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A Inexistência de Bonecos Negros na Psicologia: Alienação e Racismo no Atendimento Clínico Infantil

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Universidade Católica de Goiás Departamento de Psicologia Centro Afro-brasileiro de Estudos e Extensão A Inexistência de Bonecos Negros na Psicologia: Alienação e Racismo no Atendimento Clínico Infantil
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Universidade Católica de Goiás Departamento de Psicologia Centro Afro-brasileiro de Estudos e Extensão A Inexistência de Bonecos Negros na Psicologia: Alienação e Racismo no Atendimento Clínico Infantil Autor: Avimar Ferreira Júnior Artigo apresentado ao concurso Negros na Sociedade e na Cultura Brasileira, promovido pelo Centro Afro-brasileiro de Estudos e Extensão. Orientadora: Prof.ª Drª Delza Maria Ferreira de Araújo Goiânia Maio de 2004 1 INTRODUÇÃO Por meio dos sentidos suspeitamos o mundo. Desde o nascimento, as pessoas se vêem num mundo de estímulos, que perpassam os sentidos e são significados na relação com o outro, a partir da mediação da linguagem (Bahktin, 1991). Para Mikhail Bahktin (1991) a linguagem é um bem comunitário em permanente construção, que corporifica conteúdos valorizados num determinado tempo, em uma determinada comunidade e, por isso, não é um meio neutro, mas antes reflexo dos processos ideológicos que mediam as relações e que, por sua vez, têm por objetivo mascarar os conflitos imanentes à sociedade dividida em classes (Chaui, 2001; Lane, 1989; Maestri & Carboni, s.d.), ou seja, ela é produto inconsciente, semi-consciente e consciente dessas contradições. Sua função comunicativa possui também uma importante instância de integração e de ocultação das contradições sociais (Maestri & Carboni, s.d.). Por meio da linguagem significamos e somos significados. Deste modo, a nossa identidade forja-se no intercâmbio de linguagem com outros, à medida que começamos a nos ver através dos olhos dos outros (Bahktin, apud Salam, 1999, p. 28). É, assim, que a criança se constitui a partir dos olhos mãe, num primeiro momento, e depois nos do pai e, por extensão, da cultura. Desta forma, Rodrigues (apud Nogueira, s.d.) diz que tal qual qualquer outra realidade do mundo, o corpo humano é socialmente concebido . Nesse sentido, Nogueira (s.d.) diz que discutir o corpo da mulher negra é pensa-lo enquanto signo que reproduz a estrutura social, na qual se circunscreve, e que lhe imputa um sentido particular. No Brasil, esse sentido é o da tripla discriminação: contra a mulher, contra o negro e contra o pobre. O emparelhamento destas três categorias mulher, negro e pobre é devido não apenas aos 400 anos de escravidão oficial, mas paradoxalmente, à própria libertação dos escravos que, como disse Rui Barbosa (apud Magalhães, 2003), alforriou apenas os senhores, condenando os pretos e pretas à miséria, despejando-os da senzala e legandoos à sorte nas favelas, já que no ato da assinatura da Lei Áurea não havia nenhuma política de integração dos negros à sociedade, bem como de salvaguarda de seus direito mínimos de cidadãos. Assim, até há pouco, bater em mulheres, negros e homossexuais, por exemplo, era uma prática considerada se não corriqueira, mas despercebida como uma forma de violência na sociedade (Bandeira & Batista, 2002). À criança negra, de forma mais grave, agrega-se outro elemento de desvalorização, a saber, a infância. Nesse sentido, Munanga (2002) vai dizer que o racismo é um fenômeno complexo (Adorno & Horkheimer, 1985; Carone, 2002; Nascimento, 2002; Piza, 2002), envolto em mitos e fantasias, criadas e fomentadas enquanto estratégias de dominação do povo negro pela elite branca e machista, para manter seus privilégios econômicos, sociais, culturais e psicológicos. Desta forma, o preconceito e discriminação racial são frutos de uma mesma lógica a instrumental (Horkheimer, 1947; 1991), irmãs, nesse sentido, da discriminação de gênero, de classe e, ao mesmo tempo, independente destas, estando acima da mesquinhez dos partidos, ideologias, gêneros, classes e status social (Nascimento, 2002; Bento, 2002). Munanga (2002) compara o racismo a um iceberg, cuja ponta é o racismo manifesto, mas a parte submersa a maior parte, é o racismo não manifesto, presente, latente, no inconsciente dos indivíduos e na linguagem. Este advoga que são a psicologia social e a psicanálise as disciplinas mais apropriadas para se analisar este fenômeno; paradoxalmente, estas ciências pouco têm se dedicado ao tema. O presente artigo pretende discutir não apenas as mediações incidentes e imanentes à inexistência de bonecos negros no CEPSI para uso nos jogos e brincadeiras em psicoterapia e psicodiagnósticos bem como as vicissitudes desta inexistência para os clientes negros e pardos se é que pardo é cor ou raça. 1.1 O Unheimlich A desvalorização do outro, do diferente, sempre foi uma constante na história da humanidade. O unheimlich (Freud, 1919) sinistro, estrangeiro, assombroso, o estranho familiar é aquele que se torna depositário das nossas projeções e fantasias de nosso próprio estranhamento, daquilo que não aceitamos em nós que, assim, permite nos sentirmos livres para odiá-lo e aniquila-lo, justificando a dominação e a exploração (Adorno & Horkheimer, 1985; Freud, 1921; Rouanet, 1998). Nesse sentido, diz-nos Munanga que Qualquer grupo humano, através do seu sistema axiológico sempre selecionou alguns aspectos pertinentes de sua cultura para definir-se em contraposição ao alheio. A definição de si (autodefinição) e a definição dos outros (identidade atribuída) têm funções conhecidas: a defesa da unidade do grupo, a proteção do território contra inimigos externos, as manipulações ideológicas por interesses econômicos, políticos, psicológicos, etc. (1994, p ). Assim, a necessidade de manter a coesão do grupo, enquanto necessidade e expressão da coesão interna, faz com que o sujeito direcione seu ódio ao outro, ao out group, ao diferente: homossexuais, estrangeiros, mulheres, crianças, portadores de necessidades especiais, etc. Se é na rejeição das diferenças que se dá a coesão com os semelhantes, a fraternidade se funda na exclusão (Freud, 1921). Diz-nos Bauman (apud Saceanu, 2002) que cada esquema de pureza gera sua própria sujeira e cada ordem gera seus próprios estranhos, preparando o estranho a sua própria semelhança e medida (p. 141). Na Sociedade do Espetáculo, diz Debord (1977), até mesmo o ódio é transformado em espetáculo, onde a exclusão é um processo que segue um roteiro que vai, no final do ato, justificar a barbárie. É nessa cultura do narcisismo (Lasch, 1983) onde o parecer é mais importante que ser, e tudo em que não se pode reconhecer a si próprio deve ser destruído, que o sujeito é relegado a seu mininal self, paranóico e fetichizado. 1.2 Mulheres, pretos e o pecado Diz-nos Fanon (apud Bento, 2002) que quando a civilização européia entrou em contato com o negro... todo o mundo concordou: esses negros eram o principio do mal... negro, o obscuro, a sombra, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais (p. 32). Mais adiante, o autor diz que o negro representa o perigo biológico, já o judeu o perigo intelectual. Nas representações ligadas à sexualidade, o negro é o primeiro. Quem diz estupro diz negro (p. 39). Na idade média, o diabo era chamado de Cavaleiro Negro ou Grande Negro. Cam, amaldiçoado por Noé, tornou-se negro por seus pecados e, Caim, por sua vez, teve sua face enegrecida, por Jeová, depois de ter matado seu irmão Abel (Bíblia). Desta forma, os europeus se questionavam se os negros seriam descendentes de Cam ou de Caim. São Bento de Palermo, por exemplo, suplicou a Deus que o fizesse hediondo a fim de não sucumbir às mulheres. Deus o entendeu e o transformou em negro, foi desta forma que ele tornou-se São Bento, o mouro (Cohen, p. 39, 1980). Por outro lado, João Cassiano, monge do século V e autor de um dos manuscritos mais antigos e mais lidos sobre os Padres da Igreja, descreve como sujeito à tentação, um eremita atormentado pelo diabo disfarçado em uma mulher negra, impudica e lasciva (Cohen, p. 39, 1980). Desta forma, ligada ou não ao diabo, de Eva à Pandora, a mulher