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A Peste e Outros Macróbios em Mau Tempo no Canal

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University of Massachusetts Amherst From the SelectedWorks of Francisco Cota Fagundes 2003 A Peste e Outros Macróbios em Mau Tempo no Canal Francisco Cota Fagundes, University of Massachusetts - Amherst
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University of Massachusetts Amherst From the SelectedWorks of Francisco Cota Fagundes 2003 A Peste e Outros Macróbios em Mau Tempo no Canal Francisco Cota Fagundes, University of Massachusetts - Amherst Available at: https://works.bepress.com/francisco_fagundes/2/ FRANCISCO COTA FAGUNDES UNIVERSITY OF MASSACHUSETTS AMHERST Fonte deste ensaio: Fagundes, Francisco Cota. Desta e da Outra Margem do Atlântico: Estudos de Literatura Açoriana e da Diáspora.Lisboa: Edições Salamandra, A Peste e Outros Macróbios em Mau Tempo no Canal À memória dos meus Padrinhos, Manuel e Mariazinha Rocha 1 Adoptando a expressão do médico brasileiro Miguel Pereira, poder-se-ia afirmar, sem receio de exagero, que Mau Tempo no Canal (1944) é passível de ser visto como um imenso hospital. 1 As suas principais personagens não só sofrem de doenças várias na verdade, uma variedade tão grande que precisaríamos de páginas e páginas para as enumerar todas, mas a doença constitui um dos principais padrões metafórico-simbólicos de que Vitorino Nemésio se serve para conseguir a tão celebrada plurissignificação do romance. Para além dos padrões imagéticos relacionados com as díades clima/atmosfera e fauna/flora, o maior número de imagens no romance está aliado a algum tipo de doença, se concebermos a doença nas suas numerosas acepções e ramificações que compreendem, para além das doenças pessoais (a diabetes de Januário, as doenças crónicas de Charles Clark e da macróbia Secundina e a agorofobia da baronesa da Urzelina), o disfuncionalismo intrafamiliar e interfamiliar das duas famílias principais do mundo diegético nemesiano: os Clark Dulmo e os Garcia. Aliás, Vitorino Nemésio parece ter, ele próprio, sugerido, em vários momentos do romance, a ideia de hospital. Atentemos, a título de exemplo, nas seguintes passagens: Na Horta, o convento velho estava transformado em hospital de isolamento; viam-se à noite as cabeças das enfermeiras encostadas aos vidros, um movimento de luzes e batas brancas ao longo dos 1 O Brasil é um imenso hospital. Citado por Moacyr Scliar, in A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura Brasileira (São Paulo: Editora Schwartz Ltda., 1996). Futuras referências a este livro serão incluídas no texto. 2 corredores 2 (102); pensemos no grande asilo que D. Maria Josefa mandara construir em São Jorge para inválidos de ambos os sexos (298); ou recordemos ainda, para darmos apenas mais um exemplo de tantos os que poderíamos aduzir, a situação de Roberto e Margarida na casa da Pedra da Burra, Ali fechados, sem médico, com a pequena a tratar de um pestoso naquelas condições (211). Estes exemplos serão quanto basta para concedermos a possibilidade de que estes espaços fechados sob aquele imenso céu [do arquipélago] de algodão sujo [...] o mormaço apaga[ndo] os contornos do mar e da terra, e, amolecendo os pastos à custa da pele do proprietário e do pastor, dilui[ndo] as vontades, da[ndo] a homens e a coisas uma doença quase de alma que os ingleses chamam Azorean torpor (325-26), possam configurar a ideia dum enorme, monstruoso hospital, que ora abrange todo o arquipélago com o seu capote de nuvens abafadiças, ora se aperta concentricamente à volta duma população insularizada, aprisionada, como que quarentenizada, imagens estas a que voltaremos depois. Note-se ainda que, como indicam a maioria das citações transactas, uma das doenças, aliás a mais polivalente do romance tese que aqui pretendo defender, é a peste bubónica, doença esta que, pelas suas quase inesgotáveis possibilidades metafóricas e simbólicas, Vitorino Nemésio privilegiou acima de todas as outras no romance em epígrafe. Apresso-me a dizer que a peste, conquanto