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A Prática Reflexiva No Ofício de Professor

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   A Prática Reflexiva no Ofício de Professor 29   11 Da Reflexão na Essência da Ação a uma Prática Reflexiva  A idéia de reflexão na ação e sobre a ação está ligada à nossa expe-riência do mundo. Entretanto, nem sempre o sentido dessas expressões étransparente para nós. É evidente que um ser humano  pensa constante-mente no que faz, antes, durante e depois de suas ações. No entanto, seráque isso o transforma em um profissional reflexivo?Pensamos da mesma forma como respiramos, se entendermos o pen-samento da seguinte forma: pensar em algo, exercer alguma atividademental. Para o dicionário Robert, pensar é “aplicar a mente a um objetoconcreto ou abstrato, atual ou não”. Onde coloquei minhas chaves? Voume atrasar! Que frio! Quem encontrei ontem na rua? Aonde iremos nasférias? Todos esses exemplos são atos de pensamento. No entanto, seráque “refletir” é apenas pensar no que faremos, fazemos e fizemos?Pensar e refletir: em numerosos contextos, as duas palavras parecemintercambiáveis. Se quisermos diferenciá-las, diremos que refletir indicauma certa distância. O dicionário  Robert  define da seguinte maneira esse verbo com duplo sentido, próprio e figurado: I.Remeter por reflexão em uma direção diferente ou à direção de origem.II.(1672; sentido figurado do precedente “por um retorno do pensamento so-bre si mesmo”; refletir sobre si mesmo, “recolher-se”, século XVI). Usar areflexão. Pensar; calcular, procurar, cogitar, concentrar-se, deliberar, meditar,observar, recolher-se, entrar (em si mesmo), fechar-se, ruminar, sonhar.  30  Philippe Perrenoud  A metáfora do espelho está muito presente no conceito de abstraçãoreflexiva  tal como ele foi definido por Piaget (1977): o pensamento tornao próprio objeto e constrói estruturas lógicas a partir de suas própriasoperações.Mesmo em um sentido mais comum, a reflexão pressupõe uma certaexterioridade e, portanto, uma distância mínima diante das urgências daação. Nesse sentido, o dicionário  Robert  evoca diversas expressões cor-rentes: –Vamos lá, seja sério, reflita!–Dê-se ao trabalho de refletir por um momento.–Deixar tempo para refletir.–Refletir antes de falar (contar até cem antes de falar).–Refletir longamente.–Refletir antes de agir.–Algo que provoca reflexão, que suscita reflexões que incitam à prudência, àsensatez.–Deixe-me refletir, vou refletir, peço tempo para refletir (isto é dito quandonão se quer tomar uma decisão precipitada). No âmbito das ciências humanas, a distinção entre pensar e refletirnão é evidente, pois não existe uma solução de continuidade entre o pen-samento mais próximo da ação, aquele que a guia, e a reflexão mais dis-tanciada. Em vez de contrapor pensamento e reflexão, a corrente desen- volvida por Schön (1987, 1991, 1994, 1996) distingue a reflexão na ação e a reflexão  sobre a ação .No entanto, essas distinções são bastante flexíveis. Os trabalhos deSchön apresentam inúmeros exemplos extraídos de diversas profissões;porém, com freqüência, os mecanismos mentais subjacentes são conceitua-dos com a ajuda do bom senso. A dois tradutores de Quebec (DolorèsGagnon e Jacques Heynemand), situados na confluência entre diversasculturas científicas e lingüísticas, devemos a relação entre a prática refle-xiva e a noção piagetiana de abstração reflexiva, a qual justifica a diferen-ça entre refletir para agir e refletir sobre a ação .Desse modo, a noção de prática reflexiva remete a dois processosmentais que devemos distinguir , principalmente se considerarmos seus vín-culos:ã Não há ação complexa sem reflexão durante o processo; a práticareflexiva pode ser entendida, no sentido mais comum da palavra, como areflexão acerca da situação, dos objetivos, dos meios, do lugar, das opera-ções envolvidas, dos resultados provisórios, da evolução previsível do sis-tema de ação. Refletir durante a ação consiste em se perguntar o que está   A Prática Reflexiva no Ofício de Professor 31 acontecendo ou o que vai acontecer, o que podemos fazer, o que devemosfazer, qual é a melhor tática, que desvios e precauções temos de tomar,que riscos corremos, etc. Poderíamos falar, então, de prática reflexiva , mas,em francês, esse adjetivo tem uma forte conotação de sabedoria, tem mui-tas semelhanças com aquele que “conta até cem antes de falar” e meditalongamente antes de agir. Essa sabedoria não está ausente no caso dareflexão na ação; entretanto, é um valor que tem relação com uma reali-dade que, muitas vezes, “não espera”. Em casos de urgência, o profissional“reflexivo”, temeroso de agir por