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A Âncora Do MGTV

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análise jornalística
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   Considerar os meios de comunicação na perspectiva dos Estudos Culturais é entendê-los enquanto agentes significantes, a partir de Stuart Hall, “ a representação implica uma prática, uma produção de sentido  –    “o que, subseqüentemente, veio a ser definido como uma ‘prática significante’” (ESCOTEGUY, 2010, p.68)  e também, na concepção de Raymond Williams (2011), como forma cultural, já se desenvolvem em um contexto histórico específico e “cumpre funções fundamentais nessa formação” (GOMES, 2007.p4). São também, segundo o autor, meios de comunicação, estão relacionados ao desenvolvimento tecnológico e “capacidade produtiva”.  É preciso, então, antes de começar a análise de uma reportagem, pensar no  jornalismo enquanto “construção social”. Como aponta Gomes, o  jornalismo enquanto construção é de ordem cultural, não de uma natureza ter se desenvolvido do modo como conhecemos, em sociedades específicas. No caso brasileiro, o jornalismo assume o modelo positivista americano, sob as premissas de imparcialidade e objetividade. Longe de adotarmos ou mesmo concordarmos com o modelo positivista, a informação sobre o modelo de jornalismo brasileiro se faz energética para tecermos reflexões ao longo da análise, “por uma crítica que transite por textos e contextos” (MORAES,  2016, p. 32). O MGTV 2ª edição é um telejornalismo regional de uma afiliada do Grupo Globo, a TV Globo Minas. A linha editorial do noticiário segue os padrões da matriz. É  possível perceber, a partir da leitura dos princípios editoriais do Grupo Globo, o viés  positivista que mencionamos, que se materializam em dois momentos, “ O veículo cujo objetivo central seja convencer, atrair adeptos, defender uma causa faz propaganda. Um está na órbita do conhecimento; o outro, da luta político-ideológica. ”. A busca  por objetividade também é clara:  Não se trata aqui de enveredar por uma discussão sem fim, mas a tradição filosófica mais densa dirá que a verdade pode ser inesgotável, inalcançável em sua plenitude, mas existe; e que, se a objetividade total certamente não é  possível, há técnicas que permitem ao homem, na busca pelo conhecimento, minimizar a graus aceitáveis o subjetivismo. (http://g1.globo.com/principios-editoriais-do-grupo-globo.html) A âncora do MGTV, ao apresentar a matéria, traz pistas sobre o que será explorado na notícia: homens encontrados em condições degradantes de trabalho, com alojamento precário e normas trabalhistas desrespeitadas.  Para BRITO FILHO (2006), se o trabalhador encontra limitações na alimentação, higiene e moradia, o trabalho já é caracterizado como em condições degradantes. A ONG Repórter Brasil, entidade que visa o combate ao trabalho análogo ao escravo, também entende condições degradantes como alojamento precário, péssima alimentação, falta de saneamento básico, além de falta de assistência médica e elementos que pecarizam o trabalho. O repórter traz elementos característicos das condições degradantes à reportagem. Embora não explique explicitamente o que ela significa, há um esforço visível na reportagem em denunciar esse ambiente degradante. No primeiro off, Danilo Girundi já deprecia a casa: “do lado de fora, lixo, esgoto e mal cheiro. O que parece ser o quintal de uma casa abandonada, é, na verdade, o alojamento de trabalhadores da construção civil”. Na primeira passagem, ele percorre por todo o alojamento enquanto denuncia as más condições. A srcem desses trabalhadores, que se deslocaram de Pernambuco para Minas Gerais, é mencionada  para referenciar as condições inadequadas de moradia. “Muitos deles saíram de Custódio- PE, enfrentando vinte e seis horas de viagem para encontrar uma casa abafada”. Aí está um  ponto problemático que a reportagem não cita. A migração é uma consideração importante a respeito do trabalho análogo ao escravo. Segundo o relatório da OIT, do total de trabalhadores resgatados entre 1997 a 2002, 91.5% eram migrantes. Alguns grupos de trabalhadores são aliciados diretamente no próprio local de srcem pelos gatos. Há uma preferência por estes migrantes, que são considerados pelos fazendeiros e pelos empreiteiros como “mais trabalhadores” e menos exigentes. Alguns grupos são “encomendados” e vão direto para uma determinada fazenda (OIT, 2006, p.50). Trazer trabalhadores de regiões distantes, sobretudo as mais pobres, não é desintencional, é um instrumento de tentativa para cercear a liberdade. Como aponta FIGUEIRAS E SALES (2005), pessoas que enfrentam a pobreza e poucas possibilidades de empregos tendem a aceitar com mais facilidade trabalhos precários. SILVA, M.A.M (2005) pontua que a maioria já chega endividada da viagem, dificultando o regresso às suas cidades de srcem. É sensível também às dificuldades que os trabalhadores encontram quando estão longe da família e partem de suas terras natais em busca de