desempenhe, como seria de esperar, um papel predominantemente metafórico e simbólico no romance para além de possibilitar uma teia enorme de ramificações intertextuais e intratextuais, como veremos a seu tempo, não deixa também de figurar na sua acepção literal, referencial, primária. Conquanto não seja meu desejo 2 Todas as citações do romanc reportam-se a Obras Completas, vol. VIII, Intro. de José Martins Garcia 3 deter-me na tão rebatida questão da teoria da metáfora, recorrerei aos conceitos celebrizados por I. A. Richards do veículo e tenor. A exploração referencial da peste digamos, o veículo da peste do romance, em oposição ao tenor, muito contribui para o carácter dramático da obra. Alguns dos seus quadros mais realistas a morte de Emília, o episódio da doença de Manuel Bana, a morte e funeral de Roberto, estão relacionados com a peste, independentemente das suas ramificações metafóricas ou simbólicas. No plano referencial, a peste equivale à peste, como na peça A Peste Branca (1937), do checo Karel Čapek, e La Peste (1947), de Albert Camus que, conquanto sejam vistas, respectivamente, como metáfora da invasão Nazi e metáfora da ocupação Nazi e da condição humana, não deixam de ter valor também como crónicas duma epidemia, embora imaginária; como, em sentido inverso, A Journal of the Plague Year (1772), de Daniel Defoe, conquanto haja sido já chamada um docudrama (Scliar, 112) da peste de Londres de 1665, também não deixe de ser, apesar disso, uma obra de arte metaforizadora de certos aspectos da condição humana. No seu sentido literal, a peste em Mau Tempo no Canal é outro elemento constitutivo da componente histórico-verídica da experiência açoriana, tal como o são, nesse mesmo plano de evocação romanesca da história, o terramoto de Vila Franca, a erupção vulcânica da Urzelina e os ataques da filoxera aos vinhedos do Pico. O conhecido facto do pai de Vitorino Nemésio ter morrido da peste bubónica não pesará pouco, embora não pudesse eu comprová-lo, na opção do Autor em privilegiar esta doença. Nemésio também se refere à peste de 1908 na Terceira. Aliás, e nesse sentido, a peste não é a única doença com estatuto histórico no romance: no primeiro capítulo João Garcia diz a Margarida que a sua papelada não chegou ao Instituto a tempo de ele entrar para a Marinha devido à influenza (40) 4 uma provável alusão à pandemia histórica de 1918 (embora, se assim é, o narrador nemesiano esteja a incorrer num anacronismo: no começo do romance estamos em 1917!) que matou cerca de 20 milhões em todo o mundo e que é conhecida em inglês como The Spanish Lady. Mas se bem que a exploração referencial da peste muito contribua para o carácter dramático e histórico-verídico do romance, essa dimensão está longe do papel representado pelo potencial metafórico e simbólico dessa doença. Aliás, poder-se-ia dizer que a máxima potencialidade da peste em Mau Tempo no Canal radica na sua capacidade de concomitância, isto é, de simultaneamente veiculizar, no sentido já referido, e tenorizar, no sentido a explicar. Como a parte tenor da metáfora que é, a peste está associada a/e reforça as emoções negativas na luta entre as duas principais famílias do romance. Mas, como veremos depois, também está associada aos poucos indícios da salvação através do comprometimento, da harmonia e do amor. Nos seus vários alcances metafóricos a peste prende-se, em parte, à noção aristotélica da metáfora com base na semelhança ou analogia. Contudo, a peste não se esgota como metáfora na configuração ou reforço na configuração, dos ódios e emoções afins entre as duas famílias, o que aliás coloca este romance na órbita palimpséstica de várias obras da literatura sagrada e secular, incluindo a tragédia shakesperiana Romeu e Julieta. A peste possibilita, de facto, um escopo ainda mais abrangente: o de interligar temática, metafórica e simbolicamente, numerosos elementos constitutivos do romance com os quais não tem relação aparente, desde o título do romance, à caracterização dalgumas personagens principais, a alguns dos seus símbolos mais desafiantes e recônditos. Como