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A Teologia Como Ciencia- o Caso Da Suma Teologica de Tomas de Aquino

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Teologia de Tomas de Aquino
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  Anais da Jornada de Estudos Antigos e Medievais ISSN 2177-6687 1 A TEOLOGIA COMO CIÊNCIA: O CASO DA SUMA TEOLÓGICA  DE TOMÁS DE AQUINO CAMPOS, Fernanda Ferreira de (PGF/UEM) Introdução  O questionamento sobre a cientificidade da Teologia acompanha seu estudo há muito tempo. A resposta a esta questão depende, contudo, do que se entende por ciência, da capacidade da própria Teologia em adequar-se aos critérios utilizados e dos interesses que permeiam tal questionamento. Tomás de Aquino (1225-1274) dedica a primeira questão da primeira parte da sua Suma Teológica  a fundamentar a Teologia, ou como ele  próprio denomina, Sacra Doctrina , como uma verdadeira ciência. Nessa questão, a tese do mestre dominicano é a de que a teologia poderia sim ser considerada como uma ciência, scientia  no seu sentido latino, de um conhecimento que busca certo grau de certeza. Mas como fundamentar uma doutrina sagrada, um estudo sobre o ser de Deus, como tal scientia ? Para entender de que modo a doutrina sagrada pode ser ciência, analisaremos algumas questões elaboradas por Tomás nos artigos primeiro ao nono da questão primeira da Suma Teológica, seguindo o raciocínio elaborado pelo aquinate. A Teologia como ciência  Para compreender de que modo Tomás fundamenta a cientificidade da doutrina sagrada é necessário primeiro ter em mente o que o autor entende por ciência. De acordo com Marie Joseph Nicolas, por ciência ( scientia ), Tomás entende não somente um conhecimento certo e seguro, obtido a partir de princípios evidentes e necessários, mas também e, sobretudo, um conhecimento adquirido pelas próprias causas das coisas 1 . 1  NICOLAS, Marie Joseph. Vocabulário da Suma Teológica . Trad. Aimom- Marie Roguet et al. São Paulo: Loyola, 2001. v. I. V. “Ciência”: “Ela significa para Sto. Tomás não somente o conhecimento  perfeito, certo, absolutamente objetivo e para todos demonstrável, mas o conhecimento pelas causas, isto é, pelas razões internas. Neste sentido, conhecer cientificamente é não somente saber, mas explicar pela  Anais da Jornada de Estudos Antigos e Medievais ISSN 2177-6687 2 Possuindo essa noção de ciência em mente, analisaremos algumas questões elaboradas por Tomás nos artigos primeiro ao nono da questão primeira da Suma Teológica, seguindo o raciocínio do aquinate. Primeiramente Tomás se questiona se a doutrina sagrada deve realmente ser entendida como uma verdadeira ciência. A  princípio, pareceria-nos não haver necessidade de compreender tal doutrina como sendo uma ciência. Isso, pois, todo quanto é conhecimento parecia já encontrar-se compreendido no estudo das disciplinas filosóficas já consagradas, inclusive o estudo sobre o divino, que encontrava-se na teologia. Porém, se observarmos todos os âmbitos do existir humano, encontraremos um domínio, por assim dizer, ao qual essas disciplinas não abarcam, algo que lhe escapa a compreensão, a saber, o domínio do espírito humano, pois Tomás considera a doutrina sagrada útil para a salvação do homem. Salvação esta entendida como algo para além do fenomenológico, algo  pertencente propriamente ao espírito humano. Todavia, a doutrina sagrada compreende tanto o campo do fenômeno quanto o do espírito, que lhe é própria. Sendo assim tal doutrina ainda que se inspire na palavra encontrada nas Sagradas Escrituras, fruto da revelação divina, requererá também muito trabalho intelectual por parte do indivíduo; não sendo, pois, a doutrina sagrada meramente um ato da fé revelada, mas também fruto de estudo intelectual. Pois, como encontra-se na Suma, “diz-se na segunda Carta a Timóteo: 'Toda Escritura inspirada por Deus é útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça.” 2  Tal afirmação mostra que a Escritura além de ser útil para a salvação do homem, torna-se útil também ao que diz respeito propriamente ao domínio humano. Isso, pois, as Escrituras seriam como um instrumento de ensino. E, podemos dizer que, tudo quanto propicia algum tipo de ensinamento é útil de diversas formas. Todavia, como entender que tal doutrina mesmo tendo sido revelada possa ser útil no processo de compreensão racional humano? Tomás considera que a revelação seja um aspecto  positivo da doutrina sagrada. O homem está ordenado para Deus como que para um fim  próprio. Ora, é preciso que o homem, que dirige suas intenções e suas ações,  para um fim, antes conheça este fim. 3   essência e pela natureza das coisas, passar dos fatos e dos fenômenos (ponto de partida obrigatório para o espírito humano) ao próprio ser e à razão de ser.” 2  ST, Iª, q. 1, a. 1, sed. 3  ST, Iª, q. 1, a. 1, resp.  