Documents

A política econômica do governo Médici

Description
A política econômica do governo Médici: 1970-1973 José Pedro Macarini Professor do Instituto de Economia da Unicamp Palavras-chave Brasil, ditadura militar, política econômica. Classificação JEL E65. Key words Brazil, military dictatorship, economic policy. JEL Classification E65. Resumo Este artigo examina a política econômica durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, período que se tornou conhecido pela descrição oficial do auge cíclico então em curso como se fora um ciclo desenvolvim
Categories
Published
of 40
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  n ova Economia_Belo Horizonte_15 (3)_53-92_setembro-dezembro de 2005 A política econômica do governo Médici: 1970-1973  José Pedro Macarini  Professor do Instituto de Economia da Unicamp Resumo Este artigo examina a política econômica du-rante o governo de Emílio Garrastazu Mé-dici, período que se tornou conhecido peladescriçãooficialdoauge cíclicoentãoem cur-so como se fora um ciclo desenvolvimentis-ta capaz de prolongar-se por décadas proje-tando a superação do atraso. Na primeiraparte, examina-se a gestação de um projetonacionalpeloregime, desaguandonoprojetoBrasil Grande Potência, o qual se apoiou nomodelo “agrícola-exportador” como a suaestratégia de desenvolvimento. Na segundaparte, procede-se a uma detalhada reconsti-tuição da execução da política econômica – com ênfase nos aspectos relacionados à con-cepção estratégica anunciada, à sustentaçãodo crescimento e ao tratamento dispensadoà inflação. A análise evidencia alguns aspec-tos peculiares da conjuntura 1972-1973, su-gerindo tratar-se de um momento distinto(umasegundafase)daadministraçãoMédici. Abstract This article focuses on the economic policies of the Emílio Garrastazu Medici administration.This period became known for the official description of the then ongoing economic boom,as if this boom were a real developmental stage that would lead to prolonged growth for decades,thus pulling the country out of its backwardness.In the first section, we will examine the creation of a national project by the military regime,leading to the “Brazil: a Great Power” project,which was based on growth in exports of agricultural products as its core development strategy. The second section presents a detailed summary of the conduct of economic policy – with emphasis given to aspects concerning the core strategy announced, to sustained growth and to stabilization policy. The analysis highlights some specific aspects of the 1972-1973 economic scenario, suggesting that this represents a different  period (a second phase) in the conduct of economic  policy during the Brazilian “miracle”. Palavras-chave Brasil, ditadura militar,política econômica. Classificação JEL E65. Key words Brazil, military dictatorship,economic policy. JEL Classification E65.  1_Introdução  A evolução da economia brasileira e dapolítica econômica durante o regime mi-litar foi objeto de freqüente atenção dosestudiosos, o que permitiu consolidar pro-fundo conhecimento acerca do período. Algumas lacunas permanecem, porém.Uma delas diz respeito à política econô-mica do governo Médici. O objetivo des-te artigo é contribuir para um conheci-mento mais aprofundado deste tema. A literatura existente tendeu a tra-tar em bloco, como se fora um continuum  ,o período mais longo iniciado em 1967(governo Costa e Silva) e abarcando ogoverno Médici. Esse enfoque terá sidoestimulado por fatores como a continui-dade de comando da política econômicasob Delfim Netto, a explícita inflexãopromovida em 1967-68, a predominân-cia de uma orientação expansionista namaior parte do período – e a conjunturade crescimento acelerado, descrito à épo-ca na imagem do “milagre brasileiro”.Contudo, tal perspectiva, conquan-to adequada para certos propósitos, nãoconfigura um retrato fiel do movimentoda política econômica, o qual foi bemmais complexo e não-linear. Assim, odiscurso (e a práxis) delfiniana de 1967-1968 não se projetam facilmente sobretodo o período até 1973; é possível argu-mentarqueumanovainflexãodapolíticaeconômica ocorreu em 1969 (sob o efei-to da mudança de conjuntura política de-cretada pelo AI-5); o “milagre” despontaapenas na virada de 1969 para 1970; a“visão de mundo” delfiniana (o “modeloagrícola-exportador”) somente adquire oestatuto de núcleo estratégico da políticaeconômica no governo Médici – e dis-crepa da visão elaborada no Planejamen-to; e o impressionante expansionismo dapolítica econômica de curto prazo em1972-1973 se fez num cenário totalmen-te distinto do observado em 1967-1968,devendo ser apreciado nesse contexto.Nesse sentido, a leitura proposta nesteartigo enfatiza as descontinuidades reve-ladas pelo movimento da política econô-mica da ditadura.Este artigo se propõe examinar apolítica econômica do governo Médici nosseguintes aspectos;1. a sua orientação estratégica, materi-alizada no projeto Brasil GrandePotência e tendo o “modelo agrí-cola-exportador”deDelfimNettocomo a sua base de apoio: a suareconstituição requer breves re-ferências a episódios anterioresda política econômica (o PAEGdo governo Castello Branco, e oPED do governo Costa e Silva); n ova Economia_Belo Horizonte_15 (3)_53-92_setembro-dezembro de 2005 A política econômica do governo Médici 54  2. a execução da política econômicade 1970 a 1973, com referênciaseja aos aspectos diretamente re-lacionados àquela orientação es-tratégica, seja à evolução da con-juntura; um tratamento à parte édispensado ao subperíodo 1972-1973, tendo em vista as caracterís-ticas específicas dessa conjuntura. A pesquisa realizada trabalhou fun-damentalmente com a literatura gerale especializada relativa ao tema, docu-mentos oficiais doperíodoeartigos een-trevistas das autoridades econômicas pu-blicados em jornais e revistas. O artigocompõe-se de quatro seções: esta intro-dução, a reconstituição da estratégia dedesenvolvimento, o exame da execuçãoda política econômica ao longo do perío-do e algumas considerações finais. 2_ A estratégia de desenvolvimento 2.1_ Gestação do projeto nacional:Brasil Grande Potência  A ideologia político-econômica tecida du-rante o governo Castello Branco foi com-posta de ingredientes muito singelos: nalinha de frente, o combate sem tréguaà inflação (a srcem de todos os males),acompanhado do repúdio à tentaçãoestatista – assim, num cenário de estabili-dade e livre-iniciativa, brotaria com ple-no vigor a nova racionalidade, alicercefirme do desenvolvimento. Este teria,ainda, outro pilar no reconhecimentodas virtudes da internacionalização que,esperava-se, agora prosseguiria sem en-traves de espécie alguma. Seja porqueefetivamente se acreditasse numa fácilretomada do desenvolvimento uma vezsuperada a barreira da inflação, seja por-quedeinícioohorizontedepermanênciado novo regime era incerto mesmo paraos seus artífices, o fato é que inexistiu outeve papel secundário qualquer perspec-tiva explícita de elaboração de um proje-to próprio de construção da Nação. 1 Issomudacompletamentenosanos1967-1969, com o discurso político-eco-nômico se apropriando da idéia de cons-trução de um projeto nacional visando“responder de forma adequada ao desa-fio brasileiro”, qual seja “demonstrar a viabilidade do desenvolvimento brasilei-ro” (PED: I-2). 2  Tal preocupação per-meia o Programa Estratégico de Desen- volvimento (PED), lançado pelo governoCosta e Silva em 1968. Contrastando fla-grantemente com a retórica anterior doPAEG, o PED se apoiou num diagnósti-co que vinculava o “desafio brasileiro”ao “arrefecimento da substituição de im- José Pedro Macarini 55 n ova Economia_Belo Horizonte_15 (3)_53-92_setembro-dezembro de 2005 1 Isso foi observado,já em 1965, num debate“interno” do PAEG. Ver Dias Leite (1965). 2 Convém lembrar que ogoverno Castello Brancotambém produziu, em 1966, oPlano Decenal, uma coleçãode estudos setoriaisembasados numa perspectivade planejamento para todauma década. O governo Costae Silva, srcinado de umadisputa interna ao regime,responsável por uma mudançasubstantiva na condução dapolítica macroeconômica,abandonou o Decenal paraelaborar o seu próprio plano.Uma apreciação do PlanoDecenal permanece emaberto, não tendo sidoabordada neste artigo. Parauma introdução ao tema, verIanni (1977, p. 225-239).  portações”, encerrando um estágio doprocesso de desenvolvimento econômi-co do Brasil, caracterizado por uma es-tratégia baseada num “único fator dinâ-mico”(aindústria),tornadapossívelpelofato de a decisão de investir depender“apenas do tamanho absoluto dos mer-cados”.ArespostadoPEDaodesafiode“assegurar a retomada da trajetória dedesenvolvimento acelerado” consistiu naproposta de “um novo modelo de desen- volvimento”. Como a decisão de investirpassava a depender essencialmente dasexpectativas de crescimento dos merca-dos (e não mais “apenas” do seu “tama-nho absoluto”), era necessário identificarcorretamente e apoiar os setores dinâmi-cos aptos a dar sustentação ao cresci-mento econômico. A novidade estaria nocaráter “multissetorial” do novo estágiode desenvolvimento. Essa proposição éformulada da seguinte forma:  Exatamente porque arrefeceu a substitui-  ção de importações e nenhuma estratégia concentrada numa única fonte de dinamis- mo terá condições de assegurar o desenvol- vimento auto-sustentável, a estratégia aadotar no novo estágio objetiva adiversificação das fontes de dina-mismo. Dever-se-á ampliar substancial- mente o ‘bloco’ de setores dinâmicos inter- ligados, e que na fase anterior se limitara  praticamente à Indústria (Bens de capi- tal, Bens de consumo duráveis, Bens inter- mediários) e alguns segmentos de Infra-es- trutura e de Agricultura. A ampliaçãodesse “bloco” de impactos simultâneos, para abranger (além da Indústria) o Setor  Agrícola, áreas substanciais da Infra-  Estrutura Econômica e da própria Infra-  Estrutura Social (Habitação, Educação,Saneamento) irá permitir a expansão da demanda e oferta capaz de sustentar um ritmo intenso de crescimento, numa ampli- ação de mercado que permita superar a  fase de crescimento moderado em que se en- contrava a economia  (PED: IV-16). O PED não deixa dúvidas quantoà necessidade de diversificar as fontes dedinamismo: O elemento essencial a salientar é que so- mente a ação simultânea naquelas quatroáreas dinâmicas, com a ênfase adequada em cada uma, mobilizará do lado da de- manda e do lado da oferta os fatores indis-  pensáveis a um crescimento do produto da ordem de 6% ao ano (PED: IV-16).  Atente-se para o fato de, em 1968,a política econômica estar engajada naelaboração de uma nova estratégia de de-senvolvimento que projetava um cresci-mento do produto de “no mínimo, 6%ao ano, no período 1968-1970” (estiman-do-se viável um crescimento levementeacima, dada a prevalência de capacidadeociosa generalizada) (PED: II-2 e IV-11). n ova Economia_Belo Horizonte_15 (3)_53-92_setembro-dezembro de 2005 A política econômica do governo Médici 56

2017 ABR Sumaré

Aug 11, 2017

relatório

Aug 11, 2017
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks