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A Audiodescricao de Cenas de Sexo Em o Signo Da Cidade

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  A AUDIODESCRIÇÃO DE CENAS DE SEXO EM O SIGNO DA CIDADE  Eliana Paes Cardoso Franco    Alana Murinelly Monteiro Introdução A AD, assim como as outras modalidades de Tradução Audiovisual (TAV), não consiste em trabalhar somente com o signo linguístico, mas também com a complexidade do texto audiovisual. No que diz respeito à audiodescrição de filmes, Payá (2007, p.82) considera o conhecimento da linguagem cinematográfica um re-quisito para o audiodescritor:Pensar na audiodescrição como uma adaptação dos produtos audiovisuais  passa por considerála uma atividade tradutora de caráter intersemiótico: tra-tase de traduzir imagens em palavras. Nesse sentido, no momento de redigir o roteiro audiodescritivo de um filme, o audiodescritor deve conhecer tanto o sistema meta (sistema verbal) como o sistema de srcem (sistema audiovi-sual), e mais concretamente uma de suas principais linguagens específicas: a linguagem cinematográfica.Levandose em consideração a importância da linguagem cinematográfica, questões sobre o que deve ser descrito ou, dependendo do tempo disponível, do que deve ser priorizado são centrais para a realização da AD. Alguns países já dis- ponibilizam a AD há algum tempo. Por ser um tópico recente dentro da área da TAV, a pesquisa sobre esse recurso de acessibilidade de textos audiovisuais para o  público com deficiência visual vem crescendo, e as normas já estabelecidas, criadas através da prática de profissionais pioneiros, são constantemente revisadas. Alguns dos países onde essas normas, ou guidelines,  para a elaboração do roteiro da AD já foram estabelecidas são os EUA (  Audiodescription Coalition,  2008), a Alemanha (Wenn aus Bilden Worte Werden,  2004), a Espanha (UNE 153020, 2005) e a Ingla-terra (  ITC Guidance,  2000). As normas vêm sendo usadas como guias ou pontos de  partida, não como sistemas fechados, afinal, cada filme é um filme e cada público receptor da AD pode divergir em suas preferências, dependendo da cultura em que está inserido. No entanto, as normas já existentes possuem pontos em comum acer-ca dos mesmos temas, tais como:  170 ã A definição de audiodescrição;ã As especificações sobre diferentes tipos de AD ao vivo ou pré gravadas (peças, materiais em vídeo ou DVD, programas de TV, exibições em museus, óperas e espetáculos de dança);ã Os procedimentos de elaboração do roteiro da AD. Alguns proce-dimentos variam de país para país (em alguns países ela é feita por um audiodescritor e revisada por outro, já na Alemanha ela é feita  por dois tradutores e um deficiente visualconsultor);ã As tecnologias disponíveis em cada país para que se ouça a AD;ã Os aspectos linguísticos (ex. “evitar o uso de metáforas e re-gionalismos”);ã Os aspectos polêmicos (raça, etnia, nacionalidade);ã A censura. Não há um consenso entre as normas sobre como a AD deve ser feita, algumas nonnas divergem quanto a certos aspectos. Podemos usar como exemplo a questão da nomeação dos personagens. A norma americana diz que os personagens devem ser nomeados apenas depois que seus nomes forem mencionados em um diálogo do filme. Até que esse nome seja mencionado, o personagem deve ser identificado  por uma característica marcante, por exemplo, “o homem de chapéu” ou “a mulher ruiva”. Já a norma alemã reconhece que esta é uma questão problemática e que os  personagens deveriam ser identificados por características marcantes até que seus nomes sejam mencionados, mas mostrase mais flexível ao reconhecer que, em cer-tos tipos de filme os personagens principais só têm seus nomes revelados muito tarde. Por conta disso, eles optam por nomear os personagens no começo do filme e, se possível, fornecer