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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE ARTES (IA/UNESP) A UTOPIA DO ISOMORFISMO INTERSEMIÓTICO COMO MOTOR DA CRIAÇÃO MUSICAL: Breve análise do Motet em Ré menor de Gilberto Mendes Trabalho final para a matéria Introdução às Abordagens Semióticas da Música Prof. Dr, Maurício Funcia de Bonis
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  UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE ARTES (IA/UNESP) A UTOPIA DO ISOMORFISMO INTERSEMIÓTICO COMO MOTOR DA CRIAÇÃO MUSICAL: Breve análise do  Motet em Ré menor   de Gilberto Mendes Trabalho final para a matéria Introdução às Abordagens Semióticas da Música Prof. Dr, Maurício Funcia de Bonis Victor M. P. Queiroz - MCRIV São Paulo - SP 2015    “O quotiens voluit blandis accedere dictis et mollis adhibere preces! natura repugnat nec sinit, incipiat, sed, quod sinit, illa parata est exspectare sonos, ad quos sua verba remittat.  Forte puer comitum seductus ab agmine fido dixerat: 'ecquis adest?' et 'adest' responderat Echo.  Hic stupet, utque aciem partes dimittit in omnis, voce 'veni!' magna clamat: vocat illa vocantem.  Respicit et rursus nullo veniente 'quid' inquit 'me fugis?' et totidem, quot dixit, verba recepit.  Perstat et alternae deceptus imagine vocis ‘huc coeamus' ait, nullique libentius umquam responsura sono 'coeamus' rettulit Echo et verbis favet ipsa suis egressaque silva ibat, ut iniceret sperato bracchia collo; ille fugit fugiensque 'manus conplexibus aufer! ante' ait 'emoriar, quam sit tibi copia nostri'; rettulit illa nihil nisi 'sit tibi copia nostri!'” !    (Ovídio,  Metamorfoses , L. III) !  “ Ó quantas suas quis moles e brandas / palavras, preces dar-lhe, e a natureza / sua o não  permitiu, a si cabendo / só a espera: repetir o que ouviria. / Acaso! O amado, pelas margens vindo / do rio, ‘alguém?’, pergunta, ‘alguém’, responde. / Estupefaz-se, a olhar por toda parte / chama ‘vem!’, e revêm o ido chamado. / Confuso, então, por que não venha, indaga: / ‘Evitas-me?’ O dito, em tudo, a si retorna. / Detido e envolto pelo responsório, / ‘aqui amemo-nos’, propõe, e escuta / de Eco o langor ‘amemo-nos’ dizer-lhe. / Da selva egressa, por ouvir-se, a ninfa / vai sobre ele atirar-se aos abraços. / ‘Antes eu morra’, brada, em fuga, o jovem, / ‘que em braços meus sejas tu meu tesouro’ / e Eco, apenas, ‘sejas tu meu tesouro’.” (tradução do autor)  A utopia do isomorfismo como motor da criação musical A arte sempre seguiu seus caminhos, foi aonde quis ou pôde, pedindo, de vez em vez, informações a seus contranseuntes e antepassados. Esforçando-nos para mapear tais caminhos, a posteriori , por dela nos termos perdido, recorremos a diversas terminologias, nomes deixados para trás como migalhas, em uma busca desesperada por dar coerência aos eventos cuja marcha não acompanhamos in illo tempore . Essa ânsia por taxonomização, mais que a nós própria à Biologia e às Ciências Naturais, acaba por fazer-se também, de certa forma, angústia nossa, toma-nos e dizemos: este ensaio aborda a vanguarda  ou neo-vanguarda , para Peter Bürguer – movimento artístico que atingiu seu apogeu, no Brasil, entre os anos sessenta e setenta. Mais especificamente, trata da relação entre os poetas ditos concretos , então em sua  fase   ortodoxa  e o compositor Gilberto Mendes, em  fase   experimental   – segundo Antônio Eduardo Santos (1997) –, mediada  pela obra para coro misto  Motet em ré menor (1966), composta por Mendes sobre o  poema  Beba Coca-Cola  (1958) de Décio Pignatari, título este pelo