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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS A igura de Vênus na “Eneida” e em “Os Lusíadas” Michele Eduarda Brasil de Sá(UFRJ/UFAM) 44 Resumo: O presente trabalho pretende mostrar a presença de elementos da “Eneida” de Virgílio na obra “Os Lusíadas” de Camões, a partir de um de seus principais personagens: a deusa romana Vênus. Os poderes e a astúcia da Aeneadum genetrix estendem seu favor ao novo Império cujo valor “mais al
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   A igura de Vênus na “  Eneida ” e em “  OsLusíadas ”  Michele Eduarda Brasil de Sá(UFRJ/UFAM) 44 Resumo: O presente trabalho pretende mostrar a presença deelementos da “Eneida”de Virgílio na obra “Os Lusíadas”de Camões,a partir de um de seus principais personagens: a deusa romanaVênus. Os poderes e a astúcia da  Aeneadumgenetrix  estendem seufavor ao novo Império cujo valor “mais alto se alevanta”, numa obraépica que se inicia no literário, perpassa o histórico e deixa suamarca no imaginário português.Se é verdade que a “Eneida” de Virgílio é considerada umaobra relexa por ter como “inspiração” as epopéias homéricas – Ilíada e Odisséia –pode-se também dizer o mesmo a respeitodaobra “Os Lusíadas” de Camões, cotejada à epopéia virgiliana.Muitossão os elementos que podem ser levantados a im de ilustrar aintertextualidade veriicada na obra-prima portuguesa. O presentetrabalho pretende estudar aigura da deusa romana Vênus, mãe doherói troiano Enéas e fautora de Vasco da Gama e dos portugueses. A deusa Vênus, srcinalmente, é uma divindade itálica da fertilidade,relacionada à agricultura. Apenas a partir do século II a.C. éassimilada à Afrodite grega. 1 A palavra venus, veneris era umsubstantivo comum que signiicava “amor ísico”, “apetite sexual”;possui a mesma raiz de venenum, -i , cuja acepção principal é“encanto”, “magia”, “feitiço amoroso” (BRANDÃO, 1993: 303).Personiicada e divinizada, bem ao gosto dos romanos, a palavraperde com o tempo a sua referência primeira e passa a ser utilizadasomente como substantivo próprio. A deusa do amor é das maisimportantes do panteão romano, não apenas pela sua popularidadeentre os antigos, mas também pelo que ela representa naconstrução da identidade do povo romano. A  gens Iulia (a “famíliaJúlia”), da qual fazia parte Caio Júlio César, contava a deusa Vênus na UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS 504 Anais do Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário: literatura, história, memória  sua linhagem–o que era uma demonstração de status sócio-políticoe religiosamente reconhecido, na época em que Roma construía oseu Império e se expandia no mundo (GRIMAL, 1997: 11, 466).Vênus é mãe do herói troiano Enéias, sobrevivente dadestruição de Tróia. Ele recebe a missão de construir uma novaTróia, tão grandiosa quanto a primeira ou mais que ela, e elevar onome de seus antepassados. A “Eneida” de Virgílio conta a saga deEnéias e, indiretamente, engrandece o nome de Roma entre ospovos e o de seu líder, o Princeps Otávio Augusto, em cuja épocaVirgílio viveu. A respeito da obra, a Professora Zélia Cardoso diz oseguinte (CARDOSO, 2003: 11): “É um poema mitológico e uma ufanistahomenagem ao Império que se formava.”  Talvez o mesmo possa ser dito, mutatis mutandis , a respeitoda epopéia camoniana. Quando a obra “Os Lusíadas”foi publicada(1572), vivia-se o ápice do Renascimento em Portugal, com asgrandes navegações–na direção da expansão comercial e docristianismo– e a consciência da airmação de Portugal como reino,frente à Espanha.O gosto pela Antiguidade Clássica está presente naprodução literária do período e, mesmo sob os olhos constantes daSanta Inquisição, concedeu-se a licença, graças à compreensão doFrei Bartolomeu Ferreira, pois ele justiicou a existência de tantoselementos mitológicoscomo uma necessidade estilística. 2 Diz a Professora Cleonice Berardinelli que“Os Lusíadas”sãoa grande epopéia do Renascimento europeu, especialmente porcausa do “plano mitológico, não atingido pela moral cristã”, patenteem toda a obra (BERARDINELLI, 2000: 321-2).Por esta presença clássica, a “Eneida” de Virgílio foi aprincipal referência para Camões ao escrever a sua epopéia. Emambos os poemas, a deusa Vênus é dos principais personagensmitológicos, ao lado de Juno, sua antagonista na “Eneida”, e de Baco,em “Os Lusíadas”. Neste último, o poeta habilmenteatribui à deusauma certa “afeição” aos portugueses por eles lhe fazerem lembrar osromanos: UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS Anais do Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário: literatura, história, memória 505  Sustentava contra ele Vénus bela,  Afeiçoada à gente Lusitana Por quantas qualidades via nela Da antiga, tão amada, sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina.(Lus. I, estrofe 33) Não apenas este “amor de mãe” adormecido motivava a deusaem relação aos portugueses.O desejo de glória, tão típico dosmortais, fazia parte também da realidade dos deuses greco-romanos(como se costuma dizer informalmente, “deuses feitos à imagem esemelhança dos homens”): Estas causas moviam Citereia 3 E mais, porque das Parcas claro entendeQue há-de ser celebrada a clara DeiaOnde a gente belígera se estende.(Lus. I, estrofe 34) De fato, os deuses na “Eneida” são retratados como maishumanos, se comparadosà narração da “Ilíada” e da “Odisséia” deHomero (CARDOSO, 2003: 17).Por valer-se mais de Virgílio que deHomero, Camões tende a mostrar os deuses também maishumanizados. Na “Eneida”o carinho da mãe, da protetora,acompanha o herói, intervém em seu favor junto a Júpiter, consegue-lhe um escudo feito por um deus e até mesmo cura o ilho ferido emcombate (PEREIRA, 2002: 276).Ainda no Canto I, quando se dirigeao Pai dos Deuses para interceder por Enéias e seus companheiros,ela se aproxima “bastante triste e com os olhos brilhantes, banhadosde lágrimas” (VIRGÍLIO, 2004: 16). Ela mesma, com a ajuda deCupido, acende no coração da rainha fenícia Dido o amor por Enéias.Os fenícios eram protegidos pela deusa Juno, a grande inimigados troianos, que desejava impedir que Enéias viesse a construiruma nova Tróia. Tanto Juno quanto Vênus intentavam unir Enéias à UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS 506 Anais do Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário: literatura, história, memória  rainha: a primeira, para impedi-lo de chegar à Península Itálica,onde seria reerguida a “nova Tróia”; a segunda, a im de que,apaixonada, a rainha não izesse mal ao herói (VIRGÍLIO, 2004: 25).A intenção de Vênus é proteger Enéias, e o amor da rainha Didoé oque pode conservá-lo (PEREIRA, 2002: 256).A rainha, diga-se,acaba sendo o sacriício do amor, pois ela se suicida ao saber queEnéias partiu –pois ele tem uma missão divina, de construir umanova Tróia, que não será na costa da África, com Dido. Esteacontecimento é mais uma chama na ira de Juno, que deseja a todocusto impedir que o piedoso Enéias (  piusAeneas ) cumpra a suamissão divina.O socorro ao ilho ferido na luta contra Turno, já tendochegado à terra do Lácio, é pronto e demonstra a atuação direta dosdeuses na vida dos mortais.Ela age “ocultamente”( occulte ), cercadade uma “escura nuvem”( obscuro nimbo ), porém age, e suamotivação é a dor do ilho, que também a atinge. O adjetivo usadopara descrever a deusa é concussa , de concutio , concussum , quesigniica “sacudir violentamente”, “abalar”, “aterrorizar”. 4 Mais umavez se pode percebersentimentos humanos, o medo e o sofrimento,no coração de uma mãe divina. 5 Hic Venus indigno nati concussa doloredictamnum genetrix Cretaea carpit ab Ida, puberibus caulem foliis et lore comantem purpureo; (...)hoc Venus obscuro faciem circumdata nimbodetulit, hoc fusum labris splendentibus amneminicit occulte medicans, spargitque salubrisambrosiae sucos et odoriferam panaceam.(En. XII, 411-4, 416-9) A Vasco da Gama e aos portugueses,os quais a deusa “adotou”em razão de lhe parecerem os romanos, elalhes dava coniança –edesconiança –para discernir perigos e amigos. Uma ajuda velada,talvez; não tão perceptível quanto o ato de ir buscar plantas parafazer um remédio com as próprias mãos, sem dúvida. Contudo, erauma ajuda signiicativa: Isto assi dito, o Gama, que já tinha UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS Anais do Colóquio Nacional Poéticas do Imaginário: literatura, história, memória 507

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Dec 3, 2017
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