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A UTOPIA NO TEMPO, O TEMPO NA UTOPIA

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A UTOPIA NO TEMPO, O TEMPO NA UTOPIA
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    FÓRUM DE TEORIA E HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA 15   A UTOPIA NO TEMPO, O TEMPO NA UTOPIA TEXTO APRESENTADO AO FÓRUM DE TEORIA E HISTORIOGRAFIA PARA DISCUSSÃO (que será) REALIZADA EM 03/08/2015, 14h: CPDA / UFRRJ, Av. Presidente Vargas, 417, 6º andar, sala de defesas, centro, Rio de Janeiro Henrique Estrada Rodrigues  1 Sumário Prefácio (des)interessantíssimo...................................................................................02 Introdução....................................................................................................................03 O nauta luso e a viagem indireta................................................................................05 Oswald de Andrade e o ciclo das utopias..................................................................10 Haro ldo de Campos e o pensamento utópico “presentista”....................................21  Anexo: Campo de obras, Campos em obra..............................................................29 Bibliografia..................................................................................................................39  2 Prefácio (des)interessantíssimo O que aqui se lerá foi produzido a partir da costura de uma pequena série de textos que poderiam ser reunidos sob o seguinte título:  projetos inacabados.  E essa série assim o ficou por muitos motivos. Ora se projetou algo muito além do que seria possível cumprir, deixando para um futuro incerto o que não se fez; a esse futuro incerto caberá  –   quem sabe  –   um estudo sobre a literatura universal em Haroldo de Campos. Ora foi a  própria pesquisa que entortou, alterando a rota que inicialmente se imaginava; a esse  passado alterado pertence um estudo inconcluso sobre a “marcha das utopias”  em Oswald de Andrade. Porém, entre o que foi e o que poderia ter sido, resta um presente  povoado de rascunhos, anotações dispersas e resultados parciais que não são apenas documentos do inacabado, mas também ecos que, hoje, me parecem sugestivos para novas pesquisas. Porque, afinal de contas, o que entrou em crise e merece crítica são certos “  projetos ” , e não a própria ideia de “ inacabamento ” . Esta, ao fim e ao cabo, sempre deixa em aberto um horizonte de possibilidades. Mas, entre Oswald e Haroldo, que horizonte ainda me parece motivador? Certamente, o mesmo que encontrei na srcem de alguns daqueles textos e projetos: o das utopias. Esse horizonte não se constitui, diga-se de passagem, sem pontos de tensão. Afinal de contas, “ crítica e crise ” também circunscrevem o universo contemporâneo da marcha utópica. Pois como notara Haroldo de Campos (e não apenas), não foram poucos os que, no intuito de incarnar o  paraíso na terra, terminaram ancorando a utopia em novas tópicas da violência ou da dominação . Um mundo pós-utópico  –   nesse sentido  –   não seria uma má notícia. Seja como for, o que me parece bastante notável na obra deste mesmo poeta, ensaísta e tradutor é que ele, antes mesmo de festejar o fim das utopias, tenha buscado na crítica e na crise um fôlego renovado (a hybris do mínimo / que resta ), com o qual reatou sua obra com a de Oswald de Andrade e continuou a analisar  –   dialeticamente  –   as  potencialidades da própria utopia negada. Potencialidades sem síntese futura, vale lembrar, sem projeto fechado de futuro: a utopia “no”  presente deveria ser pensada como uma utopia “do” presente.  Por esse motivo, o que agora eu apresento neste novo  projeto de pesquisa  –   que retoma projetos inacabados, que reimagina, com os fios da utopia, o diálogo entre Oswald de Andrade e Haroldo de Campos  –   poderia receber este subtítulo : “por uma   utopia sem futuro”. Este projeto de pesquisa, portanto, não tem futuro. Não?  3 Introdução Qual a relação entre o conceito de utopia e temporalidade? Embora as definições sobre a utopia não sejam inequívocas, a irrupção do tempo é uma questão central na história desse conceito. É certo que em Thomas More (1478  –  1535), inventor do neologismo que deu nome à sua obra mais conhecida, publicada em 1516, “utopia” corresponde a um conceito lúdico e ambíguo, que, seja como ou-topos (“lugar  - nenhum”, segundo o advérbio  grego ou /   “não”), seja como eu-topos (“lugar  - feliz”, no qual eu remeteria ao grego “bem”), indica nem tanto um tempo específico, mas uma viagem imaginária no espaço. De fato, nessa viagem, bem descrita no segundo livro da obra, o que está em jogo é a narrativa sobre a descoberta de um novo mundo  –   a ilha da Utopia  –  , radicalmente divergente do mundo até então conhecido (More, [1516]1993). 