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A Correria - Zane Grey

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   A CORRERIA ZANE GREIDigitalizado porhttp://www.librodot.com I Os ventos outonais fazia comprido tempo que tinham balançado a erva no vale das terras altas v o fôlego do Norte matizou as árvores que bordeabano ondulante leito do rio, os purpúreos e dourados tons flamejavam, magníficos, à luz do sol matinal. Os pássaros e os animais daquela aberta terra do Norte, impulsionados pelo instinto, empreendiam o caminho do Sul. O grasnido dos patos silvestres ressonava naquelas solidões v passavam com freqüência os rápidos bandos daqueles arautos do inverno, cujas silhuetas se recortavam, claras e precisas, sobre o azul do céu. Em um elevadísimo pico da montanhosa muralha ocidental daquele vale estava estalagem uma águia, vigiando desde seu solitário mirante. Seus telescópicos olhos alcançavam grandes distancia. Abaixo, na interminável vertente e no dilatado vale, movíase uma negra massa que se encaminhava com a lentidão do caracol para o Sul. Enchia-o o vale em toda sua amplitude e extensão até perder-se na vaga e violácea lonjura. Sua parte mais compacta cobria o centro do vale, de onde partiam como largos e estendidos braços de rios que fossem estreitando-se para suas fontes, situadas no alto de 1as montanhas. Aqui e ali, destacando-se daquele negro fundo, brilhavam alguns maços de erva cinza, semeada de ouro. Mas aquelas escuras correntes, ao avançar, extendíanse sobre elas e as ocultavam, embora logo, e em distintos pontos, apareciam novos claros no terreno. Tais mudanças se realizavam lentísimamente, embora o movimento era contínuo. Aquela negra massa a integravam seres vivos. A águia contemplava à maturação infinidade de léguas de terreno coberto de búfalos havia milhares v até milhões delas. Aquela peluda manada não tinha fim. Dominava as vertentes e os fundos vales e chegava' Basta grande distancia nas extensões situadas mais à frente. A vista da águia era um, simples órgão defensivo incapaz de apreciar a sublime beleza da terra e de suas miríades de seres. Entretanto, o ave, com. seus agudos olhos, observava desde seu solitário penhasco o vazio ilimitado, com seu mutável atapeta negra, o larga espaço do céu pelo.' que corria um vento frio e penetrante... Aquele vale, de muitas léguas, estava ocupado pela herança viva de um milhão de anos. A cena era primitiva, grandiosa e falava, com grande eloqüência do passado. O futuro se estendia ao longe, estranho, desconhecido, como as confusas distâncias que se vislumbravam no horizonte. Naquela hora era um verdadeiro goze a vida ao ar livre iluminada pelo glorioso sol que !brilhava sobre a terra. A paz e a solidão acompanhavam à ;águia em seu posto de vigia. Entretanto, em toda a extensão do vale parecia estar suspensa, qual' manto invisível, uma imensa tristeza. Seria acaso o espírito da estação, que morria resistindo a confrontar o rigor da neve e do gelo? O fato era que o outono se prolongava como se a Natureza estivesse absorta, contemplando algum mistério, algum problema ou alguma grave equívoco. A vida suave, doce, estava agora escondida em algum lugar ignorado, possivelmente ao amparo das' violáceas sombras da lonjura, para o Sul. A manhã era brilhante, dourada. Na serenidade do ambiente havia algo mais que a melancólica frouxidão do outono. Era como se um ser poderoso estivesse ali, invisível e infinito, envolvendo-o tudo, mas conservando seu segredo.   