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A Pele Do Texto-Jeudy

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A pele do texto
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   1 « O texto da pele »   por Henri-Pierre Jeudy   ?   Jeudy  H-P., Le corps comme objet d’art,  Armand Colin, Paris, 1998. « É mais fácil representar as formas de um corpo do que a própria pele. Enquanto superfície, a pele parece ser um meio possível da representação sem ser por essa razão representável. A pele, invólucro do corpo, aparece como uma superfície com textura singular, as variantes de sua cor, e como um conjunto de fragmentos que se casam bem com as diferentes formas do corpo. Em  Ensaios sobre a pintura , Diderot escreve o quanto é grande, para o pintor, a dificuldade de traduzir as palpitações da carne por meio dos coloridos da pele. Dar à tinta da pele a riqueza de suas nuances parece sempre impossível, pois esta nos separa da representação do corpo no momento em que experimentamos sua textura, de modo visual ou tátil. Toda representação corporal é por um instante suspensa pelo ato de ver ou de tocar as pequenas saliências dérmicas, como se o invólucro se separasse das formas que ele exalta para tornar-se uma superfície com relevo próprio. Essa é a razão pela qual ela se apresenta de início qual um texto que dispensa a metáfora e a visualização do corpo. Ela não esconde nada. Não se oferece ao olhar como um invólucro que contém alguma coisa e lhe confere uma forma. Essa idéia de uma “pele” que seria preciso romper para apreender uma espécie de essência da coisa  perdura como uma tradição filosófica em que a pele substitui a aparência. Mas ela é apenas uma superfície de registro dos sinais da aparência. Romper sua superfície jamais  permitiria que se visse o que há por detrás, já que a própria pele é um “existir” que se dá a ler, a ver e a tocar. Em vez de considerá-la como uma superfície intermediária entre o de fora e o de dentro, parece que, no dia-a-dia, ela é mais uma superfície de auto-   2 inscrição, como um texto, mas um texto particular, pois seria o único a produzir odores, sons e a incitar o tocar. Um texto, ainda, que jamais se submete às regras do sentido, uma vez que ele só se faz linguagem articulada com uma tatuagem. Curiosamente, a pele retira do corpo seu  status  de objeto, no momento em que ela não é mais percebida como o invólucro das formas. Tal qual uma superfície com seus próprios relevos, ela transforma o corpo-objeto em corpo-texto. O vocabulário utilizado em literatura para descrever os coloridos da pele não consegue jamais transcrever a variação e a superposição das tintas; só permite a sugestão, pois o corpo-texto se esquiva de qualquer posição de objeto que a ele se queira dar. Que a pele do corpo possa tornar-se um texto confirma o fato de uma exibição involuntária. As proezas desenvolvidas para disfarçar essa fatalidade de uma revelação  provam que esse modo de exibição não é procurado, que ele se impõe ao olhar e parece dizer sempre demasiado em relação ao que imaginamos ser. A pele, tal qual um texto que se escreve sozinho, nos trai. E a vontade de não ocultar nada ao olhar do Outro, não hesitando em mostrar os traços nela escritos pelo tempo e pelos efeitos da decrepitude, só faz confirmar o poder irresistível dessa exibição. Esta se completa ao longo da vida com as manifestações da decadência corporal, cuja exibição voluntária, praticada para ostentar uma liberdade radical em relação às convenções estéticas, só produz obscenidade. A pele  já é escrita. Seus traços, suas marcas, suas cicatrizes, suas rugas tanto são sinais visíveis e  palpáveis que revelam toda a ambigüidade da percepção do corpo. Morto ou envelhecido, o corpo não se torna por isso mais feio; é a escrita natural da pele que confere a  possibilidade de uma estetização que o tempo não saberia destruir. A cicatriz pode ser um elemento de horror ou uma marca de honra. Na maior parte das vezes, ela inspira uma estética da visão apenas em uma relação amorosa, quando não é mais percebida como um machucado. É o olhar do Outro que tira da cicatriz sua monstruosidade aparente. Se a tatuagem ou a escarificação se mostram com o prazer de um desafio lançado aos olhos de todos, a cicatriz se esconde como um sinal indelével de uma degradação física. A obstinação em fazê-la desaparecer graças aos feitos cirúrgicos traduz bem essa vontade de retirar da pele qualquer traço visível da degradação corporal. A cicatriz é uma marca súbita, uma marca do destino que parece anular o idealismo da beleza baseado na integridade do corpo, representada pela superfície lisa da pele. Pelo fato da cicatriz se   3 tornar um sinal pessoal, um sinal exclusivo do ego, é preciso que o olhar do Outro não seja de reprovação, manifestando o que se chama comumente como o horror de um desastre. Uma mulher acaba de sofrer uma operação como conseqüência de um câncer no seio; ela não suporta a visão desse machucado, que dilacera sua pele. Encara uma