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A Atualidade em Os Maias

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Posfácio de uma edição de 'Os Maias'
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  Profecias d’ Os Maias Henrique Monteiro e Irene FialhoSe Os Lusíadas  são a epopeia dos feitos dos portugueses, Os Maias  são o romance dos defeitos de Portugal. Nenhum outro livro  tão a!rangente na cr"tica ao con#unto da sociedade, na censura a h$!itos enrai%ados, nos reparos aos tiques sociais. Poucas &guras escapam, se#am elas pol"ticos, escritores, poetas, #ornalistas ou simples espetadoras de corridas de cavalos. Não &ca pedra so!re pedra e o que resta tem verdete, humidade, so!recasaca fora de moda, sinais de envelhecimento. 'e#am, por e(emplo, a desolada descri)ão da casa do *amalhete no &nal da o!ra, quando +arlos, depois de - anos a via#ar, regressa a is!oa e, com /oão da 0ga, seu amigo de sempre, desce a correr a rampa de Santos, em dire)ão ao 12mericano’, apesar de ter aca!ado de di%er que nem por uma fortuna aceleraria o passo.P$ginas antes, os dois amigos remiraram toda is!oa. Passaram por velhos conhecidos, o 0use!io%inho, o 34maso Salcede, tomaram !oa nota da nova 2venida da i!erdade que su!stituiu o Passeio P5!lico6 revisitaram a 7ai(a e o +hiado e sentaram8se a olhar os altos da 9ra)a, a Penha de Fran)a. 0ntão, +arlos pergunta a /oão da 0ga: o que resta; *estava a Penha de Fran)a, na poca apenas umas hortas. 0is o que permanecia. +omo alguns anos depois 0)a insistiu, n’ 2 +idade e as Serras, em Portugal apenasvale o genu"no, ainda que atrasado e !a)o, o paio com ervilhas que +arlos da Maia e /oão da 0ga recordavam com gula e saudades ao descer a rampa de Santos. Os Maias   o romance que corresponde ao total despe#ar de um saco que 0)a de <ueir=s transportava repleto. 0m novelas como  A Capital!  ou > +onde de 2!ranhos 8 e outras, pro#etadas pelo autor, que nunca chegaram aver a lu% do dia e que fariam parte de umas programadas ?+enas da 'ida Portuguesa@ 8, os pequenos e particulares defeitos de cada atividade, de cada $rea, de cada nicho da sociedade seriam desenhados e retocados com a inteligAncia agu)ada e visão focada do autor. Mas em Os Maias , 0)a decide, &nalmente, condensar num romance de B-- p$ginas, escritas ao longo de - anos, tudo aquilo que inicialmente pensara dividir pelas v$rias hist=rias das ?+enas@.C por isso que o velho Palma +avalão #$ est$ em  A Capital!,  que o sol"cito 34maso Salcedo #$ d$ sinais em  A Tragédia da Rua das Flores  e que o pomposo 9ouvarinho não  totalmente alheio a 2!ranhos, como o não  a Pacheco d’  A correspondência de Fradique Mendes , como todos eles, na sua vacuidade intelectual, fa%em lem!rar o cle!re +onselheiro 2c$cio d’ O Primo asílio .2 atualidade de Os Maias   tanto maior quanto o pa"s insiste em ser omesmo, em não se regenerar, em não sarar os seus males nem curar as suas doen)as. 3ecadente, como surge o *amalhete no in"cio do romance,  tam!m Portugal tem pequenos momentos de esplendor mais ou menos pechis!eques Da casa ser$ a!rilhantada por uma decora)ão inglesaE para mais tarde reincidir no desma%elo. +omo no ciclo da pimenta, e depois do ouro do 7rasil e, mais recentemente, no dos fundos comunit$rios, o *amalhete, cu#o nome vem de um painel a%ule#os com um ramo de girass=is, sim!olicamente no lugar da casa que pertenceria ao !rasão, sente8se, por !reves per"odos, pr=spero e equivalente ao melhor que h$ l$ fora Mas logo se resigna a ser de novo a constru)ão decadente, empoeirada, desalentada, som!ria, impr=pria. +ondi%ente com esta p$tria e os seus ind"genas.0ste ciclo, que intercala