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  A MORTE COMO CONSELHEIRA – Rubem Alves  Lembra-te,antes que cheguem os maus dias,e se rompa o fio de prata,e se despedace o copo de ouro,e se quebre o cântaro junto à fonte,e se desfaça a roda junto ao poço... Eclesiastes 12, 1-    ! ida est# cheia de rituais para e$orci%ar a &orte. !gora, quando escre o, dia ' de janeiro de 1((1, acabamos de passar por dois deles. ) claro que n*o lhes damos este nome, pois o seu sucesso depende de que o +ome err el n*o seja ou ido. ara isto se fa% uma barulheira enorme de sinos, fogos de artifcio, danças, risos, muita comida, e alegria engarrafada... E tudo isso s/ para que a o% 0ela n*o seja ou ida... +atal n*o  isto +*o e$iste uma triste%a solta no ar 3 esforço desesperado de repetir um passado, fa%er com que ele aconteça de no o Encontrei, certa e%, numa loja nos Estados 4nidos, um pacotinho de er as e temperos num saquinho de pl#stico com o nome5 6perfumes de +atal7. em de ser aqueles cheiros antigos, de infância. !s m8sicas no as n*o ser em,  preciso que as mesmas dos outros tempos sejam cantadas de no o. E que haja o mesmo rebuliço, os mesmos bolos, as mesmas frutas. repara-se a repetiç*o do passado, para se ter a ilus*o de que o tempo n*o passou. &elhor o inc9modo da correria e da ressaca do que a dor de ou ir o que Ela est# silenciosamente di%endo5 6), mas o tempo passou. +*o pode ser recuperado. :oc; est# passando...7 ensar d/i muito. 3 +atal d/i muito.... E samos da depress*o da perda por meio de um outro ritual. olice imaginar que o tempo passou. <ue nada. ) um no o tempo que em. =# muito tempo à espera. 6>eli% !no +o o?7 E, no entanto,  tudo mentira. @erto est# o poeta5 &as o que eu n*o fui, o que eu n*o fi%, o que nem sequer sonheiA  o que s/ agora ejo que de eria ter feito,o que s/ agora claramente ejo que de eria ter sidoisto  que  morto para alm de todos os 0euses...ode ser que para outro mundo eu possa le ar o que sonhei.&as poderei eu le ar para outro mundo o que me esqueci de sonharEsses, sim, os sonhos por ha er,  que s*o o cad# er.Enterro-os no meu coraç*o para sempre, para todo o tempo, para todos os uni ersos... BCl aro de @ampos, oesias, 6+a noite terr el...7D +*o, n*o, a &orte n*o  algo que nos espera no fim. ) companheira silenciosa que fala com o% branda, sem querer nos aterrori%ar, di%endo sempre a erdade e nos con idando à sabedoria de i er.3 que ela di% @oisas assim56onito o crep8sculo, n*o :eja as cores, como s*o lindas e ef;meras... +*o se repetir*o jamais. E n*o h# formas de segura-las. Fn8til tirar uma foto. ! foto ser# sempre a mem/ria de algo que dei$ou de ser... E esta triste%a que a bele%a d# al e% porque oc; seja como o crep8sculo.... ) preciso i er o instante. +*o  poss el colocar a ida numa caderneta de poupança...76:oc; sabe que horas s*o Est# ficando frio... E as cores do outono arece que o in erno est# chegando...763 que  que oc; est# esperando @omo se a ida ainda n*o ti esse começado... @omo se oc; esti esse à espera de algum e ento que ai marcar o incio real da sua ida5 formar, casar, criar os filhos, separar da mulher ou do marido, descobrir o erdadeiro amor, ficar rico, aposentar... @omo se os seus instantes presentes fossem pro is/rios, preparat/rios. &as eles s*o a 8nica coisa que e$iste...76E esta m8sica que oc; est# dançando ) de sua autoria 3u  um 3utro que toca, e oc; dança <uem  este 3utro Lembre-se do que disse o poeta GHou o inter alo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fi%eram de mimI. &as, se oc;  isto, o inter alo, oc; j# morreu... !corde? Jessuscite?7 ! branda fala da morte n*o nos aterrori%a por nos falar da &orte. Ela nos aterrori%a por nos falar da :ida. +a erdade, a &orte nunca fala sobre si mesma.  Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fa%endo com a pr/pria :ida, as perdas, os sonhos que n*o sonhamos, os riscos que n*o tomamos Bpor medoD, os suicdios lentos que perpetramos.6Lembra-te, antes que se rompa o fio de prata e se despedace o corpo de outro7, e que seja tarde demais.4ma das cançKes mais belas do @hico eu nunca ou i tocada no r#dio. enho perguntado, e pouca gente conhece. 0esconfio. ) porque ela  a mansa sabedoria da &orte, que ningum quer ou ir. 0i% assim5 63 elho sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega com certe%a todo o peso de sua ida. Ent*o eu lhe pergunto sobre o amor... ! ida inteira, di% que se guardou do carna al, da brincadeira que ele n*o brincou... E agora, elho, o que  que eu digo ao po o 3 que  que tem de no o pra dei$ar +ada. H/ a caminhada, longa, pra nenhum lugar... 3 elho, de partida, dei$a a ida sem saudades, sem d ida, sem saldo, sem ri al ou ami%ade. Ent*o eu lhe pergunto pelo amor... Ele me di% que sempre se escondeu, n*o se comprometeu, nem nunca se entregou... E agora, elho, que  que eu digo ao po o 3 que  que tem de no o pra dei$ar +ada. Eu ejo a triste estrada aonde um dia eu ou parar. 