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A Aula Inaugural de CL

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Clarice Lispector
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    PROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Ronaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo Martins (http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)   NARRATIVANARRATIVANARRATIVANARRATIVA Até agora você trabalhou com textos descritivos, e deve ter percebido que inúmeras são as categorias que afetam a descrição: o objeto a ser descrito, o sujeito que descreve, o ponto de vista do sujeito que descreve, o suporte da descrição. Antes de começar qualquer texto descritivo, é fundamental pensar e problematizar cada um desses elementos. As estratégias disponíveis para descrever pessoas são diferentes daquelas utilizadas para descrever paisagens. Nem sempre somos autorizados a descrever subjetivamente um determinado recorte da realidade: no âmbito acadêmico, por exemplo, descrições subjetivas, impressionistas , são consideradas indesejáveis. Devemos ter em mente que uma descrição a partir de um ponto de vista único será quase sempre ingênua e superficial. E o conhecimento dos limites e das possibilidades do suporte da descrição são fundamentais para a fidelidade da representação. Uma boa descrição, portanto, é justamente aquela que se constitui, conscientemente, a partir da consideração de todos os elementos do texto descritivo. O mesmo acontece com o texto narrativo. Assim como a descrição, a narrativa tem categorias próprias, que devem ser consideradas em profundidade para que alcancemos o nosso objetivo. Uma dessas categorias é o narrador, aquele que narra, o sujeito da narrativa. Sobre o narrador vale a pena mencionar dois problemas. O primeiro diz respeito à confusão que muitas vezes se faz entre narrador e autor. O segundo problema remete ao papel do narrador na narrativa. O primeiro problema nos alerta para o fato de que é importante perceber que narrador e autor são categorias distintas da narrativa. É importante não confundir narrador e autor, sob o risco de empobrecermos demasiadamente a nossa leitura do texto. O poeta é um fingidor já dizia Fernando Pessoa, e é importante que percebamos que aquele que narra pode ser uma pessoa muito diferente daquela que faz narrar. O fato de o narrador ser uma mulher não significa, necessariamente, que o autor também o seja (pense nas várias músicas que Chico Buarque de Holanda compôs para voz feminina); um narrador-defunto (como o de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis) não pode significar que o autor também esteja morto; narradores semi-analfabetos podem remeter a autores extremamente letrados; e a miséria ou a opulência daquele que narra pode ter pouco a ver com a miséria ou a opulência daquele que faz narrar. Todo autor é um fingidor, não podemos nos esquecer nunca. O segundo problema nos leva à discussão dos diferentes papéis do narrador (e não do autor) na narrativa. O narrador pode fazer parte da narrativa, ser uma sua personagem, principal ou secundária. E o narrador pode simplesmente ser um observador distante, que não participa da ação. No primeiro caso, o narrador-personagem geralmente se revela através da 1 a  pessoa do singular: há um eu que atravessa o texto. No segundo caso, o distanciamento geralmente conduz ao uso da 3 a  pessoa do discurso: fala-se, todo o tempo, sobre alguém que não é o narrador. No entanto, é preciso ter cuidado com essas separações, e entendê-las apenas como a maneira mais comum (seguramente não a única) como se organizam as narrativas. Esses dois problemas     a diferença entre narrador e autor, e entre os papéis que o narrador pode desempenhar na narrativa     estão presentes, como não poderiam deixar de estar, no texto de Clarice Lispector, em anexo. No texto, você perceberá, há uma autora nacionalmente conhecida e respeitada, Clarice Lispector, e há um narrador, que conta a história de uma galinha, e que não deve ser confundido com Clarice, embora seja por ela construído. Este narrador, você verá, não é uma personagem da narrativa, não participa da ação; é alguém que vê a história de fora. A proposta deste primeiro texto narrativo é que você subverta essa última relação: que você construa um outro narrador, que participe (como personagem) da narrativa, sem que para isso você tenha que abdicar da autoria de Clarice Lispector. Em outras palavras: você deve reescrever o texto, à maneira de Clarice, mudando o narrador (que vai poder ser o pai, a menina, a mãe, a cozinheira ou a própria galinha), de forma que ele participe da narrativa. Algumas dicas 1) Dê um título a seu texto; 2) Perceba que você não deve ser o autor deste texto. A autora deve continuar sendo Clarice Lispector. Você deve tentar escrever como Clarice Lispector escreveria. Para isso você deve prestar bastante atenção no texto srcinal, e tentar desvendar, no texto, a autora. Para que você tenha mais subsídios nesta tarefa, seguem em anexo algumas informações adicionais sobre o estilo de Clarice Lispector.    PROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Ronaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo Martins (http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)   UMA GALINHA LISPECTOR, Clarice. Laços de Família . Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. pp.31-34. Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de um curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou     o tempo da cozinheira dar um grito     e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado one esta hesitante e trêmula escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração tão pequeno num prato solevava e abaixava as penas enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimenoto despregou-se do chão e saiu aos gritos:     Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem! Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:     Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!     Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros. Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: E dizer que a obriguei a correr naquele estado! A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto. Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga     e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho     era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.    PROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Ronaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo Martins (http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)   Histórias de bichos quase de verdade GILBERTO F. MARTINS Folha de S. Paulo, 27/12/1997 Era uma vez uma escritora, nascida num lugar que, de tão distante, nem aparecia nos mapas... Esse poderia ser o começo de mais uma das inúmeras histórias feitas para crianças. Mas não é. É, isto sim, um modo de apresentar Clarice Lispector, que nasceu numa pequena aldeia da Ucrânia e que, ainda no colo, veio para o Brasil morar com seus pais no Nordeste. Clarice ficou famosa com seus livros para adultos, escrevendo de um modo diferente, preocupada em tentar descobrir os mistérios da difícil tarefa de ser escritora e estudar o ser humano no seu contato com o mundo, em vez de ficar inventando simples histórias com começo, meio e fim. Este mês, faz 20 anos que Clarice morreu. Ficaram vários livros (romances, contos, crônicas, entrevistas), inclusive alguns infantis. Os bichos Os bichos sempre povoaram os livros de Clarice. Galinhas, cachorros, macacos, até mesmo baratas e ratos, e um coelho especial. ''O Mistério do Coelho Pensante'' foi escrito para atender um ''pedido-ordem'' de Paulo, filho de Clarice. O livro é da editora Siciliano. Depois de ensinar coisas curiosas sobre a natureza do coelho, seu modo de viver e de cheirar as coisas, a autora pede a ajuda do leitor para desvendar um mistério: como é que Joãozinho, animalzinho comum, branco e gordo, descobre que a liberdade e a felicidade são formas interessantes de se ajeitar na vida e tem a idéia de fugir da casinhola onde ficava preso. Você constrói a história junto com Clarice enquanto aprende sobre os bichos.    PROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOSPROPOSTA DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Ronaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo MartinsRonaldo Martins (http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)(http://www.ronaldomartins.pro.br)   Sentimentos de perplexidade MARILENE FELINTO Folha de S. Paulo, 07/12/97 A morte da escritora Clarice Lispector, em 9 de dezembro de 1977, deixou um sentimento de perplexidade nos meios literários e acadêmicos que parece resistir até hoje. Mesma perplexidade verificada quando do surgimento _em 1943, com ''Perto do Coração Selvagem''_ de uma obra que, de tão diferente, precisaria de muito mais do que esses 50 anos seguintes para ser digerida. A despeito de inúmeros estudos críticos, teses e biografias publicadas nesses 20 anos desde a morte de Lispector, um dos centros de discussão sobre sua obra ainda é ''como se deve ler Clarice''. Como se o ''verdadeiro choque'' experimentado pelo crítico em 1943 perdurasse. O choque provocado por uma literatura que ''adentra domínios pouco explorados, um pensamento cheio de mistério, capaz de nos fazer penetrar em alguns dos labirintos mais retorcidos da mente'' (Antonio Candido). Uma literatura _escrita por uma mulher_ de significação incomum no plano da linguagem, de mestria excepcional, que ocupa, em nossas letras contemporâneas, um lugar isolado, singular. A mesma perplexidade. Trata-se ainda da obra impalpável da escritora impalpável. Pouco tempo antes de morrer, Clarice Lispector escreveu ''eu serei a impalpável substância que nem lembrança de ano anterior substância tem'', essa espécie de profecia. Nascida na Ucrânia em 10 de dezembro de 1925 (ou 1920, controvérsia que seus biógrafos ainda não resolveram), a escritora só fez fechar sobre si _ao morrer na exata véspera de completar 52 (ou 57) anos_ o ciclo de singularidade e mistério que perseguiu sua figura pública, uma de suas maiores queixas. Queria ser tratada como pessoa comum e palpável. Só por acaso nasceu numa aldeia ucraniana, quando seus pais, judeus russos, emigravam para o Brasil. Chegou aqui com dois meses de idade e passou a infância em Recife. Depois foi morar no Rio de Janeiro, onde a família Lispector se estabeleceu. Formou-se em direito e casou-se em 1943 com o diplomata Maury Gurgel Valente. Por conta da profissão do marido, viveu 16 anos fora do Brasil, na Itália, Suíça, Inglaterra e nos EUA. Teve dois filhos com Gurgel Valente, de quem se separou em 1959, ano em que voltaria a viver no Brasil. Foi por mais de dez anos cronista do ''Jornal do Brasil'', a partir dos anos 60. Entre suas obras mais conhecidas estão as coletâneas de contos ''Laços de Família'' e ''Felicidade Clandestina'' e os romances ''A Paixão Segundo G.H.'' e ''A Hora da Estrela''.

El cemento

Aug 4, 2017
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