momentos de e(alta)ão numa linha cont"nua de depressão resume8se, como todos sa!em, na cena &nal. 3esistentes, a&rmando8se incapa%es de apressar o passo em nome de qualquer rique%a, assegurando que tudo  ilusão e sofrimento, +arlos e 0ga desatam a correr cal)ada a!ai(o para apanhar um transporte p5!lico 8 estão atrasados para um #antar mundano.0m BBB, ano em que o romance  pu!licado, a crise portuguesa apro(ima8se do cl"ma( do ltimatum  inglAs que, em BG, destr=i o que resta do orgulho imperial e mata a esperan)a numa regenera)ão sonhada desde meados do sculo. is!oa  posti)a, os seus ha!itantes são pindricos e incultos e, se algo se salva,  o campo e as suas gentes, que 0)a pintar$ com cores talve% demasiado favor$veis n’  A Cidade e as "erras , e(altando a simplicidade, e n’  A #lustre Casa de Ramires , que retrata a falidainfortuna da no!re%a lusa. 0m Os Maias , cu#a a)ão tem is!oa por palco De um pouco de Sintra, onde o poeta 2lencar, o l5gu!re ultrarrom4ntico, dei(a ?mil ais@ em SeteaisE as personagens são todas ris"veis, talve%  e(ce)ão dos incestuosos irmãos +arlos e Maria 0duarda. +omecemos pela pol"tica. $ temos o 9ouvarinho, o +onde de 9ouvarinho, ministro e par do reino, !igode com cera, pera curta. ?em todas as condi)Jes para ser ministro: vo% sonora DE e  um asnoK@. Incapa%de compreender as su!tile%as de 0ga Dque alguns consideram ser o autor colocado na o!raE era um !ruto, incluindo a falar de mulheres, o que #$ antevA o moderno tema do machismo. Mas acima de tudo era um patrioteiro. ?2 inve#a que nos tAm todas as na)Jes, por causa da import4ncia das nossas col=nias e da nossa vasta inLuAncia em frica@ vociferava. <uantos dos atuais pol"ticos e comentadores ali estão retratados; 2 cle!re import4ncia africana, a cle!re possi!ilidade africana, as nossas ?grandes gl=rias@ que a !esta do ministro da Marinha, o 9ouvarinho, proclamava são ho#e, e foram ao longo dos O anos que passaram desde a pu!lica)ão do livro, loas cantadas a v$rias vo%es, por diversas vo%es, mas sempre sonoras vo%es. +hega a ser um consolo sa!er que o esp"rito não morreu. <ue continuamos inve#ados, ainda que a%arados pela nossa pequene% territorial e pela falta de uma marinha de guerra.> funcionalismo, do Sousa Neto, tam!m não escapa. 0sse mesmo Sousa Neto que não fa% ideia de quem  Proudhon e que considera o amor  ?um assunto esca!roso@, e(plode com /oão da 0ga: ?C meu costume, Sr. 0ga, não entrar em discussJes e acatar todas as opiniJes alheias, mesmo quando elas se#am a!surdas@. >ra a" est$ como um 0stado de Sousa Netos pode ser afiano. Nada se discute e tudo se acata, mesmo o a!surdo. 2pesar disso, o &del"ssimo funcion$rio tem so!re os ingleses uma opinião que  comum em Portugal De de certa forma na 0uropa do Sul, ainda ho#eE, ade que se trata de um povo de comerciantes. ?udo gente de neg=cio@ comovinca, ao sa!er que naquelas paragens a norte, onde h$ e(cesso de frio e carvão, escasseiam os folhetinistas e poetas de pulso que e(istem entre n=s. > nosso funcionalismo a" est$, mais interessado no lirismo do que na pr$tica do neg=cio ou na o!ten)ão de resultados. Não por ter interesses culturais mas, pelo contr$rio, por não ter incentivos que prestem, por não ter meios que lhe permitam ?ter visto sequer 7ada#o%@.Passemos ao #ornalismo, para que não nos &quemos a mofar dos outros sem rir de n=s. $ temos o Palma +avalão, que fa% num antro um  #ornal que  uma porcaria. ?2 +orneta do 3ia!o@  uma folha imunda onde se pu!licam, a troco de dinheiro e favores, os esc4ndalos dos advers$rios. /$não temos disso Q tão  descaradaK 0m!ora na su!tile%a das cornetas e de outros instrumentos menos estridentes, mas