intervenção cirúrgica para atenuar a marca que a obseda. Entrementes, tomada por uma terrível angústia da morte, ela põe a comer mais e mais, tornando-se obesa. A cicatriz se encontra, então, envolvida pela carne e quase se assemelha a um cânion . Essa mulher apresenta-se a um cirurgião, um renomado professor. Despe-se e senta-se nua sobre uma cadeira. Alguns residentes se apressam em torno dela enquanto o eminente cirurgião, com o testemunho de seu assistente, explica em um tom moralizador que qualquer intervenção só será possível no dia em que essa mulher decidir emagrecer, ficar sem comer e sem fumar. Se ela quer voltar a ser bela, apesar do câncer, que torna particularmente precária a duração potencial de sua vida, deve fazer o esforço de combater sua angústia de morte  por uma necessária privação. Se ela não o quer, cabe-lhe aceitar seu estado presente e se acostumar com a imagem de sua monstruosidade. Um tal cinismo revela o quanto o critério moral da beleza se apóia na dívida: se você quer voltar a ser bela, será preciso  pagar muito caro, pois sua doença lhe condena à decadência e à morte. Quando a cicatriz  permanece como o sinal tangível da culpabilidade nascida da degradação do corpo, sua  possível estetização depende unicamente do poder do Outro. O indivíduo machucado não chegará jamais sozinho a transformar a marca de sua dilaceração em sinal de beleza. Eros é sempre a juventude. Todavia, quando olhamos o rosto enrugado da Vecchia  de Giorgione, em Veneza, somos tocados pela estranha beleza dessa mulher. O tempo não se mede mais por nada, nem pela morte, nem pela evidência de seu esvaziamento. O corpo, tal qual será após o falecimento, já está presente, como se a expressão da velhice tivesse o  poder de representar seu estado eterno. Essa estética da decomposição do corpo e das marcas que ela deixa é uma preocupação fundamental dos pintores. As pinturas de Jan Van Eyck ( O homem de turbante vermelho, A virgem do cônego Van der Paele ) revelam todos os detalhes dos efeitos da velhice e da doença sobre o corpo: as rugas que estriam a fronte, os pés-de-galinha no canto dos olhos, os raros cabelos brancos, a pele das mãos ressecadas e com fissuras. É a representação da presença da morte antes da morte que confere a esses retratos de anciãos uma beleza inquietante. Se uma estética da decrepitude   4 é possível, ela se baseia tanto na riqueza dos detalhes da fragmentação do corpo quanto na visão antecipada da morte. No entanto, se dizemos cheios de amor e de sinceridade: “Suas rugas são maravilhosas!”, uma tal afirmação parece ser mentira, justificada pela intenção de jamais destruir a ilusão da beleza. De uma maneira bastante cínica, a referência ao quadro serve para tornar eterna a beleza da velhice. O rosto enrugado é olhado como uma pintura, pois esta maneira de ver suspende de imediato toda ambivalência do desejo pelo simples efeito de uma sublimação estética. Por volta de 1500, Gregor Erhart esculpe três corpos de costas um para o outro, um casal de jovens e uma velha senhora. O conjunto é intitulado Vanitas . A jovem tem belos e pequenos seios levantados e seu ventre, ligeiramente arredondado, apresenta uma cor leitosa, ao passo que a velha tem seios esqueléticos e caídos, uma boca torcida e desdentada, um ventre e coxas cuja pele enrugada e flácida fica caída e rachada, como se todo o circuito venoso aparecesse concomitantemente com as costelas do tórax e os ossos dos braços e das pernas. O uso do tríptico para mostrar os diferentes estados do corpo serve freqüentemente para a apresentação do elo entre a vaidade e a beleza, como evocação do destino fatal de todo corpo, por mais magnífico que ele seja. Isso não é uma lição de moral! A certeza da decomposição torna-se inerente à fascinação pela beleza  presente. O horror da velhice não pode continuar escondido, torna-se mais insuportável que a própria morte. Apesar de toda vontade de transfigurar o corpo decrépito em objeto de arte, jamais os seios caídos sobre a caixa torácica envolvida por uma pele enrugada  poderão parecer belos.  Vanitas : o que quer que você faça com seu corpo, o destino de sua decomposição é imutável. A velhice vem lentamente, as rugas se instalam uma a uma, as dobras da pele se cruzam no fim dos tempos... Vanitas : o tempo passa bem mais rapidamente do que imaginamos e os sinais da decrepitude estão aí antes mesmo que os  percebamos. Eles se escondem nos segredos da pele do corpo. É melhor apreciar desde agora esse pé-de-galinha no canto do olho, pois ele não desaparecerá jamais. A questão é então a reversibilidade do tempo: por que não veria eu no corpo da mulher velha aquele da jovem que ela foi? Por que a decrepitude indicaria um tempo irreversível? Os sinais da decomposição corporal revelam sempre outros sinais que demonstram de uma maneira realista a progressão da velhice, e as imagens do corpo  jovem, capazes de se enfiar na frente do velho para ocultá-lo, parecem produzidas pelos
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