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A Política e a Diferença “Masculino” e “Feminino”, “Homens” e “Mulheres” Nos Debates Atenienses Sobre Poder, Política e Cidade

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  A Política e a Diferença: “masculino” e “feminino”, “homens” e “mulheres” nos debates atenienses sobre Poder, Política e Cidade I-   Identificação da proposta: O projeto propõe uma investigação sobre o investimento dos filósofos do final do séc. V e do séc IV a.C ateniense nas distinções de gênero para a inflexão da  polis  como dimensão institucionalizada do espaço social ligada às atividades de governo, condução e mando. O principal objetivo é demonstrar como se tornou possível e viável  principalmente a esses filósofos a concepção da  polis  como a arena política, como o locus  institucionalizado do debate e da ação em torno do poder ( kratos  e arché ), lidando ao longo do percurso com a construção das diferenças entre masculino/feminino, homens e mulheres, governantes e governados, fazendo emergir a conexão desse investimento político nas relações de gênero com a existência de outros espaços  possíveis da experiência política, como a habitação, a cidade em sentido estrito ( astu ) e o corpo. De certo modo, pode-se dizer que se trata de uma arqueologia  do discurso teórico sobre a política ateniense; mas que subentende uma  genealogia  do poder naquilo que o constitui como kratos  e arché a partir das determinações da diferença sexual. II- Qualificação do principal problema a ser abordado 1. A partir de finais do século V e por todo o século IV a.C., formaram-se  principalmente nas casas de certos cidadãos abastados na cidade de Atenas e em suas imediações, alguns núcleos de encontros que poderíamos denominar intelectuais,  primeiro sediados nessas casas particulares e bem depois disso constituindo escolas como a de Platão, na Academia, e a de Aristóteles, no Liceu. A discussão da formação desses grupos não é o propósito central da pesquisa, mas eles interessam na medida em que, em seu âmbito de relações de amizade permeadas de companheirismo político, os filósofos formularam, pela primeira vez, a questão teórica  da  polis . Essa primeira teoria relacionava-se a um contexto cujos contornos ideológicos foram consolidados pela  historiografia em uma imagem das chamadas “ facções”, heterie : diante da  polis dos atenienses constituída por    uma multidão cujo nexo com a propriedade da terra era por demais tênue ou inexistente, grupos aristocráticos defendiam o fechamento do corpo de cidadãos para médios e grandes proprietários, sendo o governo restrito aos “melhores”, ou seja, à própria aristocracia ou aos “belos e bons” homens pertencentes a ela (Canfora, 1994). Dessa maneira, ressalte-se, sempre que, quando nós, historiadores, citamos Xenofonte, Platão, Aristóteles para conferir contornos a noção de  polis , entabulamos um diálogo com autores que se confundiam com uma agenda política oligárquica e, através dessa prática relativamente nova de análise  e teorização, propunham idéias  baseadas na confluência entre hegemonia social e liderança política dos “poucos” ( oligoi ) na cidade. Apesar de concordarmos com essa identificação ideológica dos autores com as elites atenienses simpáticas ao que se convencionou chamar “oligarquia”, este não será o nosso ponto de partida. Isto porque o ponto de vista que frisa a importância da “ideologia oligárquica” só pode ter êxito na medida em que privilegia, na ordem do discurso, primeiro, a problemática das intenções conscientes ou motivações inconscientes de um autor; depois, a determinação do sentido do texto por sua organização interna, sua estrutura lógica, semântica, que, quando decodificada, nos conferiria acesso aos meandros da valoração ideológica. Homogeneidade que dispõe no  princípio a finalidade da análise, aprisionando a leitura naquilo que o pesquisador já sabe de antemão por regular-se a partir de um campo de saber constituído como a História das Idéias, a História Política ou a Filosofia. O contexto histórico que se delineia a partir das premissas desse campo não nos basta, na medida em que não nos  permite visualizar, precisamente, para além das idéias traçadas de modo homogêneo, as “sobras”, pretextos do discurso que levam além e abrem o texto para uma realidade um tanto mais contraditória e segmentária, na qual diversos contextos possíveis ligados à  produção, circulação e apropriação das palavras atribuídas aos filósofos restam ainda ser descortinados. Sem esses parâmetros dados pelo campo, abordar um texto ou um conjunto de textos da “literatura clássica” não é uma tarefa simples. Por isso mesmo, entendemos que a monotonia com a qual esses textos vêm sendo analisados pelos especialistas em História Antiga, sobretudo depois de mais de quatro décadas de discussões sobre o texto como documento, sobre a fonte, sobre o discurso como sentido e como prática, etc, nos diversos campos das ciências humanas, da filosofia, antropologia, lingüística, da própria  história e dos estudos de gênero, é inquietante. Muitas questões que foram formuladas no âmbito de estudos sobre o mundo moderno, sobre as sociedades contemporâneas, e que levaram à perspectivas que valorizam a prática discursiva (como Foucault, Veyne, Said, etc), as práticas de leitura (de Chartier a De Certeau), a dimensão