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A Morte Apercebida de Ricardo Reis

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Leonardo José A Morte Apercebida de Ricardo Reis A Morte Apercebida de Ricardo Reis 2 A tarde ia longa, o sol projectava as sombras, estendidas até ao horizonte,…
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Leonardo José A Morte Apercebida de Ricardo Reis A Morte Apercebida de Ricardo Reis 2 A tarde ia longa, o sol projectava as sombras, estendidas até ao horizonte, excepto a de Fernando Pessoa, que nem sequer consegue ver-se ao espelho. Sentado de perna cruzada a uma mesa de café, apoiado com o cotovelo sobre esta, sem compromissos, salvo os que tem para a sociedade dos mortos. Ao passar no Chiado, Ricardo Reis piscou-lhe o olho, mas Pessoa não acenou de modo a não denunciar nem a si nem ao seu cúmplice. Metros à frente, vinha Raimundo Silva. Mal sabia ele quando o crime tinha começado, dias antes, não exactamente naquele lugar de Lisboa. Nesse outro lugar, a rua era estreita, uma rampa directa para a avenida. A calçada agredia as solas dos sapatos impecavelmente engraxados. As calças eram um pouco curtas, o casaco era justo, ao contrário das calças, mas não tão curto. A camisa fresca era branca e a gravata azul escura. Sobre o rosto nada se sabe. Os passos acumulavam-se inconscientemente. — Para onde vou? — reflectiu Ricardo Reis, não porque se tivesse esquecido mas porque os filósofos meditam, se bem que já tivesse concluído há muito que não se caminha senão para a morte, para esse vazio profundo. Não podia adivinhar que iria caminhar um dia para a morte, sim, mas para a morte de outro. Leonardo José 3 Ali ao fundo, atravessou a estrada, acompanhado de perto por um desconhecido, um pouco mais baixo, mais velho e mais rechonchudo. — Para onde vai ele? — disse Raimundo Silva, sem entender que estava ali o Horácio português. Ricardo Reis cortou em direção ao rio, Raimundo Silva continuou pelo quarteirão acima. Separaram-se. Ainda que o quisesse, nunca mais Raimundo teria uma oportunidade de tal modo flagrante de conhecer Ricardo Reis, à excepção dos livros. São estas as circunstâncias da vida que ora juntam ora afastam os espíritos dos homens. Finalmente, chegou à editora. Abriu a porta de rompante, despiu o casaco, saudou a supervisora Maria Sara, o revisor sentou-se. Maria Sara adiantou: — Recebemos hoje um telefonema de uma senhora, aflita, a dizer que anda por aí um espírito deambulante — tentou ela surpreender. — Há gente doida! — considerou Raimundo Silva. — Um devaneio decerto, mas o mais curioso é a pessoa a quem a senhora se referiu. — A quem? — obrigou-se a perguntar. — Àquele poeta chamado Ricardo Reis. — Como é possível ela reconhecer alguém que não existiu? Que loucura! — rejeitou imediatamente. — Olha, a senhora afirmou que a descrição feita por Fernando Pessoa coincidia perfeitamente com o homem que ela viu! — tentou convencer. — Ah sim? — devolveu com apatia. — Só por curiosidade, fui à biblioteca consultar a carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, onde o escritor explica os seus heterónimos. Ao falar comigo, a senhora insistia: “um pouco mais baixo, mais forte, mas seco”, “de um vago moreno mate”. Bom, eu disse-lhe que, obviamente, há inúmeros homens com essas características no mundo e que por acaso tinha encontrado um na rua onde mora. A Morte Apercebida de Ricardo Reis 4 Depois acrescentou se tinha apercebido também de um sotaque brasileiro, além de uma postura muito severa, ainda que elegante, típica dos clássicos. Infelizmente, Raimundo não era muito atento, pelo que nem sequer soube identificar os traços daquele homem que minutos atrás tinha encontrado na rua. Apesar de recente na memória, Raimundo não conseguiu vislumbrar Ricardo Reis naquela descrição. Maria Sara acrescentou: — Pois foi aqui que eu comecei a conjecturar editar um livro sobre isto. Não sobre o devaneio da senhora, coitada, mas sobre o perfil de Ricardo Reis, sobre aquela poesia obcecada pela morte. Sabes que Fernando Pessoa