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A Tragédia Do Estudante Sério No Brasil

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  26/02/2017 A tragédia do estudante sério no Brasilhttp://www.olavodecarvalho.org/semana/060213dc.htm 1/7    A tragédia do estudante sério noBrasil Olavo de Carvalho  Diário do Comércio , 12 de fevereiro de 2006 Toda semana, recebo dezenas de cartas de estudantes que, em busca de alguma formação intelectual, encontraram nasuniversidades que freqüentam apenas propaganda comunistarasteira, porca, subginasiana.Não são, como em geral imaginam, vítimas de purascircunstâncias políticas imediatas. Gemem sob uma montanhade fatores adversos à inteligência humana, que foram seacumulando no mundo, e não só no Brasil, ao longo das últimasdécadas. Se a primeira metade do século XX trouxe umflorescimento intelectual incomum, a segunda foi umadevastação geral como raramente se viu na História. A quedafoi tão profunda que já não se pode medi-la. Num panoramainteiramente dominado por charlatães caricatos como NoamChomsky, Richard Dawkins, Edward Said, Jacques Derrida,Julia Kristeva, a época em que floresceram quase quesimultaneamente Edmund Husserl, Karl Jaspers, Louis Lavelle, Alfred North Whitehead, Benedetto Croce, Jan Huizinga, Arnold Toynbee – e na literatura T. S. Eliot, W. B. Yeats, EzraPound, Thomas Mann, Franz Kafka, Jacob Wassermann,Robert Musil, Hermann Broch, Heimito von Doderer – já setornou invisível, inalcançável à imaginação dos nossoscontemporâneos. Toda comparação é entre alguma coisa ealguma outra coisa. Não se pode comparar tudo com nada.Isso não quer dizer que as fontes do conhecimento tenhamsecado. Pensadores de grande envergadura – um Eric Voegelin,um Bernard Lonergan, um Xavier Zubiri – sobreviveram à  26/02/2017 A tragédia do estudante sério no Brasilhttp://www.olavodecarvalho.org/semana/060213dc.htm 2/7 debacle dos anos 60 e continuaram atuantes, o primeiro até1985, o segundo até 1984, o terceiro até 1983. Mas seusensinamentos são ainda a posse exclusiva de círculos seletos.Não entram na corrente geral das idéias, nem poderiam entrarsem sujar-se, sem transformar-se em matéria de discussõesidiotas como vem acontecendo, graças à ascensão política dealguns de seus discípulos, com o infeliz Leo Strauss.Pois a desgraça se deu justamente na “corrente geral”. O fim daII Guerra Mundial trouxe uma prodigiosa reorganização das bases sociais e econômicas da vida intelectual no mundo. Novasinstituições, novas redes de comunicação, novos mecanismosde estocagem e distribuição das informações acadêmicas, novospúblicos e, sobretudo, a ampliação inaudita do apoio estatal eprivado à cultura e a formação dos grandes organismosinternacionais como a ONU e a Unesco. Tudo isso veio juntocom o descrédito do marxismo soviético e a profunda mutaçãointerna da militância esquerdista internacional, a essa altura jáplenamente imbuída das duas lições aprendidas da Escola deFrankfurt e de Georg Lukacs (mas também, maisdiscretamente, de Martin Heidegger): (1) a luta essencial nãoera propriamente contra o capitalismo, mas contra “acivilização ocidental”; (2) o agente principal do processo era aclasse dos intelectuais.Nessas condições, o crescimento fabuloso dos meios de atuação veio junto com o esforço multilateral de apropriação dessesmeios por parte de grupos militantes bem pouco interessadosem “compreender o mundo” mas totalmente devotados a“transformá-lo”. A redução drástica da atividade intelectual aoativismo político foi a conseqüência desejada e planejada dessaoperação, realizada em escala mundial a partir dos anos 60.Não que o fenômeno fosse totalmente desconhecido antesdisso. Um vasto ensaio geral já vinha sendo realizado nos EUA desde a década de 30 pelo menos, através das grandesfundações “não lucrativas” que descobriram seu poder deorientar e manipular a seu belprazer a atividade intelectual,científica e educacional mediante a simples seleçãoideologicamente orientada dos destinatários de suas verbas bilionárias.Em 1954, uma comissão de investigações do Congressoamericano já havia descoberto que fundações como Rockefeller,  26/02/2017 A tragédia do estudante sério no Brasilhttp://www.olavodecarvalho.org/semana/060213dc.htm 3/7 Carnegie e Ford exerciam controle indevido sobre asuniversidades, as instituições de pesquisa e a cultura em geral,orientando-as num sentido francamente anti-americano,anticristão e até anticapitalista. (Não me perguntem pelamilésima vez com que interesse os grandes capitalistas podemagir contra o capitalismo. A explicação está resumida emhttp://www.olavodecarvalho.org /semana/040617jt.htm ehttp://www.olavodecarvalho.org /textos/debate_usp_4.htm .)Inevitavelmente, a influência exercida por essas organizaçõesnão consistiu só em introduzir uma determinada cor política naprodução cultural, mas em alterá-la e corrompê-la até às raízes,subordinando aos objetivos políticos e publicitários visadostodas as exigências de honestidade, veracidade e rigor. Semessa interferência, fraudes cabeludas como o Relatório Kinsey ou a pseudo-antropologia de Margaret Mead jamais teriamconseguido impor-se ao meio acadêmico e à mídia culturalcomo produtos respeitáveis de uma atividade científica normal. A comissão foi alvo de ataques virulentos de toda a grandemídia, e seu trabalho acabou por ser esquecido, mas ele ainda éuma das melhores fontes de consulta sobre ainstrumentalização política da cultura (v. René Wormser,  Foundations, Their Power and Influence , New York, Devin- Adair, 1958 – vocês podem comprá-lo pelo site www.bookfinder.com ). Na verdade, sem ele não se podecompreender nada do que se passou em seguida, pois o que sepassou foi que o experimento tentado em escala americana foiampliado para o mundo todo: a apropriação dos meios de açãocultural pelas organizações militantes e o sacrifício integral dainteligência humana no altar da “vontade de poder”simplesmente se globalizaram.Recursos incalculavelmente vastos, que poderiam ter sidoutilizados para o progresso do conhecimento e a melhoria dacondição de vida da espécie humana foram assimdesperdiçados para sustentar a guerra geral da estupidezmilitante contra a “civilização ocidental” que havia gerado essesmesmos recursos.Embora esse processo seja de alcance mundial, é claro que oseu peso se fez sentir mais densamente em países novos doTerceiro Mundo, onde as criações das épocas anteriores nãotinham sido assimiladas com muita profundidade e as raízes dacivilização podiam ser mais facilmente cortadas. No Brasil, da  26/02/2017 A tragédia do estudante sério no Brasilhttp://www.olavodecarvalho.org/semana/060213dc.htm 4/7 década de 60 em diante, os progressos da barbárie foram talvezmais rápidos do que em qualquer outro lugar, destruindo comespantosa facilidade as sementes de cultura que, emborafrágeis, vinham dando alguns frutos promissores. A comparação impossível entre as duas épocas, que mencioneiacima, é ainda mais impossível no caso brasileiro. Na década de50, tínhamos, vivos e atuantes, Manuel Bandeira, CarlosDrummond de Andrade, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Àlvaro Lins, Augusto Meyer, Otto Maria Carpeaux, MárioFerreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva, Herberto Sales,Cornélio Penna, Gustavo Corção, Nelson Rodrigues, LúcioCardoso, Heitor Villa-Lobos, Augusto Frederico Schmidt, a listanão acaba mais. Hoje, quem representa na mídia a imagem da“cultura brasileira”? Paulo Coelho, Luís Fernando Veríssimo,Gilberto Gil, Arnaldo Jabor, Emir Sader, Frei Betto e LeonardoBoff. Perto desses, Chomsky é Aristóteles. É o grau mais altopelo qual se medem. Chamar isso de crise, ou mesmo dedecadência, é de um otimismo delirante. A cultura brasileiratornou-se a caricatura de uma palhaçada. É uma coisa oca, besta, disforme, doente, incalculavemente irrisória. A inteligência, ao contrário do dinheiro ou da saúde, tem estapeculiaridade: quanto mais você a perde, menos dá pela faltadela. O homem inteligente, afeito a estudos pesados, logo achaque emburreceu quando, cansado, nervoso ou mal dormido,sente dificuldade em compreender algo. Aquele que nuncaentendeu grande coisa se acha perfeitamente normal quandoentende menos ainda, pois esqueceu o pouco que entendia e jánão tem como comparar. Uma das coisas que me deliciam, queme levam ao êxtase quando contemplo o Brasil de hoje, é o arde seriedade com que as pessoas discutem e pretendem sanaros males econômicos, políticos e administrativos do Brasil, semligar a mínima para a destruição da cultura, como se ainteligencia prática subsistisse incólume ao emburrecimentogeral, como se inteligência fosse um adorno a ser acrescentadoao sucesso depois de resolvidos todos os problemas ou como sea inépcia absoluta não fosse de maneira alguma um obstáculo àconquista da felicidade geral. A prova mais evidente dainsensibilidade torpe é o sujeito já nem sentir saudade daconsciência que teve um dia.Mas não, a inteligência nacional não acabou no dia em que osnossos estudantes tiraram o último lugar numa avaliação entrealunos do curso secundário de 32 países: acabou logo em
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