Anais da Jornada de Estudos Antigos e Medievais ISSN 2177-6687 3 Desta forma, faz-se preciso antes que o homem conheça, mesmo que  parcialmente, este fim, para que então o almeje, e isto se dá por meio da revelação divina. Além disso, a razão humana por si só não chegaria à verdade de Deus. Quando muito, chegaria apenas a uma verossimilhança, mas nunca a verdade em si, e isso, depois de muito tempo e cheio de erros. Mas por que essa impossibilidade da razão atingir a verdade de Deus? É visível nos escritos de Tomás que essa impossibilidade se dá única e exclusivamente pelo fato da razão humana ser carente de algo, a saber, de entendimento pleno. Posto que a razão humana seja algo propriamente humano ela será falível, não possuindo a capacidade de se elevar a algo tão sutil e abstrato quanto o ser de Deus. Portanto, além da filosofia seria necessária uma outra disciplina, a doutrina sagrada. Mas se Tomás compreende que o estudo de Deus já se encontrava na teologia estudada nas disciplinas filosóficas, por quê proclamar a doutrina sagrada uma disciplina necessária? Há então duas formas de teologia? Tomás, na primeira questão da Suma Teológica , não se aprofunda nesse problema, apenas afirma que, “a teologia,  portanto, que pertence à doutrina sagrada difere em gênero daquela que é considerada  parte da filosofia” 4 . Há, desta forma, dois modos distintos de teologia. Há a teologia que trata das coisas à luz da razão natural e a teologia que trata das coisas enquanto conhecidas à luz da revelação divina. A primeira forma de teologia, a pertencente às disciplinas filosóficas, é aquela da qual trata Aristóteles em sua  Metafísica , que considera Deus enquanto princípio do ser, enquanto primeiro motor imóvel. Já a teologia pertencente à doutrina sagrada é aquela que trata de Deus em relação às suas  próprias razões, enquanto um artigo de fé. Nas palavras de Gilson, há, pois, duas teologias especificamente distintas que, se a rigor, não se continuam para nossos espíritos finitos, podem acordar-se e completar-se: a teologia revelada, que parte do dogma, e a teologia   natural que a razão elabora. 5   Ambas as formas de teologia, lidam com a temática do divino, porém, uma enquanto razão do princípio do ser, e outra enquanto razão de Deus. E é sobre a segunda forma de teologia que Tomás escreve, enquanto uma doutrina sagrada. 4  ST, Iª, q. 1, a. 1, ad 2. 5  Etienne Gilson. A Filosofia na Idade Média . p. 657.  Anais da Jornada de Estudos Antigos e Medievais ISSN 2177-6687 4 Tendo concebido, pois, a doutrina sagrada como uma ciência necessária, cabe agora questionar seu caráter propriamente científico. Tomás afirma ser a doutrina sagrada uma ciência. Mas para fazer tal afirmação o autor faz uma distinção entre dois tipos de ciência: aquelas que admitem por si mesmas seus princípios e aquelas que  pressupõem princípios tomados de outras ciências. A doutrina sagrada é uma ciência. Mas existem dois tipos de ciência. Algumas procedem de princípios que são conhecidos à luz natural do   intelecto, como a aritmética, a geometria etc. Outras, procedem de  princípios conhecidos à luz de uma ciência superior: tais como a  perspectiva, que se apoia nos princípios tomados à geometria; e a   música, nos princípios elucidados pela aritmética. 6   Tomás recorre neste caso à teoria da “subalternação” das ciências de Aristóteles. Em seu Comentário aos Analíticos Posteriores de Aristóteles , Tomás mostra que o Filósofo distingue dois tipos de ciência: a ciência do “quê” e a ciência do “porquê” 7 . Aristóteles estabelece um contraste entre o conhecimento da ciência subalternante, que constrói seu conhecimento por meio de princípios evidentes por si mesmo; e o conhecimento da ciência subalternada que constrói seu conhecimento por meio das evidências de uma ciência superior. Este é um conhecimento do “fato justificado” (o  porquê), aquele um conhecimento apenas do “fato” (o quê). Neste sentido, a música, por exemplo, é uma ciência subalternada, uma vez que toma a aritmética como o fundamento explicativo das causas. Isso se dá, pois a música é a ciência do “quê”, que faz a descrição do fato, ao passo que a aritmética é a ciência do “porquê”, que explica a razão de ser do fato. Em outras palavras, podemos dizer, por exemplo, que o gelo, em contato com a  pele, esfria a tal ponto que queima a pele. E, para isso, basta-nos a sensação e a constatação empírica de tal fato, mas poucos sabem o por quê o gelo em contato com a  pele é capaz de queimá-la. Ora, quem sabe apenas que o gelo esfria e queima tem apenas um saber descritivo, que é o conhecimento típico das ciências subordinadas. Em contrapartida, quem sabe o porquê o gelo esfria e queima possui o conhecimento das razões, que é o conhecimento típico das ciências subalternantes. Ora, segundo Tomás, a 6  ST, Iª, q. 1, a. 2, resp. 7  Aquino, Tomás. Commentary  on Aristotle's Posterior Analytics. Tradução, introdução e comentário de Richard Berquist. Notre Dame/Indiana: Dumb Ox Books, 2007. I, l. 25.

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Nov 1, 2017

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