é muito polémico, à moda dos poetas modernistas, e sedutoramente misterioso. Vá, tu escreves a história. — Isso é completamente absurdo! — ripostou Raimundo Silva. — Podes começar já a ler alguns poemas de Ricardo Reis. — Esquece isso. — Oh Raimundo, não sejas assim. Nós temos de escrever para desassossegar os leitores. Por falar nisso, faço questão que leias o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. Trouxe da biblioteca ainda outros poemas. Toma. — Então está bem. Vou ler alguns destes textos e entretanto dir-te-ei se estou disposto a compor a obra. Esta terrível decisão de Raimundo iria ditar-lhe um destino que ignorava por completo. Contudo, não havia qualquer tipo de culpa no meio de tudo. No dia seguinte, Raimundo voltou mais confiante. Desde que lera “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” ficara convencido de que Ricardo Reis não era imaginário. Antes de mais, era um homem introspectivo que não ligava ao que se passava fora de si. Apenas sonhava com Lídia, com a beleza, com a paz eterna, e quando descia à terra ficava apavorado com a passagem do tempo. Jamais Ricardo Reis poderia ser uma criação heteronímica do poeta Fernando Nogueira Pessoa, quando muito são amigos. Diz-me como é que um homem pode conceber um Leonardo José 5 personagem que é extremamente céptico? Estaria sempre sujeito a que ele lhe fugisse por descrer do criador, tal como Adão e Eva. Decidido, Raimundo Silva começou a esboçar o texto: “Ricardo Reis regressou a Portugal depois da morte de Fernando Pessoa”. Colocou aí um não na História, porém isto já se espera de quem outrora colocara um padre a voar no século dezoito sem que houvesse provas documentais desse feito. A diferença é que, neste caso, Raimundo Silva ousou dar vida a alguém que só existira no intelecto desse génio Fernando Pessoa. Escreveu o título primeiro e as primeiras linhas. — Pronto. Duas páginas. Por hoje chega. Aí sim, a história estava definitivamente iniciada, só podendo decorrer por aí adiante, o cronómetro já começara a contar. Mas, inocente, Raimundo Silva não pôde calcular as consequências malignas de seu arrojo. Apesar disso, não foi por ter caído no pecado de explorar alguém que o poderíamos condenar. Aliás, graças a Deus, ele libertou a História da prisão. Porém, quando as personagens ganham vida, podem insurgir-se de maneira feroz, como aconteceu com Adão e Eva. Que tomasse cuidado, por favor, porque as almas não apenas se alegram, mas também se enfurecem. Destemido, Raimundo Silva enfiou: — Avisado por meio de um telegrama enviado por Álvaro de Campos, desembarca em Lisboa em Dezembro de 1935. Instala-se no Hotel Bragança, na rua do Alecrim. Lê o jornal e passeia pela cidade. Visita a campa de Fernando Pessoa, no cemitério dos Prazeres. Diariamente observa a estátua de Eça e a estátua de Camões, que até considera ridícula e compara a D’Artagnan. Pessoa aparece morto-vivo no seu quarto de hotel a querer dialogar com ele. Falam sobre vida, morte, poesia… Nos nove meses após o dia da morte de Pessoa, este, tentando passar despercebido pelas ruas de Lisboa, desloca-se do cemitério até ao hotel onde vai encontrar-se várias vezes com Reis, enquanto progressivamente começa a desvanecer-se. Conhece uma criada de hotel, que não podia deixar de ser a mulher sobremaneira invocada, Lídia, como se de uma musa se tratasse. Para completar o triângulo amoroso, surge Mar A Morte Apercebida de Ricardo Reis 6 cenda, uma jovem que apaixona Ricardo Reis. Informa-se diariamente da Guerra Civil Espanhola, da Frente Popular e da expansão nazi, o espectáculo do mundo é esse que se apresenta, com armas belas e guerras plácidas. Ora, ora, Ricardo Reis, não sejas ingénuo, não te contentes com este inferno. Pessoas optimistas nunca vão alterar o mundo. Cansado de viver no hotel, em venturas e desventuras amorosas, aluga uma casa no Alto de Santa Catarina. Tem por hábito contemplar o Tejo, e, em olhando pela janela de sua casa, aborrecido, ocupa-se a observar o imponente Adamastor: que pequeno ficou, superadas as tormentas! Fala