é a expressão do pecado e da futilidade, lasciva e devassidão, menos, é claro, quando ligada à maternidade, onde é santificada enquanto representante de Maria, a mãe amorosa que concebeu sem pecado. Ou seja, essa ambivalência em relação à mulher ora mãe, ora prostituta é reflexo de sua condição social, fruto do processo histórico de segregação e discriminação e, desta forma, ideologia. Engels (1981), nesse sentido, disse que a primeira forma vista pela humanidade de opressão foi a do homem sobre a mulher. Nesse sentido, Maria Nilza da Silva (s.d.), diz que o status da mulher negra no Brasil manifesta um prolongamento da sua realidade vivida no período de escravidão com poucas mudanças, pois ela continua em último lugar na escala social e é aquela que mais carrega as desvantagens do sistema injusto e racista do país, onde os negros ganham média metade dos vencimentos dos brancos e pior ainda para as mulheres negras, que ocupam os posto de trabalho que exigem menos qualificação, sendo que 56,3 % destas são empregadas domésticas (INSPIR et alli, p. 39, 1999). Assim, como nos alerta Nogueira (s.d.), esta herança deixou poucas saídas para mulher negra, ainda que esta encontre outras condições de vida, não é fácil sair desse lugar, Principalmente no que se refere à sexualidade. Mesmo que aparentemente mais assimilados na cultura brasileira, os negros, em particular a mulher negra, se vê aprisionada em alguns lugares: a sambista, a mulata, a doméstica, herança desse passado histórico. 1.3 A infância Ariès (1981), em seus estudos, vai dizer que o sentimento de infância emerge com a modernidade e é intimamente vinculada ao surgimento da vida privada conseqüência do deslocamento da produção da casa para a fábrica, fruto da revolução industrial (Bock, 2000; Rezende, 2003), e a afetividade que se instaura no seio da família burguesa, imputando a esta a função de formação social e moral dos infantes. Lasch (1991), assim, diz que a socialização faz com que o indivíduo queira fazer o que deve fazer e a família é o agente ao qual a sociedade confia essa tarefa complexa e delicada (p. 26). Desta forma, o aprendizado social, que no feudalismo se dava no convívio direto com os adultos, passa então a se dar não apenas pela família, mas também pela escola, e ambas imprimem um lugar para a criança diferente do adulto (Ariès, 1981). Charlot (1971), por sua vez, diz que a criança na modernidade é definida pelos contraditórios é inocente e má, perfeita e imperfeita, dependente e independente, herdeira e inovadora e que estas são compreendidas como própria de sua natureza infantil, justificando as concepções tradicionais de infância, que a tomam como incapaz e sem meios para enfrentar o mundo, cuja função é encobrir seu status desvalorizado, enquanto sujeito a margem do processo produtivo. A criança, desta forma, passou a ser mera expectadora e consumidora dos produtos e idéias concebidas exclusivamente pelo adulto e torna-se, então, um ser cuja condição social é rejeitada, pois é marginalizada econômica, social e politicamente (Charlot, p. 111, 1971). Assim, tal qual o trabalho emancipou-se do trabalhador, o mundo adulto alforriou-se do infantil. 1.4 O brincar Benjamim (1984) nos ensina que a essência do brincar não é fazer como se, mas fazer sempre de novo. É desta forma que a experiência se transforma em hábito. Winnicott (1975), por sua vez, diz que o brincar se dá no espaço potencial, ou seja, aquele lugar-momento que é atemporal e a-espacial, nem interno, nem externo ao sujeito, mas antes é o lugar-momento da troca, da dialética e do simbólico, e por conseqüência, da linguagem e da transmissão cultural. A criança, deste modo, ao brincar não apenas repete padrões culturais mímesis (Benjamim, 1984), mas antes os descobre, testa-os, saboreia-os, significando e re-significando não apenas o mundo objetivo, mas também suas experiências, emoções, afetos e fantasias. No brincar ela extrapola seus limites, inclusive para reafirmá-lo. Desta forma, não é o brinquedo sua complexidade ou o desejo do adulto que lhe presenteara que determina a brincadeira, mas sim o imaginário da criança. Deste ponto de vista, o brincar é da mesma ordem dos sonhos, chistes e atos falhos, apontando, deste modo não apenas para o aspecto objetivo e da transmissão cultural e ideológica, mas também para a dimensão psicológica, subjetiva, num movimento dialético. Assim, é no brincar que o mundo adulto e infantil se interpenetra, trocando informações, afetos e significações. 