de repente a águia se afundou no abismo e fué descendendo até que, por fim, desdobrou suas asas e começou a deslizar-se lenta e majestuosamente, descrevendo círculos sobre uma herbosa enfaixa de terreno rodeada de búfalos. Quase no centro daquele lugar, na vanguarda do enorme rebanho, livrava-se então uma inflamada luta entre o monarca daqueles cornúpetas e seu último rival, para alcançar a supremacia entre eles. Pardo, sujo, o enorme e peludo chefe não era um formoso animem, mas !sim merecia em troca o qualificativo de magnífico. Sua corpulência duplicava, possivelmente, a de um boi v era tão alto como um cavalo. Sua maciça cabeça coberta de sujo e revolto cabelo, que 'continha multidão de corpos estranhos, estava inclinada em atitude de atacar, mostrando os separados, robustos, curtos e curvos chifres. Os olhos, animados por estranho fogo, brilhavam sob as lanosas mechas de cabelo enquanto' arqueava-se seu corpo, ficando erguida e rígida sua curta e peluda cauda. Da caverna de seu peito surgiu um surdo e rouco grunhido ante o descaramento incompreensível daquele jovem macho que se atrevia a enfrentar-se com ele. Tinha lutado muitas vezes em 'sua larga vida e durante tantos anos imperou sobre seus companheiros que chegou, inclusive, a esquecer sua juventude, quando ele, como o rival que agora tinha ante si, venceu ao' rei dos búfalos daquele tempo. Agora veía obrigado a lutar de novo obedecendo à lei da sobrevivência dos mais aptos. O cornúpeta que desafiou ao rei era também um animal magnífico. A sua vez inclinava a enorme testuz, e 'com golpes curtos e prodigiosos escavava o chão, lançando ao ar alguns torrões talheres de erva. Sua pelagem era pardo cinza, sedoso e não tinha o aspecto lanoso e decadente do monarca. Seu revolto cabelo surgia abundante da cabeça, as costas e os joelhos. Em seus flancos hinchábanse os grandes e poderosos músculos, enquanto chutando se movia em volto de seu inimigo disposto a atacar. Aquele búfalo tinha o aspecto de ser a soma e compêndio do vigor e do espírito animal. O grito com que respondeu ao rugido do monarca ressonou claro e enérgico, como se fosse um clarinazo. Sua voz possuía algo que tinha perdido já o ancião guerreiro, pois tinha beleza e juventude. Os búfalos que rodeavam aos dois machos não pareciam preocupar-se grande coisa ante a iminente luta. Esperavam-na porque, de vez em quando, levantavam as sujas e despenteadas cabeças que tinham inclinadas sobre a erva e, por um momento, contemplavam ao rei e a seu ciumento competidor. Mas logo voltavam a pastar tranqüilamente. Era, entretanto, muito significativo que o círculo não se estreitasse, mas sim mas bem parecia alargar de um modo gradual. O velho monarca não esperou a que seu inimigo iniciasse o combate, mas sim atacou. Seu ataque fué incrivelmente rápida para um animal tão pesado como ele v o impulso de seu enorme corpo fué tremendo, indo chocar, em um salto, contra a inclinada testuz do jovem macho. O batida, produziu um ruído apagado. O cornúpeta cambaleou-se ao receber aquele choque e todo seu corpo se estremeceu. Logo se viu levantado, deu meia volta e caiu pesadamente sobre o lombo. Por causa da enorme força que empregou no ataque, o velho monarca caiu de joelhos e perdeu a vantagem que podia ter alcançado. Ofegava de raiva. Com a maior agilidade o jovem búfalo rodou sobre si mesmo e ficou em pé sem ter recebido o menor dano. A Natureza lhe tinha dotado de uma enorme resistência. Mais rápido que um cavalo, e tão veloz como um gato, arrojou toda sua corpulência sobre seu antagonista se chocando contra ele com um impulso não inferior ao que inaugurou a luta. Mas o velho guerreio o recebeu qual' se tivesse sido um enorme carvalho profundamente enraizado na terra. Chocavam violentamente seus testuces e se corneavam com a crueldade própria da Natureza, empenhados em inferir-se mutuamente uma cornada mortal. Mas debaixo da- espessa capa de lã a grossura da pele era superior a dois centímetros e médio, v estava dotada de resistência maior que a do couro' curtido vai. Aqueles dois machos tinham sido criados para a luta. Possuíam uma extraordinári  a capacidade pulmonar e seus focinhos permitiam o passo de grandes quantidades de ar. Sua resistência era tão notável como sua própria estrutura física. Envoltos por uma nuvem de pó, foram de um lado a outro, removendo a terra, empurrando a um e V outro lado aos búfalos que pastavam, de modo que em sua luta percorreram uma distância relativamente considerável. O choque de seus chifres v os batidas diminuíam pouco ao Paco em vigor e em sonoridade, indicando com isso que cada vez diminuíam a rapidez e a força de seus ataques. Mas não ocorria o mesmo com seu valor v ferocidade. Aquela era uma luta a morte ou, pelo menos, tinha que resultar dela uma vitória definitiva. Às vezes o vento dissipava a nuvem de .pó, v então os dois machos apareciam menos vigorosos na ação, mas ainda impulsionados por uma grande ferocidade. O ancião monarca hallábase já perto do fim de sua última luta. Tinha terminado sua carreira. Esmigalhado, talher de pó e ensangüentado, retrocedia já ante os ataques de seu inimigo. Seus pulmões, como grandes foles, despediam alguns bufos equivalentes à declaração de sua derrota. Era evidente que não podia resistir a seu incansável e jovem competidor. Sua idade lhe obrigava a perecer. Vióse reduzido a cair de joelhos, ficando quase derrubado. Recuperando resistiu uma vez mais, com grande esgotamento, aquela enorme e atacante cabeça negra e logo teve precisão de sentar-se sobre suas patas traseiras. De novo escapou par milagre ao seguinte ataque. Tinha chegado o momento da derrota. Estava vencido. Então o instinto vital substituiu ao da supremacia. Retrocedendo passo a passo, afastava-se sem deixar de dar a cara ao jovem conquistador que não cessava de mugir. A intervalos vióse livre da ameaça daquela cabeça sempre disposta a arrojar-se contra ele e durante os últimos momentos da luta retrocedeu até chegar junto aos búfalos atrasados da manada, abandonando assim o campo a seu vencedor. O ancião monarca ingressava de novo nas finas; acabava de aparecer um novo chefe na manada. A águia empreendeu outra vez o vôo para seu solitário penhasco, para posar-se nele, sujeitando-se com as garras, e de novo vigiou o vale com seus cristalinos alhos. Para a parte dianteira daquela massa negra de búfalos um redemoinho fez ascender uma coluna de pó. Tinha uma forma semelhante a de uma chaminé amarela e se estendia no ar enquanto, ao mesmo tempo, percorria o vale. Aquilo, ou um pouco tão natural como aquilo, pareceu causar certa agitação nas filas de búfalos que foram à vanguarda. Imediatamente os guias puseram-se a correr em direção ao sul. O movimento e o rápido golpear de seus pezuñas se transmitiu por toda a manada com a velocidade de uma corrente. Logo, de um modo mágico e maravilhoso, a imensa massa se moveu como se estivesse dominada por um só espírito. O tamborilar das pezuñas aumentou de tal modo que pareceu um rugido. O pó se levantou grande altura dirigindo-se para trás, como se fosse uma nuvem baixa de amarelada fumaça que cobrisse a enorme extensão de muitos acres e milhas ocupados pela enorme v negra manada. Esta pareceu converter-se em muito movimento rápido e acelerado. de repente uma grande nuvem de pó envolveu aos milhares de búfalos que corriam como se os ocultasse uma escura cortina. O volume do som tinha crescido do tamborilar rítmico que marcava o passo da manada, até converter-se em um rugido poderoso e ensurdecedor. Tão somente as capas altas do ar, revoltas pela tormenta e atravessadas pelo raio, poderiam produzir um trovão como o que à maturação surgia da terra estremecida. Mas aquele era um trovão contínuo, comprido e retumbante. O movimento dos Trúfalos ao uníssono parecia uma onda da maré, e o ruído que produziam era semelhante a uma avalanche. A terra tremia baixo aquele rebanho em correria. A águia seguia imóvel no alto de seu penhasco, indiferente à retumbante caos que havia a seus pés. A nuvem de pó que cobria o vale estava já muito baixa. Passou algum tempo. Na metade do seu caminho para o cenit apareceu o sol. Logo, gradualmente, diminuiu o tremor da terra e o ruído das pezuñas, para morrer por fim ao longe. Tinha passado já a manada. Em seu alto a águia dormitava, e o vale ficou limpo de pó ao' cessar o movimento. A solidão e o silêncio reinavam por completo na solene quietude do meio-dia.   