com Marcenda Sara por correspondência, à semelhança de Campos com Ofélia. Insiste em escrever-lhe odes e espera, espera por notícias dela, mas, no entanto, é Lídia que, como uma fantasia, o faz manter a esperança. As suas cartas de amor são, tal como as de Campos, ridículas. É verdade que as amarguras de Raimundo Silva ganharam consolo, a esta altura. Cambaleou então adentro da história, abraçou Maria Sara através das palavras. Marcenda Sara fora apenas um refúgio intelectual. Nunca conseguira admitir defronte o seu amor por essa mulher de nome Maria Sara del Río, de ascendência espanhola. A ele encantava o seu sotaque andaluz. Escrevia-lhe cartas de amor, ridículas, as quais ela costumava ler sorrateiramente, desconhecendo a identidade do remetente. Raimundo Silva, contudo, percebia perfeitamente que ela desenhava um sorriso tímido enquanto se deliciava a decifrar os versos dele. Ele concluiu que não podia continuar assim. Durante anos a fio, não se revelara nunca como sendo o cativo. Sem coragem, aproveitou-se de Ricardo Reis a fim de intimar-se com a amada. — Maria Sara, estou a vacilar, não sei que escreva. O que pensas da relação entre Ricardo Reis e Marcenda? — ousou perguntar. Maria Sara hesitou, hesitou tanto quanto ele a escrever. Raimundo Silva não queria senão criar laços e os laços criam-se nas conversas, quando as pessoas se vão roubando umas às outras, pouco a pouco, até se fundirem. — Ficaste embaraçada? — investiu. Leonardo José 7 — Yo? Embarazada? — pronunciou Maria Sara propositadamente. — É isso mesmo, para juntar a tudo, Lídia engravida — fechou a conversa, já tímido. Aqui excedeu-se um pouco, de tal modo que nesta circunstância era capaz de dizer que Deus é má pessoa. De facto, muito vasculhou a vida de Ricardo Reis, enveredou por esse perigo, muito bem, cada um é dono da sua vontade, mas não proteste depois do que provocou e assuma essa responsabilidade. Assim estabeleceu que Fernando Pessoa era livre durante nove meses, cosmopolita em plenitude desde que morrera. Era esta a sua versão. Então não podia queixar-se doravante de ser usurpado pelo poeta se este quisesse inspecionar os textos, ou mesmo se quisesse contestar o facto de estar a meter-se na vida alheia, a de Ricardo Reis, com quem partilha confidências. Bem dito, bem feito: — Houve um assalto à editora! — tumultuou Maria Sara. — O que roubaram? — proferiu calmamente Raimundo Silva. — Ao que parece nada foi roubado. Mas há aqui uns papéis remexidos. — Quais? — Uns papéis mais recentemente escritos por ti. Precisamente sobre o ano da morte de Ricardo Reis. — E a polícia? Já começou a investigar? — Sim. Dizem que o assaltante deverá ser um homem franzino, porque conseguiu enfiar-se pela janela, contudo, provavelmente de estatura média porque também conseguiu trepar até lá. Tem bigode, pois encontraram vestígios deste em cima da mesa, e é míope, caso contrário não teria ido buscar os teus óculos à gaveta só para ler. Deste modo, julga-se que usa óculos, certamente redondos, como é hábito. Fuma, dadas as tamanhas beatas não exclusivamente dentro do cinzeiro, e bebe, dado o intenso cheiro a vinho na papelada. Curiosamente, deve vestir fato completo já que foram achadas, junto à janela, linhas negras de seda, arrancadas a uma gravata, bem como algumas pegadas já dissipadas de sapatos especialmente bons. Além disso, A Morte Apercebida de Ricardo Reis 8 deve usar chapéu, pois foram descobertos cabelos somente sobre a mesa, o que leva a crer que o retirou da cabeça. Estamos perante um gentleman — reportou Maria Sara, bem ao estilo dos jornalistas. Um dia depois, Raimundo Silva destrancou a fechadura da gaveta. Consultava a papelada, desfolhando artigos de jornal, dissertações, partido comunista, Seara Nova, Levantado do Chão, um envelope de cor violeta! Por momentos, teve esperança que fosse uma correspondência de Maria Sara. Mas não, tinha sido mesmo o bandido. — Como é que ele a colocou aqui dentro? Só eu tenho as chaves da gaveta… — balbuciou. Por esta altura, Fernando Pessoa estaria a gozar da sua