impulso, poderia não intervir com rapi-dez, atitude equivalente à atitude daqueles motoristas muito reflexivos, osquais nunca ultrapassam os outros carros. Conforme a natureza da açãoem curso, o equilíbrio entre reflexão e ação não pode ser o mesmo. ComSchön, verificamos que a ação realizada pode se desenvolver em algunssegundos ou em alguns meses; tudo depende se considerarmos ação umaoperação pontual (como realizar um contra-ataque em um campo de fute-bol ou uma operação na Bolsa de Valores) ou uma estratégia a longo prazo(por exemplo, estabilizar a situação financeira de uma empresa ou reali-zar um tratamento médico complexo). A ação humana pode ser compara-da a um conjunto de bonecas russas : as ações mais pontuais (acalmar umasala de aula), muitas vezes, fazem parte de uma ação mais global (ajudara aprender), enquanto as ações de longo alcance dividem-se em numero-sas ações mais limitadas.ã Refletir  sobre  a ação já é algo bem diferente. Nesse caso, tomamosnossa própria ação como objeto de reflexão , seja para compará-la com ummodelo prescritivo, o que poderíamos ou deveríamos ter feito, o que outroprofissional teria feito, seja para explicá-la ou criticá-la. Toda ação é única,mas, em geral, ela pertence a uma família de ações do mesmo tipo,provocadas por situações semelhantes. Depois da realização da ação sin-gular, a reflexão sobre ela só tem sentido para compreender, aprender eintegrar o que aconteceu. Portanto, a reflexão não se limita a uma evoca-ção, mas passa por uma crítica, por uma análise, por uma relação comregras, teorias ou outras ações, imaginadas ou realizadas em uma situa-ção análoga.Será que essa distinção é tão clara e nítida como Schön sugere? Na verdade, há mais continuidade que contraste:–muitas vezes, a reflexão na  ação contém uma reflexão  sobre a ação,pois “reserva” questões que não podem ser tratadas naquele mo-mento, mas às quais o profissional promete retornar “com a cabe-ça fria”; ele não faz isso com regularidade, em contrapartida, estaé uma das fontes da reflexão sobre a ação;  32  Philippe Perrenoud –a reflexão sobre a ação permite antecipar e prepara o profissional,mesmo que essa não seja sua intenção, para refletir de forma maiságil na ação e para considerar um maior número de hipóteses; os“mundos virtuais” que Schön (1996, p. 332) define como “mundosimaginários em que a cadência da ação pode ficar mais lenta e emque podem ser experimentadas interações e variações de ação” sãooutros mecanismos para simular uma ação por meio do pensa-mento; a repetição e a maior precisão das possíveis ações à esperadas representações preparam uma visualização imediata dos as-pectos mais simples e liberam energiam mental para enfrentar oimprevisível.Em sua distinção, Schön também embaralha as cartas ao fazer refe-rência a duas  dimensões diferentes: o momento  e o objeto da reflexão.Entretanto, essas duas idéias não se contrapõem. Refletir na ação é o mes-mo que refletir, mesmo que fugazmente,  sobre  a ação em curso, sobre seuambiente e seus limites e seus recursos.Quanto à cronologia – refletir antes, durante e após a ação –, só pare-ce ser simples se considerarmos que uma ação dura apenas alguns instan-tes antes de se “extinguir”, como se diz a propósito de uma ação judicial.Schön continua embaralhando as cartas, e com razão:  A ação presente, isto é, o período em que permanecemos na “mesma situação”, varia consideravelmente de um caso para o outro e, com freqüência, permitealgum tempo de reflexão sobre o que estamos fazendo. Vejamos o exemplo deum médico que aplica um determinado tratamento para curar uma doença, deum advogado que prepara uma causa ou de um professor que se ocupa de umaluno em dificuldade. Nesses casos, trata-se de procedimentos que podem seprolongar por semanas, meses e mesmo anos. Em alguns momentos, tudo fluide modo muito rápido; porém, no intervalo, eles têm todo o tempo possívelpara refletir (Schön, 1996, p. 331-332). Se a situação for definida por sua causa  e seus desafios  mais que por umaunidade de tempo e lugar, ela pode se desenrolar de  forma intermitente , às vezes em múltiplos cenários. De repente, entre seus momentos mais intensos,podemos observar períodos de latência, durante os quais o ator pode refletircom mais tranqüilidade sobre o que aconteceu após as operações. Nesse caso,estamos falando de uma reflexão na ação ou sobre a ação? A distinção nãoresiste a uma análise mais profunda. Propomos que se distinga:–de um lado, a reflexão sobre uma ação singular , que pode aconte-cer durante a essência da ação, sob ela (antecipação, decisão) oudepois dela (análise, avaliação);
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