3 elho ai-se agora, ai-se embora sem bagagem. +*o sabe pra que eio, foi passeio, foi passagem. Ent*o eu lhe pergunto pelo amor... Ele me  franco. &ostra um erso manco dum caderno em branco que j# se fechou. E agora, elho, o que  que eu digo ao po o 3 que  que tem de no o pra dei$ar +*o. >oi tudo escrito em *o... E eu lhe peço perd*o mas n*o ou lastimar7... arece at que o @hico e o orge Luis orges entraram de acordo, pois este escre eu coisa muito parecida5 6Fnstantes5 He eu puder i er no amente a minha ida, na pr/$ima trataria de cometer mais erros. +*o tentaria ser perfeito. Jela$aria mais. Heria mais tolo ainda do que tenho sido. +a erdade, bem poucas coisas le aria a srio. Heria at menos higi;nico. @orreria mais riscos, iajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Fria para lugares onde nunca fui, tomaria mais sor ete e menos sopa. eria mais problemas reais e menos problemas imagin#rios. Eu fui uma desta pessoas que i eu sensata e produti amente cada minuto de sua ida. Eu era uma destas pessoas que nunca ia a parte alguma sem um term9metro, uma bolsa de #gua quente, um guarda-chu a e um p#ra-quedas. He oltasse a i er, iajaria mais le e. He eu pudesse oltar a i er, começaria a andar descalço no começo da prima era e continuaria assim at o fim do outono. 0aria mais oltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se ti esse outra e% uma ida pela frente. &as, j# iram, tenho M anos e sei que estou morrendo...7)? Embora a gente n*o saiba, a &orte fala com a o% do poeta. orque  nele que as duas, a :ida e a &orte, encontram-se reconciliadas, con ersam uma com a outra, e desta con ersa surge a ele%a. !gora, o que a ele%a n*o suporta  o falat/rio, a correria... Ela nos con ida a contemplar a nossa pr/pria erdade. E o que ela nos di%  simplesmente isto5 6:eja a ida. +*o h# tempo pra perder. ) preciso i er agora? +*o se pode dei$ar o amor para depois. @!JE 0FE&?7  >oi esta a primeira liç*o do professor de literatura do filme ! sociedade dos poetas mortos. @!JE 0FE&5 agarre o dia? E o efeito de tal re elaç*o potica, nascida da reconciliaç*o da :ida com a &orte,  uma incontrol# el e$plos*o de liberdade. ) s/ isto que nos d# coragem para arrebentar a mortalha com que os desejos dos outros nos enrolam e mumificam.i e um amigo, =ans =oeNendijN, um holand;s que este e prisioneiro num campo de concentraç*o alem*o. @ontou-me de sua e$peri;ncia com a morte. ! guerra j# chega a ao fim, e os prisioneiros acompanha am num r#dio clandestino o a anço de tropas aliadas e j# fa%iam o c#lculo dos dias que os separa am da liberdade. !t que o comandante da pris*o reuniu a todos no p#tio e informou que, antes da libertaç*o, todos seriam enforcados. 6>oi um grito de lamentaç*o e horror... seguido da mais e$traordin#ria e$peri;ncia de liberdade que jamais ti e em minha ida7, ele disse. 6He eu morrer dentro de dois dias, ent*o nada mais importa. +*o h# sentido em me guardar, n*o h# sentido em ser prudente. +*o preciso pretender ser outra coisa do que sou. osso i er a minha erdade, pois nada pode me acontecer. +*o preciso de m#scaras. enho a permiss*o para a honestidade total. osso ir ao guarda na%ista, que sempre me aterrori%ou, e di%er a ele tudo o que sinto e penso... <ue  que ele pode me fa%er osso ir at aquela mulher que sempre amei mas de quem nunca me apro$imei Bafinal, ela esta a com o marido, e naqueles tempos isto era le ado em consideraç*o...D e pedir licença ao marido para confessar os sentimentos... osso di%er tudo o que sinto mas que nunca me atre i a di%er, por medo7. E me contou dessa e$peri;ncia fant#stica de liberdade e erdade que se tem quando se est# pendurado sobre o abismo. ! &orte tem o poder de colocar todas as coisas em seus de idos lugares. Longe do seu olhar , somos prisioneiros do olhar dos outros, e camos na armadilha de seus desejos. 0ei$amos de ser o que somos para sermos o que eles desejam que sejamos. 0iante da &orte, tudo se torna repentinamente puro. +*o h# lugar pra mentiras. E a gente se defronta ent*o, com a :erdade, aquilo que realmente importa. ara ter acesso a nossa erdade, para ou ir de no o a o% do desejo mais profundo,  preciso tornar-se um discpulo da &orte. ois ela nos d# liçKes de ida, se acolhemos como amiga. O ! morte  nossa eterna companheiraO - di%ia 0on uan, o bru$o. O Ela se encontra sempre a nossa esquerda, ao alcance do braço. Ela nos olha sempre at o dia que nos toca. @omo  poss el algum se sentir importante, sabendo que a &orte o comtempla 3 que oc; de e fa%er ao se sentir impaciente com alguma coisa,  oltar-se para sua esquerda e pedir que a sua &orte o aconselhe. Estamos cheios de li$o? ) a &orte  a 8nica conselheira que temos. Hempre que oc; sentir, como acontece sempre, que tudo est# indo de mal a pior,e que oc; se encontra a ponto de aniquilado, olte-se para sua &orte e lhe pergunte se isso  erdade. Hua &orte lhe dir# que oc; est# errado, que nada realmente importa, fora do seu toque. Ela lhe dir# Oainda n*o te toqueiO.  !lgum tem que mudar e depressa. !lgum tem que aprender que a &orte  caçadora e que ela se encontra a nossa esquerda. !lgum tem que pedir o conselho da &orte e abandonar a maldita mesquinharia que pertence aos homens que i em as suas idas como se a &orte nunca fosse bater no seu ombro.
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