tem sido largamente reconhecido pela crítica que, entretanto, segundo pude verificar, nenhuma atenção tem dado ao papel desempenhado pelas doenças no romance, Mau 5 Tempo no Canal contém, a muitos níveis, uma unidade muito coesa. A extraordinária riqueza e subtileza de trato das imagens da doença em geral, e da peste em particular, permite-nos não só reforçar esta noção de densidade e coesão mas, inclusivamente, revisitar alguns dos elementos constitutivos da sua tão celebrada Açorianidade. Muitas doenças são metáforas para o desarranjo social, familiar, psicológico e moral. Poucas doenças, porém, têm o escopo tropológico da peste. Para começar, a sua etimologia prende- -se à noção de violência. O termo plague em inglês deriva do grego plege e do latim plaga (pancada). O termo peste em português deriva do latim peste. Mas o nosso lexema praga também deriva do latim plaga o que quer dizer que os termos peste e praga andam etimológica e semanticamente de mãos dadas. Em inglês, o termo está associado a, entre outros lexemas, affliction, scourge, blight, blast e stroke. Veremos que a etimologia da peste tem bastante importância em Mau Tempo no Canal. Metáfora poderosa para a contaminação ou contágio pois a peste é uma doença transmissível daí ser ela um veículo mais do que adequado para metaforizar o ódio e emoções afins. O cancro, doença do século XX por excelência (como a tuberculose o foi do XIX, como a SIDA o é das últimas décadas do século XX e concebivelmente continuará a ser do século XXI) não teriam esse poder analógico: a metástese lavra interiormente, mas no mesmo indivíduo, ao contrário do bacilo Pasteurella pestis que é sempre exógeno e que se pode contrair de e transmitir a outrem. 3 Na Bíblia a peste (em várias das suas acepções, pois peste sempre denotou vários tipos 3 Para uma discussão sobre a metaforização da tuberculose, cancro, e SIDA, veja-se Susan Sontag, Illness as Metaphor and Aids and its Metaphors (New York: Anchor Books, 1989). 6 de doenças epidémicas) é empregue como arma e agente divino, por exemplo a mão de Deus (Ex. 9:3, 15); castigo divino, por exemplo as pragas enviadas contra Job, que têm feito pressupor a sua culpabilidade perante Jeová. O salmo 78(77) enumera os numerosos eventos históricos em que interveio a mão de Deus, recompensando e castigando o seu povo. Nos versículos 49 e 50, afirma o escritor (o salmo, como se sabe, costuma ser atribuído a Asaf) uma série de calamidades enviadas pelo Senhor como castigo, servindo-se de anjos malignos: Descarregou contra eles o Seu furor, a indignação, a ira, a opressão, uma multidão de anjos da desgraça ; Deu livre curso à sua ira, não os preservou da morte, entregou as suas vidas à peste. 4 Um dos símbolos associados à peste é a serpente. A serpente, causadora e aliviadora da peste, é parte d Os Vedas e da tradição clássica e cristã. 5 Na Bíblia (Nm. 21:6) o Senhor enviou contra o povo serpentes ardentes, que mordiam o povo, e muitos morreram em Israel. Mas o caduceu, vara em volta da qual se enrolam, em sentido inverso, duas serpentes símbolo polivalente, como veremos é o emblema da medicina e, com a adição do almofariz, emblematiza a farmacologia. Apolo, o Senhor Arqueiro, é quem envia as flechas da peste em O Rei Édipo, de Sófocles, e na Ilíada, castigando, respectivamente, os Aqueus pelo rapto perpetrado por Agamémnon, e a cidade pelos pecados do seu rei o homicídio e o incesto. Na Ilíada o Deus Solar é evocado ainda sob o nome Esminteu, nome este derivado dum palavra que significa rato, portanto outra associação com a peste. Mas conquanto seja o que castiga com a flecha pestífera, Apolo tal como Jeová que envia as serpentes da peste e alivia a peste (veja-se, por exemplo, Nm. 21: 8-9) é 4 A edição utilizada é a da Bíblia Sagrada, Versão dos textos originais (Lisboa: Difusora Bíblica, 1976). 5 Veja-se Raymond Crawfurd, Plague and Pestilence in Literature and Art (Oxford: At the Clarendon Press, 7 o que pode suspender a praga. A peste como configuradora de castigos, iras, ódios e rancores; e alguns símbolos da peste a serpente, o rato, a flecha estão todos, mais ou menos ostensiva ou subtilmente, presentes em Mau Tempo no Canal. Constatar que o veículo da peste como tenor do ódio e emoções afins no seio das famílias e entre as duas famílias principais de Mau Tempo no Canal tem a sua contrapartida em Shakespeare não seria, talvez, tão convincente se o romance nemesiano não fosse, como de facto é, passível de ser lido como uma paródia moderna da célebre tragédia Romeu e Julieta, aspecto este que aqui não poderei desenvolver, mas a que algum dia pretendo voltar. Salientem-se, de momento, esse ódio entre Capulets e Montagues impeditivos da relação amorosa entre os jovens amantes e causadores da tragédia; e os ódios entre a família Clark Dulmo e Garcia preventivos, em parte, do desabrochar da relação entre João Garcia e Margarida. Acresce, já num plano ostensivamente paródico, que a tragédia do par nemesiano se baseia numa falta de coragem da parte dos potenciais amantes, pelo menos dum deles, João Garcia que morrem a morte indigna de se reconciliarem com as forças que os separaram (o patriarcalismo, o classismo, o comodismo), ao contrário dos amantes adolescentes de Shakespeare que dão a vida numa última afirmação do amor perante aqueles ódios que compreensivelmente se esvanecem só após o sacrifício deles. Há críticos que apontam para o carácter camiliano de Mau Tempo no Canal. 6 Que eu saiba, não é costume referirem-se à tragédia shakesperiana, se bem que seja nesta, e não no romance de Camilo Castelo Branco onde a doença não aparece como metáfora ostensiva, ou até mesmo subtil, para os ódios entre as famílias de 1914), 4ss. Futuras referências serão dadas no texto. 6 Veja-se José Martins Garcia, O Drama Camiliano de Vitorino Nemésio, Colóquio/Letras, 119 (Jan.-Mar. 8 Simão e de Teresa, que está patente a ideia da peste como metáfora dos ódios interfamiliares. Aliás, é o próprio Vitorino Nemésio quem, subtilmente, insinua a relação palimpséstica entre a tragédia shakesperiana e o seu romance, ao fazer com que a bluestocking D. Corina Peters diga a Margarida, no contexto da leitura da carta de João Garcia, que Uma amizade assim tão desinteressada [como aquela que Margarida dizia ter com o filho de Januário Garcia] não fazia Julietas... (85). Acresce que, imediatamente a seguir a esta alusão à tragédia shakesperiana, a personagem Margarida refere-se explicitamente aos ódios entre as famílias Clark Dulmo e Garcia: Quer quer a prima! Não sabe que lá em casa detestam a família dele? Queria que eu convidasse o rapaz para um chá?! (65) A relação directa, ostensiva entre a peste e o ódio e a violência não ocupa muito espaço em Romeu e Julieta. É no entanto uma ideia que Shakespeare considera suficientemente importante para a reiterar. Ela surge quando Tybald luta com Mercutio e o fere, provocando da parte do moribundo a célebre praga, I am hurt; / A plague o both your houses! praga esta que é repetida pouco depois quando Mercutio está a morrer (III, i). No fim da peça, o Príncipe de Verona usa outro termo associado com a peste, scourge, para se referir ao ódio entre Capulets e Montagues: Where be these enemies? Capulet! Montague! / See, what a scourge is laid upon your hate, / That heaven finds means to kill your joys with love! / And I, for winking at your discords too, / Have lost 1991), a brace of kinsmen: all are punish d (V, iii; itálico meu). 7 Seria ocioso discorrer acerca dos consabidos ódios e rancores, motivados sobretudo pela atitude de superioridade aristocrática dos Clark Dulmo e a demissão de Januário; e, da parte deste, pelo desejo de vingança e de ascensão aos privilégios daquela classe. (Não é de admirar, diga-se de passagem, que Januário, o sedento de riqueza e de estatuto, esteja associado à doença da sede: a diabetes.) Esses ódios assumem foros de guerra, a julgar pela imagética utilizada por e associada a Januário. 