qual mais acabou ficando conhecida. Pretendemos, aqui, mostrar por meio da análise desta obra como a música brasileira recorreu, neste momento preciso de sua história, ao auxílio da poesia nascente para guiá-la até onde quereria ter chegado mas não pudera ainda, ou quem sabe o contrário, poderia mais o não quisera – talvez assim dissesse um vanguardista. Esta análise nos será facilitada por um conceito-chave da  poesia concreta , convertido pelos compositores em princípio de abordagem para a musicalização de textos: o isomorfismo , cognato da iconicidade  peirceana (CLÜVER, 2006). Quanto ao processo-em-si de transposição de poesia em música, tratá-lo-emos como tradução intersemiótica , conceito  jackobsoniano que se há de completar com as teorias da tradução do próprio Jackobson, de Pound e de seus herdeiros: Augusto e Haroldo de Campos. Feita a introdução, podem vibrar os nominófilos!   O concretismo  havia lançado, já no fim dos anos cinqüenta, dois importantes textos teóricos sobre si, seus planos e metas listados, os meios a serem empregados para cumpri-los e um apelo: o manifesto concretista  (1956) e o  plano-piloto para a poesia concreta  (1958). De grande repercussão, o movimento artístico, apoiando-se  principalmente em Pound, Joyce, Mallarmé e Cummings, representou um salto qualitativo na poesia moderna, colocando-a, definitivamente, como já tinha anteriormente suposto ser-lhe próprio Pound, à margem da literatura – apelando à comunicação não-verbal, mormente ao ideograma e, conseqüentemente, à visualidade do poema e formas diferenciadas de sua apresentação, possibilitadas pelas novas tecnologias (como o poema-cartaz e o poema-objeto). Unindo à poesia a tecnologia e a comunicação de massa, fugiam da cultura livresca. Or so they intended to . Conceitos fundamentais para a realização de seus projetos eram, conjugados, o verbivocovisual   e o já citado isomorfismo : “[…] O poema concreto, usando o sistema fonético (dígitos) e uma sintaxe analógica, cria uma área lingüística específica – “ verbivocovisual  ” – que participa das vantagens da comunicação não-verbal, sem abdicar das virtualidades da palavra. […] Ao conflito de fundo-e-forma em busca de identificação, chamamos de isomorfismo .  paralelamente ao isomorfismo fundo-forma, se desenvolve o isomorfismo espaço-tempo, que gera o movimento. O isomorfismo, num primeiro momento da pragmática poética, concreta, tende à fisiognomia, a um movimento imitativo do real ( motion ); predomina a forma orgânica e a fenomenologia da composição. Num estágio mais avançado, o isomorfismo tende a resolver-se em puro movimento estrutural ( movement  ); nesta fase, predomina a forma geométrica e a matemática da composição (racionalismo sensível).” (PLANO-PILOTO PARA A POESIA CONCRETA, 1958) O movimento não atuou apenas no Brasil, possuindo um braço no exterior, cujo  principal representante foi Eugen Gomringer, boliviano-suíço radicado na Alemanha. Dado o nosso objeto de análise, faz-se aqui pertinente a observação de Rizzo (2002), segundo a qual a principal diferença entre os concretismos  brasileiro e estrangeiro era do  primeiro a ênfase sobre o elemento sonoro (que culminaria na  poesia sonora  de Philadelpho Menezes), enquanto mantinha-a a outra sobre o elemento visual. Disto, vale destacar a profunda admiração de Augusto de Campos pela música de Anton Webern, que tomou como fundamento para sua série POETAMENOS (1955), baseada na idéia de melodia de timbres , que seguiu permeando sua obra posterior.
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