Era a primavera de uma era muito posterior à época em que a águia solitária nó observar associação de Futebol correria do rebanho de búfalos. Uma região elevada e abundante em pradarias descendia, ondulante, das Montanhas Rochosas, cobertas de neve, para estender-se no imenso espaço da região oriental. Sobre a erva esbranquiçada ou descolorida tinha aparecido já um débil tom esverdeado. O! quente sol reatou sua tarefa de vestir de novo a terra. Um bando de patos silvestres, que se tinham atrasado na peregrinação anual, empreendeu ao vôo sua rápida excursão para o Norte. Nos altiplanos pastavam os alces, e, nas concavidades montanhosas onde surgiam as fontes murmuradoras, os gamos, envoltos na azulado cor da neve fundida, mordiscavam os tenros brotos da erva. Ao pé dos altiplanos, na planície, vários rebanhos de búfalos salpicavam as bandagens de erva, alternando a monotonia daquela dilatada extensão cinza. Ocupavam muitas léguas e cada vez sua massa era mais escura a causa do aumento dos búfalos, até que, por fim, adquiria um intenso tom negro que podia confundir-se com a névoa da lonjura. Um rio descrevia seu sinuoso caminho através das, planícies e, em uma de suas curvas, povoada de árvores, um acampamento índio mostrava seus brancas -lojas e as vermelhas mantas, e surgiam perezosamente algumas colunas de fumaça azul. Ocultos nos matagais que havia com o passar do rio, uns homens de pele-vermelha, semidesnudos, espreitavam a chegada dos búfalos quando fossem beber. Aqueles caçadores não precisavam ir em busca das peças, mas sim lhes bastava esperar e escolher a carne e a pele que melhor lhes conviesse para satisfazer seus singelas necessidades. Por outra parte não matavam mais animais dos que podiam utilizar. Ao longo da borda do rio e a toda a distância como podia alcançar a vista, os peludos monstros descenderam em grupo para beber. Machos, fêmeas e ternerillos foram em interminável procissão. Em alguns lugares aonde a borda era levantada, os sedentos búfalos que foram detrás empurravam às filas que tinham diante lhes obrigando a penetrar na água, aonde se srcinou grande confusão e houve numerosos lhe chape isso Os pardos bezerros, muito jovens ainda para trocar de pelagem e adquirir o cinza pardo de suas mães, mugiam vigorosamente ao ver-se obrigados a penetrar no rio. Perto do acampamento dos índios, onde as árvores e as matas cresciam ao longo da borda, os búfalos davam amostras de maior prudência. Eles. preferiam os espaços livres. Mas chegaram atrasados e os melhores de entre estes foram vítimas das mortíferas flechas dos homens vermelhos. Um macho jovem, coberto de abundante e brilhante cabelo pardo, de aspecto soberbo em sua já próxima maturidade, passou ao alcance do chefe daquele grupo de caçadores. O homem abandonou seu esconderijo; era um índio fraco, moreno, alto, vigorosamente constituído, cujo rosto tinha uma expressão profunda e uns olhos que pareciam atravessar sua presa. Curvou um arco que poucos índios teriam sido capazes de dirigir e levou a corda para trás, até que a ponta de pederneira da flecha tocou sua mão esquerda. Saiu assobiando e fué a ferir o búfalo por entre as paletillas, afundando-se em seu corpo, até a metade de sua extensão. O animal atou um grunhido, mas não fez nenhum movimento violento. Retrocedeu do mesmo modo que tinha avançado, embora cada vez mais devagar. O chefe 'seguiu-o mais à frente do limite do bosque. Os restantes búfalos, ao chegar, viram o índio e ao companheiro ferido, mas se limitaram a trocar de direção. O animal se deteve, atou um profundo suspiro, caiu de joelhos e por fim rodou de flanco. Em seguimento dos caçadores apareceram as squaws providas de seus rudes instrumentos de pederneira e osso, para esfolar o .búfalo e cortar a carne para levá-la ao acampamento. O chefe finei a repousar à sombra de uma árvore, sobre a pele de seu búfalo, entregando-se aos pensamentos e aos sonhos próprios de um guerreiro. Mais à frente da nevada montanha viviam seus inimigos, homens vermelhos como ele, pertencentes a uma tribo odiada. E, além daquela lembrança, não tinha nenhuma outra preocupação. Seus vermelhos deuses eram incapazes de lhe predizer o futuro. O rosto pálido, des
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