sobranceria, rindo sarcasticamente da incredulidade de Raimundo Benvindo Silva. Este leu a carta: “Você morrerá daqui a oito dias”. Querendo esconder o medo, Raimundo Silva afirmou determinado: — Vou devolvê-la ao remetente. De novo, Raimundo Silva impôs um não, desta vez à morte. Acreditou ser possível que, quando a morte bate à porta, se feche a porta à chave. Só que ele já tinha aberto a porta, quer dizer, a gaveta, confrontando-se com a morte, segundos atrás, e, além do mais, já outro a abrira antes. Todavia, há quem não precise que a morte lhe bata à porta porque não chegou a entrar para a vida. Tal não era o caso de Raimundo Silva, que amando vivia, e isso lhe bastava. Não obstante, sentiu-se subliminarmente assombrado pela figura invulgar, envolta de mistério, do transeunte que correra a estrada para confluir no Tejo. Apesar da descrição do assaltante não coincidir com o pouco que se lembrava dele, associava-o àquela mensagem cruel. — O que se passa Raimundo? — Vão matar-me, vão matar-me. Oh, vão matar-me… Quando disse isto, perdeu-se. A verdade é que ficou extremamente inseguro. Leonardo José 9 Chorou, em frente a Maria Sara, e ela acariciou-o na face. Arrepiou-o, de súbito, o primeiro afago. Ela tinha os dedos mais mimosos que sentira alguma vez tocarem na sua pele. Entretanto, descobriu-se nas entranhas da natureza e da inconsciência. Não havia medo nem vontade, somente atracção. Permaneceram juntos, cada vez mais juntos, tal como as leis naturais mandavam. Raimundo Silva obedeceu. — Quero só dizer que te amo, querida Maria Sara! Sou eu quem te escreve cartas. Maria Sara beijou-o suavemente na testa. Pareceu fingir que não ouvira aquela declaração descarada. — Vamos para casa — retorquiu. Maria Sara quis ficar na casa dele por uns dias. Piedade. Triste homem – desceu às trevas antes mesmo da morte se anunciar. Marcaram-lhe previamente um limite, como quem diz “Vais viver até aqui”. Mas logo pensou que, se viver é amar, então é como se dissesse “Vou amar até aí”. Alegre homem, ascendeu à luz após o amor se anunciar. Beijaram-se fatalmente. Passou a viver Raimunda. Porém, as horas consumiam-se, Raimundo Silva acabar-se-ia. Enfim, chegara o dia. Estava sozinho. Estudou umas pautas, sentou-se ao piano, dedicou a Maria Sara, Scarlatti, que a música inspira a obra. Um fim de tarde agradável, não fosse, lá fora, surgir um homem com maus prenúncios. De semblante atroz, obscuro, só lhe faltava a gadanha, embora não fosse um esqueleto com capa e capuz. No entanto, vinha mesmo para matar. O cão escutava as notas melódicas com lágrimas nos olhos, tinha compaixão misericordiosa do dono, como se fosse o deus canino, até os deuses têm dono. O homem caminhou compassadamente para a porta. O cão permaneceu recolhido. Não ladrou porque, acima de tudo, temeu o homem, por outro, porque não quis interromper Scarlatti. Tocou o telefone. Era Maria Sara. — Olha, querido, o livro acabou agora mesmo de ser editado. Mas, lamenta A Morte Apercebida de Ricardo Reis 10 velmente, eu própria cometi um erro a transcrever a data da morte de Ricardo Reis. Ficou para mais cedo. — Pois, acontece. Não há problema. Há males que vêm por bem, diz o povo. E o povo, sabes bem, é grande sábio! Em sussurro, o par trocou depois breves lisonjas, aquelas que o amor suscita em dois corpos apaixonados. — Vejo que estás mais sereno. Fico contente por isso. Não tenhas medo. Quem poderia querer fazer-te mal? — confortou-o Maria Sara. Pousou o telefone. Nesse instante, ouviu alguém bater à porta. O cão ganiu e uma lágrima brotou como orvalho. Raimundo Silva estacou num sufoco. Fez-se silêncio. Rodou sobre si. Dirigiu-se até à porta em passos vagarosos. As pernas transportavam o corpo hirto. Desacelerou até à linha de morte. Agarrou finalmente a maçaneta. Demorou-se. Espreitou pelo óculo da porta. Gelou. Ninguém. A morte é invisível aos vivos. Girou a maçaneta. Puxou a porta em redor. Observou a tela cujo quadro era a porta. Prostrado no alpendre estava Ricardo Reis, morto.
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