1.5 Os bonecos negros Se antes os brinquedos eram uma produção coletiva, artesanal, havendo a participação e/ou mediação do adulto, onde se reproduzia a relação artesãoaprendiz, troca de conhecimento e de vida, na contemporaneidade, com a primazia da produção em massa, da divisão social do trabalho, o brinquedo emancipou-se, em uma certa medida, da própria família. Sem a mediação do adulto, o brincar fica empobrecido em seu momento crítico, restrigindo-se à dimensão mimética, repetindo o que não se consegue elaborar, transformando-o em hábito (Benjamim, 1984). É interessante notar que, ao lado das barbies, as bonecas que mais vendem são as das apresentadoras de programas infantis, que, por coincidência, todas loiras. A Indústria Cultural propaga, assim, seu ideal único de beleza branco e anorético, negando a existência dos negros e de sua beleza particular, ao não fabricar bonecos de cor negra, com cintura larga e lábios carnudos. Assim, nos diz dos Santos (2000) que Nesse contexto de reafirmação da existência do belo inerente à qualquer raça, as bonecas africanas, denominadas Abayomis, servem de parâmetro educativo e modelo referencial para as crianças negras, sendo, portanto, o contraponto àquelas feitas à imagem e semelhança das Barbies: Precisamos dispor de bonecas negras para que nossos filhos e netos não se espelhem unicamente nas bonecas industriais, que copiam os padrões anglo-saxônicos. [...] Em uma boneca a criança estuda sua origem racial, brinca de mãe e filha, se reconhece (Lydia Garcia, proprietária do bazar BazzAfro, em Brasília) 2 O CASO CLÍNICO 2.1 O início Os pais de Gabriela procuram o CEPSI Centro de Estudos, Pesquisa e Prática Psicológica da UCG Universidade Católica de Goiás pois ela vinha apresentando muitos ciúmes dos pais. Eles disseram que não podiam se abraçar, beijar, que Gabriela se irritava, partia para cima. Certa vez, inclusive, disse ao pai que não queria que ele fizesse sem-vergonhice com a mãe na casa, pois a irmã podia ver. O pai então relatou que nem anda sem camisa em casa para ela dizer aquilo. Achei estranho e perguntei porque. Ele respondeu que tinha vergonha de seu corpo, se achava gordo, mas já estou fazendo regime. Entre outras informações, o pai foi apontado pela mãe como muito ciumento tanto com a esposa, quanto com as filhas. Fechamos o contrato e passei a ter sessões com Gabriela, nome fictício. Gabriela tem nove anos, é negra, estudante do segundo ano do ensino fundamental, filha mais velha do segundo casamento do pai que tem uma filha de 18 anos do primeiro casamento e outra do segundo casamento de sete anos. Gabriela é bonita, vaidosa, bem arrumada, muito inteligente, com boa fluência verbal, mostrando receptiva aos encontros, consentido com o contato terapêutico. Ao final da primeira sessão, ela me disse que meu pai disse que eu poderia escolher uma mulher, mas não quero. Quero ficar com você. Comentário No presente artigo, os ciúmes de Gabriela não são o foco, apenas trazemos estas informações para situar o leito no contexto do início do processo analítico. Porém, já nos chama atenção que Gabriela é tão ciumenta como o pai, apontando para reprodução de um sintoma que é próprio da família, denunciando um conflito edípico que os pais não conseguem resolver sozinhos. Esse pai, por um lado, mostra-se paralisado diante do ciúme-desejo da filha, e de seu próprio desejo e, por outro, a partir de sua insatisfação com seu corpo, trás em si a marca de um corpo reificado e desvalorizado para além da imagem corporal, como reflexo de um Ideal de Ego inatingível, branco e atlético, fomentado pela Indústria Cultural. Ao mesmo tempo, aparece a ambivalência quando esse pai dá a Gabriela a possibilidade