1  Porém, mais de trezentos anos depois dessa viagem, um conterrâneo de More, William Morris (1834-1896), estruturaria o imaginário utópico não mais no espaço, mas no tempo futuro, ou melhor, numa Londres cuja tessitura onírica o romance  Notícias de  Lugar Nenhum ([1890] 2002) remete ao século XXII. De fato, entre um autor e outro  –   e entre o Renascimento e o século XIX  –  , a temporalização e a irrupção do futuro correspondem aos traços mais evidentes dessa história. E isso não é tudo. Como lembra Koselleck, a partir da incorporação das utopias no seio das modernas filosofias da história, ou após as experiências revolucionárias dos séculos XVIII e XIX, utopistas empenham-se em construir, não poucas vezes, prognósticos e em outorgar a uma pura consciência o próprio controle sobre o curso da história (Koselleck, 2014, p.121-138). O século XX, entretanto, sob o impacto de catástrofes como as guerras mundiais e os totalitarismos, parece redesenhar o horizonte temporal das utopias. Esse foi o caso, sobretudo, de um universo intelectual de intensa crítica a uma pura consciência que, sob o manto da ciência ou da revolução, convertera as promessas utópicas de emancipação em novas tópicas do poder. Esse é um universo, pois, de “crítica e crise” dirigidas a todo um imaginário futurista. Não poucos chegaram, até mesmo, a decretar o fim das utopias, notadamente a partir da derrocada do chamado socialismo real. Para um autor como Koselleck, por exemplo, as “utopias estão condenadas ao equívoco” (2014,  p.138). Este projeto de pesquisa deseja analisar, justamente, esse cenário de crítica crise. Porém, diferentemente de Koselleck, busca-se investigar esse momento como a própria 1  Para a etimologia da palavra, ver: PRÉVOST.  L' utopie de Thomas More : présentation, texte srcinal, apparat critique, exégèse, traduction et notes.   1978. Sobre a palavra e o conceito de “utopia”, ver também: Carlo GINZBURG. “O Velho e o Novo Mundo vistos de Utopia”. In:  Nenhuma ilha é uma ilha. 2004; Marcelo JASMIN. “Memória. Palavra. Conceito”. In: STARLING et alli. Utopias agrárias. 2007.  4 condição de emergência de um “novo espírito utópico”, orientado por um modo de temporalização sem prévia determinação do futuro. A expressão “novo espírito utópico” é retomada da obra de Miguel Abensour (1990). Com ela, esse autor identifica toda uma tradição teórica que, já na passagem do século XIX para o XX, realizara uma crítica radical a uma pura consciência utópica que, qual homo faber  , pretendera modelar o futuro e controlar o curso da história segundo um plano dado. Autores constitutivos dessa constelação, como Ernst Bloch e Walter Benjamin, não teriam elaborado essa crítica para decretar o fim das utopias, mas para reinstalá-la como uma forma específica de pensamento, dialógica e não-dogmática, como ensaiara a própria obra pioneira de Thomas More. Assim, a utopia, enquanto uma forma específica de pensamento, talvez fosse capaz de ainda instigar uma interrogação sem fim sobre os modos de implicação do homem no tempo da história, modos esses ancorados não mais no esp aço de um “novo mundo” e nem tanto num  futuro idealizado, mas no presente, no frágil limiar entre repetição e criação. Essa mesma interrogação e esse mesmo horizonte de um “novo espírito utópico” constituem uma parte significativa da obra dos dois autores que este projeto deseja investigar: Oswald de Andrade (1890-1954) e Haroldo de Campos (1929-2003).  Nenhum deles chegou a escrever utopias, como fizeram Thomas More ou William Morris, nem elaboraram uma obra com as implicações filosóficas de um Bloch ou de um Benjamin. Porém, ao menos no Brasil, foram capazes não apenas de testemunhar a crise e a crítica do imaginário utópico, mas também de instaurá-la a partir de uma reflexão persistente e bastante singular sobre as relações entre a utopia e a história. Mais ainda, entre a antropofagia oswaldiana e uma “utópica da tradução” derivada da poética  concretista, os dois autores que aqui se estudará souberam enriquecer o repertório conceitual da utopia, o que justifica uma pesquisa detalhada sobre as formas ensaísticas e poéticas de suas elaborações. A poética utópica de Oswald e Haroldo é o que este  projeto de pesquisa investigará. Conceito polissêmico, mas com espe cificidade e história própria, uma “poética   utópica”  requer critérios de avaliação que impliquem, ao menos, três pontos: o conhecimento de sua historicidade, a análise de seus textos constitutivos e o reconhecimento de diferentes modalidades de elaboração e interpretação do imaginário utópico. Nesse sentido, a via específica deste projeto para incorporar essas questões dirige-se para as obras de Oswald de Andrade e Haroldo de Campos por dois motivos  bem específicos: de um lado, os dois autores souberam responder, cada qual a seu
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