cotidiana do consumo e apropriação dos textos (Ginzburg, De Certeau), podiam ter reverberado entre os historiadores da Antiguidade, mas isso não aconteceu, ainda, senão timidamente em contribuições que, em existindo, não conseguimos mapear. Ao invés disso, modalidades de compreensão que, de algum modo, subentendem na matriz textual uma substância a-histórica, separada da vida e da produção histórica de uma sociedade real pela abstração do concreto pensado 1 , continuam a legitimar alguns interpretantes e interpretações, silenciando outros. Um exemplo disso é o estudo e a tradução do  Econômico , de Xenofonte, feito por S. Pomeroy e terminado em 1991 (publicado pela primeira vez em 1994). Trabalho primoroso de pesquisa que se ocupou da biografia de Xenofonte, das datas de composição do diálogo, do estabelecimento e da recepção do texto na Antiguidade e na Europa moderna; trabalho exaustivo, repleto de referências e que  podemos dizer “coroado” pela autoridade da própria pesquisadora, a mesma Sarah Pomeroy que se tornou uma das pioneiras nos estudos de história das mulheres na Antiguidade ao publicar, no começo da década de 1970, Godesses, Whores, Wives and Slaves . Apesar disso, a autora opta por seguir o caminho mais fácil porque construído de antemão, autorizado pelo campo. Separa o “público” e o “privado” para argumentar que o diálogo de Xenofonte se atém ao “privado”, como sintoma de uma época em que os interesses privados tenderão a suplantar o interesse público subentendido pela cidade 2 . Reproduzindo modelos adquiridos de uma tradição literata, Pomeroy acaba por adotar o estranho cânone de se traduzir a palavra ethnos  por “ sexo”, na passagem que se segue:  Mas porque ambos devem dar e receber, aos dois deu em partes iguais a memória e o  zelo. Sendo assim, não poderias distinguir qual povo (ethnos), feminino ou masculino, tem mais desses dons. Fez também que fossem igualmente capazes de controle de si e deu-lhes licença para que quem fosse o melhor, homem ou mulher, assumisse para si 1  MARX  2  - “(...) Disgust with politics, service as a mercenary rather than as a citizen-soldier, and life as an exile debarred from political activity may have induced him to turn away from de public sphere for some time to a consideration of the private realm (…)” (1994:5). Minha discordância tanto em relação ao  Econômico  como obra de cunho privado como em relação à própria dicotomia público-privado tal como utilizada no argumento de Pomeroy é discutida em Andrade, 2002, pp, e retomada em 2005 e 2007.    parte maior desse bem. E pelo fato de que, por natureza, nenhum deles possui todas essas capacidades, têm muita necessidade um do outro de modo que o par é muitíssimo vantajoso para cada um deles, pois um é forte daquilo em que o outro falha. (VII, 26-28; trad. nossa) Em todas as traduções modernas do texto de Xenofonte de que tivemos conhecimento, a palavra ethnos  aparece como “sexo”, e tal é uma das possibilidades de sua compreensão segundo o Lidell-Scott; mas o mesmo dicionário etimológico remete unicamente a esse trecho de Xenofonte para corroborar o significado. Ora, trata-se de um círculo vicioso: como não temos outra forma de compreender a designação de masculino e feminino, e para nós o uso de ethnos  não faria sentido como “povo” em uma tradução, legitima-se um sentido e obscurece-se, com isso, uma diferença. Como historiadora atenta a questão feminina, Pomeroy parece ter deixado passar uma chance de, ao menos, surpreender-se com essa assimilação pouco evidente das duas expressões. Da mesma maneira, os estudos clássicos têm reproduzido uma compreensão do universo da política ateniense partindo da figura central, pública (cidadão) e privada (chefe do oikos ), do anêr kalos kagathos , o homem belo e bom, dirigindo-se nas concepções políticas a uma prática de “cultivo” ( agogê ), de formação da base dessa classe especial para o governo da  polis . A confluência entre cidadão, homem de elite e instituição política transformou-se, de fato, numa imagem predominante para se compreender aquilo que a historiografia da Antiguidade Greco-romana habituou-nos a denominar espaço político  (ver, por ex., Veyne, 1984; Meier ou o próprio Vernant).  No que diz respeito ao foco dessa pesquisa, isso não esgota a questão, não diz tudo o que se poderia dizer sobre o contexto de discussão da  polis , da política e das formas de comunidade pelos “intelectuais” em Atenas. Deveríamos, de fato, começar  por pensar o texto como produto destinado a um consumo que é, sim, passível de apreensão. Para isso, seria necessário aplicar a crítica do lugar de produção não apenas a  posição social do autor em sua relação com a ideologia, mas principalmente à ordem do discurso . Isto não significa voltar às raízes semânticas, ao oculto de uma ordem simbólica e estrutural. Poderíamos, de fato, substituir “ordem”, aqui, por “economia  política”, espécie de gestão de recursos para fabricação do texto como produto, como matéria  para um consumo  social. Percebe-se, de imediato, que se a hegemonia social da aristocracia explica a valorização da kalokagathia,  por exemplo, o mesmo não se dá quando focalizamos os meandros da produção, da circulação e do consumo social das idéias sobre distinções de gênero. E, no entanto, a importância dessa questão nos

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