de escolher entre um terapeuta homem e uma terapeuta mulher. Se for verdade que há uma tentativa de sabotagem por conta de seu ciúme, esperando que ela escolha uma mulher, há também o indicativo que este se sente sem forças, castrado, impotente para impor uma terapeuta mulher, e ao mesmo tempo esperançoso de que eu, enquanto especialista, tenha êxito onde ele falhou. Assim Lasch diz que A difusão da nova ideologia de bem-estar social teve o efeito de uma profecia auto-realizada. Ao convencer a dona de casa e, finalmente, até mesmo seu marido, que confiasse na tecnologia e nos conselhos de especialistas externos, o aparato do ensino em massa sucessor da Igreja em uma sociedade secularizada minou a capacidade da família de prover-se a si mesma e assim justificou a contínua expansão dos serviços de saúde, educação e bem-estar (Lasch, 1991, p. 41). Gabriela confirma isso ao dizer que o pai lhe dera a opção e ela decidiu por mim, para, inconscientemente, poder viver um amor que o pai lhe negara, deslocando seu desejo para o terapeuta. Assim, ela demonstra ter claro que a cultura impõe interdições tabus do incesto e do parricídio e que vai ter que procurar outros objetos de amor, e, ao mesmo tempo, com seu sintoma enquanto signo pede socorro, ajuda para entender esse turbilhão de sensações e sentimentos que não sabe traduzir, nomear e, por conseguinte, elaborar que, como veremos, vão para além de ciúme. 2.2 A segunda sessão Ao entrar no consultório, abriu a caixa lúdica, pegou a família de pano composta por um boneca do pai, mãe, avós, empregada, bebê, uma menina e um menino, olhou um por um, pareceu ter gostado do boneco do avô, mas guardou novamente. Começa a contar que seu pai estava quebrado, que estava com muitas dívidas e que depois da sessão eles iriam ao feirão de carros para tentar vender o carro da família e que teve que sair da escola particular aonde estudava para uma pública, mas não gostava muito da primeira, que lá não se dedicava muito, que os professores não prestavam atenção aos alunos. Reportou que na escola atual ela se dedica mais aos estudos, faz as tarefas, e que já fez novas amizades. Pontuei dizendo que mesmo se sentindo bem na nova escola, deve ter sido chato e difícil para ela ter que troca de escola. Ela disse que sim, mas que a vida é assim, que nem sempre se tinha tudo que se quer. Comentário Gabriela, ao falar sobre a crise financeira da família, fala da falência do pai enquanto provedor e cuidador da família, discurso esse já pronunciado por seu pai, na entrevista inicial. A saída da escola particular é um duro golpe, que ela tenta negar ao racionalizar dizendo que a vida era assim. E completa Munanga (2003) dizendo que O racismo no Brasil mantém os negros em péssimas condições socioeconômicas e dificulta seu acesso à educação de boa qualidade e ao mercado de trabalho, entre outros prejuízos. A conseqüência disso é que as crianças, já maltratadas pelo baixo poder aquisitivo dos pais, também sofrem ao entrar para o ensino público. O sistema foi construído com base na realidade da minoria abastecida, ou seja, da classe média brasileira. Assim, além de ser excluídas das escolas particulares, não recebem nas unidades públicas tratamento adequado ao seu desenvolvimento intelectual e emocional. 2.3 A segunda sessão continua Após outras brincadeiras, ela escolhe brincar com o Engenheiro Júnior, um jogo de blocos de madeira, e então começa a construir um castelo, o castelo da Bela e da Fera. Passa a contar que a irmã tinha xingado uma das vizinhas que falavam mal delas de gordas e feias, pois estas tinham muita inveja dela e de sua irmã porque elas eram bem arrumadas e tinham muitos brinquedos. Ai eu perguntei como ela se via. Ela disse que ela se achava bonita, apesar de não gostar da sua cor. Assustei-me. Perguntei, então, porque não e ela respondeu que gostaria de ser branca. Eu disse então que eu era negro e gordo, que então deveria ser feio. Ela disse que não. Que me achava bonito sim. Eu disse que deveria ser tão bonito quanto o Fera. Ela falou, en
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