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A Saga dos Foxworth Livro 2 - Pétalas Ao Vento

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Eram crianças tão valentes para suportarem tanto sofrimento. Crianças tão espertas para escaparem a tamanho terror! Para Carrie, Chris e Cathy, o sótão era um horror sombrio que jamais lhes saia da cabeça, mesmo enquanto eles construíam vidas novas e promissoras. Naturalmente, a mãe tinha que fingir que eles não existiam. E a avó estava convencida de que eles traziam o demônio dentro de si. Mas a culpa não era deles, Era? Cathy sabia o que fazer. Agora, tinha os poderes que aprendera da linda mãe. Sabia-o pelo modo como o irmão ainda a desejava, pela maneira como o tutor a tocava, pelo jeito como todos os homens a olhavam. Ela sabia que chegara a ocasião de colocar em prática seu conhecimento. De mostrar à mãe e à avó que o sofrimento e terror no sótão não podiam ser esquecidos… Mostrar a elas - de uma vez por todas.
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   A SAGA DOS FOXWORTH - PÉTALAS AO VENTO V. C. ANDREWS  PRIMEIRA PARTE Livres, Afinal! Como éramos jovens no dia em que fugimos! Como nos deveríamos sentir exuberantes por estarmos livres, finalmente, de um lugar tão sombrio, solitário e abafado! Quão lamentavelmente satisfeitos deveríamos estar por viajarmos num ônibus que rumava vagarosamente para o sul! Entretanto, se estávamos alegres, não o demonstrávamos. Ficamos os três calados, pálidos, olhando pelas janelas, muito amedrontados por tudo que víamos. Livres. Haveria palavra mais maravilhosa que esta? Não, mesmo que as mãos frias e esqueléticas da morte se estendessem para arrastar-nos de volta, caso Deus não estivesse em algum lugar lá em cima, ou talvez até no interior do ônibus, viajando conosco e zelando por nós. Em alguma época de nossa vida tínhamos que acreditar em alguém.  As horas se passaram com os quilômetros. Nossos nervos se tornaram sensíveis porque o ônibus fazia freqüentes paradas para embarcar e desembarcar passageiros. Fazia paradas para descanso, para o café da manhã e, então, para embarcar uma enorme senhora preta que o aguardava no ponto em que uma estrada de terra desembocava no piso de concreto da rodovia interestadual. A mulher levou uma eternidade para subir no ônibus e, depois, puxar para dentro as muitas trouxas que trazia consigo. Quando, afinal, ela se sentou numa poltrona, cruzamos o limite estadual entre a Virgínia e a Carolina do Norte. Oh! Que alívio sairmos do estado onde fôramos prisioneiros! Pela primeira vez em muitos anos, comecei a relaxar-me um pouco. Éramos os três passageiros mais jovens no ônibus. Chris tinha dezessete anos, notavelmente bonito, com cabelos longos e ondulados que lhe tapavam os ombros e se curvavam para cima. Seus olhos azuis orlados por cílios escuros rivalizavam com a cor do céu de verão e sua personalidade era como um cálido dia ensolarado - tinha no rosto uma expressão corajosa, a despeito de nossa situação desanimadora. O nariz reto e de conformação fina adquirira força e maturidade que prometiam fazer dele tudo o que nosso pai fora: o tipo de homem que fazia o coração de todas as mulheres palpitar quando ele as olhava - e mesmo quando não olhava. Tinha uma expressão confiante; parecia quase feliz. Se ele não olhasse para Carrie, poderia até mesmo ser feliz. Entretanto, quando lhe viu o rosto pálido e doentio, franziu a testa e seus olhos se toldaram de preocupação. Começou a dedilhar o violão que trazia a tiracolo. Chris tocou Oh, Suzana , cantando baixinho numa voz doce e melancólica que me tocou o coração. Entreolhando-nos, entristecemo-nos com as lembranças evocadas pela melodia. Éramos como um só, ele e eu. Não podia fitá-lo por muito tempo, pois tinha medo de chorar. Encolhida em meu colo, estava minha irmãzinha. Não aparentava mais que três anos, tão miúda, tão penosamente miúda e enfraquecida, embora já tivesse oito. Em seus grandes olhos azuis, marcados por olheiras, havia mais sofrimentos e segredos sombrios do que uma criança de sua idade deveria conhecer. Os olhos de Carrie eram idosos, muito idosos. Ela nada esperava: nem felicidade, nem amor, nada - pois tudo o que houvera de maravilhoso em sua vida lhe fora tomado. Enfraquecida pela apatia, parecia disposta a passar da vida para a morte. Magoava-me vê-la tão sozinha, tão terrivelmente solitária, agora que Cory se fora. Eu tinha quinze anos. Estávamos em novembro de 1960. Eu queria tudo, precisava de tudo, e sentia um medo horrível de que jamais em minha vida  conseguisse encontrar o bastante para compensar tudo o que perdera. Sentia-me tensa, pronta para gritar se mais alguma coisa ruim acontecesse. Como um estopim enrolado e ligado a uma bomba-relógio, sabia que mais cedo ou mais tarde eu explodiria e derrubaria todos os que viviam em Foxworth Hall! Chris pousou a mão na minha, como se pudesse ler-me os pensamentos e soubesse que eu já planejava o modo de trazer o inferno a todos os que nos tinham tentado destruir. Disse em voz baixa: - Não fique assim, Cathy. Tudo dará certo. Estaremos bem. Continuava a ser o eterno e incorrigível otimista, acreditando, a despeito de tudo, que as coisas que aconteciam só podiam ser para o melhor? Oh! Deus! Como podia ele pensar assim quando Cory estava morto? Como isso poderia ser para o melhor? - Cathy - sussurrou. - Precisamos aproveitar ao máximo o que nos resta, isto é, um ao outro. Temos que aceitar o que aconteceu e partirmos daí. Temos que acreditar em nós mesmos, em nossos talentos; se acreditarmos, havemos de conseguir o que desejamos. É assim que funciona, Cathy, pode crer. Tem que dar certo! Ele desejava ser um médico insípido e sério, que passava os dias em consultórios, cercado pelas misérias humanas. Eu desejava algo muito mais fantasioso - e uma montanha disso! Queria realizar todos os meus sonhos estrelados de amor e romance - no palco, onde eu seria a prima ballerina mais famosa do mundo; nada menos que isso me satisfaria! Isso mostraria a Mamãe! Maldita seja, Mamãe! Espero que Foxworth Hall queime até os alicerces! Espero que você jamais consiga dormir uma noite tranqüila naquela grandiosa cama de cisne - nunca mais! Espero que seu jovem marido arranje uma amante mais  jovem e bonita que você! Espero que ele lhe dê o inferno que você merece! Carrie virou-se para murmurar: - Cathy, não me sinto bem... Estou com uma coisa engraçada no estômago... Fui dominada pelo medo. O rostinho miúdo de minha irmã parecia doentiamente pálido; seus cabelos, antes sedosos e brilhantes, escorriam em mechas sem vida. Sua voz estava reduzida a um débil sussurro. - Querida, querida - reconfortei-a, beijando-a. - Agüente firme. Logo nós a levaremos a um médico. Não demoraremos a chegar à Flórida e lá nunca mais ficaremos trancados. Carrie relaxou-se em meus braços, enquanto eu olhava desoladamente para o musgo espanhol pendente das árvores que indicava encontrarmo-nos agora na Carolina do Norte. Ainda tínhamos que atravessar a Georgia. Seria uma longa viagem até chegarmos a Sarasota. Carrie teve um sobressalto violento, passando a engasgar-se e ter ânsias de vômitos. Precavidamente, eu enchera os bolsos de guardanapos em nossa última parada, de modo que pude limpar Carrie. Passei-a para os braços de Chris, de modo a poder ajoelhar-me no chão do ônibus e limpar o resto. Chris escorregou-se pelo assento até a janela e tentou abri-la a fim de jogar fora os guardanapos sujos. Por mais força que ele usasse para puxá-la e empurrá-la a janela não se moveu. Carrie começou a chorar. - Enfie os guardanapos no espaço entre a poltrona e a parede do ônibus - sussurrou Chris. Mas o atento motorista devia estar observando pelo retrovisor, pois gritou: - Vocês aí atrás, garotos! Livrem-se dessa porcaria de outra maneira!  Que outra maneira poderia haver senão esvaziar o estojo da máquina Polaroid de Chris, que eu estava usando como bolsa, e enfiar nele os fedorentos guardanapos? - Desculpem-me - soluçou Carrie, desesperadamente agarrada a Chris. - Eu não queria vomitar. Agora, vamos para a cadeia? - Não, claro que não - disse Chris com seu jeito paternal. - Em menos de duas horas estaremos na Flórida. Tente agüentar firme até lá. Se saltarmos agora, perderemos o dinheiro que pagamos pelas passagens e não temos muito para desperdiçar. Carrie começou a choramingar e tremer. Apalpei-lhe a testa: estava úmida.  Agora, o rosto não estava apenas pálido, mas branco! Como o de Cory antes de morrer. Orei a Deus para que, pelo menos uma vez, tivesse piedade de nós. Já não suportáramos o suficiente? Aquilo precisava continuar, interminavelmente? Enquanto eu hesitava, sentindo também um melindroso desejo de vomitar, Carrie começou tudo outra vez. Eu simplesmente não podia acreditar que ela ainda tivesse dentro de si algo para vomitar. Apoiei-me de encontro a Chris enquanto Carrie ficou inerte nos braços dele, parecendo estar angustiosamente próxima da inconsciência. - Creio que ela está entrando em estado de choque - sussurrou Chris, quase tão pálido quanto Carrie. Foi quando um passageiro mesquinho e sem coração começou a reclamar em altos brados, de modo que os mais bondosos pareciam embaraçados e indecisos quanto ao que fazer para ajudar-nos. O olhar de Chris procurou o meu, numa indagação muda: que fazer em seguida? Eu começava a entrar em pânico. Então, ao longo do corredor, balançando de um lado para outro ao avançar em nossa direção, surgiu a enorme mulher negra, exibindo um sorriso reconfortante. Trouxe sacos de papel e os segurou enquanto eu  jogava dentro deles os malcheirosos guardanapos. Com gestos, mas sem palavras, deu-me palmadinhas no ombro. Acariciou o queixo de Carrie e entregou-me um punhado de trapos tirados de uma das suas trouxas. - Muito obrigada - murmurei, sorrindo desajeitadamente enquanto me limpava da melhor maneira possível. Depois, fiz o mesmo com Carrie e Chris. A mulher pegou os trapos, enfiou os num saco de papel e recuou um pouco, como se para proteger-nos. Cheia de gratidão, sorri para a mulher imensamente gorda que enchia o corredor do ônibus com seu corpanzil coberto pelo berrante vestido estampado. Ela piscou para mim e sorriu também. - Cathy - disse Chris, parecendo ainda mais preocupado que antes. - Precisamos levar Carrie a um médico - e depressa! - Mas pagamos a passagem até Sarasota! - Eu sei. Mas trata-se de uma emergência!  A nossa benfeitora sorriu animadoramente e depois debruçou-se para examinar o rosto de Carrie. Pousou a grande mão preta na testa úmida da menina e depois tomou-lhe o pulso. Fez com as mãos alguns gestos que me intrigaram, mas Chris disse: - Creio que ela é muda, Cathy. Esses são gestos usados pelos surdos-mudos. Sacudi os ombros, para indicar que não a compreendia. Ela franziu a testa e depois tirou do bolso sob a pesada suéter vermelha um bloco de folhas de papel multicor. Rabiscou muito depressa um bilhete que me entregou em seguida.
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