talve% mais insinuantes, ainda passeie a perf"dia e a falta de moral de um #ornalismo corrupto. <uando o Palma, o vil Palma, pu!lica, a troco de dinheiro, um artigo visando +arlos da Maia, s= resta uma maneira de lidar com o mal: comprar toda a edi)ão e poressa via dar ainda mais dinheiro ao Palma. > Palma, que  um aprofundamento soe% de todos os #ornalistas vendidos que #$ haviam surgido na o!ra de 0)a, merecia, senão a est$tua de precursor de um estilo, pelo menos a de seu s"m!olo. Não viria menos a8prop=sito do que a representa)ão do cauteleiro que est$ ali por !andas do 7airro 2lto, em pleno argo da Miseric=rdia.H$ tam!m o 0steves, o arquiteto que  tam!m pol"tico e, claro 8 como todo o !om portuguAs Q, compadre do procurador dos propriet$rios do*amalhete, o 'ila)a. C ele que come)a as o!ras de restauro do palacete. 0 f$8lo em grande, atrasando8se com o pro#eto de uma escada aparatosa, Lanqueada por duas &guras que sim!oli%am as conquistas da 9uin e da Rndia Q sempre presente este glorioso passado cantado pelos 9ouvarinhos e por algumas gl=rias da +omunica)ão Social de ho#e. 0steves ideali%ou ainda uma cascata de lou)a na sala de #antar Q coisa que, ali$s, *afael 7ordalo Pinheiro havia de fa%er no Palacete da viscondessa da *egaleira, ali  0strada de 7en&ca, no Pal$cio do 7eau8Se#our, ho#e propriedade da +4mara Municipal de is!oa e sede do 9a!inete de 0studos >lisiponenses. $ est$ ainda para quem a quiser ver Inesperadamente, porm, +arlos tra% um arquiteto e decorador inglAsque destrona o 0steves, levando8o a correr  sede do seu partido pol"tico clamar alto e !om som que o pa"s est$ perdido. am!m o compadre 'ila)a  chora a desconsidera)ão do amigo, conseguindo pelas s5plicas dar ao seu protegido, para que nem tudo se perca, a edi&ca)ão das cocheiras do *amalhete. 0steves ia aceitar, mas na mesma altura a P$tria nomeou8o 9overnador +ivil. 0 h$ o 34maso, o Salcede, não o 9uedes, porque como di%ia o Neves,redator do #ornal 1arde’, contraponto da +orneta, mas nem por isso melhor, ?quando se di% o 34maso  o 9uedesK...@. > Salcede  um gordalhufo,  #anota que tem uma propriedade em Sintra. ?m manganão que nos entalou na elei)ão passada6 fe% gastar ao Silvrio mais de tre%entos mil risK@. Pois era, precisamente, desse 34maso ?frisado como um noivo de prov"ncia@ que falava 0ga, portador de uma carta em que o dito se humilhava e se confessava !A!ado a &m de pedir desculpas a +arlos da Maia. 0 o !om Neves, que ao pensando tratar8se do seu amigo 34maso 9uedes estava a pensar em liminarmente recusar a pu!lica)ão de tal coisa, muda de ideias e grita para o a#udante: ?T Pereirinha, olhe aqui o Sr. 0ga.  em a" uma carta para sair amanhã, na primeira p$gina, tipo largo@. > Salcede  o nou$eau%ric&e , deslum!rado, vigarista%inho, co!ardolas, conviva da alta sociedade que, em simult4neo alinha com companhias reles e adora glori&car8se com as viagens a Paris e com o tio que  supostamente !em colocado. em uns cartJes8de8visita que são o!#etos comple(os e vistosos onde ponti&ca o nome em cai(a alta 3UM2S> +UN3I3> 30 S2+030, e logo por !ai(o +>M0N323>* 30 +*IS>. 2 morada riscada da *ua de São 3omingos  apa fa% so!ressair a que vem manuscrita a tinta a%ul: 9rand HVtel do 7oulevard des +apucines, Paris. Para Salcede is!oa era chinfrim Dpalavra muito de 0)aE e Paris sim, um local onde se podia viver. 0 onde vive Mr. de 9uimaran, o seu supostamente poderoso tio, o Sr. 9uimarães, que o so!rinho di% "ntimo de 9am!etta, de *ochefort e de Mac8Mahon, dos repu!licanos no poder em Fran)a na poca. +aram!aK odos n=sconhecemos um Salcede atual. +om amigos em Fran)a e tudo 0 nem  preciso pu(ar muito pela ca!e)aK ermos o !anqueiro, o +ohen Do nome #udeu d$8lhe a misteriosa perversidade que tAm os mercados &nanceirosE. >s emprstimos, em Portugal, declara ele para satisfa%er a curiosidade dos circunstantes, constituem ho#e ?uma fonte de receita, tão regular, tão indispens$vel, tão sa!ida como o imposto@. 