Documents

A Escola de Chicago e o Interacionismo Simbólico1

Description
A Escola de Chicago e o interacionismo simbólico A Escola de Chicago, diz-se, foi a fundadora da reflexão teórica sobre a comunicação, lançou os fundamentos do que se convencionou chamar de interacionismo simbólico nas primeiras décadas do século XX. Cooley, Mead e Park, entre outros, desenvolveram de fato a tese de que a sociedade não pode ser estudada fora dos processos de interação entre as pessoas, é constituída simbolicamente pela comunicação. A vida social não se mantém por conta de nenhu
Categories
Published
of 18
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  A Escola de Chicago e ointeracionismo simbólico A Escola de Chicago, diz-se, foi a fundadora da reflexão teórica so-bre a comunicação, lançou os fundamentos do que se convencionou cha-mar de interacionismo simbólico nas primeiras décadas do século XX.Cooley, Mead e Park, entre outros, desenvolveram de fato a tese de que asociedade não pode ser estudada fora dos processos de interação entreas pessoas, é constituída simbolicamente pela comunicação. A vida socialnão se mantém por conta de nenhuma dinâmica interna ou requisito sis-têmico, mas sim pelo fato dos seres humanos serem capazes de interpre-tar seu contexto vital e responder praticamente aos estímulos de que sãodestinatários. As pessoas se relacionam através de símbolos; os símbolosestruturam o processo da comunicação.A sociedade se confunde com a cultura e é escandida por duas tendên-cias fundamentais. As tendências à socialização e à integração dos indiví-duos constituem o seu próprio cimento; as tendências a individualização ecompetição entre seus membros constituem seu fator de renovação. A co-municação é o seu denominador comum; tem a função de criar e manter oconsenso e o entendimento necessários entre os indivíduos, mas ao mesmotempo permite que estes modifiquem o comportamento da sociedade.No primeiro caso, a comunicação encontra-se submetida ao emprego ex-pressivo, devendo ser vista como um processo de compartilhamento de umaestrutura de sentido; no segundo, encontra-se submetida ao emprego instru-mental, , devendo ser vista como um processo de influência recíproca dirigidopor no mínimo dois sujeitos. As modalidades de interação, destacadas do con-texto de uso social imediato, são fins em si mesmas, mas, ao mesmo tempo, [...] nenhuma pessoa permanece sem modificações e tendo as mesmas eíicá-  38 Francisco Rudiger cias futuras uma vez compartilhando as situações tornadas possíveis pela co-municação [...] , como dizia Dewey, já em 1925 (1974, p. 209).A comunicação representa um processo estruturado simbolicamente,constitui o emprego de símbolos comuns com vistas à interação, que funda aprópria sociedade. A realidade social em que as pessoas vivem é construídaatravés de símbolos: os seres e as coisas só se tornam fonte de motivaçãoquando ganham sentido, estabelecido no processo da comunicação. O signifi-cado das coisas deve ser visto, portanto, como um produto da interação sociale, ao mesmo tempo, como uma condição de possibilidade da comunicação.Herbert Blumer (1900-1987) sistematizou as teses da escola nos se-guintes termos: O interaáonismo simbólico baseia-se, em última análise, em três premissas. A primeira estabelece que os seres humanos agem em relação ao mundo funda-mentando-se nos significados que este lhes oferece. [...] A segunda premissaconsiste no fato de que os significados de tais elementos mundanos são prove-nientes da ou provocados pela interação social que se mantém com as outraspessoas. A terceira premissa reza que tais significados são manipulados por umprocesso interpretativo (e por este modificados) utilizado pela pessoa ao se rela-cionar com os elementos com que entra em contato (Blumer, 1969. p. 2). Em resumo, parte-se, neste enfoque, do ponto de vista de que a comuni-cação é um processo mediado simbolicamente, mas ao mesmo tempo em quea estrutura simbólica é mediada, na prática, pela comunicação. O homem éum ser por essência comunicativo e, por conseguinte, as forças comunicativasdevem ser vistas como o fator responsável pela própria civilização. Figura 2.3 Universidade de Chicago.  As teorias da comunicação 39 COMUNICAÇÃO E SOCIEDADE: GEORGE MEAD A Escola de Chicago, malgrado a diversidade de seu pensamento,concorda basicamente com a seguinte tese: a sociedade é produto da co-municação. A comunicação é a condição de possibilidade da interação so-cial, que se confunde com a sociedade. A sociedade representa, em essên-cia, mais do que uma associação de indivíduos; constitui uma comunidadede ação e comunicação, cuja existência é necessária tanto para o desenvol-vimento da vida humana quanto para o desenvolvimento de uma vida so-cial com sentido. Charles Cooley (1864-1929), fundador da escola, resu-miu este ponto ao definir o conceito, estrutura e sentido da comunicação: Entendemos por comunicação o mecanismo pelo qual existem e se desen-volvem as relações humanas: todos os símbolos mentais e os meios de pro-pagá-los no espaço e preservá-los no tempo. [...] Quanto mais de perto oconsideramos, mais íntima parece sua relação com o desenvolvimento denossa vida interior. [...] Sem comunicação, a mente não se desenvolve deacordo com a verdadeira natureza humana. [...] É através da comunicaçãoque obtemos nosso maior desenvolvimento (Cooley, 1909, p. 61-63). Segundo o sociólogo, pioneiro da teoria da comunicação, [...] pre-cisamos comunicar aos outros a parte de nós que pretendemos desenvol-ver: é uma questão de autoconservação, visto que sem se expressar opensamento não sobrevive [...] (Cooley, 1902, p. 58). A crescente inter-dependência do sistema em que vivemos exige o desenvolvimento dosmecanismos de transporte e comunicação, mas o mais importante nãoestá em seu significado funcional. O principal está na socialização daconsciência, expansão do conhecimento e, por essa via, do desenvolvi-mento da pessoa como indivíduo que tudo isso possibilita, ainda maiscom o surgimento das novas formas e tecnologias de comunicação. O efeito das comunicações no desenvolvimento da natureza humana é, emparte, imediato, pela facilitação dos contatos, mas ainda mais em sentido in-direto, porque favorecem a expansão da inteligência, o declínio das formasde organização mecânicas e arbitrárias e a ascensão de formas de sociedademais humanas (Cooley, 1909, p. 90). Dentro dessa perspectiva, o principal postulado teórico é o de que asociedade se confunde em sua estrutura com a cultura, na medida emque representa um fenômeno gerado simbolicamente pela comunicação.A comunicação é o mecanismo de coordenação da interação social, o que  40 Francisco Rudiger torna possível o consenso entre as pessoas. Em função disso, não podeser reduzida à pura e simples transmissão de experiências, consistindo,antes, no processo pelo qual os sujeitos têm uma experiência comum darealidade, pelo qual constroem seu mundo como coletividade.Os homens produzem artefatos como maquinismos, canetas, casas earmas, que lhes têm serventia, mas só se tornam meios regulares e legíti-mos de realização de determinadas finalidades através do emprego repe-tido por um grupo social, que, para tanto, precisa da comunicação. Essesobjetos todos se tornam artefatos úteis apenas quando seu uso é esclare-cido, quando sucessivas interações perpetuam como tais - artefatos úteis- o que seria de outra forma uma série de coisas inertes e insignificantes.Os homens não agem em função das coisas, mas do significado queas coisas tomam no processo da comunicação. As pessoas se distinguemdos animais pelo fato de se conduzirem simbolicamente: enquanto estesúltimos locomovem-se desviando de coisas, nós escrevemos com a cane-ta, subimos a escada, sentamos à mesa. Os seres humanos lidam com ascoisas para as quais dão sentido, criado por meios dos processos de sim-bolização. O sujeito que entra em um consultório médico, reclamando deuma dor de cabeça , e recebe a notícia de que tem um tumor cerebral podevir a falecer de um ataque cardíaco, provocado pelo significado da ex-pressão, que transforma completamente a realidade vivida e a própriavida do sujeito, embora não modifique em nada a realidade do fenôme-no físico em questão.Portanto, os símbolos pressupõem um consenso, permitindo estru-turar não somente a interação, mas o próprio mundo vivido pelas pes-soas em um determinado contexto social: eles formam a espinha dorsaldo processo da comunicação. No contexto da comunicação, o contato seviabiliza na medida em que, mesmo havendo leitura singular, os símbo-los são reconhecidos coletivamente. Dependendo de um acordo em geralinformal e inconsciente, são eles que permitem aos seus participantesconstituir uma comunidade comunicativa, por mais que varie seu graude entendimento, pois sem aquele acordo prévio e seu reconhecimentomínimo, afirmam os interacionistas, não há comunicação.A comunicação constitui, portanto, um processo estruturado por sím-bolos: é o manejo mais ou menos racional dos símbolos, que não pode serreduzido à transmissão de mensagens, na medida em que os símbolos nãotêm uma função apenas designadora, fazendo parte de uma estrutura so-cialmente dada para as pessoas, que serve, antes de mais nada, para ex-pressar autorrelações, conferir sentido ao mundo para o homem.
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks