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A Tese da Arte como resposta ao apelo do mistério

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A tese da arte como resposta ao apelo de um mistério O diferendo filosófico – para não dizer a discussão – sobre a definição de arte, que até pode parecer um debate político (do género “a minha definição é melhor que a tua”) ou uma campanha de vendas (“escolham esta que é mais interessante”...), tem um sentido, ou uma finalidade, q.d., pode ter um sentido ou uma finalidade formativos como poucos outros estudos. E esta possibilidade parece ligar-se com um facto muito simples: a apreciação da art
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  1  A tese da arte como resposta ao apelo de um mistério O diferendo filosófico  –  para não dizer a discussão  –  sobre a definição de arte, que até pode parecer um debate político (do género “ a minha definição é melhor que atua ”) ou uma campanha de vendas (“ escolham esta que é mais interessante ”...), tem um sentido, ou uma finalidade, q.d.,  pode ter  um sentido ou uma finalidade  formativos como poucos outros estudos. E esta possibilidade parece ligar-se com um facto muitosimples: a apreciação da arte é uma experiência universal da humanidade, em qualquertempo e em qualquer lugar.Ora, o que é que isto poderá querer dizer? Porque é que qualquer ser humano (asexcepções são tão poucas que nem são significativos) dá ou pode dar por si encantado    –  e talvez não haja melhor descrição...  –  com uma música, um poema, uma imagem, umtexto, uma visão? Em termos também simples (esperemos!), seja qual for a definição ouconvicção sobre arte que adoptemos, tal encantamento parece, por sua vez, relacionadocom uma certa emoção que surge, muitas vezes, inesperadamente. Mas mesmo que nãoseja inesperada, a emoção é importante. No entanto, parece haver algo mais: a emoção  parece “querer” dizer-nos alguma coisa . O que se sente parece “esperar” uma resposta,  sem a qual talvez se corra o risco de rapidamente esquecermos a experiência gostosa dabeleza, um pouco como parece que acontece quando nem nos passa pela cabeçaagradecer a quem nos prepara todos os dias as refeições, por exemplo. Mas que “resposta” é essa? Um agradecimento, como no exemplo anterior? Ou, como está entreaspas, trata-se de uma resposta diferente? E diferente em que sentido?Relembremo-nos de que acontece quando ficamos um tanto ou quanto encantados , ou deliciados, com uma obra de arte. Se estivermos acompanhados, é quasecerto que falaremos de tal situação. E aí tentamos colocar em palavras as emoções,acontecendo que, por mais que queira, não conseguimos trazer as emoções exactamentecomo as experimentamos para as formas das palavras.Ora, é esta impossibilidade que parece interessante. Quer dizer, pode serfrustrante e um desafio único, ao mesmo tempo. Frustração e desafio que acaba por sertalvez, aquilo que qualquer artista também enfrenta ao compor uma obra e de queresulta o que apreciamos.Neste sentido, caso se aceitem estas possibilidades, interpretar uma qualquerobra de arte é responderá interpelação que a sua apreciação ou vivência perante, ao  2 fazer- nos “entrar” (ou “subir”, segundo outra expressão) numa dimensão quase mágica como é a experimentarmos perante uma novidade de reconhecimento. Com efeito, em que “realidade” nos situamos quando apreciamos, ou vivenciamos, com uma certa intensidade, um poema, uma imagem, uma melodia? Não na “realidade” habitual, em que temos que fazer isto ou aquilo, com o tempo a correr.  Não numa realidade “alternativa” –  como a de que nos falam os cenários de ficçãocientífica, a que se acede através de um portal, ou passagem mágica, como  –  como a Second life acabou por “virtualizar”. Não, a realidade em que nos sentimos viver  quando uma obra nos deixa encantados, num estado talvez só comparável a um estado enamorado , não parece ter uma descrição “objectiva”. É esta realidade mas de umaoutra maneira que parece alterar o que considerávamos “esta”, fazendo com que olhemos a partir daí para outras possibilidades e, inclusive  –  ou sobretudo, dirão alguns  –  , que olhemos para a possibilidade de repetirmos tal sensação.Mas, como também já se deve ter experienciado, o estado de encantamento dabeleza (chamemos-lhe assim) não dura sempre, pelo menos ao nível daquela intensidade “mágica” inicial. Daí que sejamos tentados (e aqui estará o apelo da obra, a sua interpelação silenciosa) a dizê-la de mil e uma maneiras: escrevendo, desenhando,pintando, tocando, dançando, representando ... teorizando. Seja como for, acabamos namaior parte das vezes por perceber, com mais frustração ou mais calma, que emboraainda se recorde o que nos aconteceu, algo já passou.Contudo, também parece ter ficado uma promessa: se não esperarmos, nãoalcançaremos o inesperado, que é de difícil acesso, para usarmos as palavras de um sábio antigo (Heraclito, séc.VI a.c.). E este “inesperado”, esse “algo” que nos “tocou”,que nos “agarrou” e que “passou”, po de ter muitos nomes, pode ser interpretado demuitas formas, mas dizer  presença misteriosa   e respeitar a sua “realidade” enigmática, que pode impedir de falsearmos tal experiência, parece muito difícil. Talvez não sejapor acaso que a experiência do contex to com “algo” que nos deixa num estado de encantamento e contentamento seja o fundamento da experiência religiosa. Talvez nãoseja por acaso que as pessoas que provocam essas sensações sejam seguidos pormilhares e talvez não seja por acaso que os maiores dos que foram reconhecidos comopessoas espiritualmente excepcionais  –  como Sócrates, Jesus, Buda, Lao-Tsé  –    nãoescreveram sobre as suas experiências. Por outro lado, dirão os seus seguidores, ainda bem que alguém escreveu sobreeles, porque de outro modo ficaríamos todos mais pobres, Sem dúvida, mas então, de  3 que servem as palavras escritas se não nos levarem além das palavras ? De que serve amúsica se não nos permitir (re) viver a beleza do mistério que o som parece possuir? Deque serve, ou o que é a arte se (e notemos como este “se” é de uma aposta com poucas garantias) não nos deixa bem connosco (apesar de tratar muitas vezes do horror,sofrimento, desespero, morte ..., fá-lo, no entanto, apelando para outras possibilidadesde harmonia, satisfação, esperança, vida ... ou não o faz e rapidamente desaparece ...) Ecapazes de mudar a nossa vida? “Aprende para esquecer”, cantou o poeta (Jame s Douglas Morrison), mas então há que aprender  e, se ainda for permitida uma sugestão sobre o que implica aprenderem termos de arte, convoque- se Oscar Wilde: “Gosto s simples: preferir sempre o melhor.” Daí que conhecer os “clássicos” seja fundamental.  O resto, como se diz num livro sagrado, pertence ao maligno. Fiquemos bem.Francisco Marreiros  4 Escola Secundária dom Manuel Martins  A tese da arte como resposta ao apelo de um mistério SetúbalMarço de 2008
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