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A missa em si menor de Johann Sebastian Bach a poética e o trágico.pdf

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626 A MISSA EM SI MENOR DE JOHANN SEBASTIAN BACH: A POÉTICA E O TRÁGICO Katia Regina Kato Justi pkjusti@uol.com.br Doutora em Música pela Universidade Estadual de Campinas Palavras-chave: J.S. Bach; Poética; Missa em Si menor (BWV 232); tra
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  626  A MISSA EM SI MENOR DE JOHA    NN SEBASTIAN BACH: A POÉTICA E O TRÁGICO Kat    ia Reg    ina Kato Just    i  pkjusti@uol.com.br Doutora em Música pela Universidade Estadual de Campinas Palavras-chave: J.S. Bach; Poética; Missa em Si menor (BWV 232); tragédia.  A Missa em Si menor, BWV 232, de Johann Sebastian Bach, é uma obra gigantesca e emblemática, que pode ser entendida como um compêndio da obra do compositor. Um fato relevante sobre a Missa, é a de ter a maioria de seus movimentos srcinados a partir de material parodiado pelo compositor. Assim, muitos estudos envolvendo a dificuldade de readaptação de um antigo material em uma obra nova, incluindo aqui a dificuldade extra causada pela readaptação de um texto em alemão para latino, foram realizados. Porém, na bibliografia existente sobre a Grande Missa, o enfoque dado pelos autores sobre as questões das readaptações permanece apenas no nível de comparação musical entre o material srcinal e sua paródia. Autores como Philipp Spitta (1951), Cristoph Wolff (2009) , John Butt (1991) e George Staufer (2003), apenas para citar alguns, em seus estudos sobre as paródias na Missa, enfatizam apenas a composição musical em si, não dando ênfase aos demais processos envolvidos na sua elaboração. Partindo deste problema, busquei fazer uma investigação da Missa em Si menor, seguindo novos parâmetros, enfocando assim os procedimentos poéticos e retóricos utilizados. Investigando à luz das poéticas clássicas, sobretudo da Poética   de  Aristóteles, e apoiando-se nas teorias musicais alemãs propostas pelos autores da Musica Poetica  , verificou-se a presença de alguns aspectos do pensamento aristotélico na criação artística de Bach. Através dos estudos que envolvem a visão filosófica, retórica e musical no processo de criação musical alemã do séc. XVIII, este trabalho examina uma possível aproximação entre a tragédia grega, principal gênero poético, e a missa católica, cujo grande exemplo trágico-religioso-musical pode ser encontrado na Missa em Si menor. O trabalho se inicia tratando dos princípios da produção segundo a concepção aristotélica, abordando a poética e suas formas imitativas. Seguindo a orientação aristotélica da poética, ou produção artística, temos a imitação como base do processo. Este processo imitativo, que encontra na tragédia sua principal forma, é dotado de elementos possíveis de serem também observados, no que poderíamos chamar, de princípios poéticos religiosos , cujo melhor exemplo de aplicação se encontra na missa católica. Assim, baseando-nos nos preceitos aristotélicos de imitação (mímesis), contidos em sua Poética, pudemos concluir  627 que ambas, missa e tragédia, são imitações de ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], ( Poet. 1449b 24). Pudemos concluir que a missa, como a poesia, imita o sacrifício, ação trágica na qual estão presentes os binômios do castigo-consolação e morte-ressurreição, base das teologias cristãs, que analogamente aos afetos do terror e piedade contidos na tragédia, assumem também uma função catártica. Além disso, na missa, assim como na tragédia, também se encontra um processo pedagógico previsto no procedimento imitativo, que se dá através da observação e vivenciamento da ação trágica. No processo imitativo trágico, a música é parte constituinte e assume um papel primordial, pois, como afirma Aristóteles na Política (V/V §§4-10, 1966), ela é a representação direta das emoções da alma, é a imitação dos sentimentos morais. Ao considerarmos a música também como parte constituinte da estrutura litúrgica da missa, cuja função é, através dos textos dos cânticos e hinos, suscitar afetos nos fiéis, foi possível constatar mais uma analogia com a forma trágica. Assim, tomando a música como um dos elementos da imitação trágica e com base nas categorias de imitação musical propostas por Johann Mattheson, um dos principais teóricos alemães do século XVIII, foi possível uma classificação das formas musicais em que se utiliza a imitação, identificando nelas, possíveis analogias com a forma trágica. De acordo com as três categorias de imitação musical propostas por Johann Mattheson, em seu tratado