melhores condições de vida. Para Stuart Hall, a migração  Em outro momento, deslocado do contexto da migração, Tierre Francisco da Silva, revela que seu sofrimento começou desde que ele partiu da terra natal, mas é ignorado com outra pergunta. Há, por último, a ausência de questionamentos em torno da terceirização. FIGUEIRAS E SALES dedicam- se também a questão da terceirização, que se constitui como estratégia para ludibriar os limites impostos ao assalariamento. A terceirização está estritamente vinculada às piores condições de trabalho (degradantes, exaustivas, humilhantes, etc.) apuradas em todo o país. (FIGUEIRAS, p. 2). De acordo com a OIT, o trabalho degradante e ou o forçado já caracterizam o trabalho análogo ao escravo, mas nesse acontecimento reportado, há diversos os indícios deste crime que não são explorados pela reportagem. Em certo trecho da reportagem, se diz que “segundo o auditor fiscal a folha de ponto recolhida mostra  que algumas pessoas chegaram a trabalhar doze dias consecutivos, sem folga”. Isso não seria mais um elemento de trabalho análogo ao escravo, a jornada exaustiva? A reportagem não comenta, tão  pouco traz ao debate esse elemento. Jornada exaustiva não se trata de um cansaço a sensação de exaustão após um ritmo de trabalho. Ela é um abuso. É uma exploração de forma sistemática, qual os trabalhadores são obrigados a cumprir uma extensa jornada de trabalho sem descanso,  privados de condições mínimas para o trabalho, como o tempo para descanso e lazer, colocando em risco a saúde do trabalhador. Trabalhar muito não configura, necessariamente, jornada exaustiva. Caso contrário, médicos, jornalistas e qualquer outra profissão que faça plantões estaria inserido, de antemão, nessa situação. Exaustiva é aquela jornada que de tão intensa e massacrante impede que o trabalhador se recupere fisicamente e coloca em risco sua vida e segurança. (https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/05/21/ca-nao-foi-condenada-por-trabalho-escravo/)  Segundo Marx (1985, p.48) no capitalismo, a força de trabalho torna-se mercadoria, a única capaz de criar valor. Por isso o valor de troca da mercadoria envolve todos os tempos necessários de trabalho humano para produzi- la. “No preço da mercadoria está incluído o gasto (físico, psíquico e econômico) para produzi-la. Ela não é uma coisa, mas trabalho social concentrado” (CHAUÍ, 2003, p.50). Com a divisão social  do trabalho, o trabalhador, destituído dos meios de produção, é obrigado a vender sua força de trabalho por um salário que garanta suas condições de sobrevivência. É possível, então, denominar como trabalho uma atividade em que o sujeito tem seus direitos trabalhistas negados e não possui, sequer, condições mínimas de moradia, higiene e alimentação? Com o objetivo de aumentar e acumular o lucro na da mercadoria, o capitalista obriga o trabalhador a gerar produção excedente do que seria necessário para receber seu trabalho. É o que Marx chama de “mais valia absoluta”.   “a produção da mais valia absolut a se realiza com o prolongamento da jornada de trabalho além do ponto em que o trabalhador produz apenas um equivalente ao valor de sua força de trabalho excedente. Ela constitui o fundamento do sistema capitalista e o ponto de partida da produção da mais valia relativa. Esta  pressupõe que a jornada de trabalho já esteja dividida em duas partes: trabalho necessário e trabalho excedente. Para prolongar o trabalho excedente, encurta-se o trabalho necessário com métodos que permitem produzir-se em menos tempo o equivalente salário. A produção da mais valia absoluta gira exclusivamente em torno da duração da jornada de trabalho; a produção da mais valia relativa revoluciona totalmente os processos técnicos de trabalho e as combinaçõ es sociais” (MARX, 1980, p.585 )  No decorrer da reportagem, Marcelo Expedito da Silva acusa a contratante de nunca ter assinado folha de pagamento ou qualquer outro documento. Na sequência narrativa, o repórter conta em off que a data de contratação, em agosto, foi adulterada na carteira de trabalho e outubro foi colocado como início do vínculo empregatício. Este é um segundo ponto que revela a negação do trabalho na perspectiva marxista, que delineava na mais valia, a exploração dos sujeitos. Se não há, tampouco, há mais valia, como podemos denominar enquanto trabalho? Quando o terceiro personagem é entrevistado, mais elementos característicos que não são relacionados, na reportagem, ao trabalho análogo ao escravo: descontos na comida e no transporte. O modo de desconto é frequentemente usado como método de servidão por dívida- o trabalhador nunca consegue saldar a dívida e permanece sendo explorado.  No Brasil, o trabalho obtido a partir de coação individual direta, geralmente ocorre com base em mecanismos, criados pelo empregador/preposto/ intermediário, de endividamento do trabalhador (mesmo que enganoso, desde que a vítima acredite), quando este último é expressamente coagido a
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