Documents

A Escola Como Espaço Socio-cultural_Dayrell

Description
A escola como espaço sócio cultural
Categories
Published
of 18
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  A ESCOLA COMO ESPAÇO SÓCIO-CULTURAL Juarez Tarcisio Dayrell  1 1- PRIMEIROS OLHARES SOBRE A ESCOLA  Analisar a escola como espaço sócio-cultural significa compreendê-la na ótica dacultura, sob um olhar mais denso, que leva em conta a dimensão do dinamismo, do fazer-secotidiano, levado a efeito por homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, negros ebrancos, adultos e adolescentes, enfim, alunos e professores, seres humanos concretos,sujeitos sociais e históricos, presentes na história, atores na história. alar da escola comoespaço sócio-cultural implica, assim, resgatar o papel dos sujeitos na trama social que aconstitui, enquanto instituição. !ste ponto de vista e pressa um ei o de an#lise que surge na d$cada de %&. At$então, a instituição escolar era pensada nos marcos das an#lises macro-estruturais,englobadas, de um lado, nas teorias funcionalistas '(ur)heim, *alcott +arsons, obert(reeben, entre outros, e de outro, nas teorias da reprodução '/ourdieu e +asseron0/audelot e !stablet0 /o1les e 2intis0 entre outros. !ssas abordagens, umas maisdeterministas, outras evidenciando as necess#rias mediaç3es, e p3em a força das macro-estruturas na determinação da instituição escolar. !m outras palavras, analisam os efeitosproduzidos na escola, pelas principais estruturas de relaç3es sociais, que caracterizam asociedade capitalista, definindo a estrutura escolar e e ercendo influências sobre ocomportamento dos sujeitos sociais que ali atuam.  A partir da d$cada de %&, surgiu uma nova vertente de an#lise da instituição escolar,que buscava superar os determinismos sociais e a dicotomia criada entre homem-circunst4ncia, ação-estrutura, sujeito-objeto. !ssa vertente se inspira num movimentoe istente nas ciências sociais, direcionado por um paradigma emergente que,no dizer de/oaventura '5665, tem como caracter7stica a superação do conhecimento dualista,e presso na volta do sujeito 8s ciências9 o sujeito, que a ciência moderna lançara nadi#spora do conhecimento irracional, regressa investido da tarefa de fazer erguer sobre siuma nova ordem cient7fica 'p.:;. < refle o desse paradigma emergente $ um novohumanismo,que coloca a pessoa, enquanto autor e sujeito do mundo, no centro doconhecimento, mas, tanto a natureza, quanto as estruturas, estão no centro da pessoa, ouseja, a natureza e a sociedade são antes de tudo humanas. =essa perspectiva, >zpeleta ? oc)1ell '56%@ desenvolvem uma an#lise em queprivilegiam a ação dos sujeitos, na relação com as estruturas sociais. Assim, a instituiçãoescolar seria resultado de um confronto de interesses9 de um lado,uma organização oficialdo sistema escolar, que define contedos da tarefa central, atribui funç3es, organiza, separae hierarquiza o espaço, a fim de diferenciar trabalhos, definindo idealmente, assim, asrelaç3es sociais. 'p.B%0 de outro, os sujeitos - alunos, professores, funcion#rios, que criamuma trama própria de inter-relaç3es, fazendo da escola um processo permanente deconstrução social. +ara as autoras, em cada escola interagem diversos processos sociais9 areprodução das relaç3es sociais, a criação e a transformação de conhecimentos, aconservação ou destruição da memória coletiva, o controle e a apropriação da instituição, aresistência e a luta contra o poder estabelecido. 'idem. Apreender a escola comoconstrução social implica, assim, compreendê-la no seu fazer cotidiano, onde os sujeitos nãosão apenas agentes passivos diante da estrutura. Ao contr#rio, trata-se de uma relação emcont7nua construção,de conflitos e negociaç3es em função de circunst4ncias determinadas.  A escola, como espaço socio-cultural, $ entendida, portanto, como um espaço social próprio,ordenado em dupla dimensão. Cnstitucionalmente, por um conjunto de normas e regras, quebuscam unificar e delimitar a ação dos seus sujeitos. Dotidianamente, por uma comple atrama de relaç3es sociais entre os sujeitos envolvidos, que incluem alianças e conflitos, 1   +rofessor da aculdade de !ducação da EF2. Doordenador do <bservatório da Guventude da EF2 H  imposição de normas e estrat$gias individuais, ou coletivas, de transgressão e de acordos.Em processo de apropriação constante dos espaços, das normas, das pr#ticas e dossaberes que dão forma 8 vida escolar. ruto da ação rec7proca entre o sujeito e a instituição,esse processo, como tal, $ heterogêneo. =essa perspectiva, a realidade escolar aparecemediada, no cotidiano, pela apropriação, elaboração, reelaboração ou repulsa e pressaspelos sujeitos sociais '!zpeleta ? oc)1ell,56%@.  (esta forma, o processo educativo escolar recoloca a cada instante a reprodução dovelho e a possibilidade da construção do novo, e nenhum dos lados pode antecipar umavitória completa e definitiva. !sta abordagem permite ampliar a an#lise educacional, namedida em que busca apreender os processos reais, cotidianos, que ocorrem no interior daescola, ao mesmo tempo que resgata o papel ativo dos sujeitos, na vida social e escolar. < te to que se segue e pressa esse olhar e reflete quest3es e angstias de professores deescolas noturnas da rede pblica de ensino, com os quais venho trabalhando e aprendendoatrav$s de assessorias e cursos de aperfeiçoamento, nos ltimos quatro anos. I frutotamb$m de uma pesquisa e ploratória, realizada em 566:, em duas escolas pblicasnoturnas, situadas na periferia da região metropolitana de /elo Jorizonte. !sta $ a fonte dose emplos, das cenas e das ; situaç3es reais aqui apresentadas. Aos alunos, professores edireção destas escolas dei o os meus agradecimentos. 2-OS ALUNOS CHEGAM À ESCOLA Um som estridente de campainha corta o ar, juntando-se ao burburinho de vozes,carros, ônibus. São 18:30 hs e a escoa d! o seu primeiro sina. ota-se uma pe#uenaa$ita%ão. &s aunos #ue che$aram, at' esse momento, se encontram em $rupos,espahados peo ar$o (ormado pea con(u)ncia de tr)s ruas. * um pe#ueno centrocomercia de um bairro de peri(eria, na re$ião metropoitana de +eo orizonte: ojas,a%ou$ue, padaria, ocadora de video, bares, etc. $uns rapazes che$am ! porta das ojas,esperando peo movimento. entrada dos aunos na escoa parece ser um ritua cotidiano,repetindo-se todos os dias os $estos, (aas, sentimentos, em momentos de encontro, pa#uera, ou simpesmente, de um passa tempo. apazes e mo%as continuam che$ando aos poucos, a$uns em $rupos, outrossozinhos. /umprimentos, risos, conversas ao p' de ouvido. rupo de rapazes, $rupo demo%as, $rupos misturados. &hares su$estivos acompanhados de coment!rios e risos, umrapaz sai do seu $rupo e vai at' as mo%as e diz a$o #ue provoca sorrisos. 2iste um cimade desejo no ar. Um casa de namorados se beija, encostado no muro sob uma !rvore,indi(erente ao burburinho. as ' no momento do sina #ue aumenta o voume de pessoas che$ando.+rancos,ne$ros, muatos, na sua maioria jovens, aparentando idades #ue variam de 14 a 50 anos,a$uns poucos mais vehos, principamente muheres. 6estem-se de (ormas as maisvariadas, predominando jeans e t)nis./ome%am a entrar por um portão de (erro inteiri%o.   escoa ocupa todo um #uarteirão, cercada por muros atos, pintados de azu, o #uehe d! uma apar)ncia pesada. 'm do portão, e2iste uma outra entrada, atrav's de : uma$ara$em por onde passam os pro(essores. p7s o portão, os aunos descem por uma rampaao ado de um pe#ueno an(iteatro, e entram por um outro portão, onde dei2am a cadernetacom uma servente, entrando em se$uida no p!tio coberto da escoa. & espa%o ' caramente deimitado, como #ue a evidenciar a passa$em para um novocen!rio, onde vão desempenhar pap'is espec(icos, pr7prios do 9mundo da escoa9, bemdi(erentes da#uees #ue desempenham no cotidiano do 9mundo da rua9. 2.1- A DIVERSIDADE CULTURAL Kuem são estes jovensL < que vão buscar na escola L < que significa para eles ainstituição escolarL Kual o significado das e periências vivenciadas neste espaçoL +ara grande parte dos professores, perguntas como estas não fazem muito sentido,pois a resposta $ óbvia9 são al!os . ! $ essa categoria que vai informar seu olhar e asrelaç3es que mant$m com os jovens, a compreensão das suas atitudes e e pectativas. Assim, independente do se o, da idade, da srcem social, das e periências vivenciadas,todos são considerados igualmente alunos, procuram a escola com as mesmas e pectativase necessidades. +ara esses professores, a instituição escolar deveria buscar atender atodos da mesma forma, com a mesma organização do trabalho escolar, mesma grade ecurriculo. M homogeneização dos sujeitos como alunos corresponde 8 homogeneização dainstituição escolar, compreendida como universal.   A escola $ vista como uma instituição nica, com os mesmos sentidos e objetivos,tendo como função garantir a todos o acesso ao conjunto de conhecimentos socialmenteacumulados pela sociedade. *ais conhecimentos, por$m, são reduzidos a produtos,resultados e conclus3es, sem se levar em conta o valor determinante dos processos.Faterializado nos programas e livros did#ticos, o conhecimento escolar se torna objeto,coisa a ser transmitida. !nsinar se torna transmitir esse conhecimento acumulado eaprender se torna assimil#-lo. Domo a ênfase $ centrada nos resultados da aprendizagem, oque $ valorizado são as provas e as notas e a finalidade da escola se reduz ao passar deano. =essa lógica, não faz sentido estabelecer relaç3es entre o vivenciado pelos alunos e oconhecimento escolar, entre o escolar e o e tra-escolar, justificando-se a desarticulaçãoe istente entre o conhecimento escolar e a vida dos alunos. (essa forma, o processo de ensinoNaprendizagem ocorre numa homogeneidade deritmos, estrat$gias e propostas educativas para todos, independente da srcem social, daidade, das e periências vivenciadas. I comum e aparentemente óbvio os professoresministrarem uma aula com os mesmos contedos, mesmos recursos e ritmos para turmasde quinta s$rie, por e emplo, de uma escola particular do centro, de uma escola pblicadiurna, na periferia, ou de uma escola noturna. A diversidade real dos alunos $ reduzida adiferenças apreendidas na ótica da cognição 'bom ou mau aluno, esforçado ou preguiçoso,etc.. ou na do comportamento 'bom ou mau aluno, obediente ou rebelde, disciplinado ouindisciplinado, etc.... A pr#tica escolar, nessa lógica, desconsidera a totalidade dasdimens3es humanas dos sujeitos - alunos, professores e funcion#rios - que dela participam .>ob o discurso da democratização da escola, ou mesmo da escola nica, essaperspectiva homogeneizante e pressa uma determinada forma de conceber a educação, oser humano e seus processos formativos, ou seja, traduz um projeto pol7tico pedagógico quevai informar o conjunto das aç3es educativas, que ocorrem no interior da escola. ! pressauma lógica instrumental, que reduz a compreensão da educação e de seus processos a umaforma de instrução centrada na transmissão de informaç3es. eduz os sujeitos a alunos,apreendidos sobretudo pela dimensão cognitiva. < conhecimento $ visto como produto,sendo enfatizados os resultados da aprendizagem e não o processo. !ssa perspectivaimplementa a homogeneidade de contedos, ritmos e estrat$gias, e não a diversidade.! plica-se assim a forma como a escola organiza seus tempos, espaços e ritmos bem comoo seu fracasso. Afinal de contas,não podemos esquecer - o que essa lógica esquece - queos alunos chegam 8 escola marcados pela diversidade, refle o dos desenvolvimentoscognitivo, afetivo e social, evidentemente desiguais, em virtude da quantidade e qualidadede suas e periências e relaç3es sociais, pr$vias e paralelas 8 escola. < tratamento uniformedado pela escola só vem consagrar a desigualdade e as injustiças das srcens sociais dosalunos. Ema outra forma de compreender esses jovens que chegam 8 escola $ apreendê-loscomo sujeitos sócio-culturais. !ssa outra perspectiva implica em superar a visãohomogeneizante e estereotipada da noção de aluno, dando-lhe um outro significado. *rata-se de compreendê-lo na sua diferença, enquanto indiv7duo que possui uma historicidade,com vis3es de mundo, escalas de valores, sentimentos, emoç3es, desejos, projetos, comlógicas de comportamentos e h#bitos que lhe são próprios . < que cada um deles $, ao chegar 8 escola, $ fruto de um conjunto de e periênciassociais vivenciadas nos mais diferentes espaços sociais. Assim, para compreendê-lo, temosde levar em conta a dimensão da e periência vivida. Domo lembra *hompson '56%5, $ ae periência vivida que permite apreender a história como fruto da ação dos sujeitos. !stese perimentam suas situaç3es e relaç3es produtivas como necessidades, interesses eantagonismos e elaboram essa e periência em sua consciência e cultura, agindo conforme asituaç8o determinada. Assim, o cotidiano se torna espaço e tempo significativos. =esse sentido, a e periência vivida $ mat$ria prima a partir da qual os jovensarticulam sua própria cultura H , aqui entendida enquanto conjunto de crenças, valores, visão 2
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks