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A Peste Lacaniana e a Clinica

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   A peste lacaniana e a clínica Uma Clínica na/da falta Sérgio Scotti Por que falar de uma peste lacaniana na clínica? Pressupõe-se que estejamos falando da clínica psicanalítica. Mas, aí já se configuram outras questões que são: a de qual clínica psicanalítica que é empesteada por Lacan e por que a proposta de clínica psicanalítica deste último seria considerada uma peste? De imediato, poderíamos pensar que, conforme se tem discutido há muito em muitos lugares, a clínica desenvolvida por Lacan teria vindo fazer o papel de uma peste nos meios psicanalíticos em que desenvolveram-se propósitos como o de, por exemplo, fortalecer o ego do paciente ao mesmo tempo em que a psicanálise didática era artificialmente separada da psicanálise propriamente dita. Faz sentido pensar que diante destes propósitos e outros que foram abalados pelos questionamentos e pela própria prática lacaniana das sessões de tempo variável, ou pela consideração maior ao significante do que ao significado, a clínica de Lacan poderia sim, ser considerada uma peste, ou, no mínimo, uma pedra no sapato daqueles que se guiavam e queriam guiar outros por padrões mais burocráticos - desde o tempo estrito da sessão, à análise da resistência antes da interpretação – do que clínicos. Mas, por outro lado, poderíamos pensar o oposto e considerar que, na verdade, a proposta de Lacan seria o antídoto e não a peste para uma clínica psicanalítica que pretendesse estar de acordo com o preceito freudiano de que o sujeito deve advir na análise e não o ego do analisante, ou do analista, ou do psicólogo, ou do dentista como graceja Lacan. De que lado está a peste, a princípio, poderia nos levar a considerar a questão a partir de um certo ponto de vista que estaria mais de acordo com a proposta lacaniana ou a outra, ou, ainda, considerar que o atributo de pestilenta  depende do jogo de forças que confere maior ou menor prestígio a uma proposta ou outra. Contudo, parece-nos que, irremediavelmente, a clínica lacaniana contém   2 a peste em si mesma, e que isso independe de qualquer termo de comparação. Pois, segundo sua proposta, o que ela subverte sempre, em qualquer análise, é aquilo que estabelece a distância entre o sujeito e seu desejo ou seja, as coordenadas determinadas por suas identificações egóicas e super-egóicas que, por sua vez, garantem seu gozo.  A clínica lacaniana promove e até mesmo tem como condição, a retificação subjetiva que coloca o sujeito diante de sua implicação no gozo do sintoma. Neste sentido, ela interfere na economia de gozo e torna-se, por assim dizer, o vírus que altera o funcionamento do neurótico e o coloca diante da questão de seu próprio desejo. Desejo e sujeito que, na verdade, são construídos durante a própria análise. Nessa construção não há qualquer ideal ou modelo que possam garantir a priori  um critério de cura. A cura, se é que assim pode ser chamada, configura-se, de certo modo, com o surgimento de um sujeito singular, até certo ponto, estranho mesmo para aquele que o porta, pois que é um sujeito sempre inacabado. Inacabado no sentido de que é justamente um sujeito de falta, a falta, a castração que se buscava evitar na estratégia neurótica. Portanto, trata-se de saber o que cada sujeito em sua análise, irá querer fazer com essa falta. Concepção muito diferente de uma clínica que tenha como pressuposto qualquer ideal de saúde ou normalidade que na falta de um critério ou referencial objetivo, apóie-se no ego do próprio analista, projetado no analisante. Pensando-se bem, o vírus, a peste, é a falta mesma. É dela que não se quer saber na neurose, na clínica, na cultura. Enquanto a cultura der ao homem os objetos que possam obturar essa falta, enquanto a ciência produzir os saberes que possam ilusoriamente dominá-la, enquanto a psiquiatria ou a psicologia puderem dizer o que falta ao homem, tudo estará bem. Enquanto a própria psicanálise puder explicar ao sujeito porque ele age assim ou assado, também tudo estará bem. É justo quando a psicanálise se recusa a explicar, quando ela convoca ao sujeito dizer a sua própria verdade, é que ela se torna peste. Não que ela própria seja a peste mas, porque ela é o arauto - como o foi Freud se a história for verdadeira - da falta de quem ninguém quer saber.   