0 remata com uma frase que se podia mandar escrever no 2rco da *ua 2ugusta: ?2 5nica ocupa)ão mesmo dos ministrios esta Q co!rar o imposto e fa%er o emprstimo@. +ohen não tem d5vidas: assim havemos de continuar. 0 continu$mosK C por isso que as p$ginas d’ Os Maias  cada ve% mais se confundem com a realidade, as suas personagens com os protagonistas atuais, as frases compostas por 0)a com as que são ditas pelos diversos comentadores que nos surgem na televisão, peritos em tudo. C de novo +ohen a proclamar:?8 2hK So!re isso, ningum tem ilusJes, meu caro senhor. Nem os pr=prios ministros da Fa%endaK... 2 !ancarrota  inevit$vel6  como quem fa%  uma soma...DE 2 !ancarrota  tão certa, as coisas estão tão dispostas paraela Q continuava +ohen Q que seria mesmo f$cil a qualquer, em dois ou trAs anos fa%er falir o pa"s@.Note8se que durou e(atamente trAs anos a falir, com a declara)ão deinsolvAncia de BG. /oão da 0ga não queria outra coisaK 3ese#ava a !ancarrota, sonhava com a !ancarrota porque ela provocava8lhe o devaneio da p=s8!ancarrota, uma espcie de para"so reencontrado. Pede, por isso, a +ohen a receita da insolvAncia. > !anqueiro d$8a, desta forma e(traordin$ria, se vista com os olhos de ho#e: ?Nas vsperas de se lan)arem os emprstimos haver du%entos maganJes decididos que ca"ssem  pancada na municipal e que!rassem os candeeiros com vivas  *ep5!lica6 telegrafar isto em letras !em gordas paraos #ornais de Paris, de ondres e do *io de /aneiro6 assustar os mercados, assustar o !rasileiro, e a !ancarrota estalava DE@. S= que, avisa, isso não convm a ningumK 0ga protesta com veemAncia. +omo não convm a ningum; >ra essaK 0ra #ustamente o que convinha a todosK W !ancarrota seguia8se uma revolu)ão, evidentemente. m pa"s que vive do su!s"dio, em não lho pagando, agarra no cacete6 e procedendo por princ"pio, ou procedendo apenas por vingan)a Q ?o primeiro cuidado que tem  varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. 0 passada a crise, Portugal, livre da velha d"vida, da velha gente, dessa cole)ão grotesca de !estas...@0 por esse caminho ia o de!ate. +ohen considerava que nem todos eram !estas e 0ga, !em8educado, lem!rando a ami%ade que unia alguns deles a +ohen e a outros amigos seus, concedia que alguns tinham talento esa!er. 0ga sume8se, ou melhor, congela, em BBB, com a pu!lica)ão do romance, mas o seu alter ego, que di%em ser 0)a, morre em G--. Nenhum deles sou!e que a cole)ão de !estas #amais a!andonou o pa"s. 2lm disso, nenhuma !ancarrota ou simples amea)a dela o regenerou.0ga não era, digamos, um revolucion$rio vulgar, uma ve% que defende igualmente a invasão espanhola Q e quantos, ainda ho#e, a tememK São os mesmos que poriam as conquistas da 9uin e a da Rndia numa escadaria. Mas porque defenderia 0ga, nascido em +elorico, que a 0spanha nos invadisse; Porque entendia que, caso fVssemos sovados e humilhados, arrasados, escalavrados, ter"amos de fa%er um esfor)o desesperado para viver. 0 era assim que, ?Sem monarquia, sem essa caterva de pol"ticos, semesse tortulho da inscri)ão, porque tudo desaparecia, est$vamos novos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivssemos servido. 0 recome)ava8se uma hist=ria nova, um outro Portugal, um Portugal srio e inteligente, forte e decente, estudando, pensando, fa%endo civili%a)ão como
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