8 Não seria de esperar, dum escritor do calibre de Vitorino Nemésio, que a relação analógica entre a peste e os ódios e rancores intra- e interfamiliares fosse ostensivamente apregoada. Tal como Shakespeare, Vitorino Nemésio apenas sugere esta ligação deixando, por outro lado, que a presença da peste por todo o romance, a contagiosidade do bacilo e a presença de vários símbolos, como a serpente, o rato e as flechas, falem por si. No entanto, existem alguns momentos no romance em que a relação entre o veículo da peste e o tenor do ódio é feita mais ou 7 Romeo and Juliet, in The Complete Works of William Shakespeare, The Cambridge Edition Text, as edited by William Aldis Wright, including the Temple Notes, Illustrated by Rockwell Kent, with a Preface by Christopher Morley (Garden City, New York: Doubleday & Company, Inc., 1936), 333; 350. A outra refercia à peste ocorre no Acto V, ii a explicação que Frei John dá a Frei Lawrence no que respeita à impossibilidade deste em sair de Verona para ir a Mântua entregar a carta de Frei Lawrence a Romeu, o que teria impedido a tragédia. 8 São numerosas as imagens bélicas e de violência em geral associadas aos ódios e rancores da parte de várias personagens; a maioria, porém, está associada a Januário ou ocorre mesmo em discursos proferidos por esta personagem. Aqui ficam alguns exemplos: O orgulho é um pouco dos dois lados... disse Januário, mantendo uma imparcialidade penetrante, de espada até meio (85); Faremos tudo pelo melhor, minha senhora disse Januário, movendo a espinha enlambada na profunda sobrecasaca e verificando-lhe o forro como quem apalpa uma pistola (86); Todos os meios são bons quando se trata de um fim elevado como é este: esmagar esse tratante do Dulmo, que os ia pondo a pedir! (221). As imagens bélicas não são, porém, exclusivas a Januário. Notar a imagem de guerra usada por Margarida para se referir à carta que João Garcia lhe enviara, por Manuel Bana, do quartel: Aquelas palavras miudinhas traziam-lhe uma mensagem estranha como se um cabo-de-guerra, reunido com o adversário num ponto cómodo da frente para preparar o armistíscio, preferisse recorrer outra vez a parlamentares, com cláusulas unilaterais (144) (itálicos meus). É importante, no contexto destas imagens bélicas no romance, e do uso da peste para, em parte, metaforizar os ódios e a violência no texto, atender aos paralelos entre o microparasitismo duma doença infecciosa e o macroparasitismo de operações militares. Veja-se, a este respeito, William H. McNeill, Plagues and People (Garden City: Doubdleday, 1976, 53 ss. 10 menos explicitamente, embora com uma economia reminiscente daquela que, como vimos, emprega Shakespeare nas suas referências à peste. Não é de surpreender que estes momentos de associação entre peste e ódio (e vingança, expiação) que estão implícitos em todo o romance, mas que agora emergem de modo mais explícito estejam associados a experiências, falas ou sonhos de quatro das personagens que foram mais atingidas pela peste, no seu sentido mais literal, e pelos ódios por ela veiculados (como propagadores desse ódio e/ou suas vítimas): Henriqueta Garcia, João Garcia, Margarida Clark Dulmo e Roberto Clark. O caso de Henriqueta é único no romance pelo que à peste e ao ódio diz respeito. Aliás, esta personagem é não só um dos principais veiculadores do ódio associado à peste mas uma das figuras mais intimamente ligadas a dois elementos que atingem importância decisiva em Mau Tempo no Canal: a presença, no enredo, da componente crime e castigo ; e pela sua associação ao arquétipo do bode expiatório, de que Emília é o primeiro mas não o único exemplo no romance. É por demais sabido que os ódios de Henriqueta abrangem a dimensão intrafamiliar e interfamiliar. Interfamiliarmente, Henriqueta é, com o irmão Ângelo, uma das figuras encorajadoras do ódio bélico movido por Januário contra a família dos Clark Dulmo. E é ela uma das principais responsáveis, senão a mais responsável, pelo ódio intrafamiliar, sobretudo aquele que fez de Emília Garcia uma das principais vítimas (do ódio da família e da peste que, metaforicamente, sobretudo no que a Henriqueta e a Emília diz respeito, são uma e a mesma coisa). A subtileza com que Vitorino Nemésio trabalha a transmissão do
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