam. Esta derivação de valores linguísticos – a palavra corset – é acompanhada de uma série de valores da ordem da própria moda – França e Inglaterra foram, do século XVII ao XIX, grandes centros formadores de tendência da vestimenta europeia (BOUCHER, 2010), e a França o é, de certa forma, até o presente – e da própria lógica social em torno dela – ambas constituiram monarquias hegemônicas, colonizadoras, ao mesmo tempo em que ambas foram, cada qual ao seu modo, berço de grandes revoluções sociais nos mesmos séculos. Também seus idiomas foram muito difundidos, sobretudo no século XIX, quando falar o francês se tornou sinônimo de status  social até mesmo em países europeus orientais, como é o caso da Rússia (Cf. TOSLTÓI, 2005, 2011), enquanto que o inglês tentava penentrar na China, através de Hong Kong. Ao lado de ambos os idiomas, não se sabe ao certo em qual ordem (ou se simultaneamente), também os valores do vestuário feminino típicos destes dois países – o vestido longo acinturado, a crinolina, o corset – penetraram lentamente nas tradições russas e chinesas, investindo na ocidentalização de seus modos um valor de distinção. Alguns autores identificam o uso da constrição com estes mesmos valores – sobretudo de diferenciação das classes sociais menos privilegiadas – dentro da própria cultura ocidental (STEELE, 2001) em um século XIX pós  revolução francesa. Um maior aprofundamento destas questões será retomado em uma ocasião futura.Como descrito, um corset é construído em camadas de tecido, material confeccionado em uma rede de fios, maleável, porém firme, reforçado e estruturado por uma matéria propriamente vertical, reta, rígida, e unido por fios de diversas espessuras, que constituem de sua costura ao seu ajuste. Traçamos anteriormente uma metáfora proposital com a matéria do corpo e seus tecidos, com o intuito de enunciar que, para a criação de uma nova silhueta, para a modificação do torso tal como é “dado”, é necessário o uso de uma peça que possua propriedades semelhantes àquelas deste corpo “srcinal”. É preciso envolver o tronco com uma nova pele, mas que também seja dotada de ossos, de músculos. O conjunto matérico rígido-maleável será, portanto, semelhante àquele encontrado na caixa torácica: ele terá uma pele que recobrirá toda a extensão do tronco – exceto sobre a coluna vertebral, onde um espaço geralmente é deixado na amarração, uma vez que dificilmente os corsets eram completamente fechados neste ponto (STEELE, 2001) – e possuirá “ossos”, as barbatanas, nos pontos em que precisará confrontar-se com os ossos do corpo: as costelas, a crista ilíaca, a bacia. Quanto mais barbatanas um corset possui – como os stays  do século XVII e XVIII (HARTH & NORTH, 1998; LYNN, 2010; WAUGH, 1954) – mais ele assume um aspecto de exoesqueleto, contensor do corpo nu e seus tecidos. A necessidade de contensão é explicada por um fenômeno que escapa à percepção do óbvio: ao constringir algo, ele não desaparece simplesmente, mas desloca-se. Ou seja: a contensão da cintura não a faz devanescer, mas ocasiona que os tecidos ali presentes (a gordura, os músculos, a pele) migrem para outros espaços, para cima e/ou para baixo. Quanto mais violenta a constrição empregada, mais este “fenômeno” será notado. Algumas modelagens, como aquela do século XIX, até mesmo almejam este desocamento: há um espaço vazio, na área dos quadris, que deverá ser preenchido com os tecidos provenientes da cintura (Cf. SALEN, 2008; WAUGH, 1954). O aumento dos quadris contribui, inclusive, para a ilusão de que a cintura é ainda menor. Valerie Steele, por exemplo, analisa relatos da época em que é atribuída a esta ou aquela mulher a “impressão” de uma cintura muito menor do que a real medida de seu corset (STEELE, 2001).Delineia-se aqui, portanto, um papel actancial (GREIMAS & COURTÉS, 2012; GREIMAS, 1983) do corset que não pode mais ser considerado como aquele de um objeto: seu fazer é próprio de um sujeito, que age sobre outro sujeito, e que possui propriedades parecidas com aquelas do próprio corpo, colocando-se como um segundo corpo, que faz-fazer
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks