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A ÉTICA EM ALAIN BADIOU E A SUA FUNDAMENTAÇÃO ONTOLÓGICA1 Prof. Dr. Norman R. Madarasz2 Proponho-me a discutir, neste artigo, a fundamentação ontológica da ética na filosofia de Alain Badiou. Existe já uma ampla bibliografia3 sobre a ética que Badiou apresentou num livro publicado em 1993, cujos destinatários eram, conforme uma tradição francesa, alunos da disciplina de filosofia no ano “terminal” do ensino médio. Nesse livro, ele orienta a sua apresentação desse campo de reflexão contra alguns
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  A ÉTICA EM ALAIN BADIOU E A SUA FUNDAMENTAÇÃO ONTOLÓGICA 1  Prof. Dr. Norman R. Madarasz 2   Proponho-me a discutir, neste artigo, a fundamentação ontológica da ética na filosofia de Alain Badiou. Existe já uma ampla bibliografia 3  sobre a ética que Badiou apresentou num livro  publicado em 1993, cujos destinatários eram, conforme uma tradição francesa, alunos da disciplina de filosofia no ano “terminal” do ensino médio. Nes se livro, ele orienta a sua apresentação desse campo de reflexão contra alguns alvos da atualidade que acabam aproximando a ética de uma posição ideológica e abre uma discussão crítica contra o discurso dos “direitos humanos”. Mas a sua posição não é apenas crítico-negativa. Na verdade, ela raramente é. Isso porque Badiou pretende, no mesmo gesto, representar a ética nos termos de uma cuidadosa  saída da ontologia, tal como exposta na sua forma completa em  L`Être et l’événement  . 4   Ao pronunciar o termo “saída”, não pretendo salientar uma separação, apenas frisar uma florescência: a ética sai de uma latência por dentro da ontologia de Badiou. Desta forma, a ética desenha uma delimitação em relação aos discursos com os quais a filosofia está relacionada, mesmo se a ontologia proposta por Badiou é imanente aos discursos que condicionam a filosofia. Um dos objetivos nesta aula inaugural é elaborar esta tese segundo a qual a filosofia é posterior a um conjunto de discursos que, ipso facto, a condiciona. Mas a tese  principal é situar como a ética é parte intrínseca da ontologia. Que essa ontologia é redefinida por Badiou como a matemática não cria mais dificuldades que se ela tivesse sido articulada em torno do dizer poético, tal como exemplificado por Heidegger, numa visão desprovida de um sujeito na ontologia. Que a ética possa ser situada na ontologia sugere que Badiou supera a dicotomia posta  por críticos da ontologia fundamental de Heidegger, como E. Levinas, que incansavelmente argumentou em favor da irredutibilidade entre ontologia e ética. Afirmar que a ontologia é imanente, isto é, que não ocupa uma posição fora, nem na beira da tensão vivida em situações de práticas discursivas, implica uma circulação fluida entre ela e os 1  Este artigo reproduz a palestra proferida, em 28 de agosto de 2012, na ocasião da Aula Inaugural do PPG em Filosofia, pelo segundo período do ano de 2012. O autor agradece o convite feito pelo Coordenador do Programa, Prof. Agemir Bavaresco, e todos os presentes, professores e alunos, pela recepção cordial e pelo interesse. 2  Professor do PPG em Filosofia da PUCRS. 3  Por exemplo: Hallward (2000); MacCannell (2005); Critchley (2008). 4  BADIOU, 1988; tradução brasileira, 1995.    discursos denominados anteriormente. Ademais, ao designar uma ontologia, uma ética, e um conjunto de discursos que existe numa relação particular com a filosofia, eu acredito que dá para  perceber os planos de um sistema em construção. Por isso, ao entrar em debate com as teses que estruturam a ética em contextos políticos, científicos, artísticos ou amorosos, isto é, ao sair logo da sua formalidade e da sua generalidade, é imprescindível não perder de vista que a ética de Badiou visa a uma extensão universal. A mera aplicação empírica da ética numa única condição, como é a tendência em Critchley 5 , camufla o seu caráter mais ousado, que é a sua fundamentação ontológica. Para entender bem a proposta de Badiou, a ética deve ser pensada simultaneamente na aplicação aos discursos que condicionam a filosofia e na exposição da sua dimensão formalista.  Nesta aula inaugural, pretendo manter a tensão envolvida no postulado de uma ética inerente à ontologia, cujo caráter imanente aos discursos conexos à filosofia leva a ética a circular também de forma contínua com casos empíricos e históricos. Contudo, a minha pretensão  primária é salientar a srcinalidade de uma ética que, ao se apresentar como uma ética das verdades, aponta, no contexto teórico e histórico francês, para a superação da ontologia fundamental de Heidegger. Essa ambição decorre das críticas formuladas por Levinas e da separação de uma fusão enganosa que Heidegger operou entre matemática e técnica. A filosofia francesa contemporânea  Numa apresentação consagrada a situar o problema específico da ética numa das linhas de  pesquisa que caracteriza o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS, não há como contextualizar nem o pensamento mais abrangente de Alain Badiou, nem a tradição de filosofia francesa contemporânea em que se desenvolveu o seu pensamento. Todavia, na medida em que as primeiras formulações da ética em Badiou são feitas, em grande parte, em relação ao contexto da França após a queda do Muro de Berlim - e o enxugamento da influência internacional da cultura francesa - e, bon gré mal gré,   a filosofia francesa contemporânea, com poucas exceções além de Derrida, Lyotard e Ricoeur, continuava, pelo menos naquela época, a seguir seu caminho  principalmente dentro dos perímetros da hexágona, pretendo tentar recapitular algumas das suas grandes linhas de articulação teórica. Assim, visarei a incluir os principais conceitos da filosofia francesa contemporânea em confronto com aqueles com que a filosofia de Badiou foi articulada. 5  CRITCHLEY, 2008.     No preâmbulo, afirmava-se o caráter sistemático do pensamento de Badiou, e  particularmente a interação entre ontologia, ética e outros discursos. Nesse momento, precisa acrescentar esses planos com o de uma ciência do aparecer e da existência, isto é, com uma fenomenologia rearticulada, apenas para salientar duas distinções no que diz respeito à ética  proposta por Badiou. Ao defender uma fundamentação ontológica da ética, deve-se supor, por conseguinte, uma ontologização  da categoria de sujeito. Frisar o caráter ontológico do sujeito implica sua desobjetificação.   Afirmar que na ontologia haja um sujeito “sem corpo” deve ser entendido em conformidade com aquele postulado da desobjetificação, que avança não tanto uma ideia do sujeito sem objeto, mais a de um sujeito que se pensa  fora da categoria de objeto , ou sem a categoria de objeto. Desta forma,   opõe-se tanto a um modelo de biologizar   o sujeito e a ética, quanto a um de naturalizar   o sujeito e a ética. Nesse óptico, situa-se no âmbito da filosofia francesa contemporânea em que o impacto do prefácio ao Sein und Zeit de Heidegger, tal como a sua reflexão sobre  Ereignis , se deixa vislumbrar. 6   No entanto, o que será, nesse sentido, tão “contemporâneo” na filosofia francesa? Para deparar um entendimento, exploraremos, no primeiro momento, os contornos da significação de “contemporânea” na designação filosófica da “filosofia francesa contemporânea”.  Poderemos começar com uma pergunta geral, a saber: porque a afirmação da temporalidade da filosofia francesa adquire uma dimensão significante bem além do seu momento no tempo, enquanto não encontramos tal extrapolação na expressão filosofia alemã  contemporânea? A mesma  pergunta diz respeito à filosofia analítica contemporânea, aliás, que, em muitos autores da própria tradição, deixa de ter uma referência segura, já que se encontra na fase  pós-analítica ? Contemporânea pronuncia algo além de um momento e de um tempo. Existe certo consenso sobre a periodização desse pensamento, o que não exclui que o contemporâneo está durando bastante tempo. Ao começar pelo próprio pensamento de Badiou 7 , a periodização dessa filosofia cita como srcem ainda o período da segunda Grande Guerra, quando foram  publicados os maiores livros de Sartre e Merleau-Ponty. Porém, no que diz respeito especificamente a uma periodização da filosofia francesa contemporânea, existe uma pré-história que Vincent Descombes relatou de maneira exemplar já nos anos 70. 8  Ela inclui o poderoso impacto dos cursos de Alexandre Kojève sobre A Fenomenologia do Espírito,   interpretação de 6  HEIDEGGER, 1986; 1969. 7  BADIOU, 2012. 8  DESCOMBES, 1977.    claro cunho heideggeriano. Nisso, deve-se mais que aludir ao papel determinante de Levinas, embora nem tenha entrado no livro de Descombes por ainda ser desconhecido nos anos 70. No entanto, Levinas exerceu um papel significante sobre o decurso da filosofia francesa, pois foi ele, malgré tout,   que introduziu na França tanto o pensamento de Heidegger quanto o de Husserl. Porta nto, a designação de “filosofia francesa contemporânea” sugere algo do método em que ela se articula. Igualmente, o qualitativo “contemporânea” evoca algo da tensão conceitual no reconhecimento da coerência em tal designação, apesar das grandes diferenças que ameaçam  periodicamente render à realidade a instabilidade classificatória que tenta cercar a filosofia. Entendemos que a filosofia francesa é contemporânea mesmo sem o ser literalmente. Ao verificar os componentes bibliográficos que determinam o seu campo referencial, que são nitidamente contemporâneos, percebe-se que eles não designam apenas a filosofia francesa atual, nem tudo o que se faz na França hoje, mesmo que não se referem à filosofia produzida num passado que estaria agora superado. A designaç ão “contemporânea” puxa tanto uma periodização quanto uma abordagem bibliográfica, e metodológica. Continuando na pista desta indagação que confronta o caráter temporal com sua dimensão metodológica e bibliográfica, é possível entender que a própria noção de “presente” se torna alvo da análise filosófica. Um dos principais pensadores da filosofia francesa contemporânea, Michel Foucault, certamente advogava em favor da construção de “uma ontologia do presente. Uma ontologia de nó s mesmos” . 9  A reflexão kantiana sobre a atualidade do  Auklärung lhe serve de alicerce para tal ontologia. Ao mesmo tempo, não pode deixar de apontar o lado paradoxal de um  projeto filosófico sobre o presente que, de maneira sistemática, fazia recurso aos arquivos históricos para desenhar genealogias de alguns dos principais conceitos filosóficos. Isto é,  principais conceitos filosóficos da contemporaneidade. Esse descobrimento de Foucault é também o de Jacques Rancière 10 , mesmo que no seu caso mais concentrado sobre a política operária, e, assim, menos conhecido. Nos casos de Foucault e Rancière, evidencia-se que, em muitas circunstâncias, é a própria voz do filósofo, na sua ocupação do discurso do mestre, que lhe impede de voltar a tratar das questões fundamentais da atualidade, bem que estritamente enquanto abordagem filosófica. Em outras palavras, pensar o contemporâneo, ou pensar a partir da contemporaneidade, como gesto espontâneo e imediato, não atesta uma disposição filosófica 9  FOUCAULT, 1984c, p. 111-112. 10  RANCIÈRE, 2012.
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