mais informações como idade, estatura, cor dos cabelos.As normas possuem também alguns “princípios básicos” ou “regras de ouro”, que geralmente denotam instruções semelhantes, cujo objetivo principal é evitar que o audiodescritor/tradutor dê uma versão pessoal sobre o que vê na tela. A norma americana, por exemplo, tem como regra principal “descreva o que vê”. De acordo com essa norma, vemos ações e gestos e não o que motiva esses gestos. Portanto, uma AD deveria dizer “ela cerra os pulsos” ao invés de dizer “ela está com raiva”, ou “ela franze a testa” ao invés de “ela está tensa”. Outras normas são mais flexí-veis quanto a isso. A norma inglesa chama de “regras de ouro” as seguintes regras: “descreva o que está lá [na tela]”, “não dê uma versão pessoal do que está na tela” e “nunca sobreponha diálogos ou comentários”. Já a norma alemã fala em descrever “tudo o que existe para ser visto” e depois explica que “para o trabalho concreto da descrição isso significaria: não abreviar acontecimentos, resumindoos [...] e não interpretar acontecimentos ou anteceder explicações que ainda virão mais tarde” (DOSCH; BENECKE, 2004, p. 2021). Anteceder informações, segundo a norma em questão, significaria estragar uma surpresa ou por fim a um mistério ainda não esclarecido ao público vidente, como: “é o assassino quem está atrás da porta, [...] o  policial é um mentiroso” (Ibid,  2004, p.21).  OS NOVOS RUMOS DA PESQUISA EM AUDIODESCRIÇÃO NO BRASIL171 Assim, no que concerne às “regras de ouro,” as normas americana, alemã e inglesa são muito semelhantes, portanto constituem importantes critérios para nor-tear e avaliar o trabalho do audiodescritor. Contudo, não devem ser vistas como verdades absolutas já que cada filme terá desafios diferentes e que outros fatores também afetam a AD, tais como o tempo limitado disponível entre diálogos e sons importantes. Seguindo os princípios básicos da audiodescrição, as quatro normas são unânimes em dizer que o tradutor/audiodescritor deve descrever apenas o que vê. A intenção seria dar ao deficiente visual igual acesso ao produto audiovisual da-quele do vidente acrescido dos diálogos, da trilha sonora e dos ruídos de cena. Dessa forma, nenhuma explicação extra ou interpretação deve ser fornecida, correndo o risco de ser vista como subestimação da capacidade de compreensão do ouvinte,  preconceito, ou mesmo censura53.Dentro desse contexto, esperase que cenas de sexo, tão frequentes em pro-dutos audiovisuais, sejam tratadas da mesma forma, isto é, audiodescritas em sua totalidade tanto quanto o espaço permitir, com enfoque nos movimentos dos atores que denotem ao espectador cego, juntamente com a trilha sonora, que os persona-gens estão se relacionando sexualmente. Portanto, o objetivo principal deste estudo é observar se  e como  as regras de ouro ou os princípios básicos já estabelecidos e seguidos por vários países que ainda não os estabeleceu, como o Brasil, são aplica-dos em cenas de sexo, material que constitui assunto delicado ou tabu em muitos  países, e sujeito ao escrutínio da censura. As Normas, o Sexo e a Censura A censura no meio audiovisual pode ocorrer por diversos motivos. Historica-mente, a dublagem foi e ainda é o principal alvo da censura de governos ditato-riais (cf. BALLESTER CASADO, 1999), seguido pelo voice-over   (cf. FRANCO, 2000 e FRANCO, MATAMALA e ORERO, 2010), uma vez que a omissão total ou parcial do textofonte, respectivamente, dificulta uma comparação sistemática com sua tradução pelo espectador bilíngue. Em seu artigo “Sex, Lies and TV: censorship in subtitling” (2004), Gabriela L. Scandura afirma que a censura ainda existe em modalidades de Tradução Audiovisual populares, como a legendagem, em forma de omissões ou substituições de frases, alusões, ou referências eróticas, vulgares ou inconvenientes. No caso da AD, em que o espectador com deficiência visual também não tem a chance de comparar o que se vê com o que é audiodes crito, a censura pode ser um fator presente em cenas de sexo, seja ela imposta pelo cliente (ex. uma produtora, um distribuidor, um cineasta) ou mesmo resultante da autocensura do audiodescritor. 53 Apesar de as normas em questão enfatizarem como regra básica “descrever o que se vê sem interpretar”, pesquisas atuais atentam tanto para a impossibilidade da total falta de interpretação por parte do audiodescritor, quanto para a impossibilidade da universalidade das normas, uma vez que cada produto audiovisual é único e possui características particulares e que o público-alvo também é bastante variado em termos do grau e histórico da deficiência, suas preferências etc. Contudo, como uma primeira abordagem para cenas de sexo, esse estudo entende que os princípios básicos servirão como critérios de análise válidos.  172 As normas para AD sinalizam para a possibilidade de censura na descrição de cenas de sexo. Ao tratar de diferentes graus de dificuldade em um filme, a norma alemã apresenta “cenas eróticas e/ou de amor” como cenas difíceis de serem descri-tas, já que “exigem uma descrição especialmente empática” (BENECKE, 2004, p. 10). A norma em questão, no entanto, não é mais específica em relação a esse tipo de cena. A norma inglesa, por sua vez, dispõe de uma seção dedicada a “programas com sexo explícito ou cenas violentas”, onde a descrição de cenas de sexo é con-siderada um tema delicado: “A descrição de material com cenas explícitas de sexo deve ser lidada com sensibilidade. [...] Se feita insensivelmente, o material pode gerar constrangimento, soar grosseiro ou monótono” (JTC Guidance,  2000, p.31). Em ambas as normas, porém, não fica clara a definição de “descrição empática” ou “sensível”. A norma inglesa ainda fala da edição dos materiais de acordo com o horário exibido na TV da Inglaterra, e que o audiodescritor deve estar atento para o horário em que o programa será exibido, já que cenas de violência ou palavrões serão editadas.Diferentemente das normas alemã e inglesa, a norma americana parece ter menos reservas em relação a temas tabus, quando diz que:Audiodescritores que censuram informação por conta do seu próprio descon-forto falham para com seus ouvintes. Os audiodescritores devem descrever qualquer informação sobre nudez, atos sexuais, violência etc. Ouvintes de-vem ter acesso a tudo que é evidente ao público vidente e se o audiodescritor sente que descrever certas cenas o deixará desconfortável, ele não deve acei-tar o serviço. (Audio Description Coalition,  2008, p. 4)Contudo, a discussão fica restrita a esse parágrafo e nenhuma seção é dedicada a cenas de sexo.Tais considerações sobre temastabu e cenas de sexo nos levam a algumas questões de interesse nesse estudo: O que fazer quando o plano é aberto, a ilumi-nação é forte, e podemos ver claramente a movimentação dos corpos durante o ato sexual? Será que essa mesma minimização que ocorre nas legendas, na dublagem e no voice-over   acontece nas audiodescrições? Se temos que descrever o que vemos, sem resumir ou interpretar e, ao mesmo tempo, sermos “sensíveis” para com as ce-nas de sexo, como a audiodescrição do sexo se dá em filmes brasileiros? A audiodescrição de cenas de sexo Murinelly Monteiro (2011)54 analisou cenas de sexo em alguns dos primei-ros filmes brasileiros que foram audiodescritos no país e cuja audiodescrição foi disponibilizada comercialmente. Levandose em consideração que o Brasil ainda está elaborando sua própria norma de audiodescrição e, por isso, que os primeiros 54 O trabalho de TCC foi orientado pela Profa. Dra. Eliana R C. Franco, coautora deste artigo, e defendido na UFBA.
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