3  E é justamente, de forma paradoxal, essa falta que sustenta a clínica lacaniana. Na sua douta  ignorância, o analista irá instar o analisante a falar tudo o que lhe vier à mente, instalando-o assim, ele, o próprio analisante, no lugar do sujeito-suposto-saber. Se o analisante passa a bola para o outro lado, é na esperança de poder manter à distância a falta que aparece quando lhe é indicado, pela regra fundamental, que é no sem sentido de sua fala que está o sentido de sua verdade. Verdade que é a do desejo, desejo inconsciente. Mas será que o que o analisante evita, será que o que ele teme é o seu próprio desejo, recusado à consciência?  A pressuposição de saber atribuída ao analisante, num giro de 180 o , retorna ao analista, fechando o círculo, instalando o analista no lugar do sujeito-suposto-saber. O analista, no lugar do Outro, mostra sua falta quando, dirigindo-se ao analisante, aquele suposto ignorante, lhe pede que fale tudo e qualquer coisa. Ora, isso deve valer alguma coisa mas, se vale, não é por si mesma, pelo que é dito pelo próprio sujeito mas, por alguma coisa que o analista enxerga ali. Muito bem, aí temos, novamente, o Outro restituído à sua completude. Como no fantasma, o analisante se faz objeto para o analista, objeto de desejo. Objeto que falta ao analista, para o seu suposto-saber, mas, também, objeto que satisfaz ao se oferecer como aquele que poderia ser decifrado, compreendido. É por isso que, ao identificar-se com este suposto-saber, o analista até pode restituir, via interpretação, o saber sobre si mesmo que falta ao analisante, o saber sobre a srcem de seus sintomas ou, sobre o seu(s) desejo(s) inconsciente(s). Contudo, retorna a questão: será isso que o analisante teme? O que está para além ou, aquém do desejo? O que acontece se o círculo não se fecha? Se o analista relança a questão para o analisante, a respeito de seu desejo, instando-o ainda, a dizer mais alguma coisa ou, pelo contrário, impedindo-o de continuar o blá-blá-blá ao, por exemplo, interromper a sessão?   4  O que acontece quando o analista se recusa e, aos poucos, vai desfazendo esse lugar de Outro que o analisante lhe reservou? O que acontece é que fica preservado o lugar da falta. Essa que é a peste. Contra ela, e contra todo mal estar que ela provoca, no sujeito, na cultura, se armou em alguns lugares, na própria psicanálise, toda uma parafernália teórica, cultural, social, política e clínica para restituir ao analista um lugar de saber que o coloca ao lado do mestre, que deve então ser seguido. É por aí que entendemos a peste lacaniana na clínica, o que não deixa de ter suas implicações éticas, culturais e institucionais. Ela é peste porque não se ocupa de preencher o lugar da falta com o Outro e até mesmo tem por objetivo destituí-lo. Daí seu caráter virulento, antes de mais nada para o próprio sujeito que encontra aí seu ponto de parada pois que, na falta de significantes que dêm conta de seu ser, o que ele encontra é um vazio que só pode ser bordejado pelo significante, e o que se encontra aí é tão somente um ser de falta. Essa falta ou, chamemo-la por seu nome, essa castração de ser para a qual tantos antídotos são criados, a começar pelo amor que é o que sempre se demanda, é o que a clínica lacaniana ou, a bem dizer, a clínica psicanalítica coloca ou deveria colocar a nú, e isso escandaliza. Não há Outro e isso escandaliza. Diante da falta de ser, diante da falta no Outro o sujeito se faz objeto, se faz assujeitado. A peste que a clínica lacaniana introduziu no seio mesmo da psicanálise, e também na cultura, é justamente aquilo que se quer manter distante, sob controle, impedido de se manifestar, o sujeito e sua falta constitutiva aquele que porta o desejo inconsciente. Paradoxo existencial que coloca para o homem sua própria existência como um problema. Um problema do qual não se pode fugir que no inconsciente teima em se mostrar nos seus efeitos. O problema da peste é que ela tende a se alastrar, ela contagia. Se nos perguntamos por que, já estamos contagiados. Se o sujeito se pergunta pelo sentido de sua própria existência ou, se o sintoma o faz perguntar-se por isso, e não se satisfaz com as respostas habituais, é sinal de que está com a peste.

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