de 1739 Der vollkommene Capellmeister  , imitação de coisas naturais e afecções de ânimo - imitação de mestre e/ou modelo - imitação de vozes, pudemos constatar que a Missa em Si menor se enquadra nas três categorias imitativas, uma vez que: adotando os princípios poéticos da tragédia, imita afecções de ânimo; através dos movimentos parodiados e das diversas formas de tropo, imita obra de outro mestre ou compositor e finalmente, através do processo de composição musical, imita vozes. Ademais, pudemos também observar que uma ferramenta retórica, o tropo, associado à música, foi um importante elemento que possibilitou uma aproximação entre a tragédia e a missa, sendo ele o responsável pelo desenvolvimento do Drama Sacro, forma teatral sacra inicialmente realizada dentro do rito litúrgico católico, cuja finalidade e funções são análogas às da tragédia grega. Constatamos que, através do desenvolvimento do Drama Sacro, surgiram outras formas trágicas derivadas católicas, como por exemplo as Paixões, além de formas trágicas luteranas, como a Historia   e o  Actus Musicus  . Pudemos ainda observar que a ferramenta do tropo musical, bem como suas variantes, como a metáfora e a alegoria, foi amplamente utilizada por Bach em sua Missa em Si menor. Constatou-se que as teorias Poéticas, mesmo antes do período de Bach, já circulavam através do território alemão tendo como veículos a literatura e o teatro. Uma das formas das Poéticas   chegarem até Bach foi através da  628 aproximação com seu contemporâneo, Johann Christoph Gottsched, teórico, dramaturgo e literato, defensor dos ideais poéticos clássicos, que lhe fornece o libreto para três cantatas, sendo que a música parodiada de um destes textos foi reaproveitada no  Agnus Dei da Missa. Outra forma de aproximação entre tragédia e missa se dá através da investigação da srcem da tragédia grega, das formas litúrgicas que a precederam, os cultos onde eram realizadas, seus participantes, seu formato, sua utilização. Nela foi possível constatar que existe uma analogia entre os ritos pagãos e os sacros no que diz respeito à srcem, funções místicas, mistagógicas, teológicas e pedagógicas, podendo-se considerar a missa cantada uma forma trágica, derivada dos mistérios helênicos. Pela definição da tragédia e de sua utilização no mundo grego, pudemos observar a existência de alguns pontos importantes que se assemelhariam ao rito religioso católico, tais como: o sacrifício, o banquete, o fato de ser uma cerimônia religiosa realizada em honra a deus e com a presença de toda a comunidade, além da própria história do deus Dionísio que, em vários aspectos, muito se assemelha com a história de Cristo. Tais pontos nos levou a supor na existência de indícios muito fortes de uma conexão entre a tragédia grega e o rito religioso católico. No que concerne à composição de sua Grande Missa Católica  , assim denominada por C.P.E. Bach, concluiu-se que nela Bach segue à risca os preceitos composicionais da Musica Poetica  , que prevê a representação musical dos afetos contidos no texto, uma prática corrente do século XVIII. Na Missa em Si menor essa representação será feita com base nos afetos contidos no sacrifício, ela será, portanto, a representação musical do sacrifício. Assim, ela apresenta então uma dupla forma de imitação trágica: uma proveniente da poética, através da imitação da ação do sacrifício e a outra proveniente da retórica, através das representações dos afetos contidos nos textos luteranos que seriam parodiados. Finalizando o trabalho, embasado nas partes da tragédia, como descrito na Poética  , foi possível uma comparação caso a caso entre tais partes e os movimentos da Missa em Si menor, demonstrando a utilização dos diversos artifícios poéticos e retóricos utilizados por Bach em sua composição e como, através deles, foi possível suscitar no fiel o temor e a piedade, cumprindo, assim como na tragédia, a finalidade de proporcionar a purgação de seus sentimentos, impelindo-os em direção à virtude. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁ    FICAS  ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. Imprensa Nacional  –   Casa da Moeda, Lisboa, 2003.  _____________. Pol   ítica. Trad. Torrieri Guimarães. Hemus Livraria Editora Ltda. São Paulo, 1966.  629  _____________. Retór   ica. Trad. Manuel Alexandre Júnior. Imprensa Nacional  –   Casa da Moeda, Lisboa, 1998. BARTEL, Dietrich. Musica Poetica. University of Nebraska Press, Nebraska, USA, 1997. BUTT, John.; RUSHTON, Julian. (Editors). 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Sep 20, 2017
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